Conceito: alimentação balanceada e arraçoamento
Na piscicultura, “alimentação balanceada” significa oferecer uma ração com níveis adequados de proteína, energia, vitaminas e minerais para cada fase do peixe, garantindo crescimento, saúde e boa conversão alimentar. “Arraçoamento” é o plano prático de fornecimento dessa ração: tipo, tamanho do pellet, frequência de trato e quantidade diária, ajustados pela biomassa (peso total de peixes no viveiro/tanque) e pelas condições do dia, especialmente a temperatura da água.
Um arraçoamento bem feito reduz desperdício (ração que afunda sem ser consumida), melhora a qualidade da água e diminui o custo por quilo produzido, porque ração costuma ser o maior item do custo operacional.
Tipos de ração: extrusada x peletizada (e quando usar)
Ração extrusada
- Como é: passa por extrusão (alta temperatura e pressão), formando pellets mais porosos.
- Comportamento na água: geralmente flutuante (ou de flutuação controlada), permitindo ver o consumo.
- Vantagens: melhor digestibilidade, menor lixiviação de nutrientes, facilita ajuste fino do trato pela observação; costuma melhorar conversão alimentar.
- Pontos de atenção: pode ser mais cara; exige manejo para evitar que vento concentre ração em um canto.
Ração peletizada
- Como é: compactada em pellets por peletização.
- Comportamento na água: tende a afundar mais rápido (ou sem flutuação).
- Vantagens: frequentemente mais barata; útil quando o peixe se alimenta mais no fundo ou quando se usa comedouros/bandejas.
- Pontos de atenção: é mais difícil “enxergar” o consumo; maior risco de sobras no fundo se o manejo não for bem ajustado.
Regra prática de escolha
- Se você precisa monitorar consumo visualmente e ajustar rápido: priorize extrusada flutuante.
- Se o sistema usa bandejas/comedouros e você consegue medir sobras: a peletizada pode funcionar bem.
Níveis de proteína por fase (referência prática)
O nível de proteína varia com a fase: peixes menores exigem mais proteína; conforme crescem, a exigência relativa cai. Use a recomendação do fabricante como base e ajuste conforme desempenho (ganho de peso, conversão, uniformidade).
| Fase (referência) | Peso do peixe | Proteína bruta típica na ração | Observação prática |
|---|---|---|---|
| Inicial (alevinagem) | ~1 a 10 g | 38–45% | Pellet pequeno, alta frequência; foco em crescimento e sobrevivência. |
| Juvenil | ~10 a 100 g | 32–40% | Transição gradual de pellet e redução de tratos. |
| Crescimento | ~100 a 500 g | 28–34% | Maior consumo total; atenção ao desperdício. |
| Engorda/terminação | >500 g | 24–30% | Eficiência econômica: proteína “a mais” encarece sem retorno proporcional. |
Dica: mudanças de ração (proteína e pellet) devem ser feitas em transição de 3–7 dias, misturando a ração antiga com a nova para reduzir rejeição e variações bruscas de consumo.
Tamanho do pellet: como acertar sem complicação
O pellet precisa caber na boca do peixe e ser consumido rapidamente. Pellet grande demais aumenta sobras; pequeno demais pode elevar perda por dispersão e dificultar o peixe maior “pegar” o alimento com eficiência.
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| Peso do peixe (referência) | Tamanho do pellet (mm) | Aplicação prática |
|---|---|---|
| 1–5 g | 0,8–1,5 | Tratos curtos e frequentes; evitar correnteza/vento forte. |
| 5–20 g | 1,5–2,5 | Boa fase para padronizar lote e reduzir competição. |
| 20–100 g | 2,5–4,0 | Observar se há “cuspir” pellet (sinal de pellet grande ou ração ruim). |
| 100–300 g | 4,0–6,0 | Tratos mais concentrados; monitorar sobras. |
| >300 g | 6,0–8,0 | Engorda; foco em eficiência e uniformidade. |
Teste rápido: se muitos pellets ficam boiando sem ataque por mais de 3–5 minutos (ração flutuante), reduza o tamanho do pellet ou diminua a oferta por trato.
Frequência de trato: quantas vezes por dia?
A frequência depende do tamanho do peixe, temperatura e capacidade de manejo. Em geral, peixes pequenos comem melhor em mais parcelas; peixes maiores aceitam menos tratos com maior volume por trato.
| Fase | Frequência sugerida | Janela prática |
|---|---|---|
| Inicial | 4–8 tratos/dia | Distribuir ao longo do dia; evitar grandes volumes por trato. |
| Juvenil | 3–5 tratos/dia | Manter horários regulares; observar dominância. |
| Crescimento | 2–4 tratos/dia | Concentrar nos horários de maior apetite (geralmente manhã e tarde). |
| Engorda | 1–3 tratos/dia | Tratos mais “cirúrgicos”: oferecer e parar no ponto. |
Como calcular a quantidade diária: biomassa x taxa de arraçoamento
Passo 1: estimar a biomassa (kg)
Biomassa é o peso total de peixes no viveiro/tanque. Você estima por amostragem:
- Pese uma amostra representativa (ex.: 50–100 peixes), calcule o peso médio.
- Multiplique pelo número estimado de peixes (descontando mortalidade).
Biomassa (kg) = (Peso médio (g) × Nº de peixes) ÷ 1000Passo 2: definir a taxa de arraçoamento (% da biomassa/dia)
A taxa diária (% da biomassa) varia com tamanho e temperatura. Use como ponto de partida uma tabela prática e ajuste pela observação do consumo e desempenho.
| Peso do peixe | Taxa em água “fria” | Taxa em água “morna” | Taxa em água “quente” |
|---|---|---|---|
| 5–20 g | 2,0–3,0% | 3,0–5,0% | 4,0–6,0% |
| 20–100 g | 1,5–2,5% | 2,5–4,0% | 3,0–5,0% |
| 100–300 g | 1,0–2,0% | 2,0–3,0% | 2,5–4,0% |
| 300–800 g | 0,8–1,5% | 1,5–2,5% | 2,0–3,0% |
| >800 g | 0,5–1,0% | 1,0–2,0% | 1,5–2,5% |
Como interpretar “fria/morna/quente”: em termos práticos, quanto mais fria a água, menor o apetite e o metabolismo; quanto mais quente (dentro da faixa segura da espécie), maior o consumo. Se a temperatura cair de um dia para o outro, reduza a taxa e reavalie no trato seguinte.
Passo 3: calcular a ração do dia (kg/dia)
Ração diária (kg) = Biomassa (kg) × Taxa de arraçoamento (%) ÷ 100Passo 4: dividir em tratos
Divida a ração diária pelo número de tratos e ajuste “no olho treinado” (principalmente com ração flutuante): se o consumo desacelerar, pare e anote para corrigir a taxa no dia seguinte.
Exemplos práticos de cálculo (com ajuste por temperatura)
Exemplo 1: juvenis em fase de crescimento
Cenário: 8.000 peixes com peso médio de 80 g. Água em condição “morna”. Frequência: 3 tratos/dia.
- Biomassa: (80 × 8.000) ÷ 1000 = 640 kg
- Taxa (20–100 g, morna): use 3,0% (ponto médio)
- Ração diária: 640 × 3,0% = 19,2 kg/dia
- Por trato (3x): 19,2 ÷ 3 = 6,4 kg por trato
Ajuste fino: se sobrar ração visível após 5 minutos (extrusada flutuante), reduza 5–10% no trato seguinte. Se o consumo for muito rápido e agressivo, aumente 5% e observe novamente.
Exemplo 2: engorda com queda de temperatura
Cenário: biomassa estimada de 2.500 kg, peixes >500 g. Ontem a água estava “quente” e hoje amanheceu “fria”. Frequência: 2 tratos/dia.
- Taxa ontem (300–800 g, quente): 2,5%
- Ração ontem: 2.500 × 2,5% = 62,5 kg/dia
- Taxa hoje (300–800 g, fria): comece com 1,2%
- Ração hoje: 2.500 × 1,2% = 30,0 kg/dia
- Por trato (2x): 15,0 kg por trato
Por que reduzir tanto? Em água mais fria, o peixe reduz o apetite; manter a taxa alta vira sobra no fundo e piora a água. Se ao meio do dia a temperatura subir e o consumo estiver forte, você pode recuperar parte (ex.: +10–15%) no segundo trato.
Boas práticas para reduzir desperdício (e melhorar a conversão)
1) Defina pontos de arraçoamento
- Use 2 a 4 pontos fixos por viveiro (dependendo do tamanho) para criar rotina de alimentação.
- Evite jogar ração onde o vento acumula espuma/ração; prefira a margem de melhor acesso e observação.
- Em viveiros maiores, caminhe distribuindo em “faixas” para reduzir dominância (peixes maiores monopolizando).
2) Observe o consumo e use o “tempo de resposta”
- Com ração flutuante, trabalhe com a regra prática: ofereça em pequenas porções e espere o ataque.
- Se o peixe demora a subir ou “belisca” e para, interrompa e reavalie (temperatura, oxigenação, qualidade da ração, saúde do lote).
- Se o consumo é muito rápido, aumente gradualmente, mas sem “encher” a água de pellets.
3) Bandejas/comedouros (quando aplicável)
Em sistemas que permitem (tanques, raceways, viveiros com manejo mais intensivo), bandejas/comedouros ajudam a medir sobras:
- Coloque a bandeja em local de fácil inspeção.
- Ofereça uma fração do trato na bandeja.
- Após 15–30 minutos, verifique sobras: se houver, reduza a oferta no próximo trato; se não houver e o consumo estiver ativo, mantenha ou ajuste levemente para cima.
Importante: bandejas exigem rotina; se você não vai checar, elas perdem o sentido e podem concentrar resíduos.
4) Padronize horários e registre
- Alimente em horários consistentes para estabilizar comportamento.
- Anote diariamente: biomassa estimada, taxa usada, kg fornecidos, sobras observadas e qualquer mudança (chuva, frio, turbidez).
5) Evite “compensar” jejum com excesso
Se houve um dia de baixo consumo (frio, manejo, estresse), não tente “pagar” no dia seguinte dobrando ração. Retome gradualmente conforme o apetite voltar.
Armazenamento correto da ração (evitar rancificação e fungos)
O que estraga a ração
- Calor: acelera oxidação de gorduras (rancificação).
- Umidade: favorece fungos e empedramento.
- Tempo: vitaminas e gorduras degradam com o armazenamento prolongado.
- Pragas: roedores e insetos contaminam e perfuram sacos.
Boas práticas de estocagem (passo a passo)
- Local: ambiente coberto, ventilado, seco e sem incidência direta de sol.
- Paletização: mantenha sacos sobre pallets/estrados, afastados do piso e da parede (reduz umidade e facilita inspeção).
- Organização: use método PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai). Identifique data de compra e lote.
- Embalagem: mantenha sacos fechados; após abrir, feche bem (abraçadeira/selagem) e evite deixar “boca aberta”.
- Quantidade: compre volumes compatíveis com o giro; evite estocar por longos períodos, principalmente em épocas quentes.
- Inspeção: antes de usar, verifique cheiro (ranço), presença de pó excessivo, grumos, mofo ou insetos. Se houver sinais fortes de deterioração, não utilize.
Manuseio no dia a dia
- Não deixe sacos abertos na beira do viveiro expostos ao sol/chuva.
- Use recipientes limpos e secos para transportar ração; evite baldes com resíduos úmidos.
- Evite misturar ração nova com ração velha úmida ou empedrada.
Checklist rápido de arraçoamento eficiente
- Ração adequada à fase (proteína) e pellet compatível com o tamanho do peixe.
- Taxa diária calculada por biomassa e ajustada pela temperatura e consumo.
- Tratos fracionados conforme fase, com observação ativa.
- Pontos de arraçoamento definidos e rotina de registros.
- Armazenamento seco, ventilado, sem sol, com PEPS e inspeção frequente.