Por que planejar cortes muda o custo e a qualidade
Em portões e grades, o custo não está só no material comprado, mas no que vira sobra e no tempo perdido com recortes e correções. Planejar cortes é organizar quais peças serão extraídas de cada barra comercial (ex.: 6 m), em qual sequência e com quais marcações, para reduzir desperdício, manter repetibilidade e evitar peças invertidas (direita/esquerda) ou trocadas (superior/inferior).
Um bom planejamento considera três fatores ao mesmo tempo: (1) comprimentos comerciais disponíveis, (2) kerf (espessura do corte do disco) e (3) sequência de produção (cortar por lotes e por subconjuntos).
Conceitos essenciais antes de riscar a primeira barra
Comprimento comercial e “aproveitamento”
Perfis metálicos normalmente chegam em comprimentos padrão (ex.: 6.000 mm). O objetivo é distribuir as peças dentro desse comprimento, somando também as perdas por corte, para maximizar o aproveitamento e reduzir sobras curtas “inúteis”.
Kerf (perda por espessura do disco)
Cada corte remove material. Em serras policorte e esmerilhadeiras com disco de corte, a perda típica fica entre 2 e 4 mm por corte (varia por disco e máquina). Em serras de fita, pode ser menor. Se você ignora o kerf, um lote grande pode “encolher” vários milímetros e gerar peças fora de medida.
- Regra prática: some
kerfpara cada corte que separa peças. Se uma barra vai gerar 5 peças, haverá 4 cortes de separação (mais um corte de esquadro na ponta, se necessário).
Sequência de produção (cortar por subconjuntos)
Em vez de cortar “tudo misturado”, organize por subconjuntos: quadro (montantes e travessas), travamentos/diagonais, enchimento (barras verticais/horizontais), batentes/reforços. Isso facilita a conferência, reduz troca de gabaritos e diminui risco de peças trocadas.
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Sentido e posição: direita/esquerda, superior/inferior
Peças iguais em comprimento podem não ser iguais em função: furações, chanfros, mitras, recortes e posição no conjunto mudam. Por isso, a identificação deve registrar onde a peça vai e qual é o lado de referência.
Passo a passo prático: do desenho para o mapa de corte
1) Liste as peças por subconjunto e por perfil
Crie uma lista agrupada por tipo de perfil (ex.: tubo 40x40, tubo 30x20, barra chata, cantoneira). Para cada item, registre:
- Código da peça (ex.: Q-M1, Q-T1, E-V01…)
- Subconjunto (Quadro, Enchimento, Travamento…)
- Quantidade
- Comprimento final (mm)
- Tipo de corte (reto, mitra 45°, mitra dupla, ângulo específico)
- Observações (lado D/E, superior/inferior, referência de face)
2) Defina o kerf e a “margem de ajuste”
Meça ou adote um valor padrão do seu processo. Exemplo: disco de 2,5 mm. Para peças críticas, é comum planejar +1 mm e depois acertar no esmeril/lixadeira (quando o processo permitir). O importante é padronizar: ou corta final direto, ou corta com margem e ajusta.
- Kerf adotado no mapa:
2,5 mm - Margem (opcional):
+1,0 mmpara ajuste em peças de encaixe/mitra
3) Otimize a distribuição nas barras comerciais
Para cada perfil, distribua as peças dentro de 6.000 mm (ou o comprimento comercial que você compra). Faça isso considerando:
- Peças longas primeiro (reduz sobras grandes difíceis de aproveitar).
- Agrupar peças repetidas (facilita corte em série com batente).
- Evitar sobras “mortas” (ex.: pedaços de 120 mm que não servem para nada do seu padrão).
- Considerar kerf entre peças.
Se houver várias combinações possíveis, priorize a que gera sobras reaproveitáveis (ex.: 800–1.200 mm pode virar reforço, orelha, chapinha, etc., dependendo do seu padrão de fabricação).
4) Planeje a sequência de corte (produção)
Uma sequência eficiente costuma ser:
- Preparação: conferir barras, separar por perfil, limpar rebarbas de transporte.
- Cortes retos em série com batente (quando aplicável).
- Cortes angulados/mitras com gabarito e conferência extra.
- Separação por subconjuntos em caixas/pilhas identificadas.
Marcação e identificação: como evitar peça invertida
Padrão de código e marcação na peça
Use um padrão simples e repetível. Exemplo de codificação:
Q-M1= Quadro, Montante 1Q-T1= Quadro, Travessa 1E-V05= Enchimento, Vertical 05TR-D1= Travamento, Diagonal 1
Na peça, marque com caneta de tinta (ou riscador + giz) em uma face que não será removida. Inclua:
- Código (ex.:
Q-M1) - Orientação:
SUP/INFeD/E - Face de referência: uma seta indicando a face “para fora” ou “para cima” (ex.:
↑eEXT)
Como definir direita/esquerda sem confusão
Padronize a referência: considere sempre o portão/grade visto pelo lado externo (ou outro lado definido no seu processo). A partir disso:
- Lado direito (D): à direita de quem olha pelo lado de referência.
- Lado esquerdo (E): à esquerda de quem olha pelo lado de referência.
Esse padrão deve ser o mesmo usado na bancada, no gabarito e na separação das peças.
Separação por subconjuntos (logística interna)
Após cortar, não deixe tudo em uma pilha única. Separe em:
- Pilha/caixa do Quadro
- Pilha/caixa do Enchimento
- Pilha/caixa de Travamentos/Reforços
- Pilha/caixa de Sobras reaproveitáveis (com etiqueta de comprimento)
Uma prática simples é usar etiquetas grandes (A4 plastificado) na frente de cada pilha com: perfil, subconjunto e lista rápida de códigos.
Ângulos, mitras e cortes compostos
Quando usar mitra e o que muda no comprimento
Em cortes retos, o comprimento final é medido ponta a ponta. Em mitras, você precisa definir de onde a medida é tomada:
- Medida na aresta longa (ponta externa): comum em quadros com mitra.
- Medida no “ponto teórico” (vértice): exige mais controle e marcação.
Padronize no mapa de corte: escreva explicitamente “comprimento na aresta longa” ou “comprimento no topo (ponto)”.
Gabarito de ângulo e repetibilidade
Para lotes, use batente e gabarito:
- Faça uma peça “mestre” (primeira peça) e valide o encaixe.
- Trave o batente e repita as demais.
- Reconfira a cada 5–10 peças (ou quando trocar disco).
Compensação do disco em mitras
Em mitra, o kerf pode “comer” mais perceptivelmente o ponto de encontro. Para manter repetibilidade:
- Marque a linha de corte e defina se você vai cortar “por fora” (deixar a linha) ou cortar “em cima” (tirar a linha).
- Use sempre o mesmo critério no lote.
- Se o encaixe for crítico, corte com margem pequena e ajuste no esmeril.
Rebarbas e correções após o corte
Por que rebarba atrapalha o esquadro e a medição
Rebarba pode impedir a peça de encostar no batente, alterar leitura de trena e criar folga falsa em encaixes. Além disso, rebarba em mitra impede o fechamento do canto.
Procedimento rápido de desbaste
- Após cada corte, retire rebarba com disco flap, lima ou rebarbador.
- Em mitras, passe levemente nas duas faces do corte para “assentar” o encontro.
- Evite arredondar a aresta: o objetivo é tirar rebarba, não mudar o ângulo.
Modelo de mapa de corte (exemplo preenchível)
Use este modelo como tabela de planejamento. Ajuste o comprimento comercial conforme seu fornecedor.
| Perfil | Barra # | Compr. comercial (mm) | Sequência de peças na barra (códigos e comprimentos) | Nº de cortes | Kerf total (mm) | Sobra prevista (mm) | Destino da sobra |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Tubo 40x40 | 1 | 6000 | Q-M1 2100 (reto) + Q-M2 2100 (reto) + Q-T1 800 (mitra 45°) + Q-T2 800 (mitra 45°) | 3–4 | 3 x 2,5 = 7,5 (ou 4 x 2,5 = 10) | 6000 - (2100+2100+800+800) - kerf | Reforços |
| Tubo 30x20 | 1 | 6000 | E-V01 950 (reto) + E-V02 950 (reto) + E-V03 950 (reto) + E-V04 950 (reto) + E-V05 950 (reto) + E-V06 950 (reto) | 5 | 5 x 2,5 = 12,5 | 6000 - (6 x 950) - 12,5 | Sobra curta |
Observação: no campo “Nº de cortes”, considere se você precisará esquadrejar a ponta da barra antes de iniciar (corte de limpeza). Se sim, some esse corte ao kerf total.
Mini-modelo de etiqueta para pilhas
SUBCONJUNTO: QUADRO | PERFIL: TUBO 40x40 | LOTE: P01
PEÇAS: Q-M1 (D) / Q-M2 (E) / Q-T1 (SUP) / Q-T2 (INF)
OBS: Travessas com mitra 45° na face EXTProcedimento de dupla checagem (antes de cortar o lote inteiro)
Checagem 1: validação do mapa de corte
- Confirme comprimento comercial real das barras (algumas vêm com pequena variação).
- Confirme o kerf adotado (teste um corte e meça a perda).
- Some os comprimentos + kerf e verifique se a sobra prevista é positiva.
- Verifique se peças com mitra têm a referência de medida definida (aresta longa ou ponto).
Checagem 2: peça piloto (primeira unidade)
Antes de liberar o lote:
- Corte 1 unidade de cada tipo crítico (principalmente mitras e peças com orientação D/E).
- Desbarbe e faça um encaixe a seco na bancada (sem soldar) para validar encontro e comprimento.
- Se usar batente, ajuste o batente com base na peça piloto aprovada.
Checagem 3: conferência por contagem e marcação
- Conte as peças cortadas e compare com a quantidade planejada por código.
- Verifique se todas têm marcação de código + orientação.
- Separe imediatamente por subconjunto e prenda a etiqueta da pilha.
Checagem 4: auditoria durante o lote
- A cada troca de disco, refaça a medição do kerf (pode mudar).
- A cada 10 peças repetidas, meça 1 peça aleatória para garantir que o batente não deslocou.
- Se aparecer variação, pare e corrija antes de continuar.