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Redação para Concursos: Estrutura, Coesão e Repertório sem Enrolação

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Planejamento rápido e recorte do problema

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 0 minutos

+ Exercício

Planejamento rápido e recorte do problema são as duas habilidades que mais reduzem “enrolação” em redação de concurso. Planejar rápido não significa escrever sem pensar; significa pensar com método, em poucos minutos, para decidir o que defender, por quê e como organizar. Já o recorte do problema é a escolha consciente de qual parte do tema você vai tratar, com qual ângulo e com quais limites, para evitar generalidades e contradições.

Em concursos, o tema costuma ser amplo o suficiente para permitir diferentes abordagens, mas a correção costuma premiar quem demonstra foco: tese clara, argumentos coerentes e exemplos que realmente sustentam o que foi afirmado. O recorte é o que transforma um tema amplo em um problema específico e debatível, que cabe no número de linhas e permite aprofundamento.

1) O que é planejamento rápido (e o que ele não é)

Planejamento rápido é um roteiro de decisões essenciais feito antes de redigir. Ele serve para você:

  • definir uma tese defensável e específica;
  • selecionar 2 ou 3 argumentos que sustentem a tese;
  • escolher repertório pertinente (exemplos, dados, referências) para cada argumento;
  • organizar a progressão lógica (ordem dos parágrafos e encadeamento);
  • antecipar a proposta/encaminhamento (quando exigido) e os agentes envolvidos.

Planejamento rápido não é:

  • escrever um texto “rascunho” completo antes do texto final;
  • montar um mapa mental enorme com tudo o que você sabe;
  • tentar cobrir todos os aspectos do tema (isso é o oposto de recorte);
  • inventar dados para “parecer” mais técnico.

Na prática, o planejamento rápido é um conjunto de anotações curtas que cabem em 5 a 10 linhas, feitas em 5 a 8 minutos (ajuste conforme o tempo total da prova). O objetivo é reduzir retrabalho: menos apagar, menos recomeçar, menos parágrafo “sem função”.

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2) O que é recorte do problema

Recorte do problema é a delimitação do tema em um problema central, com fronteiras claras. Você escolhe:

  • qual dimensão do tema será priorizada (social, econômica, institucional, cultural, tecnológica, educacional);
  • qual relação de causa e efeito será destacada;
  • qual grupo/ambiente será focalizado (jovens, trabalhadores, escolas, serviços públicos, redes sociais, cidades);
  • qual horizonte (curto/médio prazo, prevenção/mitigação, políticas públicas/ações comunitárias).

Um bom recorte não “foge” do tema; ele o torna tratável. É como ajustar o zoom: você continua na mesma imagem, mas escolhe o enquadramento que permite ver detalhes e argumentar com precisão.

2.1) Tema amplo x problema recortado

Observe a diferença entre tema e problema:

  • Tema (amplo): “Desafios da mobilidade urbana”.
  • Problema recortado (específico): “A priorização histórica do transporte individual e a baixa integração tarifária dificultam o acesso de populações periféricas a oportunidades de trabalho e estudo”.

O tema é um campo. O problema recortado já aponta um conflito (dificulta o acesso), causas (priorização do transporte individual, baixa integração tarifária) e um recorte social (populações periféricas). Isso facilita construir tese e argumentos.

3) Por que recorte e planejamento rápido aumentam a nota

Essas duas etapas melhoram aspectos que geralmente são avaliados em redações de concurso:

  • Clareza de tese: quando você recorta, a tese deixa de ser genérica (“é importante melhorar”) e passa a ser afirmativa e debatível.
  • Coerência: o planejamento define a função de cada parágrafo, reduzindo contradições e repetições.
  • Profundidade: ao tratar menos coisas, você consegue explicar melhor as relações (causa, consequência, solução).
  • Pertinência do repertório: exemplos ficam “colados” ao argumento, em vez de aparecerem como enfeite.
  • Gestão do tempo: menos improviso durante a escrita, menos correção de rota no meio do texto.

4) Passo a passo prático: planejamento rápido em 7 etapas

A seguir, um método simples e repetível. Faça como checklist, sempre na mesma ordem, para ganhar velocidade.

Etapa 1 — Transforme o tema em pergunta-problema

Escreva uma pergunta que o seu texto vai responder. Isso evita dissertação “descritiva”.

  • Tema: “Violência nas escolas”.
  • Pergunta-problema: “Quais fatores têm intensificado a violência no ambiente escolar e como enfrentá-los de forma articulada?”

Repare que a pergunta já abre espaço para causas e encaminhamentos.

Etapa 2 — Escolha um recorte (o seu ângulo principal)

Defina o eixo do texto em uma frase. Exemplos de eixos possíveis:

  • institucional: falhas de prevenção e resposta;
  • cultural: normalização de agressões e discurso de ódio;
  • tecnológico: amplificação de conflitos por redes sociais;
  • socioeconômico: vulnerabilidades e falta de suporte.

Escolha um eixo principal e, no máximo, um eixo complementar. Muitos eixos geram texto “catálogo”.

Etapa 3 — Escreva a tese em uma linha (com causa e direção)

Tese é a sua resposta direta à pergunta-problema. Para ficar específica, use um molde:

Tese = (problema) ocorre/agrava-se porque (causa 1) e (causa 2); portanto, é necessário (direção de enfrentamento).

Exemplo (violência nas escolas):

A violência nas escolas se intensifica pela fragilidade de políticas de prevenção e pela circulação de discursos de ódio no ambiente digital, exigindo ações integradas de proteção, educação socioemocional e responsabilização.

Essa tese já “puxa” dois parágrafos de desenvolvimento: um para cada causa.

Etapa 4 — Defina 2 argumentos (um por parágrafo de desenvolvimento)

Argumento não é opinião solta; é uma ideia que explica e sustenta a tese. Para cada argumento, escreva:

  • núcleo (a ideia central);
  • mecanismo (como isso gera o problema);
  • efeito (o que acontece por causa disso).

Exemplo:

  • Argumento 1 (institucional): ausência de protocolos e equipes multiprofissionais → identificação tardia de conflitos → escalada de agressões.
  • Argumento 2 (digital/cultural): redes amplificam humilhações e radicalização → sensação de impunidade e pertencimento a grupos violentos → ataques e intimidação no espaço escolar.

Etapa 5 — Separe um repertório para cada argumento

Repertório é o “apoio” que dá credibilidade e concretude. No planejamento rápido, basta anotar palavras-chave. Tipos úteis:

  • marcos legais (ECA, Constituição, leis específicas);
  • instituições e políticas públicas (SUS, SUAS, conselhos tutelares, programas de mediação);
  • conceitos (cultura de paz, prevenção primária, desinformação);
  • exemplos sociais (sem inventar números).

Exemplo de anotações:

  • Arg.1: “ECA; rede de proteção; psicologia/assistência social; protocolo de acolhimento”.
  • Arg.2: “discurso de ódio; cyberbullying; moderação; educação midiática”.

Regra prática: se você não consegue explicar em uma frase como o repertório sustenta o argumento, ele está decorativo.

Etapa 6 — Planeje a progressão (ordem e conectores)

Defina a ordem dos parágrafos com base em lógica, não em “o que veio primeiro na cabeça”. Duas ordens comuns:

  • do estrutural ao comportamental: primeiro instituições/políticas, depois cultura/indivíduos;
  • da causa mais ampla à mais imediata: primeiro fatores de base, depois gatilhos.

Anote 2 conectores para cada passagem:

  • Introdução → D1: “Nesse contexto”, “Diante disso”.
  • D1 → D2: “Além disso”, “Somado a isso”.
  • D2 → encaminhamento: “Portanto”, “Assim”.

Etapa 7 — Esboce o encaminhamento (se exigido) com agentes e meios

Quando a proposta/encaminhamento é cobrada, planeje com o esquema:

Agente + ação + meio/modo + finalidade + detalhamento.

Exemplo (violência nas escolas):

  • Agente: secretarias de educação + escolas
  • Ação: implementar protocolos de prevenção e mediação
  • Meio: formação continuada, equipes multiprofissionais, canal de denúncia
  • Finalidade: reduzir escalada de conflitos e proteger estudantes

Mesmo quando não há “proposta” formal, pensar em encaminhamentos ajuda a fechar a linha argumentativa e evita texto apenas diagnóstico.

5) Passo a passo prático: recorte do problema em 4 perguntas

Se você costuma “abraçar o mundo”, use estas quatro perguntas para recortar em menos de 2 minutos.

5.1) “Qual é o conflito central?”

Escreva o conflito em uma frase com verbo de impacto: “dificulta”, “agrava”, “inviabiliza”, “perpetua”, “invisibiliza”.

  • Em vez de: “A saúde mental é importante”.
  • Use: “A precarização do trabalho e a baixa oferta de cuidado psicossocial agravam o adoecimento mental de trabalhadores”.

5.2) “Quais são duas causas que eu consigo explicar?”

Escolha causas explicáveis em poucas linhas. Evite causas “nebulosas” (“falta de consciência”, “o ser humano é assim”) sem mecanismo claro.

  • Causa explicável: “jornadas extensas e metas abusivas” (mecanismo: estresse crônico).
  • Causa fraca: “as pessoas não se cuidam” (mecanismo vago).

5.3) “Quem é mais afetado e em qual contexto?”

Delimitar público e contexto dá precisão:

  • “jovens em transição escola-trabalho”
  • “mulheres em situação de vulnerabilidade”
  • “moradores de periferias com baixa oferta de serviços”
  • “servidores expostos a assédio institucional”

Você não precisa excluir outros grupos; basta priorizar um recorte para aprofundar.

5.4) “Qual é o limite do meu texto?”

Declare mentalmente o que você não vai fazer. Isso evita fuga de foco.

  • “Não vou discutir toda a história do problema.”
  • “Não vou listar dez causas; vou explicar duas.”
  • “Não vou tratar o país inteiro; vou focar em desigualdade territorial e acesso.”

6) Modelos de planejamento rápido (para copiar no rascunho)

Use modelos fixos para acelerar. A ideia é preencher lacunas.

Modelo A — 2 desenvolvimentos (o mais comum)

Pergunta-problema: _________________________________.  (1 linha)  Recorte: _________________________________.  (1 linha)  Tese: (problema) + (causa1) + (causa2) + (direção).  D1: causa1 → mecanismo → efeito. Repertório: ________.  D2: causa2 → mecanismo → efeito. Repertório: ________.  Encaminhamento: agente + ação + meio + finalidade.

Modelo B — 3 desenvolvimentos (quando o tema pede mais camadas)

Pergunta-problema: _________________________________.  Recorte: _________________________________.  Tese: ____________________________________________.  D1 (estrutura): ____________________________________. Repertório: ____.  D2 (cultura/comportamento): ________________________. Repertório: ____.  D3 (impactos/desigualdade): ________________________. Repertório: ____.  Encaminhamento: agente(s) + ações integradas + meios.

Se você tem pouco tempo, prefira o Modelo A e aprofunde mais cada parágrafo.

7) Exemplos completos de recorte + planejamento (sem virar texto pronto)

Os exemplos abaixo mostram como sair do tema amplo para um plano objetivo. A intenção é você enxergar a lógica e replicar, não decorar.

Exemplo 1 — Tema: “Desinformação e democracia”

Pergunta-problema: Como a desinformação compromete decisões políticas e quais medidas podem reduzir seus efeitos?

Recorte: foco na combinação entre arquitetura das plataformas (recomendação) e baixa educação midiática.

Tese (1 linha): A desinformação fragiliza a democracia ao distorcer o debate público, impulsionada por mecanismos de viralização e pela dificuldade de checagem crítica, demandando regulação transparente e educação midiática.

D1 (plataformas): algoritmos priorizam engajamento → conteúdos extremos circulam mais → polarização e manipulação.

Repertório D1: “economia da atenção; moderação; transparência”.

D2 (educação midiática): baixa capacidade de avaliar fontes → compartilhamento acrítico → erosão de confiança institucional.

Repertório D2: “letramento midiático; checagem; pensamento crítico”.

Encaminhamento: legislativo/agências + plataformas + escolas; ações: transparência de anúncios, rotulagem, programas de educação midiática.

Exemplo 2 — Tema: “Saneamento básico e saúde pública”

Pergunta-problema: Por que a falta de saneamento persiste e como ela impacta a saúde?

Recorte: desigualdade territorial e baixa capacidade de investimento/gestão municipal.

Tese: A precariedade do saneamento se mantém pela desigualdade de infraestrutura e por entraves de gestão e financiamento, elevando doenças de veiculação hídrica e custos do sistema de saúde.

D1 (desigualdade territorial): periferias e áreas rurais com baixa cobertura → contaminação e surtos → ciclo de vulnerabilidade.

Repertório D1: “direito à saúde; prevenção; vigilância sanitária”.

D2 (gestão/financiamento): projetos mal planejados e baixa continuidade → obras incompletas → ineficiência e desperdício.

Repertório D2: “planejamento intermunicipal; consórcios; metas e indicadores”.

Encaminhamento: governos estaduais/federais + municípios; ações: consórcios, assistência técnica, metas de universalização, fiscalização.

8) Erros comuns (e como corrigir no rascunho)

Erro 1 — Recorte “bonito”, mas sem relação com a tese

Sintoma: você recorta em “juventude” e, no desenvolvimento, fala de “sociedade em geral” sem voltar ao grupo.

Correção: reescreva a tese incluindo o recorte e force cada parágrafo a mencionar o contexto recortado (escola, periferia, serviço público, etc.).

Erro 2 — Tese com palavras vazias

Sintoma: “É necessário conscientizar” sem dizer quem, sobre o quê e por qual meio.

Correção: substitua “conscientizar” por ações observáveis: “formar”, “regular”, “monitorar”, “implementar protocolo”, “ampliar acesso”, “integrar serviços”.

Erro 3 — Muitos argumentos fracos em vez de poucos fortes

Sintoma: parágrafo com lista de causas sem explicação (“falta de investimento, corrupção, cultura, internet…”).

Correção: escolha duas causas e explique o mecanismo. Se quiser citar outras, faça como complemento breve, sem virar lista.

Erro 4 — Repertório desconectado

Sintoma: você cita uma lei, um autor ou um conceito, mas não mostra como isso prova seu ponto.

Correção: após o repertório, escreva uma frase de amarração: “Isso evidencia que…”, “Logo, observa-se que…”, “Portanto, tal cenário…”.

Erro 5 — Planejamento longo demais

Sintoma: você gasta 20 minutos planejando e perde tempo de escrita e revisão.

Correção: use um modelo fixo (Modelo A) e limite o planejamento a palavras-chave. Se surgir uma ideia nova durante a escrita, avalie se ela substitui algo (troca) em vez de somar (acúmulo).

9) Treino objetivo: como praticar planejamento rápido em casa

Para ganhar velocidade, treine o planejamento como uma habilidade separada da escrita completa.

Exercício 1 — Plano em 6 minutos

  • Escolha um tema.
  • Faça: pergunta-problema + recorte + tese + D1 + D2 + repertórios + encaminhamento.
  • Pare aos 6 minutos, mesmo que não esteja “perfeito”.

Meta: ao repetir, você reduz o tempo e aumenta a qualidade do recorte.

Exercício 2 — Um recorte, três teses

  • Escolha um tema amplo.
  • Crie três recortes diferentes (institucional, cultural, econômico).
  • Para cada recorte, escreva uma tese de uma linha.

Isso treina flexibilidade e evita ficar refém de um único caminho.

Exercício 3 — Argumento com mecanismo

  • Escreva um argumento em uma frase.
  • Obrigue-se a completar: “isso ocorre porque…” (mecanismo) e “o que resulta em…” (efeito).

Se você não consegue preencher, o argumento está genérico e precisa de recorte melhor.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual alternativa descreve corretamente como o planejamento rápido e o recorte do problema ajudam a reduzir a enrolação e aumentar a qualidade da redação em concursos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A opção correta reúne as funções centrais: o planejamento rápido organiza decisões essenciais (tese, argumentos, repertório e progressão), enquanto o recorte transforma o tema amplo em um problema específico, evitando generalidades, contradições e melhorando foco e profundidade.

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Tese clara e linha argumentativa

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