Planejamento rápido e recorte do problema são as duas habilidades que mais reduzem “enrolação” em redação de concurso. Planejar rápido não significa escrever sem pensar; significa pensar com método, em poucos minutos, para decidir o que defender, por quê e como organizar. Já o recorte do problema é a escolha consciente de qual parte do tema você vai tratar, com qual ângulo e com quais limites, para evitar generalidades e contradições.
Em concursos, o tema costuma ser amplo o suficiente para permitir diferentes abordagens, mas a correção costuma premiar quem demonstra foco: tese clara, argumentos coerentes e exemplos que realmente sustentam o que foi afirmado. O recorte é o que transforma um tema amplo em um problema específico e debatível, que cabe no número de linhas e permite aprofundamento.
1) O que é planejamento rápido (e o que ele não é)
Planejamento rápido é um roteiro de decisões essenciais feito antes de redigir. Ele serve para você:
- definir uma tese defensável e específica;
- selecionar 2 ou 3 argumentos que sustentem a tese;
- escolher repertório pertinente (exemplos, dados, referências) para cada argumento;
- organizar a progressão lógica (ordem dos parágrafos e encadeamento);
- antecipar a proposta/encaminhamento (quando exigido) e os agentes envolvidos.
Planejamento rápido não é:
- escrever um texto “rascunho” completo antes do texto final;
- montar um mapa mental enorme com tudo o que você sabe;
- tentar cobrir todos os aspectos do tema (isso é o oposto de recorte);
- inventar dados para “parecer” mais técnico.
Na prática, o planejamento rápido é um conjunto de anotações curtas que cabem em 5 a 10 linhas, feitas em 5 a 8 minutos (ajuste conforme o tempo total da prova). O objetivo é reduzir retrabalho: menos apagar, menos recomeçar, menos parágrafo “sem função”.
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2) O que é recorte do problema
Recorte do problema é a delimitação do tema em um problema central, com fronteiras claras. Você escolhe:
- qual dimensão do tema será priorizada (social, econômica, institucional, cultural, tecnológica, educacional);
- qual relação de causa e efeito será destacada;
- qual grupo/ambiente será focalizado (jovens, trabalhadores, escolas, serviços públicos, redes sociais, cidades);
- qual horizonte (curto/médio prazo, prevenção/mitigação, políticas públicas/ações comunitárias).
Um bom recorte não “foge” do tema; ele o torna tratável. É como ajustar o zoom: você continua na mesma imagem, mas escolhe o enquadramento que permite ver detalhes e argumentar com precisão.
2.1) Tema amplo x problema recortado
Observe a diferença entre tema e problema:
- Tema (amplo): “Desafios da mobilidade urbana”.
- Problema recortado (específico): “A priorização histórica do transporte individual e a baixa integração tarifária dificultam o acesso de populações periféricas a oportunidades de trabalho e estudo”.
O tema é um campo. O problema recortado já aponta um conflito (dificulta o acesso), causas (priorização do transporte individual, baixa integração tarifária) e um recorte social (populações periféricas). Isso facilita construir tese e argumentos.
3) Por que recorte e planejamento rápido aumentam a nota
Essas duas etapas melhoram aspectos que geralmente são avaliados em redações de concurso:
- Clareza de tese: quando você recorta, a tese deixa de ser genérica (“é importante melhorar”) e passa a ser afirmativa e debatível.
- Coerência: o planejamento define a função de cada parágrafo, reduzindo contradições e repetições.
- Profundidade: ao tratar menos coisas, você consegue explicar melhor as relações (causa, consequência, solução).
- Pertinência do repertório: exemplos ficam “colados” ao argumento, em vez de aparecerem como enfeite.
- Gestão do tempo: menos improviso durante a escrita, menos correção de rota no meio do texto.
4) Passo a passo prático: planejamento rápido em 7 etapas
A seguir, um método simples e repetível. Faça como checklist, sempre na mesma ordem, para ganhar velocidade.
Etapa 1 — Transforme o tema em pergunta-problema
Escreva uma pergunta que o seu texto vai responder. Isso evita dissertação “descritiva”.
- Tema: “Violência nas escolas”.
- Pergunta-problema: “Quais fatores têm intensificado a violência no ambiente escolar e como enfrentá-los de forma articulada?”
Repare que a pergunta já abre espaço para causas e encaminhamentos.
Etapa 2 — Escolha um recorte (o seu ângulo principal)
Defina o eixo do texto em uma frase. Exemplos de eixos possíveis:
- institucional: falhas de prevenção e resposta;
- cultural: normalização de agressões e discurso de ódio;
- tecnológico: amplificação de conflitos por redes sociais;
- socioeconômico: vulnerabilidades e falta de suporte.
Escolha um eixo principal e, no máximo, um eixo complementar. Muitos eixos geram texto “catálogo”.
Etapa 3 — Escreva a tese em uma linha (com causa e direção)
Tese é a sua resposta direta à pergunta-problema. Para ficar específica, use um molde:
Tese = (problema) ocorre/agrava-se porque (causa 1) e (causa 2); portanto, é necessário (direção de enfrentamento).Exemplo (violência nas escolas):
A violência nas escolas se intensifica pela fragilidade de políticas de prevenção e pela circulação de discursos de ódio no ambiente digital, exigindo ações integradas de proteção, educação socioemocional e responsabilização.Essa tese já “puxa” dois parágrafos de desenvolvimento: um para cada causa.
Etapa 4 — Defina 2 argumentos (um por parágrafo de desenvolvimento)
Argumento não é opinião solta; é uma ideia que explica e sustenta a tese. Para cada argumento, escreva:
- núcleo (a ideia central);
- mecanismo (como isso gera o problema);
- efeito (o que acontece por causa disso).
Exemplo:
- Argumento 1 (institucional): ausência de protocolos e equipes multiprofissionais → identificação tardia de conflitos → escalada de agressões.
- Argumento 2 (digital/cultural): redes amplificam humilhações e radicalização → sensação de impunidade e pertencimento a grupos violentos → ataques e intimidação no espaço escolar.
Etapa 5 — Separe um repertório para cada argumento
Repertório é o “apoio” que dá credibilidade e concretude. No planejamento rápido, basta anotar palavras-chave. Tipos úteis:
- marcos legais (ECA, Constituição, leis específicas);
- instituições e políticas públicas (SUS, SUAS, conselhos tutelares, programas de mediação);
- conceitos (cultura de paz, prevenção primária, desinformação);
- exemplos sociais (sem inventar números).
Exemplo de anotações:
- Arg.1: “ECA; rede de proteção; psicologia/assistência social; protocolo de acolhimento”.
- Arg.2: “discurso de ódio; cyberbullying; moderação; educação midiática”.
Regra prática: se você não consegue explicar em uma frase como o repertório sustenta o argumento, ele está decorativo.
Etapa 6 — Planeje a progressão (ordem e conectores)
Defina a ordem dos parágrafos com base em lógica, não em “o que veio primeiro na cabeça”. Duas ordens comuns:
- do estrutural ao comportamental: primeiro instituições/políticas, depois cultura/indivíduos;
- da causa mais ampla à mais imediata: primeiro fatores de base, depois gatilhos.
Anote 2 conectores para cada passagem:
- Introdução → D1: “Nesse contexto”, “Diante disso”.
- D1 → D2: “Além disso”, “Somado a isso”.
- D2 → encaminhamento: “Portanto”, “Assim”.
Etapa 7 — Esboce o encaminhamento (se exigido) com agentes e meios
Quando a proposta/encaminhamento é cobrada, planeje com o esquema:
Agente + ação + meio/modo + finalidade + detalhamento.Exemplo (violência nas escolas):
- Agente: secretarias de educação + escolas
- Ação: implementar protocolos de prevenção e mediação
- Meio: formação continuada, equipes multiprofissionais, canal de denúncia
- Finalidade: reduzir escalada de conflitos e proteger estudantes
Mesmo quando não há “proposta” formal, pensar em encaminhamentos ajuda a fechar a linha argumentativa e evita texto apenas diagnóstico.
5) Passo a passo prático: recorte do problema em 4 perguntas
Se você costuma “abraçar o mundo”, use estas quatro perguntas para recortar em menos de 2 minutos.
5.1) “Qual é o conflito central?”
Escreva o conflito em uma frase com verbo de impacto: “dificulta”, “agrava”, “inviabiliza”, “perpetua”, “invisibiliza”.
- Em vez de: “A saúde mental é importante”.
- Use: “A precarização do trabalho e a baixa oferta de cuidado psicossocial agravam o adoecimento mental de trabalhadores”.
5.2) “Quais são duas causas que eu consigo explicar?”
Escolha causas explicáveis em poucas linhas. Evite causas “nebulosas” (“falta de consciência”, “o ser humano é assim”) sem mecanismo claro.
- Causa explicável: “jornadas extensas e metas abusivas” (mecanismo: estresse crônico).
- Causa fraca: “as pessoas não se cuidam” (mecanismo vago).
5.3) “Quem é mais afetado e em qual contexto?”
Delimitar público e contexto dá precisão:
- “jovens em transição escola-trabalho”
- “mulheres em situação de vulnerabilidade”
- “moradores de periferias com baixa oferta de serviços”
- “servidores expostos a assédio institucional”
Você não precisa excluir outros grupos; basta priorizar um recorte para aprofundar.
5.4) “Qual é o limite do meu texto?”
Declare mentalmente o que você não vai fazer. Isso evita fuga de foco.
- “Não vou discutir toda a história do problema.”
- “Não vou listar dez causas; vou explicar duas.”
- “Não vou tratar o país inteiro; vou focar em desigualdade territorial e acesso.”
6) Modelos de planejamento rápido (para copiar no rascunho)
Use modelos fixos para acelerar. A ideia é preencher lacunas.
Modelo A — 2 desenvolvimentos (o mais comum)
Pergunta-problema: _________________________________. (1 linha) Recorte: _________________________________. (1 linha) Tese: (problema) + (causa1) + (causa2) + (direção). D1: causa1 → mecanismo → efeito. Repertório: ________. D2: causa2 → mecanismo → efeito. Repertório: ________. Encaminhamento: agente + ação + meio + finalidade.Modelo B — 3 desenvolvimentos (quando o tema pede mais camadas)
Pergunta-problema: _________________________________. Recorte: _________________________________. Tese: ____________________________________________. D1 (estrutura): ____________________________________. Repertório: ____. D2 (cultura/comportamento): ________________________. Repertório: ____. D3 (impactos/desigualdade): ________________________. Repertório: ____. Encaminhamento: agente(s) + ações integradas + meios.Se você tem pouco tempo, prefira o Modelo A e aprofunde mais cada parágrafo.
7) Exemplos completos de recorte + planejamento (sem virar texto pronto)
Os exemplos abaixo mostram como sair do tema amplo para um plano objetivo. A intenção é você enxergar a lógica e replicar, não decorar.
Exemplo 1 — Tema: “Desinformação e democracia”
Pergunta-problema: Como a desinformação compromete decisões políticas e quais medidas podem reduzir seus efeitos?
Recorte: foco na combinação entre arquitetura das plataformas (recomendação) e baixa educação midiática.
Tese (1 linha): A desinformação fragiliza a democracia ao distorcer o debate público, impulsionada por mecanismos de viralização e pela dificuldade de checagem crítica, demandando regulação transparente e educação midiática.
D1 (plataformas): algoritmos priorizam engajamento → conteúdos extremos circulam mais → polarização e manipulação.
Repertório D1: “economia da atenção; moderação; transparência”.
D2 (educação midiática): baixa capacidade de avaliar fontes → compartilhamento acrítico → erosão de confiança institucional.
Repertório D2: “letramento midiático; checagem; pensamento crítico”.
Encaminhamento: legislativo/agências + plataformas + escolas; ações: transparência de anúncios, rotulagem, programas de educação midiática.
Exemplo 2 — Tema: “Saneamento básico e saúde pública”
Pergunta-problema: Por que a falta de saneamento persiste e como ela impacta a saúde?
Recorte: desigualdade territorial e baixa capacidade de investimento/gestão municipal.
Tese: A precariedade do saneamento se mantém pela desigualdade de infraestrutura e por entraves de gestão e financiamento, elevando doenças de veiculação hídrica e custos do sistema de saúde.
D1 (desigualdade territorial): periferias e áreas rurais com baixa cobertura → contaminação e surtos → ciclo de vulnerabilidade.
Repertório D1: “direito à saúde; prevenção; vigilância sanitária”.
D2 (gestão/financiamento): projetos mal planejados e baixa continuidade → obras incompletas → ineficiência e desperdício.
Repertório D2: “planejamento intermunicipal; consórcios; metas e indicadores”.
Encaminhamento: governos estaduais/federais + municípios; ações: consórcios, assistência técnica, metas de universalização, fiscalização.
8) Erros comuns (e como corrigir no rascunho)
Erro 1 — Recorte “bonito”, mas sem relação com a tese
Sintoma: você recorta em “juventude” e, no desenvolvimento, fala de “sociedade em geral” sem voltar ao grupo.
Correção: reescreva a tese incluindo o recorte e force cada parágrafo a mencionar o contexto recortado (escola, periferia, serviço público, etc.).
Erro 2 — Tese com palavras vazias
Sintoma: “É necessário conscientizar” sem dizer quem, sobre o quê e por qual meio.
Correção: substitua “conscientizar” por ações observáveis: “formar”, “regular”, “monitorar”, “implementar protocolo”, “ampliar acesso”, “integrar serviços”.
Erro 3 — Muitos argumentos fracos em vez de poucos fortes
Sintoma: parágrafo com lista de causas sem explicação (“falta de investimento, corrupção, cultura, internet…”).
Correção: escolha duas causas e explique o mecanismo. Se quiser citar outras, faça como complemento breve, sem virar lista.
Erro 4 — Repertório desconectado
Sintoma: você cita uma lei, um autor ou um conceito, mas não mostra como isso prova seu ponto.
Correção: após o repertório, escreva uma frase de amarração: “Isso evidencia que…”, “Logo, observa-se que…”, “Portanto, tal cenário…”.
Erro 5 — Planejamento longo demais
Sintoma: você gasta 20 minutos planejando e perde tempo de escrita e revisão.
Correção: use um modelo fixo (Modelo A) e limite o planejamento a palavras-chave. Se surgir uma ideia nova durante a escrita, avalie se ela substitui algo (troca) em vez de somar (acúmulo).
9) Treino objetivo: como praticar planejamento rápido em casa
Para ganhar velocidade, treine o planejamento como uma habilidade separada da escrita completa.
Exercício 1 — Plano em 6 minutos
- Escolha um tema.
- Faça: pergunta-problema + recorte + tese + D1 + D2 + repertórios + encaminhamento.
- Pare aos 6 minutos, mesmo que não esteja “perfeito”.
Meta: ao repetir, você reduz o tempo e aumenta a qualidade do recorte.
Exercício 2 — Um recorte, três teses
- Escolha um tema amplo.
- Crie três recortes diferentes (institucional, cultural, econômico).
- Para cada recorte, escreva uma tese de uma linha.
Isso treina flexibilidade e evita ficar refém de um único caminho.
Exercício 3 — Argumento com mecanismo
- Escreva um argumento em uma frase.
- Obrigue-se a completar: “isso ocorre porque…” (mecanismo) e “o que resulta em…” (efeito).
Se você não consegue preencher, o argumento está genérico e precisa de recorte melhor.