Piscicultura na prática: compra de alevinos, transporte e aclimatação

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que a compra, o transporte e a aclimatação definem o sucesso do lote

Alevinos são organismos sensíveis: pequenas falhas na escolha do fornecedor, no transporte ou na aclimatação podem gerar mortalidade imediata, queda de crescimento, surtos sanitários e desuniformidade do plantel. Na prática, o objetivo desta etapa é receber um lote com boa qualidade biológica e sanitária, transportar com mínimo estresse e fazer uma transição gradual para a água do seu sistema, reduzindo choque térmico e osmótico (pH) e evitando introdução de patógenos.

Escolha do fornecedor: o que avaliar antes de comprar

Critérios de seleção do fornecedor

  • Regularidade e rastreabilidade: fornecedor que informa espécie/linhagem, idade/tamanho, origem dos reprodutores e histórico do lote.
  • Padronização de lotes: capacidade de entregar alevinos uniformes (tamanho e peso próximos) e com contagem confiável.
  • Condições de produção e manejo: viveiros/berçários bem manejados, densidades adequadas, alimentação e classificação por tamanho (grading).
  • Reputação técnica: indicações de outros produtores, taxa de sobrevivência relatada, suporte pós-venda.
  • Logística: experiência em transporte para sua região, disponibilidade de oxigênio, embalagens adequadas e horários compatíveis (evitar calor).

Informações sanitárias e de origem que você deve exigir

Peça por escrito (mensagem, nota, ficha do lote) e guarde:

  • Origem do lote: data de desova/larvicultura, fase atual (alevino/juvenil), tamanho médio (cm) e/ou peso médio (g).
  • Histórico sanitário: ocorrência recente de mortalidade, tratamentos realizados (produto, dose, data), e se houve sinais de parasitas/bactérias.
  • Procedimentos de vacinação (quando aplicável à espécie e ao sistema do fornecedor).
  • Declaração de boas práticas e, quando disponível, laudos/atestados sanitários emitidos por responsável técnico.

Se o fornecedor não consegue informar o básico (tamanho, idade, tratamentos recentes e origem), trate como sinal de risco: lote pode vir estressado, com histórico de doença ou com grande variação de tamanho.

Como avaliar a qualidade do lote (na origem e no recebimento)

Uniformidade

Uniformidade reduz competição e canibalismo (em espécies com esse comportamento) e facilita o manejo alimentar. Avalie visualmente se a maioria dos peixes tem tamanho semelhante. Um lote muito “misturado” tende a gerar dominância: poucos crescem muito e muitos ficam para trás.

Teste rápido: observe 30–50 indivíduos em um recipiente claro. Se você percebe “dois ou três tamanhos” bem distintos, peça classificação por tamanho ou renegocie.

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Vigor

Alevinos vigorosos nadam ativamente, mantêm equilíbrio, reagem a estímulos (sombra/movimento) e não ficam boquejando na superfície. Vigor baixo costuma indicar estresse por má água, jejum prolongado, transporte inadequado ou doença.

Ausência de lesões e sinais de doença

Inspecione amostras:

  • Pele e escamas: sem áreas avermelhadas, feridas, descamação excessiva ou muco em excesso.
  • Nadadeiras: sem desfiamento, erosão ou bordas esbranquiçadas.
  • Olhos: sem opacidade, sem exoftalmia (olho saltado).
  • Brânquias: coloração vermelho-vivo (não pálida nem marrom), sem excesso de muco.
  • Comportamento: sem nado errático, sem “rodopiar”, sem ficar isolado no canto.

Se houver mortalidade no saco/caixa, odor forte, água muito turva ou peixes boquejando, interrompa o processo e avalie com o fornecedor antes de soltar.

Transporte: boas práticas para chegar com o lote vivo e forte

Princípios do transporte bem-feito

  • Oxigênio suficiente: o consumo de O2 aumenta com temperatura e estresse.
  • Temperatura estável: calor acelera metabolismo e reduz oxigênio dissolvido; frio excessivo também estressa.
  • Baixa produção de amônia: jejum pré-transporte e densidade adequada reduzem excreção e toxicidade.
  • Menos vibração e luz: reduz estresse e choques físicos.

Jejum pré-transporte (combinar com o fornecedor)

O jejum reduz fezes e amônia durante o transporte. Combine com o fornecedor um período de jejum adequado ao tamanho e à espécie. Como regra prática operacional, alevinos devem viajar com o trato digestivo “limpo”, sem chegar debilitados por jejum excessivo.

Embalagens e oxigenação

Os formatos mais comuns são sacos plásticos com oxigênio e caixas isotérmicas, ou caixas/tanques com aeração/oxigenação. Para sacos:

  • Use saco duplo (ou triplo) para reduzir risco de vazamento.
  • Oxigênio puro no espaço acima da água (não apenas ar ambiente).
  • Caixa térmica para proteger do sol e manter temperatura.
  • Evite agitação (sacos bem acomodados, sem “rolar”).

Densidade no transporte: como decidir sem “chutar”

A densidade segura depende de: tamanho do alevino, tempo de viagem, temperatura e nível de oxigenação. Em vez de memorizar um número único, use esta lógica prática:

  • Quanto maior o peixe → menor densidade por litro.
  • Quanto maior o tempo de viagem → menor densidade.
  • Quanto mais quente → menor densidade.
  • Se for só ar (sem O2 puro) → densidade deve ser muito menor (evite).

Procedimento recomendado: peça ao fornecedor a densidade usada (nº de peixes por saco/caixa e volume de água) e compare com o tempo de transporte até sua propriedade. Se a viagem for mais longa do que o padrão do fornecedor, solicite redução de densidade e reforço de oxigênio/isolamento térmico.

Controle de temperatura durante o trajeto

  • Carregue e descarregue na sombra e com rapidez.
  • Evite horários quentes (prefira manhã cedo ou fim de tarde).
  • Não deixe no veículo fechado ao sol; a temperatura interna sobe rapidamente.
  • Use caixas térmicas e, se necessário, elementos refrigerantes protegidos (sem contato direto com o saco para não criar “pontos frios”).

Aclimatação: como soltar sem choque térmico e de pH

Conceito: o que é aclimatar

Aclimatação é a transição gradual do alevino da água do transporte para a água do seu viveiro/tanque. O objetivo é evitar choque por diferença de temperatura e por diferença de pH (além de outras diferenças químicas). Choques podem causar mortalidade rápida ou estresse que abre porta para doenças nos dias seguintes.

Passo a passo prático de aclimatação térmica

  1. Prepare o local: escolha um ponto sombreado e calmo, com acesso fácil ao viveiro/tanque.
  2. Meça a temperatura da água do viveiro e, se possível, a do saco/caixa (termômetro simples).
  3. Flutue os sacos na água do viveiro/tanque (sem abrir) para equalizar temperatura.
  4. Tempo típico: aguarde até reduzir a diferença térmica a um nível seguro. Na prática, quanto maior a diferença, mais tempo você deve dar. Evite “soltar direto” quando a diferença é perceptível ao toque.

Passo a passo prático de aclimatação de pH (e química da água)

Depois de equalizar a temperatura, faça a adaptação gradual da água:

  1. Abra o saco com cuidado, mantendo-o estável (evite derramar).
  2. Adicione água do viveiro aos poucos no saco/recipiente, em pequenas porções, aguardando alguns minutos entre adições.
  3. Repita o processo até que o volume no saco aumente significativamente e os peixes estejam mais adaptados.
  4. Solte os peixes com rede ou inclinando o saco, evitando despejar toda a água do transporte no viveiro (reduz risco sanitário).

Dica prática: se você tem medidor de pH, compare pH do saco e do viveiro. Quanto maior a diferença, mais lenta deve ser a adaptação. Se não tiver medidor, faça a adaptação sempre de forma gradual e evite pressa.

Cuidados críticos durante a aclimatação

  • Evite exposição ao sol (a água do saco aquece rápido).
  • Evite agitação e manuseio excessivo.
  • Não alimente imediatamente após a soltura; primeiro deixe o lote estabilizar.
  • Não misture lotes de origens diferentes no mesmo momento sem quarentena (risco sanitário e de desuniformidade).

Quarentena: reduzindo risco sanitário antes de misturar com o plantel

Quando fazer quarentena

Quarentena é recomendada sempre que possível, especialmente quando:

  • o fornecedor é novo ou sem histórico com você;
  • o lote veio de longa distância;
  • há sinais leves de estresse (mesmo sem mortalidade);
  • você já tem peixes na propriedade e quer evitar introdução de patógenos.

Como montar uma quarentena simples (na prática)

  • Unidade separada: tanque/caixa/viveiro pequeno exclusivo, com equipamentos dedicados (rede, balde, mangueira) para não cruzar contaminação.
  • Observação diária: comportamento, apetite, mortalidade, lesões.
  • Baixa densidade e boa oxigenação: quarentena não é para “apertar peixe”, é para observar com segurança.
  • Registro: anote data de chegada, fornecedor, quantidade, mortalidade diária e qualquer sinal clínico.

Se aparecerem sinais consistentes de doença (mortalidade crescente, feridas, nado anormal), interrompa a movimentação do lote e busque orientação técnica antes de transferir para o viveiro principal.

Primeiros dias de manejo: reduzindo estresse e melhorando sobrevivência

Rotina dos 3 primeiros dias (prática e segura)

  • Dia 0 (soltura): manter ambiente calmo; evitar manejo; observar respiração e nado; checar se há boquejamento na superfície.
  • Dia 1: observar no início da manhã e no fim da tarde; remover eventuais mortos rapidamente; se tudo estiver normal, iniciar alimentação leve (pequenas porções) e observar resposta.
  • Dia 2–3: ajustar alimentação gradualmente conforme apetite; observar uniformidade (se há muitos “atrasados”); manter atenção a sinais de parasitas (coçar no fundo/lateral, saltos, excesso de muco).

Como alimentar sem piorar a água e o estresse

Nos primeiros dias, o erro comum é superalimentar para “fazer pegar rápido”. Faça o oposto: ofereça pouco, observe consumo e aumente aos poucos. Ração sobrando aumenta matéria orgânica e pode derrubar oxigênio, justamente quando o lote está mais sensível.

Checklist de recebimento do lote (use no dia da entrega)

ItemO que verificarAção se estiver fora do padrão
Documentos e origemEspécie/linhagem, tamanho médio, data do lote, tratamentos recentesRegistrar e pedir correção/explicação antes de soltar
Condição do transporteSacos íntegros, oxigênio presente, água sem odor forte, temperatura estávelSeparar sacos críticos, acelerar aclimatação com cuidado, acionar fornecedor
Mortalidade no transportePresença de mortos no saco/caixaContar, fotografar, registrar e negociar reposição; avaliar risco sanitário
UniformidadeTamanho semelhante na amostraPedir classificação por tamanho ou planejar separação por classes
VigorNado ativo, equilíbrio, resposta a estímulosReduzir estresse (sombra, silêncio), reforçar oxigenação, considerar quarentena
Lesões e sinais clínicosFeridas, nadadeiras desfiadas, muco excessivo, brânquias alteradasNão misturar com outros peixes; colocar em quarentena e buscar orientação técnica
Parâmetros básicosTemperatura e, se possível, pH do saco e do viveiroFazer aclimatação mais lenta; evitar soltura direta
Contagem/quantidadeQuantidade entregue vs. nota/pedidoRegistrar divergência imediatamente

Rotina de observação pós-soltura (7 dias)

O que observar duas vezes ao dia

  • Superfície: boquejamento, peixes “parados” ou agrupados em excesso.
  • Bordas e cantos: indivíduos isolados, fracos ou com nado irregular.
  • Corpo: manchas, vermelhidão, muco, nadadeiras fechadas.
  • Consumo de ração: demora para iniciar, sobras, disputa excessiva.
  • Mortalidade: número diário e padrão (aumentando ou diminuindo).

Registro simples (modelo)

Data: __/__/__  Lote: ______  Fornecedor: ______  Quantidade: ______  Tamanho médio: ______  Origem: ______
Manhã: comportamento (ok/alerta): ____  mortalidade: ____  consumo: ____  observações: ____
Tarde: comportamento (ok/alerta): ____  mortalidade: ____  consumo: ____  observações: ____
Ações tomadas: ____

Sinais de alerta que exigem ação imediata

  • Mortalidade diária crescente por 2 dias seguidos.
  • Boquejamento generalizado na superfície.
  • Nado errático, perda de equilíbrio, muitos peixes isolados.
  • Lesões visíveis se espalhando (feridas, nadadeiras necrosadas).

Nesses casos, priorize: reduzir estresse (menos manejo), reforçar oxigenação e isolar o lote (não transferir, não misturar), além de buscar suporte técnico com base nos registros e fotos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao receber alevinos, qual procedimento reduz o risco de choque térmico e de pH e ainda diminui a chance de introduzir patógenos no viveiro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A aclimatação deve ser gradual: primeiro equaliza a temperatura e depois ajusta o pH/química adicionando água do viveiro aos poucos. Ao soltar sem despejar a água do transporte, reduz-se o risco de levar contaminantes ao sistema.

Próximo capitúlo

Piscicultura na prática: densidade de estocagem e manejo por fases

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