Por que a compra, o transporte e a aclimatação definem o sucesso do lote
Alevinos são organismos sensíveis: pequenas falhas na escolha do fornecedor, no transporte ou na aclimatação podem gerar mortalidade imediata, queda de crescimento, surtos sanitários e desuniformidade do plantel. Na prática, o objetivo desta etapa é receber um lote com boa qualidade biológica e sanitária, transportar com mínimo estresse e fazer uma transição gradual para a água do seu sistema, reduzindo choque térmico e osmótico (pH) e evitando introdução de patógenos.
Escolha do fornecedor: o que avaliar antes de comprar
Critérios de seleção do fornecedor
- Regularidade e rastreabilidade: fornecedor que informa espécie/linhagem, idade/tamanho, origem dos reprodutores e histórico do lote.
- Padronização de lotes: capacidade de entregar alevinos uniformes (tamanho e peso próximos) e com contagem confiável.
- Condições de produção e manejo: viveiros/berçários bem manejados, densidades adequadas, alimentação e classificação por tamanho (grading).
- Reputação técnica: indicações de outros produtores, taxa de sobrevivência relatada, suporte pós-venda.
- Logística: experiência em transporte para sua região, disponibilidade de oxigênio, embalagens adequadas e horários compatíveis (evitar calor).
Informações sanitárias e de origem que você deve exigir
Peça por escrito (mensagem, nota, ficha do lote) e guarde:
- Origem do lote: data de desova/larvicultura, fase atual (alevino/juvenil), tamanho médio (cm) e/ou peso médio (g).
- Histórico sanitário: ocorrência recente de mortalidade, tratamentos realizados (produto, dose, data), e se houve sinais de parasitas/bactérias.
- Procedimentos de vacinação (quando aplicável à espécie e ao sistema do fornecedor).
- Declaração de boas práticas e, quando disponível, laudos/atestados sanitários emitidos por responsável técnico.
Se o fornecedor não consegue informar o básico (tamanho, idade, tratamentos recentes e origem), trate como sinal de risco: lote pode vir estressado, com histórico de doença ou com grande variação de tamanho.
Como avaliar a qualidade do lote (na origem e no recebimento)
Uniformidade
Uniformidade reduz competição e canibalismo (em espécies com esse comportamento) e facilita o manejo alimentar. Avalie visualmente se a maioria dos peixes tem tamanho semelhante. Um lote muito “misturado” tende a gerar dominância: poucos crescem muito e muitos ficam para trás.
Teste rápido: observe 30–50 indivíduos em um recipiente claro. Se você percebe “dois ou três tamanhos” bem distintos, peça classificação por tamanho ou renegocie.
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Vigor
Alevinos vigorosos nadam ativamente, mantêm equilíbrio, reagem a estímulos (sombra/movimento) e não ficam boquejando na superfície. Vigor baixo costuma indicar estresse por má água, jejum prolongado, transporte inadequado ou doença.
Ausência de lesões e sinais de doença
Inspecione amostras:
- Pele e escamas: sem áreas avermelhadas, feridas, descamação excessiva ou muco em excesso.
- Nadadeiras: sem desfiamento, erosão ou bordas esbranquiçadas.
- Olhos: sem opacidade, sem exoftalmia (olho saltado).
- Brânquias: coloração vermelho-vivo (não pálida nem marrom), sem excesso de muco.
- Comportamento: sem nado errático, sem “rodopiar”, sem ficar isolado no canto.
Se houver mortalidade no saco/caixa, odor forte, água muito turva ou peixes boquejando, interrompa o processo e avalie com o fornecedor antes de soltar.
Transporte: boas práticas para chegar com o lote vivo e forte
Princípios do transporte bem-feito
- Oxigênio suficiente: o consumo de O2 aumenta com temperatura e estresse.
- Temperatura estável: calor acelera metabolismo e reduz oxigênio dissolvido; frio excessivo também estressa.
- Baixa produção de amônia: jejum pré-transporte e densidade adequada reduzem excreção e toxicidade.
- Menos vibração e luz: reduz estresse e choques físicos.
Jejum pré-transporte (combinar com o fornecedor)
O jejum reduz fezes e amônia durante o transporte. Combine com o fornecedor um período de jejum adequado ao tamanho e à espécie. Como regra prática operacional, alevinos devem viajar com o trato digestivo “limpo”, sem chegar debilitados por jejum excessivo.
Embalagens e oxigenação
Os formatos mais comuns são sacos plásticos com oxigênio e caixas isotérmicas, ou caixas/tanques com aeração/oxigenação. Para sacos:
- Use saco duplo (ou triplo) para reduzir risco de vazamento.
- Oxigênio puro no espaço acima da água (não apenas ar ambiente).
- Caixa térmica para proteger do sol e manter temperatura.
- Evite agitação (sacos bem acomodados, sem “rolar”).
Densidade no transporte: como decidir sem “chutar”
A densidade segura depende de: tamanho do alevino, tempo de viagem, temperatura e nível de oxigenação. Em vez de memorizar um número único, use esta lógica prática:
- Quanto maior o peixe → menor densidade por litro.
- Quanto maior o tempo de viagem → menor densidade.
- Quanto mais quente → menor densidade.
- Se for só ar (sem O2 puro) → densidade deve ser muito menor (evite).
Procedimento recomendado: peça ao fornecedor a densidade usada (nº de peixes por saco/caixa e volume de água) e compare com o tempo de transporte até sua propriedade. Se a viagem for mais longa do que o padrão do fornecedor, solicite redução de densidade e reforço de oxigênio/isolamento térmico.
Controle de temperatura durante o trajeto
- Carregue e descarregue na sombra e com rapidez.
- Evite horários quentes (prefira manhã cedo ou fim de tarde).
- Não deixe no veículo fechado ao sol; a temperatura interna sobe rapidamente.
- Use caixas térmicas e, se necessário, elementos refrigerantes protegidos (sem contato direto com o saco para não criar “pontos frios”).
Aclimatação: como soltar sem choque térmico e de pH
Conceito: o que é aclimatar
Aclimatação é a transição gradual do alevino da água do transporte para a água do seu viveiro/tanque. O objetivo é evitar choque por diferença de temperatura e por diferença de pH (além de outras diferenças químicas). Choques podem causar mortalidade rápida ou estresse que abre porta para doenças nos dias seguintes.
Passo a passo prático de aclimatação térmica
- Prepare o local: escolha um ponto sombreado e calmo, com acesso fácil ao viveiro/tanque.
- Meça a temperatura da água do viveiro e, se possível, a do saco/caixa (termômetro simples).
- Flutue os sacos na água do viveiro/tanque (sem abrir) para equalizar temperatura.
- Tempo típico: aguarde até reduzir a diferença térmica a um nível seguro. Na prática, quanto maior a diferença, mais tempo você deve dar. Evite “soltar direto” quando a diferença é perceptível ao toque.
Passo a passo prático de aclimatação de pH (e química da água)
Depois de equalizar a temperatura, faça a adaptação gradual da água:
- Abra o saco com cuidado, mantendo-o estável (evite derramar).
- Adicione água do viveiro aos poucos no saco/recipiente, em pequenas porções, aguardando alguns minutos entre adições.
- Repita o processo até que o volume no saco aumente significativamente e os peixes estejam mais adaptados.
- Solte os peixes com rede ou inclinando o saco, evitando despejar toda a água do transporte no viveiro (reduz risco sanitário).
Dica prática: se você tem medidor de pH, compare pH do saco e do viveiro. Quanto maior a diferença, mais lenta deve ser a adaptação. Se não tiver medidor, faça a adaptação sempre de forma gradual e evite pressa.
Cuidados críticos durante a aclimatação
- Evite exposição ao sol (a água do saco aquece rápido).
- Evite agitação e manuseio excessivo.
- Não alimente imediatamente após a soltura; primeiro deixe o lote estabilizar.
- Não misture lotes de origens diferentes no mesmo momento sem quarentena (risco sanitário e de desuniformidade).
Quarentena: reduzindo risco sanitário antes de misturar com o plantel
Quando fazer quarentena
Quarentena é recomendada sempre que possível, especialmente quando:
- o fornecedor é novo ou sem histórico com você;
- o lote veio de longa distância;
- há sinais leves de estresse (mesmo sem mortalidade);
- você já tem peixes na propriedade e quer evitar introdução de patógenos.
Como montar uma quarentena simples (na prática)
- Unidade separada: tanque/caixa/viveiro pequeno exclusivo, com equipamentos dedicados (rede, balde, mangueira) para não cruzar contaminação.
- Observação diária: comportamento, apetite, mortalidade, lesões.
- Baixa densidade e boa oxigenação: quarentena não é para “apertar peixe”, é para observar com segurança.
- Registro: anote data de chegada, fornecedor, quantidade, mortalidade diária e qualquer sinal clínico.
Se aparecerem sinais consistentes de doença (mortalidade crescente, feridas, nado anormal), interrompa a movimentação do lote e busque orientação técnica antes de transferir para o viveiro principal.
Primeiros dias de manejo: reduzindo estresse e melhorando sobrevivência
Rotina dos 3 primeiros dias (prática e segura)
- Dia 0 (soltura): manter ambiente calmo; evitar manejo; observar respiração e nado; checar se há boquejamento na superfície.
- Dia 1: observar no início da manhã e no fim da tarde; remover eventuais mortos rapidamente; se tudo estiver normal, iniciar alimentação leve (pequenas porções) e observar resposta.
- Dia 2–3: ajustar alimentação gradualmente conforme apetite; observar uniformidade (se há muitos “atrasados”); manter atenção a sinais de parasitas (coçar no fundo/lateral, saltos, excesso de muco).
Como alimentar sem piorar a água e o estresse
Nos primeiros dias, o erro comum é superalimentar para “fazer pegar rápido”. Faça o oposto: ofereça pouco, observe consumo e aumente aos poucos. Ração sobrando aumenta matéria orgânica e pode derrubar oxigênio, justamente quando o lote está mais sensível.
Checklist de recebimento do lote (use no dia da entrega)
| Item | O que verificar | Ação se estiver fora do padrão |
|---|---|---|
| Documentos e origem | Espécie/linhagem, tamanho médio, data do lote, tratamentos recentes | Registrar e pedir correção/explicação antes de soltar |
| Condição do transporte | Sacos íntegros, oxigênio presente, água sem odor forte, temperatura estável | Separar sacos críticos, acelerar aclimatação com cuidado, acionar fornecedor |
| Mortalidade no transporte | Presença de mortos no saco/caixa | Contar, fotografar, registrar e negociar reposição; avaliar risco sanitário |
| Uniformidade | Tamanho semelhante na amostra | Pedir classificação por tamanho ou planejar separação por classes |
| Vigor | Nado ativo, equilíbrio, resposta a estímulos | Reduzir estresse (sombra, silêncio), reforçar oxigenação, considerar quarentena |
| Lesões e sinais clínicos | Feridas, nadadeiras desfiadas, muco excessivo, brânquias alteradas | Não misturar com outros peixes; colocar em quarentena e buscar orientação técnica |
| Parâmetros básicos | Temperatura e, se possível, pH do saco e do viveiro | Fazer aclimatação mais lenta; evitar soltura direta |
| Contagem/quantidade | Quantidade entregue vs. nota/pedido | Registrar divergência imediatamente |
Rotina de observação pós-soltura (7 dias)
O que observar duas vezes ao dia
- Superfície: boquejamento, peixes “parados” ou agrupados em excesso.
- Bordas e cantos: indivíduos isolados, fracos ou com nado irregular.
- Corpo: manchas, vermelhidão, muco, nadadeiras fechadas.
- Consumo de ração: demora para iniciar, sobras, disputa excessiva.
- Mortalidade: número diário e padrão (aumentando ou diminuindo).
Registro simples (modelo)
Data: __/__/__ Lote: ______ Fornecedor: ______ Quantidade: ______ Tamanho médio: ______ Origem: ______
Manhã: comportamento (ok/alerta): ____ mortalidade: ____ consumo: ____ observações: ____
Tarde: comportamento (ok/alerta): ____ mortalidade: ____ consumo: ____ observações: ____
Ações tomadas: ____Sinais de alerta que exigem ação imediata
- Mortalidade diária crescente por 2 dias seguidos.
- Boquejamento generalizado na superfície.
- Nado errático, perda de equilíbrio, muitos peixes isolados.
- Lesões visíveis se espalhando (feridas, nadadeiras necrosadas).
Nesses casos, priorize: reduzir estresse (menos manejo), reforçar oxigenação e isolar o lote (não transferir, não misturar), além de buscar suporte técnico com base nos registros e fotos.