Por que pesquisar antes de entrevistar
A pesquisa prévia é o processo de coletar, checar e organizar informações sobre o entrevistado e sobre o tema para formular perguntas precisas, identificar pontos verificáveis e evitar que a entrevista seja guiada por versões incompletas. Ela serve para: (1) entender o contexto e o vocabulário do assunto; (2) mapear o que já foi dito e o que ainda não foi explicado; (3) detectar controvérsias e inconsistências; (4) preparar checagens em tempo real e pós-entrevista; (5) construir um dossiê que sustente a apuração e o uso responsável de citações.
O que pesquisar: entrevistado e assunto
1) Biografia funcional (o que importa para a pauta)
Em vez de uma biografia extensa, construa uma biografia funcional: cargos, períodos, responsabilidades, vínculos institucionais, áreas de decisão e eventos relevantes para o tema. O objetivo é saber “o que essa pessoa pode afirmar com autoridade” e “o que ela pode estar tentando proteger”.
- Cargos e mandatos: datas de início/fim, atribuições formais, organograma.
- Vínculos e interesses: conselhos, sociedades, doações, consultorias, relações familiares relevantes (apenas quando houver pertinência pública e evidência documental).
- Histórico de atuação: projetos, votações, decisões, contratos assinados, metas anunciadas.
2) Posições públicas e histórico de declarações
Mapeie o que o entrevistado já afirmou sobre o tema e como isso evoluiu. Isso permite perguntas de precisão (“em tal data o senhor disse X; hoje sustenta Y?”) e evita perguntas que já foram respondidas publicamente.
- Entrevistas anteriores (texto/áudio/vídeo): destaque frases, números, promessas, justificativas.
- Discursos, audiências e sessões oficiais: registre trechos e contexto (pergunta original, audiência, data).
- Redes sociais e comunicados: trate como material de posicionamento, não como prova final; guarde links e capturas com data.
3) Dados oficiais, documentos e registros
Priorize fontes primárias e rastreáveis. Para temas sensíveis, a entrevista deve ser ancorada em documentos e dados que possam ser citados e verificados.
- Dados oficiais: séries históricas, bases públicas, painéis de transparência, boletins, indicadores.
- Documentos: contratos, aditivos, termos de referência, atas, pareceres, notas técnicas, relatórios de auditoria.
- Processos: ações judiciais, inquéritos, processos administrativos, decisões e despachos (com número, instância e andamento).
- Material de arquivo: reportagens anteriores, fotos, gravações, documentos antigos, publicações institucionais.
Passo a passo prático: coleta e organização da pesquisa
Passo 1 — Defina o escopo do dossiê (em 10 minutos)
Antes de abrir dezenas de abas, escreva um escopo operacional com três listas curtas:
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- O que preciso saber: fatos, números, decisões, cronologia.
- O que preciso confirmar: pontos contestados, versões divergentes, dados incompletos.
- O que preciso perguntar: lacunas, justificativas, critérios, responsabilidades.
Passo 2 — Faça um inventário de fontes (com hierarquia)
Monte uma lista de fontes por prioridade, separando primárias e secundárias. Uma hierarquia simples ajuda a não “se apaixonar” por uma narrativa.
| Nível | Tipo de fonte | Uso na entrevista | Cuidados |
|---|---|---|---|
| 1 (preferencial) | Documentos oficiais, decisões, bases públicas, registros | Base para perguntas factuais e checagens | Verificar data, autoria, versão, integridade |
| 2 | Relatórios técnicos, auditorias, pareceres, estudos revisados | Contexto e critérios; comparação com padrões | Checar metodologia, amostra, conflitos de interesse |
| 3 | Declarações públicas, entrevistas anteriores, comunicados | Mapear posições e mudanças; cobrar coerência | Contexto, recortes, edição, intenção |
| 4 | Fontes anônimas, vazamentos, rumores | Pistas para apuração, nunca como prova final | Corroboração independente obrigatória |
Passo 3 — Colete com rastreabilidade (padrão de registro)
Para cada item coletado, registre metadados mínimos. Isso evita perder tempo depois e reduz erros de atribuição.
- O quê: título/descrição do documento ou fala.
- Quem: autor/órgão/porta-voz.
- Quando: data de publicação e, se diferente, data do evento.
- Onde: link, número do processo, repositório, página.
- Trecho-chave: citação exata ou dado relevante.
- Status: confirmado, pendente, contraditório, precisa de contexto.
Modelo rápido (copiar e usar):
ITEM: [nome curto] | TIPO: [documento/dado/depoimento] | STATUS: [confirmado/pendente] | DATA: [dd/mm/aaaa] | FONTE: [link ou referência] | TRECHO/DADO: [...] | OBS: [contexto, dúvidas, próximos passos]Passo 4 — Construa uma linha do tempo (timeline) do caso
A linha do tempo organiza fatos e declarações em sequência, revelando lacunas e mudanças de versão. Inclua eventos, decisões, publicações e falas públicas.
- Eventos: assinatura de contrato, início de obra, mudança de regra, ocorrência crítica.
- Documentos: publicação de edital, relatório, auditoria, decisão judicial.
- Declarações: promessas, justificativas, números citados, negações.
Estrutura recomendada:
DATA | EVENTO | EVIDÊNCIA (doc/link) | QUEM | O QUE FOI DITO/DECIDIDO | PONTO A VERIFICARPasso 5 — Faça um mapa de controvérsias, lacunas e verificações
Transforme a pesquisa em um quadro de apuração. A ideia é separar “o que é consenso” do que é “disputado” e do que é “desconhecido”.
| Tópico | O que se afirma | O que os dados mostram | Lacuna | Como verificar | Pergunta de precisão |
|---|---|---|---|---|---|
| Ex.: custo do projeto | “Custou X” | Contratos somam Y; aditivos somam Z | Itens fora do contrato? | Planilhas, empenhos, notas fiscais, auditoria | “O total inclui aditivos e custos indiretos? Quais rubricas?” |
| Ex.: prazo | “Entregamos no prazo” | Cronograma oficial teve 3 revisões | Motivos das revisões | Atas, termos aditivos, justificativas técnicas | “Qual critério definiu a revisão de dd/mm? Quem aprovou?” |
Passo 6 — Monte um vocabulário do tema (glossário operacional)
Em temas técnicos, termos podem ser usados para confundir ou para simplificar demais. Crie um glossário com definições curtas e fontes de referência, incluindo sinônimos e termos que costumam ser usados de forma ambígua.
- Termo → definição simples → unidade de medida → onde aparece (documento X, página Y).
- Termos “escorregadios”: “estimativa”, “projeção”, “capacidade”, “eficiência”, “economia”, “risco”, “conformidade”.
Exemplo:
“Economia” (no relatório): diferença entre valor estimado e contratado; não inclui custos de operação. Fonte: Relatório A, p. 12.Passo 7 — Liste potenciais contradições e pontos de pressão (com cuidado)
Contradição não é “pegar no erro” por esporte; é identificar divergências relevantes entre fala, documento e resultado. Registre contradições potenciais como hipóteses a testar.
- Entre falas: “disse X em 2023” vs “disse Y em 2025”.
- Fala vs documento: “não houve aditivo” vs aditivo publicado.
- Fala vs dado: “queda” vs série histórica em alta.
- Documento vs documento: relatório técnico diverge de nota oficial.
Para cada contradição, escreva: evidência A, evidência B, o que falta para decidir, e a pergunta que permite esclarecimento sem acusação prematura.
Técnicas de leitura crítica (para não ser guiado pelo material)
Leitura em camadas: do geral ao verificável
- Camada 1 (tese): qual é a afirmação central do texto?
- Camada 2 (evidências): quais dados/documentos sustentam a tese?
- Camada 3 (método): como os dados foram coletados? há recortes?
- Camada 4 (limites): o que o texto não mede, não cobre ou não prova?
Sinais de alerta em documentos e declarações
- Números sem denominador: “aumentou 30%” (30% de quê? em qual período? base comparável?).
- Comparações indevidas: períodos diferentes, métricas diferentes, mudança de metodologia.
- Generalizações: “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém” (peça exemplos e dados).
- Termos vagos: “dentro da legalidade”, “seguimos protocolos” (quais normas? quais protocolos? onde estão?).
- Cherry-picking: seleção de um recorte favorável ignorando a série completa.
Validação de fontes: como checar antes de levar para a entrevista
Triangulação (regra prática)
Antes de tratar algo como base sólida, busque confirmação por pelo menos duas vias independentes, preferencialmente incluindo uma fonte primária.
- Documento + dado oficial
- Documento + registro público (processo, diário oficial, portal)
- Duas fontes técnicas com metodologias compatíveis
Checklist de validação rápida
- Autenticidade: o documento é oficial? tem assinatura, carimbo, número, metadados?
- Atualidade: existe versão mais recente? houve retificação?
- Contexto: o trecho citado depende de parágrafos anteriores? há condicionantes?
- Comparabilidade: a métrica é a mesma ao longo do tempo?
- Interesse: quem se beneficia dessa versão? há conflito declarado?
Como preparar checagens em tempo real
Leve para a entrevista um “kit de checagem” com números e trechos-chave, para evitar depender da memória.
- Uma página com 5–10 números essenciais (com fonte e data).
- 3–5 trechos de documentos que sustentam perguntas.
- 2–3 gráficos simples (se aplicável) para orientar perguntas sobre tendência.
Como transformar pesquisa em perguntas verificáveis
Perguntas ancoradas em evidência
Estrutura útil: evidência → ponto de divergência → pedido de explicação → critério.
Exemplos:
- “No relatório de dd/mm, consta que a meta era 80%. Hoje o painel indica 52%. O que explica a diferença e qual indicador o senhor considera correto?”
- “O contrato prevê entrega em dd/mm, mas houve aditivo em dd/mm alterando o cronograma. Quem solicitou a mudança e qual justificativa técnica foi registrada?”
- “Em 2024, a senhora declarou que ‘não havia risco’. Depois, a auditoria apontou risco alto. Que informação a senhora tinha à época e o que mudou desde então?”
Perguntas para preencher lacunas (sem sugerir resposta)
- “Quais foram os critérios usados para decidir X?”
- “Quem participou da decisão e qual foi o papel de cada área?”
- “Que alternativas foram consideradas e por que foram descartadas?”
- “Qual documento registra essa decisão? Podemos acessá-lo?”
Modelo de dossiê (estrutura pronta para usar)
Organize o material em um dossiê único (arquivo ou pasta) com seções padronizadas. Isso facilita localizar evidências durante a entrevista e reduz risco de erro ao citar.
- 1. Perfil funcional do entrevistado: cargos, períodos, atribuições, vínculos relevantes.
- 2. Linha do tempo: tabela com eventos, documentos e declarações.
- 3. Mapa de controvérsias e verificações: quadro “afirmação vs evidência vs lacuna”.
- 4. Documentos-chave: PDFs/links com resumo de 2–3 linhas e página do trecho importante.
- 5. Dados e séries: planilha com fonte, data de extração e notas de metodologia.
- 6. Glossário: termos técnicos e definições operacionais.
- 7. Contradições potenciais: hipóteses com evidências A/B e perguntas correspondentes.
- 8. Perguntas ancoradas: lista final com referência ao item do dossiê que sustenta cada pergunta.
Exemplo de indexação para perguntas:
[P03] (Timeline T-07 + Doc D-02 p.4) “Em dd/mm, o aditivo 3 alterou o prazo em 120 dias. Qual foi o evento gatilho e quem assinou a justificativa?”Exercício prático (para treinar antes da próxima entrevista)
Exercício: 30 minutos para montar um mini-dossiê
- 10 min: encontre 3 documentos primários (ex.: contrato, relatório, decisão) e registre metadados.
- 10 min: construa uma linha do tempo com 6 entradas (eventos + falas públicas).
- 10 min: escreva 6 perguntas: 2 para lacunas, 2 para controvérsias, 2 para checagem de números (cada uma com referência ao item do dossiê).