Pesquisa do entrevistado e do assunto para entrevistas jornalísticas

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que pesquisar antes de entrevistar

A pesquisa prévia é o processo de coletar, checar e organizar informações sobre o entrevistado e sobre o tema para formular perguntas precisas, identificar pontos verificáveis e evitar que a entrevista seja guiada por versões incompletas. Ela serve para: (1) entender o contexto e o vocabulário do assunto; (2) mapear o que já foi dito e o que ainda não foi explicado; (3) detectar controvérsias e inconsistências; (4) preparar checagens em tempo real e pós-entrevista; (5) construir um dossiê que sustente a apuração e o uso responsável de citações.

O que pesquisar: entrevistado e assunto

1) Biografia funcional (o que importa para a pauta)

Em vez de uma biografia extensa, construa uma biografia funcional: cargos, períodos, responsabilidades, vínculos institucionais, áreas de decisão e eventos relevantes para o tema. O objetivo é saber “o que essa pessoa pode afirmar com autoridade” e “o que ela pode estar tentando proteger”.

  • Cargos e mandatos: datas de início/fim, atribuições formais, organograma.
  • Vínculos e interesses: conselhos, sociedades, doações, consultorias, relações familiares relevantes (apenas quando houver pertinência pública e evidência documental).
  • Histórico de atuação: projetos, votações, decisões, contratos assinados, metas anunciadas.

2) Posições públicas e histórico de declarações

Mapeie o que o entrevistado já afirmou sobre o tema e como isso evoluiu. Isso permite perguntas de precisão (“em tal data o senhor disse X; hoje sustenta Y?”) e evita perguntas que já foram respondidas publicamente.

  • Entrevistas anteriores (texto/áudio/vídeo): destaque frases, números, promessas, justificativas.
  • Discursos, audiências e sessões oficiais: registre trechos e contexto (pergunta original, audiência, data).
  • Redes sociais e comunicados: trate como material de posicionamento, não como prova final; guarde links e capturas com data.

3) Dados oficiais, documentos e registros

Priorize fontes primárias e rastreáveis. Para temas sensíveis, a entrevista deve ser ancorada em documentos e dados que possam ser citados e verificados.

  • Dados oficiais: séries históricas, bases públicas, painéis de transparência, boletins, indicadores.
  • Documentos: contratos, aditivos, termos de referência, atas, pareceres, notas técnicas, relatórios de auditoria.
  • Processos: ações judiciais, inquéritos, processos administrativos, decisões e despachos (com número, instância e andamento).
  • Material de arquivo: reportagens anteriores, fotos, gravações, documentos antigos, publicações institucionais.

Passo a passo prático: coleta e organização da pesquisa

Passo 1 — Defina o escopo do dossiê (em 10 minutos)

Antes de abrir dezenas de abas, escreva um escopo operacional com três listas curtas:

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  • O que preciso saber: fatos, números, decisões, cronologia.
  • O que preciso confirmar: pontos contestados, versões divergentes, dados incompletos.
  • O que preciso perguntar: lacunas, justificativas, critérios, responsabilidades.

Passo 2 — Faça um inventário de fontes (com hierarquia)

Monte uma lista de fontes por prioridade, separando primárias e secundárias. Uma hierarquia simples ajuda a não “se apaixonar” por uma narrativa.

NívelTipo de fonteUso na entrevistaCuidados
1 (preferencial)Documentos oficiais, decisões, bases públicas, registrosBase para perguntas factuais e checagensVerificar data, autoria, versão, integridade
2Relatórios técnicos, auditorias, pareceres, estudos revisadosContexto e critérios; comparação com padrõesChecar metodologia, amostra, conflitos de interesse
3Declarações públicas, entrevistas anteriores, comunicadosMapear posições e mudanças; cobrar coerênciaContexto, recortes, edição, intenção
4Fontes anônimas, vazamentos, rumoresPistas para apuração, nunca como prova finalCorroboração independente obrigatória

Passo 3 — Colete com rastreabilidade (padrão de registro)

Para cada item coletado, registre metadados mínimos. Isso evita perder tempo depois e reduz erros de atribuição.

  • O quê: título/descrição do documento ou fala.
  • Quem: autor/órgão/porta-voz.
  • Quando: data de publicação e, se diferente, data do evento.
  • Onde: link, número do processo, repositório, página.
  • Trecho-chave: citação exata ou dado relevante.
  • Status: confirmado, pendente, contraditório, precisa de contexto.

Modelo rápido (copiar e usar):

ITEM: [nome curto]  | TIPO: [documento/dado/depoimento]  | STATUS: [confirmado/pendente]  | DATA: [dd/mm/aaaa]  | FONTE: [link ou referência]  | TRECHO/DADO: [...]  | OBS: [contexto, dúvidas, próximos passos]

Passo 4 — Construa uma linha do tempo (timeline) do caso

A linha do tempo organiza fatos e declarações em sequência, revelando lacunas e mudanças de versão. Inclua eventos, decisões, publicações e falas públicas.

  • Eventos: assinatura de contrato, início de obra, mudança de regra, ocorrência crítica.
  • Documentos: publicação de edital, relatório, auditoria, decisão judicial.
  • Declarações: promessas, justificativas, números citados, negações.

Estrutura recomendada:

DATA | EVENTO | EVIDÊNCIA (doc/link) | QUEM | O QUE FOI DITO/DECIDIDO | PONTO A VERIFICAR

Passo 5 — Faça um mapa de controvérsias, lacunas e verificações

Transforme a pesquisa em um quadro de apuração. A ideia é separar “o que é consenso” do que é “disputado” e do que é “desconhecido”.

TópicoO que se afirmaO que os dados mostramLacunaComo verificarPergunta de precisão
Ex.: custo do projeto“Custou X”Contratos somam Y; aditivos somam ZItens fora do contrato?Planilhas, empenhos, notas fiscais, auditoria“O total inclui aditivos e custos indiretos? Quais rubricas?”
Ex.: prazo“Entregamos no prazo”Cronograma oficial teve 3 revisõesMotivos das revisõesAtas, termos aditivos, justificativas técnicas“Qual critério definiu a revisão de dd/mm? Quem aprovou?”

Passo 6 — Monte um vocabulário do tema (glossário operacional)

Em temas técnicos, termos podem ser usados para confundir ou para simplificar demais. Crie um glossário com definições curtas e fontes de referência, incluindo sinônimos e termos que costumam ser usados de forma ambígua.

  • Termo → definição simples → unidade de medida → onde aparece (documento X, página Y).
  • Termos “escorregadios”: “estimativa”, “projeção”, “capacidade”, “eficiência”, “economia”, “risco”, “conformidade”.

Exemplo:

“Economia” (no relatório): diferença entre valor estimado e contratado; não inclui custos de operação. Fonte: Relatório A, p. 12.

Passo 7 — Liste potenciais contradições e pontos de pressão (com cuidado)

Contradição não é “pegar no erro” por esporte; é identificar divergências relevantes entre fala, documento e resultado. Registre contradições potenciais como hipóteses a testar.

  • Entre falas: “disse X em 2023” vs “disse Y em 2025”.
  • Fala vs documento: “não houve aditivo” vs aditivo publicado.
  • Fala vs dado: “queda” vs série histórica em alta.
  • Documento vs documento: relatório técnico diverge de nota oficial.

Para cada contradição, escreva: evidência A, evidência B, o que falta para decidir, e a pergunta que permite esclarecimento sem acusação prematura.

Técnicas de leitura crítica (para não ser guiado pelo material)

Leitura em camadas: do geral ao verificável

  • Camada 1 (tese): qual é a afirmação central do texto?
  • Camada 2 (evidências): quais dados/documentos sustentam a tese?
  • Camada 3 (método): como os dados foram coletados? há recortes?
  • Camada 4 (limites): o que o texto não mede, não cobre ou não prova?

Sinais de alerta em documentos e declarações

  • Números sem denominador: “aumentou 30%” (30% de quê? em qual período? base comparável?).
  • Comparações indevidas: períodos diferentes, métricas diferentes, mudança de metodologia.
  • Generalizações: “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém” (peça exemplos e dados).
  • Termos vagos: “dentro da legalidade”, “seguimos protocolos” (quais normas? quais protocolos? onde estão?).
  • Cherry-picking: seleção de um recorte favorável ignorando a série completa.

Validação de fontes: como checar antes de levar para a entrevista

Triangulação (regra prática)

Antes de tratar algo como base sólida, busque confirmação por pelo menos duas vias independentes, preferencialmente incluindo uma fonte primária.

  • Documento + dado oficial
  • Documento + registro público (processo, diário oficial, portal)
  • Duas fontes técnicas com metodologias compatíveis

Checklist de validação rápida

  • Autenticidade: o documento é oficial? tem assinatura, carimbo, número, metadados?
  • Atualidade: existe versão mais recente? houve retificação?
  • Contexto: o trecho citado depende de parágrafos anteriores? há condicionantes?
  • Comparabilidade: a métrica é a mesma ao longo do tempo?
  • Interesse: quem se beneficia dessa versão? há conflito declarado?

Como preparar checagens em tempo real

Leve para a entrevista um “kit de checagem” com números e trechos-chave, para evitar depender da memória.

  • Uma página com 5–10 números essenciais (com fonte e data).
  • 3–5 trechos de documentos que sustentam perguntas.
  • 2–3 gráficos simples (se aplicável) para orientar perguntas sobre tendência.

Como transformar pesquisa em perguntas verificáveis

Perguntas ancoradas em evidência

Estrutura útil: evidênciaponto de divergênciapedido de explicaçãocritério.

Exemplos:

  • “No relatório de dd/mm, consta que a meta era 80%. Hoje o painel indica 52%. O que explica a diferença e qual indicador o senhor considera correto?”
  • “O contrato prevê entrega em dd/mm, mas houve aditivo em dd/mm alterando o cronograma. Quem solicitou a mudança e qual justificativa técnica foi registrada?”
  • “Em 2024, a senhora declarou que ‘não havia risco’. Depois, a auditoria apontou risco alto. Que informação a senhora tinha à época e o que mudou desde então?”

Perguntas para preencher lacunas (sem sugerir resposta)

  • “Quais foram os critérios usados para decidir X?”
  • “Quem participou da decisão e qual foi o papel de cada área?”
  • “Que alternativas foram consideradas e por que foram descartadas?”
  • “Qual documento registra essa decisão? Podemos acessá-lo?”

Modelo de dossiê (estrutura pronta para usar)

Organize o material em um dossiê único (arquivo ou pasta) com seções padronizadas. Isso facilita localizar evidências durante a entrevista e reduz risco de erro ao citar.

  • 1. Perfil funcional do entrevistado: cargos, períodos, atribuições, vínculos relevantes.
  • 2. Linha do tempo: tabela com eventos, documentos e declarações.
  • 3. Mapa de controvérsias e verificações: quadro “afirmação vs evidência vs lacuna”.
  • 4. Documentos-chave: PDFs/links com resumo de 2–3 linhas e página do trecho importante.
  • 5. Dados e séries: planilha com fonte, data de extração e notas de metodologia.
  • 6. Glossário: termos técnicos e definições operacionais.
  • 7. Contradições potenciais: hipóteses com evidências A/B e perguntas correspondentes.
  • 8. Perguntas ancoradas: lista final com referência ao item do dossiê que sustenta cada pergunta.

Exemplo de indexação para perguntas:

[P03] (Timeline T-07 + Doc D-02 p.4) “Em dd/mm, o aditivo 3 alterou o prazo em 120 dias. Qual foi o evento gatilho e quem assinou a justificativa?”

Exercício prático (para treinar antes da próxima entrevista)

Exercício: 30 minutos para montar um mini-dossiê

  • 10 min: encontre 3 documentos primários (ex.: contrato, relatório, decisão) e registre metadados.
  • 10 min: construa uma linha do tempo com 6 entradas (eventos + falas públicas).
  • 10 min: escreva 6 perguntas: 2 para lacunas, 2 para controvérsias, 2 para checagem de números (cada uma com referência ao item do dossiê).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preparar uma entrevista jornalística, qual prática melhor transforma a pesquisa em perguntas verificáveis e reduz o risco de a conversa ser guiada por versões incompletas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A pesquisa deve gerar perguntas de precisão baseadas em documentos e dados verificáveis. Organizar timeline, lacunas e controvérsias permite checar coerência e evitar dependência de narrativas incompletas.

Próximo capitúlo

Definição de ângulo e roteiro de perguntas para entrevistas jornalísticas

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