Piscicultura na prática: densidade de estocagem e manejo por fases

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que é densidade de estocagem (e por que ela decide seu lucro)

Densidade de estocagem é a quantidade de peixes por unidade de área ou volume, e deve ser definida de acordo com sistema de criação (viveiro escavado, tanque-rede, raceway, bioflocos, RAS etc.) e fase (alevinagem, recria, engorda). Na prática, a densidade “correta” é a que o seu sistema consegue sustentar com oxigênio, renovação de água, capacidade de arraçoamento e manejo sem gerar estresse, competição e queda de desempenho.

O erro mais comum é definir densidade apenas por “peixes por metro quadrado” e esquecer que o que pesa no sistema é a biomassa (kg de peixe). Um viveiro pode começar confortável com muitos peixes pequenos e virar superlotação quando eles crescem, se você não ajustar manejo, alimentação e separação por tamanho.

Unidades usadas no dia a dia

  • Peixes/m²: útil no início (alevinagem e recria), quando os peixes ainda são leves.
  • kg/m³ (ou kg/m² em viveiro): mais útil na engorda, porque reflete a carga real no sistema.
  • Biomassa total (kg): base para calcular ração, prever consumo de oxigênio e planejar despesca parcial.

Como definir densidade por sistema e por fase (sem cair na superlotação)

Use a lógica: fase → tamanho do peixe → biomassa esperada → capacidade do sistema. Abaixo estão faixas práticas para orientar decisão. Ajuste conforme sua realidade (qualidade de ração, frequência de alimentação, aeração/renovação, mão de obra e histórico de mortalidade).

1) Viveiro escavado (semi-intensivo a intensivo)

FaseReferência prática (início)Ponto de atenção
Alevinagem20–80 peixes/m² (alevinos pequenos)Competição e canibalismo em espécies que exigem classificação; oxigênio ao amanhecer
Recria5–20 peixes/m²Biometria frequente para ajustar ração e evitar “disparidade” de tamanho
Engorda1–5 peixes/m² (depende do peso final)Biomassa cresce rápido; planeje despesca parcial e/ou redução de densidade

Regra prática: se você não tem aeração/renovação robusta, seja conservador na engorda. Se tem aeração e manejo diário consistente, pode trabalhar no topo da faixa, mas com biometria e separação por tamanho em dia.

2) Tanque-rede (reservatórios)

FaseReferência práticaPonto de atenção
Recria20–60 kg/m³ (conforme espécie e correnteza)Fouling (sujeira na malha), oxigênio noturno e manejo de redes
Engorda40–120 kg/m³ (varia muito)Limite real é oxigênio e capacidade de troca de água; mortalidade sobe rápido quando passa do ponto

Regra prática: tanque-rede “aguenta” densidade alta, mas cobra em risco: qualquer queda de oxigênio ou sujeira na rede reduz troca de água e vira mortalidade em poucas horas.

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3) Sistemas com alta intensificação (RAS, bioflocos, raceway)

Nesses sistemas, a densidade é guiada por capacidade de filtração/remoção de sólidos, oxigenação e manejo de alimentação. Trabalha-se com biomassa elevada, mas o controle precisa ser diário e os indicadores (oxigênio, amônia, sólidos, comportamento) precisam estar sob controle. Se você ainda está estruturando rotina e equipe, comece com densidade menor e aumente por ciclos.

Superlotação: sinais precoces e ações imediatas

Sinais de alerta (antes da mortalidade)

  • Peixes “batendo” na superfície ao amanhecer ou após alimentação (sugere falta de oxigênio).
  • Ração sobrando com frequência ou queda súbita de apetite.
  • Heterogeneidade aumentando: poucos peixes dominam e muitos ficam “atrasados”.
  • Mais ferimentos, nadadeiras mordidas, escurecimento, agitação.
  • Conversão alimentar piorando sem explicação (mesma ração, mesmo manejo).

O que fazer quando a densidade está alta demais

  • Reduzir biomassa: despesca parcial, transferência para outro viveiro/tanque, ou venda antecipada de parte do lote.
  • Separar por tamanho: reduz competição e melhora uniformidade.
  • Ajustar arraçoamento: reduzir oferta temporariamente e fracionar mais as refeições.
  • Reforçar oxigenação/renovação: especialmente nos horários críticos (madrugada/manhã).

Biometria na prática: como medir, calcular biomassa e decidir o manejo

Biometria é a medição periódica do peso (e, quando necessário, comprimento) para estimar peso médio, biomassa e uniformidade. Ela serve para: ajustar ração, prever ponto de abate, decidir separação por tamanho e evitar que a biomassa ultrapasse a capacidade do sistema.

Frequência recomendada por fase

  • Alevinagem: semanal (crescimento rápido e maior risco de desuniformidade).
  • Recria: a cada 7–14 dias.
  • Engorda: a cada 15–30 dias (ou quinzenal se o sistema for intensivo).

Passo a passo de biometria (amostragem e pesagem)

  1. Prepare os materiais: balança (preferencialmente digital), balde com água, puçá, recipiente para conter os peixes, planilha/caderno, e, se possível, um medidor de oxigênio para evitar estresse em horários críticos.
  2. Escolha o horário: evite o amanhecer e o pico de calor. Prefira meio da manhã ou fim da tarde, quando os peixes estão mais estáveis.
  3. Defina o tamanho da amostra: como regra prática, pese 50–100 peixes em lotes pequenos; em lotes grandes, use 1–2% do lote (limitando a um número manejável). O objetivo é representar bem o lote.
  4. Faça amostragem representativa: capture peixes de diferentes pontos do viveiro/tanque e diferentes profundidades (quando aplicável). Evite pegar só os maiores (próximos ao arraçoamento) ou só os menores.
  5. Pesagem: pese os peixes individualmente (melhor para ver dispersão) ou em grupos (mais rápido). Se pesar em grupo, conte quantos peixes foram pesados.
  6. Calcule o peso médio: peso_médio (g) = peso_total_amostra (g) / número_de_peixes.
  7. Estime a biomassa: biomassa_total (kg) = (peso_médio (g) × número_total_de_peixes) / 1000.
  8. Registre sobrevivência estimada: atualize o número de peixes considerando mortalidades observadas e descartes. Se não houver contagem, use estimativa conservadora para não superalimentar.
  9. Avalie uniformidade: se possível, separe a amostra em classes (pequeno/médio/grande) e estime a proporção. Quanto maior a diferença, maior a necessidade de classificação.

Exemplo prático de cálculo

Você tem um lote estimado de 8.000 peixes. Na biometria, pesou 80 peixes e obteve 6.400 g no total.

  • peso_médio = 6.400 / 80 = 80 g
  • biomassa_total = (80 × 8.000) / 1000 = 640 kg

Com a biomassa em mãos, você ajusta a ração e verifica se a carga está compatível com sua capacidade de manejo e oxigenação.

Ajuste de arraçoamento com base na biomassa

O arraçoamento deve acompanhar o crescimento. O erro típico é manter a mesma quantidade “de saco por dia” por hábito, o que causa: sobra de ração (piora de água), ou subalimentação (crescimento lento e desuniformidade).

Passo a passo para calcular ração diária

  1. Calcule biomassa total (kg) pela biometria.
  2. Defina a taxa de arraçoamento (% do peso vivo/dia) conforme fase, temperatura e apetite observado. Em geral, peixes menores recebem % maior; peixes maiores, % menor.
  3. Calcule ração/dia: ração_dia (kg) = biomassa_total (kg) × taxa (%) / 100.
  4. Divida em refeições: quanto mais intensivo o sistema e menor o peixe, mais refeições (reduz pico de amônia e melhora aproveitamento).
  5. Valide pelo comportamento: ajuste fino observando consumo (sem sobras persistentes) e resposta do lote.

Exemplo prático de arraçoamento

Biomassa estimada: 640 kg. Taxa definida: 2,5% ao dia.

  • ração_dia = 640 × 2,5 / 100 = 16 kg/dia

Se você fornece 4 refeições/dia: 4 kg por refeição. Se houver sobra recorrente, reduza 5–10% e reavalie; se o lote “varrer” a ração muito rápido e mantiver boa condição, pode aumentar gradualmente (sempre com biometria e observação).

Checklist rápido para evitar desperdício e perda de desempenho

  • Ração sobrando por 2–3 dias seguidos: reduza e investigue (oxigênio, saúde, temperatura, qualidade da ração).
  • Peixes comendo agressivamente, mas crescimento não acompanha: revise densidade, uniformidade e frequência (competição pode estar alta).
  • Conversão alimentar piorando: verifique sobras, qualidade da água, tamanho do pellet e uniformidade.

Separação por tamanho (classificação): quando fazer e como executar

A separação por tamanho reduz competição, melhora acesso à ração e aumenta uniformidade do lote. É especialmente importante quando há grande variação de tamanho, pois os maiores dominam o alimento e os menores ficam para trás, elevando o tempo de ciclo e o custo por kg produzido.

Quando é hora de classificar

  • Quando você observa “dois lotes dentro do mesmo lote” (grandes e pequenos bem distintos).
  • Quando a biometria mostra grande dispersão de pesos (ex.: muitos abaixo do peso médio e poucos muito acima).
  • Quando há aumento de ferimentos e competição no arraçoamento.
  • Após mudanças de ração/pellet, se parte do lote não consegue consumir bem.

Passo a passo prático de classificação

  1. Planeje destino: prepare viveiros/tanques para receber classes (pequeno, médio, grande) com densidade adequada para cada uma.
  2. Jejum curto (quando aplicável): ajuda a reduzir sujeira e estresse durante o manejo.
  3. Use peneiras/grades de classificação: escolha malha compatível com o tamanho alvo para separar sem ferir.
  4. Trabalhe rápido e com água limpa: minimize tempo fora d’água; mantenha oxigenação no recipiente de manejo.
  5. Recalcule densidade e biomassa por classe: cada classe vira um “novo lote” com arraçoamento próprio.
  6. Reinicie rotina de biometria: após 7–10 dias, faça nova checagem para confirmar que a uniformidade melhorou.

Cronogramas de manejo por semana (por fase)

Os cronogramas abaixo são modelos práticos. Ajuste conforme sua espécie e sistema, mas mantenha a lógica: medir → calcular → ajustar → registrar.

Alevinagem (rotina semanal sugerida)

SemanaRotina de manejoMeta/observação
1Observação diária do apetite; ajuste fino do pellet e frequência; inspeção visual de uniformidadeEvitar sobras e identificar cedo desuniformidade
2Biometria semanal; recalcular biomassa; ajustar ração; avaliar necessidade de primeira classificaçãoManter crescimento acelerado sem competição
3Revisar densidade efetiva (peixes/m²); checar pontos de acúmulo de peixe; reforçar fracionamento de refeiçõesReduzir estresse e perdas
4Biometria; classificação se a dispersão estiver alta; atualizar planilha de desempenhoUniformidade para entrar na recria

Recria (rotina semanal sugerida)

SemanaRotina de manejoMeta/observação
1Biometria (7–14 dias); ajustar ração por biomassa; observar competição no arraçoamentoEvitar “atrasados” por disputa
2Checar uniformidade; se necessário, classificar; revisar densidade por área/volumePreparar lote homogêneo para engorda
3Revisar taxa de arraçoamento; checar conversão alimentar; ajustar número de refeiçõesMaximizar aproveitamento da ração
4Biometria; atualizar estimativa de sobrevivência; planejar transferência para engordaEntrar na engorda com biomassa controlada

Engorda (rotina semanal sugerida)

SemanaRotina de manejoMeta/observação
1Biometria (quinzenal ou mensal); ajustar ração; observar sobras e comportamentoManter crescimento com boa conversão
2Revisar biomassa e capacidade do sistema; decidir despesca parcial se estiver perto do limiteEvitar superlotação na reta final
3Checar uniformidade; classificar apenas se a desuniformidade estiver prejudicando desempenhoReduzir competição e padronizar para abate
4Biometria; projeção de peso de abate; ajustar estratégia de alimentação (evitar excesso)Planejar saída e reduzir custo por kg

Indicadores de desempenho: o que medir e como interpretar

Sem indicadores, você só descobre que errou quando o peixe demora a crescer ou quando a mortalidade aparece. Use uma planilha simples e atualize após cada biometria.

1) Ganho de peso (GP) e ganho diário (GPD)

  • Ganho de peso (g): GP = peso_médio_atual − peso_médio_anterior
  • Ganho diário (g/dia): GPD = GP / número_de_dias

Interpretação: queda de GPD pode indicar densidade alta (competição), ração inadequada, ou estresse. Compare sempre com o histórico do seu próprio sistema.

2) Sobrevivência (%)

sobrevivência (%) = (número_final_de_peixes / número_inicial_de_peixes) × 100

Interpretação: quedas graduais sugerem manejo/competição/doença subclínica; quedas rápidas sugerem evento agudo (geralmente ligado a oxigênio, toxinas ou falha operacional). Para manejo de densidade, a sobrevivência é o “alarme” de que você passou do limite.

3) Conversão alimentar (CA ou FCR)

CA = ração_fornecida (kg) / ganho_de_biomassa (kg)

Como calcular ganho de biomassa: ganho_biomassa = biomassa_atual − biomassa_anterior (ajustando por mortalidade/retiradas quando possível).

Interpretação: CA piorando costuma acompanhar superlotação (competição e estresse), sobras de ração e desuniformidade. Se a CA piora e o apetite cai, revise densidade e faça classificação.

4) Uniformidade do lote (indicador prático)

Uma forma simples é registrar a porcentagem de peixes dentro de uma faixa do peso médio (ex.: ±20%). Se poucos peixes ficam nessa faixa, a competição está alta e a classificação tende a melhorar desempenho.

Planilha mínima de controle (modelo)

Data | Fase | Nº peixes estimado | Peso médio (g) | Biomassa (kg) | Ração/dia (kg) | Refeições/dia | Mortalidade (n) | GP (g) | GPD (g/d) | CA | Observações

Use as observações para registrar eventos que afetam densidade e desempenho: classificação, transferência, despesca parcial, mudança de pellet, queda de apetite, sobras recorrentes.

Regras práticas para acertar densidade ao longo do ciclo

  • Planeje o “pico de biomassa”: antes de estocar, estime o peso de abate e calcule se o sistema aguenta a biomassa final. Se não, planeje despesca parcial ou mais unidades de cultivo.
  • Biometria manda na ração: ajuste ração com base em biomassa, não em hábito.
  • Uniformidade é produtividade: lote desuniforme aumenta tempo de ciclo e piora CA; classificar cedo costuma ser mais barato do que “empurrar” o lote até o fim.
  • Se o manejo não acompanha, reduza densidade: densidade alta exige rotina rígida; se você não consegue medir e ajustar, a densidade vira risco.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar a densidade de estocagem, qual abordagem ajuda mais a evitar que um viveiro fique superlotado conforme os peixes crescem?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A superlotação costuma ocorrer porque a biomassa aumenta com o crescimento. Medir por biometria e ajustar manejo (arraçoamento, classificação e redução de biomassa) mantém a carga dentro do que o sistema sustenta em oxigênio e renovação.

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Piscicultura na prática: alimentação balanceada e formulação de arraçoamento

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