Níveis de planejamento no PCP: do agregado ao detalhado
No PCP, o planejamento acontece em camadas (níveis) para transformar uma intenção de atendimento de demanda em um plano executável no chão de fábrica e em compras. A lógica é “do geral para o específico”, reduzindo incertezas e aumentando o detalhamento conforme o tempo se aproxima.
1) Plano agregado (famílias): visão macro
O plano agregado trabalha com famílias de produtos (grupos com características produtivas semelhantes) e normalmente usa períodos maiores (mês, quinzena). O objetivo é responder: quanto produzir por família para atender a demanda prevista, respeitando limites gerais de capacidade e políticas de estoque.
- Unidade de planejamento: família (ex.: “Bebida 1L”, “Bebida 2L”; ou “Linha A”, “Linha B”).
- Saídas típicas: volumes por período, metas de estoque, necessidade global de horas/máquinas/mão de obra.
- Quando usar: para alinhar produção com demanda e restrições gerais antes de decidir itens específicos.
2) Plano mestre de produção (MPS): itens finais
O Plano Mestre de Produção (MPS) detalha o plano agregado em itens finais (SKUs finais) e em períodos menores (semana, dia). Ele responde: quais produtos finais serão produzidos, em que quantidades e em quais semanas.
- Unidade de planejamento: item final (SKU) que será entregue ao cliente ou ao estoque de produto acabado.
- Entradas típicas: demanda por item, estoque inicial, recebimentos programados, políticas de lote, restrições de capacidade e regras de congelamento/replanejamento.
- Saídas típicas: quantidades por item e período; base para explosão de materiais e para a programação detalhada.
3) Programação detalhada: operações
A programação detalhada transforma o MPS em ordens e sequências de operações (o que fazer primeiro, em qual recurso, em qual turno), considerando restrições finas como setups, disponibilidade diária e prioridades.
- Unidade de planejamento: operação/ordem (ex.: OP-123 na máquina M1, 08:00–12:00).
- Saídas típicas: sequência, alocação por recurso, datas/horários, liberação de ordens.
- Observação: o MPS define “o que e quanto”; a programação detalhada define “como e quando exatamente”.
Horizonte de planejamento: congelado, flexível e janelas de replanejamento
O horizonte de planejamento é o período futuro coberto pelo plano (ex.: 12 semanas). Dentro dele, é comum dividir em zonas para controlar mudanças e evitar instabilidade.
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Horizonte congelado (frozen zone)
Parte mais próxima do tempo atual, em que o plano não deve mudar (ou muda apenas com aprovação formal). Motivo: ordens já liberadas, materiais já comprados, capacidade já comprometida.
- Efeito na produção: protege a sequência e reduz reprogramações e perdas de setup.
- Efeito em compras: evita cancelamentos/urgências e custos de frete expresso.
- Regra prática: congelar pelo menos o tempo necessário para executar e abastecer (ex.: 1–2 semanas, dependendo do contexto).
Horizonte flexível (slushy/flexible zone)
Faixa intermediária onde mudanças são possíveis, mas com regras (limites de variação, troca por equivalência de carga, etc.).
- Efeito na produção: permite ajustes sem “quebrar” o plano inteiro.
- Efeito em compras: dá tempo para ajustar pedidos (antecipar, postergar, alterar quantidades).
Horizonte livre (liquid zone)
Parte mais distante, com maior incerteza. Mudanças são esperadas e o plano é mais “intencional” do que definitivo.
- Efeito: serve para orientar decisões antecipadas (capacidade, contratos, materiais críticos), aceitando revisões frequentes.
Janelas de replanejamento
Em vez de mudar o plano todo dia, define-se uma cadência (ex.: replanejar semanalmente toda sexta-feira). Isso cria disciplina e reduz “nervosismo” do sistema.
- Exemplo de rotina: toda semana atualizar demanda, recalcular MPS para semanas flexíveis e livres, manter congelado intacto.
- Impacto: melhora previsibilidade para produção e compras, e facilita comunicação entre áreas.
Como transformar demanda em um plano viável (MPS) considerando estoque, lotes e capacidade
A seguir está um passo a passo prático para montar um MPS semanal de itens finais. A lógica é calcular quanto precisa ser produzido por período para cobrir a demanda, respeitando estoque inicial, recebimentos e regras de lote, e então checar se cabe na capacidade disponível.
Passo a passo
Defina o horizonte e as zonas
- Ex.: 6 semanas de horizonte; semanas 1–2 congeladas, 3–4 flexíveis, 5–6 livres.
Liste a demanda por item final por semana
- Use pedidos firmes + previsão (conforme sua política interna).
Registre estoque inicial e recebimentos programados
- Estoque disponível no início da semana 1.
- Recebimentos já confirmados (ex.: produção em andamento, compras de item final, transferências).
Escolha a regra de lote
- Ex.: lote fixo (múltiplos de 50), lote mínimo, ou lote econômico. No exemplo abaixo usaremos múltiplos de 50.
Calcule necessidade líquida e planeje a produção
- Para cada semana:
estoque projetado = estoque anterior + produção planejada + recebimentos - demanda. - Se o estoque projetado ficar negativo (ou abaixo do estoque de segurança, se houver), planeje produção suficiente (respeitando o lote).
- Para cada semana:
Verifique capacidade (checagem grosseira)
- Converta o MPS em horas por recurso crítico (ex.: horas de envase, montagem, forno).
- Se exceder a capacidade semanal, ajuste: antecipar/postergar (fora do congelado), trocar mix, usar horas extras/terceiros, ou renegociar demanda.
Congele o que está na zona congelada e publique o plano
- O que estiver nas semanas congeladas vira compromisso para execução e abastecimento.
Caso prático: MPS semanal e efeito de mudança de demanda em materiais e recursos
Cenário: fábrica produz dois itens finais: Produto A e Produto B. Horizonte de 4 semanas (S1–S4). S1 é congelada; S2–S3 flexíveis; S4 livre. Regra de lote: múltiplos de 50 unidades. Capacidade do recurso crítico (linha): 80 horas/semana.
Dados iniciais
| Item | Estoque inicial (un) | Tempo no recurso crítico | Materiais por unidade |
|---|---|---|---|
| Produto A | 120 | 0,20 h/un | 2 unidades de M1 |
| Produto B | 80 | 0,30 h/un | 1 unidade de M2 |
Demanda (unidades)
| Semana | Demanda A | Demanda B |
|---|---|---|
| S1 | 150 | 100 |
| S2 | 200 | 120 |
| S3 | 180 | 140 |
| S4 | 220 | 110 |
1) Montando o MPS (produção planejada) com estoque projetado
Abaixo, um MPS simples calculado para evitar falta (estoque projetado não negativo), usando lotes múltiplos de 50.
Produto A
| Semana | Demanda | Produção planejada | Estoque projetado (fim da semana) |
|---|---|---|---|
| S1 (congelada) | 150 | 50 | 20 |
| S2 | 200 | 200 | 20 |
| S3 | 180 | 200 | 40 |
| S4 | 220 | 200 | 20 |
Leitura: em S1, o estoque inicial (120) não cobre a demanda (150), então planeja-se 50 (mínimo múltiplo de 50) para fechar a semana com 20.
Produto B
| Semana | Demanda | Produção planejada | Estoque projetado (fim da semana) |
|---|---|---|---|
| S1 (congelada) | 100 | 50 | 30 |
| S2 | 120 | 100 | 10 |
| S3 | 140 | 150 | 20 |
| S4 | 110 | 100 | 10 |
2) Checagem de capacidade semanal (recurso crítico)
Agora convertemos o MPS em horas no recurso crítico.
| Semana | Produção A (un) | Horas A (0,20 h/un) | Produção B (un) | Horas B (0,30 h/un) | Total horas | Capacidade |
|---|---|---|---|---|---|---|
| S1 | 50 | 10 | 50 | 15 | 25 | 80 |
| S2 | 200 | 40 | 100 | 30 | 70 | 80 |
| S3 | 200 | 40 | 150 | 45 | 85 | 80 |
| S4 | 200 | 40 | 100 | 30 | 70 | 80 |
Ponto de atenção: na semana S3 há excesso de 5 horas (85 > 80). Como S3 está em zona flexível, podemos ajustar o plano sem mexer na semana congelada (S1).
Ajuste possível para caber na capacidade
Uma alternativa simples é antecipar parte de B de S3 para S2 (que tem folga) ou postergar parte para S4 (se não gerar falta). Como a regra de lote é múltiplo de 50, vamos mover 50 unidades de B de S3 para S2:
- S2: B sobe de 100 para 150 (horas B: 45). Total S2 vira 40 + 45 = 85 (estoura).
Não funciona. Então movemos 50 unidades de A de S3 para S2:
- S2: A sobe de 200 para 250 (horas A: 50). Total S2 vira 50 + 30 = 80 (cabe).
- S3: A cai de 200 para 150 (horas A: 30). Total S3 vira 30 + 45 = 75 (cabe).
Checamos o estoque de A para garantir que não faltará em S3 após reduzir produção:
- Fim S2 (A): estoque era 20; com produção 250 e demanda 200, estoque fim S2 vira 70.
- Em S3: estoque 70 + produção 150 - demanda 180 = 40 (sem falta).
Esse tipo de ajuste é típico do MPS: manter atendimento e encaixar na capacidade, usando antecipações/postergações nas zonas permitidas.
3) Impacto em materiais (explosão simplificada) e compras
Com o MPS ajustado, calculamos consumo de materiais por semana. Para simplificar, consideraremos apenas dois materiais:
- M1: usado no Produto A, 2 un de M1 por 1 un de A.
- M2: usado no Produto B, 1 un de M2 por 1 un de B.
Consumo semanal de materiais (baseado na produção planejada)
| Semana | A (un) | Consumo M1 (2 por A) | B (un) | Consumo M2 (1 por B) |
|---|---|---|---|---|
| S1 | 50 | 100 | 50 | 50 |
| S2 (ajustada) | 250 | 500 | 100 | 100 |
| S3 (ajustada) | 150 | 300 | 150 | 150 |
| S4 | 200 | 400 | 100 | 100 |
Interpretação para compras: ao antecipar A para S2, o consumo de M1 em S2 aumenta (de 400 para 500). Isso pode exigir antecipação de pedidos de M1, troca de datas de entrega ou uso de estoque. É por isso que mudanças no MPS impactam diretamente o abastecimento.
Simulação de mudança de demanda e efeito em cascata
Agora suponha que, após publicar o plano, a demanda de Produto B em S2 aumente de 120 para 170 (aumento de 50). Como S2 está em zona flexível, é possível replanejar, mas com impacto em capacidade e materiais.
1) Recalcular rapidamente o Produto B (estoque projetado)
No plano original de B, em S2 tínhamos: estoque fim S1 = 30; produção S2 = 100; demanda S2 = 120; estoque fim S2 = 10. Com a nova demanda (170):
- Estoque fim S2 = 30 + 100 - 170 = -40 (falta).
- Para eliminar a falta com lote múltiplo de 50, precisamos adicionar 50 unidades de produção de B em S2 (produção S2 passa de 100 para 150).
2) Checar capacidade após a mudança
Recurso crítico em S2 (plano ajustado anteriormente): A=250 (50h) e B=100 (30h) total 80h. Se B em S2 virar 150, horas B viram 45h e total S2 vira 95h (estoura 15h).
3) Opções de replanejamento (sem mexer no congelado)
- Opção A: Postergar parte de A de S2 para S3 (se não gerar falta em S2 e se S3 tiver folga). Como S3 estava com 75h, há 5h de folga até 80h, o que equivale a 25 unidades de A (25×0,20=5h). Isso não resolve 15h.
- Opção B: Postergar parte de B de S2 para S3 não atende a demanda de S2 (não serve se o pedido é para S2).
- Opção C: Aumentar capacidade em S2 (hora extra, turno adicional, terceirização parcial, remanejamento de equipe), cobrindo 15h.
- Opção D: Substituir mix por equivalência de carga: se houver itens alternativos ou possibilidade de atender parte da demanda com outro SKU (depende do negócio).
Na prática, quando a mudança de demanda cai dentro da janela flexível, o PCP escolhe a alternativa com menor custo total e menor risco (atraso, ruptura, expedição urgente, etc.).
4) Impacto imediato em materiais e compras
Ao aumentar B em S2 de 100 para 150, o consumo de M2 em S2 aumenta de 100 para 150. Se M2 não estiver disponível, compras pode precisar:
- Antecipar entrega de M2 (se houver pedido em aberto).
- Emitir compra adicional com prazo curto (potencialmente mais caro).
- Negociar com produção uma alternativa (troca de sequência, produzir em outra linha, etc.).
Esse encadeamento (demanda → MPS → capacidade → materiais) é o motivo de se trabalhar com zonas congeladas/flexíveis e janelas de replanejamento: mudanças têm custo e precisam ser controladas.
Checklist rápido para aplicar no dia a dia
- Separar claramente: famílias (agregado) → itens finais (MPS) → operações (detalhado).
- Definir e comunicar: o que está congelado e o que pode mudar, e com qual regra.
- Montar MPS com base em: demanda, estoque inicial, recebimentos e lotes.
- Checar capacidade por período e ajustar nas zonas flexíveis/livres.
- Ao replanejar, recalcular impactos em materiais e horas antes de confirmar a mudança.