O que é densidade de estocagem (e por que ela decide seu lucro)
Densidade de estocagem é a quantidade de peixes por unidade de área ou volume, e deve ser definida de acordo com sistema de criação (viveiro escavado, tanque-rede, raceway, bioflocos, RAS etc.) e fase (alevinagem, recria, engorda). Na prática, a densidade “correta” é a que o seu sistema consegue sustentar com oxigênio, renovação de água, capacidade de arraçoamento e manejo sem gerar estresse, competição e queda de desempenho.
O erro mais comum é definir densidade apenas por “peixes por metro quadrado” e esquecer que o que pesa no sistema é a biomassa (kg de peixe). Um viveiro pode começar confortável com muitos peixes pequenos e virar superlotação quando eles crescem, se você não ajustar manejo, alimentação e separação por tamanho.
Unidades usadas no dia a dia
- Peixes/m²: útil no início (alevinagem e recria), quando os peixes ainda são leves.
- kg/m³ (ou kg/m² em viveiro): mais útil na engorda, porque reflete a carga real no sistema.
- Biomassa total (kg): base para calcular ração, prever consumo de oxigênio e planejar despesca parcial.
Como definir densidade por sistema e por fase (sem cair na superlotação)
Use a lógica: fase → tamanho do peixe → biomassa esperada → capacidade do sistema. Abaixo estão faixas práticas para orientar decisão. Ajuste conforme sua realidade (qualidade de ração, frequência de alimentação, aeração/renovação, mão de obra e histórico de mortalidade).
1) Viveiro escavado (semi-intensivo a intensivo)
| Fase | Referência prática (início) | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Alevinagem | 20–80 peixes/m² (alevinos pequenos) | Competição e canibalismo em espécies que exigem classificação; oxigênio ao amanhecer |
| Recria | 5–20 peixes/m² | Biometria frequente para ajustar ração e evitar “disparidade” de tamanho |
| Engorda | 1–5 peixes/m² (depende do peso final) | Biomassa cresce rápido; planeje despesca parcial e/ou redução de densidade |
Regra prática: se você não tem aeração/renovação robusta, seja conservador na engorda. Se tem aeração e manejo diário consistente, pode trabalhar no topo da faixa, mas com biometria e separação por tamanho em dia.
2) Tanque-rede (reservatórios)
| Fase | Referência prática | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Recria | 20–60 kg/m³ (conforme espécie e correnteza) | Fouling (sujeira na malha), oxigênio noturno e manejo de redes |
| Engorda | 40–120 kg/m³ (varia muito) | Limite real é oxigênio e capacidade de troca de água; mortalidade sobe rápido quando passa do ponto |
Regra prática: tanque-rede “aguenta” densidade alta, mas cobra em risco: qualquer queda de oxigênio ou sujeira na rede reduz troca de água e vira mortalidade em poucas horas.
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3) Sistemas com alta intensificação (RAS, bioflocos, raceway)
Nesses sistemas, a densidade é guiada por capacidade de filtração/remoção de sólidos, oxigenação e manejo de alimentação. Trabalha-se com biomassa elevada, mas o controle precisa ser diário e os indicadores (oxigênio, amônia, sólidos, comportamento) precisam estar sob controle. Se você ainda está estruturando rotina e equipe, comece com densidade menor e aumente por ciclos.
Superlotação: sinais precoces e ações imediatas
Sinais de alerta (antes da mortalidade)
- Peixes “batendo” na superfície ao amanhecer ou após alimentação (sugere falta de oxigênio).
- Ração sobrando com frequência ou queda súbita de apetite.
- Heterogeneidade aumentando: poucos peixes dominam e muitos ficam “atrasados”.
- Mais ferimentos, nadadeiras mordidas, escurecimento, agitação.
- Conversão alimentar piorando sem explicação (mesma ração, mesmo manejo).
O que fazer quando a densidade está alta demais
- Reduzir biomassa: despesca parcial, transferência para outro viveiro/tanque, ou venda antecipada de parte do lote.
- Separar por tamanho: reduz competição e melhora uniformidade.
- Ajustar arraçoamento: reduzir oferta temporariamente e fracionar mais as refeições.
- Reforçar oxigenação/renovação: especialmente nos horários críticos (madrugada/manhã).
Biometria na prática: como medir, calcular biomassa e decidir o manejo
Biometria é a medição periódica do peso (e, quando necessário, comprimento) para estimar peso médio, biomassa e uniformidade. Ela serve para: ajustar ração, prever ponto de abate, decidir separação por tamanho e evitar que a biomassa ultrapasse a capacidade do sistema.
Frequência recomendada por fase
- Alevinagem: semanal (crescimento rápido e maior risco de desuniformidade).
- Recria: a cada 7–14 dias.
- Engorda: a cada 15–30 dias (ou quinzenal se o sistema for intensivo).
Passo a passo de biometria (amostragem e pesagem)
- Prepare os materiais: balança (preferencialmente digital), balde com água, puçá, recipiente para conter os peixes, planilha/caderno, e, se possível, um medidor de oxigênio para evitar estresse em horários críticos.
- Escolha o horário: evite o amanhecer e o pico de calor. Prefira meio da manhã ou fim da tarde, quando os peixes estão mais estáveis.
- Defina o tamanho da amostra: como regra prática, pese 50–100 peixes em lotes pequenos; em lotes grandes, use 1–2% do lote (limitando a um número manejável). O objetivo é representar bem o lote.
- Faça amostragem representativa: capture peixes de diferentes pontos do viveiro/tanque e diferentes profundidades (quando aplicável). Evite pegar só os maiores (próximos ao arraçoamento) ou só os menores.
- Pesagem: pese os peixes individualmente (melhor para ver dispersão) ou em grupos (mais rápido). Se pesar em grupo, conte quantos peixes foram pesados.
- Calcule o peso médio:
peso_médio (g) = peso_total_amostra (g) / número_de_peixes. - Estime a biomassa:
biomassa_total (kg) = (peso_médio (g) × número_total_de_peixes) / 1000. - Registre sobrevivência estimada: atualize o número de peixes considerando mortalidades observadas e descartes. Se não houver contagem, use estimativa conservadora para não superalimentar.
- Avalie uniformidade: se possível, separe a amostra em classes (pequeno/médio/grande) e estime a proporção. Quanto maior a diferença, maior a necessidade de classificação.
Exemplo prático de cálculo
Você tem um lote estimado de 8.000 peixes. Na biometria, pesou 80 peixes e obteve 6.400 g no total.
peso_médio = 6.400 / 80 = 80 gbiomassa_total = (80 × 8.000) / 1000 = 640 kg
Com a biomassa em mãos, você ajusta a ração e verifica se a carga está compatível com sua capacidade de manejo e oxigenação.
Ajuste de arraçoamento com base na biomassa
O arraçoamento deve acompanhar o crescimento. O erro típico é manter a mesma quantidade “de saco por dia” por hábito, o que causa: sobra de ração (piora de água), ou subalimentação (crescimento lento e desuniformidade).
Passo a passo para calcular ração diária
- Calcule biomassa total (kg) pela biometria.
- Defina a taxa de arraçoamento (% do peso vivo/dia) conforme fase, temperatura e apetite observado. Em geral, peixes menores recebem % maior; peixes maiores, % menor.
- Calcule ração/dia:
ração_dia (kg) = biomassa_total (kg) × taxa (%) / 100. - Divida em refeições: quanto mais intensivo o sistema e menor o peixe, mais refeições (reduz pico de amônia e melhora aproveitamento).
- Valide pelo comportamento: ajuste fino observando consumo (sem sobras persistentes) e resposta do lote.
Exemplo prático de arraçoamento
Biomassa estimada: 640 kg. Taxa definida: 2,5% ao dia.
ração_dia = 640 × 2,5 / 100 = 16 kg/dia
Se você fornece 4 refeições/dia: 4 kg por refeição. Se houver sobra recorrente, reduza 5–10% e reavalie; se o lote “varrer” a ração muito rápido e mantiver boa condição, pode aumentar gradualmente (sempre com biometria e observação).
Checklist rápido para evitar desperdício e perda de desempenho
- Ração sobrando por 2–3 dias seguidos: reduza e investigue (oxigênio, saúde, temperatura, qualidade da ração).
- Peixes comendo agressivamente, mas crescimento não acompanha: revise densidade, uniformidade e frequência (competição pode estar alta).
- Conversão alimentar piorando: verifique sobras, qualidade da água, tamanho do pellet e uniformidade.
Separação por tamanho (classificação): quando fazer e como executar
A separação por tamanho reduz competição, melhora acesso à ração e aumenta uniformidade do lote. É especialmente importante quando há grande variação de tamanho, pois os maiores dominam o alimento e os menores ficam para trás, elevando o tempo de ciclo e o custo por kg produzido.
Quando é hora de classificar
- Quando você observa “dois lotes dentro do mesmo lote” (grandes e pequenos bem distintos).
- Quando a biometria mostra grande dispersão de pesos (ex.: muitos abaixo do peso médio e poucos muito acima).
- Quando há aumento de ferimentos e competição no arraçoamento.
- Após mudanças de ração/pellet, se parte do lote não consegue consumir bem.
Passo a passo prático de classificação
- Planeje destino: prepare viveiros/tanques para receber classes (pequeno, médio, grande) com densidade adequada para cada uma.
- Jejum curto (quando aplicável): ajuda a reduzir sujeira e estresse durante o manejo.
- Use peneiras/grades de classificação: escolha malha compatível com o tamanho alvo para separar sem ferir.
- Trabalhe rápido e com água limpa: minimize tempo fora d’água; mantenha oxigenação no recipiente de manejo.
- Recalcule densidade e biomassa por classe: cada classe vira um “novo lote” com arraçoamento próprio.
- Reinicie rotina de biometria: após 7–10 dias, faça nova checagem para confirmar que a uniformidade melhorou.
Cronogramas de manejo por semana (por fase)
Os cronogramas abaixo são modelos práticos. Ajuste conforme sua espécie e sistema, mas mantenha a lógica: medir → calcular → ajustar → registrar.
Alevinagem (rotina semanal sugerida)
| Semana | Rotina de manejo | Meta/observação |
|---|---|---|
| 1 | Observação diária do apetite; ajuste fino do pellet e frequência; inspeção visual de uniformidade | Evitar sobras e identificar cedo desuniformidade |
| 2 | Biometria semanal; recalcular biomassa; ajustar ração; avaliar necessidade de primeira classificação | Manter crescimento acelerado sem competição |
| 3 | Revisar densidade efetiva (peixes/m²); checar pontos de acúmulo de peixe; reforçar fracionamento de refeições | Reduzir estresse e perdas |
| 4 | Biometria; classificação se a dispersão estiver alta; atualizar planilha de desempenho | Uniformidade para entrar na recria |
Recria (rotina semanal sugerida)
| Semana | Rotina de manejo | Meta/observação |
|---|---|---|
| 1 | Biometria (7–14 dias); ajustar ração por biomassa; observar competição no arraçoamento | Evitar “atrasados” por disputa |
| 2 | Checar uniformidade; se necessário, classificar; revisar densidade por área/volume | Preparar lote homogêneo para engorda |
| 3 | Revisar taxa de arraçoamento; checar conversão alimentar; ajustar número de refeições | Maximizar aproveitamento da ração |
| 4 | Biometria; atualizar estimativa de sobrevivência; planejar transferência para engorda | Entrar na engorda com biomassa controlada |
Engorda (rotina semanal sugerida)
| Semana | Rotina de manejo | Meta/observação |
|---|---|---|
| 1 | Biometria (quinzenal ou mensal); ajustar ração; observar sobras e comportamento | Manter crescimento com boa conversão |
| 2 | Revisar biomassa e capacidade do sistema; decidir despesca parcial se estiver perto do limite | Evitar superlotação na reta final |
| 3 | Checar uniformidade; classificar apenas se a desuniformidade estiver prejudicando desempenho | Reduzir competição e padronizar para abate |
| 4 | Biometria; projeção de peso de abate; ajustar estratégia de alimentação (evitar excesso) | Planejar saída e reduzir custo por kg |
Indicadores de desempenho: o que medir e como interpretar
Sem indicadores, você só descobre que errou quando o peixe demora a crescer ou quando a mortalidade aparece. Use uma planilha simples e atualize após cada biometria.
1) Ganho de peso (GP) e ganho diário (GPD)
- Ganho de peso (g):
GP = peso_médio_atual − peso_médio_anterior - Ganho diário (g/dia):
GPD = GP / número_de_dias
Interpretação: queda de GPD pode indicar densidade alta (competição), ração inadequada, ou estresse. Compare sempre com o histórico do seu próprio sistema.
2) Sobrevivência (%)
sobrevivência (%) = (número_final_de_peixes / número_inicial_de_peixes) × 100
Interpretação: quedas graduais sugerem manejo/competição/doença subclínica; quedas rápidas sugerem evento agudo (geralmente ligado a oxigênio, toxinas ou falha operacional). Para manejo de densidade, a sobrevivência é o “alarme” de que você passou do limite.
3) Conversão alimentar (CA ou FCR)
CA = ração_fornecida (kg) / ganho_de_biomassa (kg)
Como calcular ganho de biomassa: ganho_biomassa = biomassa_atual − biomassa_anterior (ajustando por mortalidade/retiradas quando possível).
Interpretação: CA piorando costuma acompanhar superlotação (competição e estresse), sobras de ração e desuniformidade. Se a CA piora e o apetite cai, revise densidade e faça classificação.
4) Uniformidade do lote (indicador prático)
Uma forma simples é registrar a porcentagem de peixes dentro de uma faixa do peso médio (ex.: ±20%). Se poucos peixes ficam nessa faixa, a competição está alta e a classificação tende a melhorar desempenho.
Planilha mínima de controle (modelo)
Data | Fase | Nº peixes estimado | Peso médio (g) | Biomassa (kg) | Ração/dia (kg) | Refeições/dia | Mortalidade (n) | GP (g) | GPD (g/d) | CA | ObservaçõesUse as observações para registrar eventos que afetam densidade e desempenho: classificação, transferência, despesca parcial, mudança de pellet, queda de apetite, sobras recorrentes.
Regras práticas para acertar densidade ao longo do ciclo
- Planeje o “pico de biomassa”: antes de estocar, estime o peso de abate e calcule se o sistema aguenta a biomassa final. Se não, planeje despesca parcial ou mais unidades de cultivo.
- Biometria manda na ração: ajuste ração com base em biomassa, não em hábito.
- Uniformidade é produtividade: lote desuniforme aumenta tempo de ciclo e piora CA; classificar cedo costuma ser mais barato do que “empurrar” o lote até o fim.
- Se o manejo não acompanha, reduza densidade: densidade alta exige rotina rígida; se você não consegue medir e ajustar, a densidade vira risco.