Definição de ângulo: o que é e como orientar o roteiro
O ângulo é a perspectiva específica pela qual você vai abordar um tema na entrevista. Ele funciona como um “recorte” que define o que entra, o que fica de fora e qual tipo de evidência você precisa obter (explicações, números, exemplos, responsabilidades, decisões, impactos). Um bom ângulo transforma um assunto amplo em uma conversa guiada por objetivos verificáveis.
Ângulo não é tema. Tema é “transporte público”; ângulo pode ser “por que a frota caiu 12% em seis meses e quais decisões levaram a isso”. Tema é “saúde”; ângulo pode ser “como a fila de exames dobrou e quais medidas têm prazo e orçamento”.
Checklist rápido para testar se o ângulo está bem definido
- Recorte: está claro “sobre o quê exatamente” e “em qual período/local”?
- Promessa de apuração: que tipo de informação a entrevista precisa entregar (causas, dados, decisões, impacto, solução, responsabilidade)?
- Critério de relevância: cada pergunta ajuda a responder o ângulo?
- Verificabilidade: há espaço para obter datas, números, documentos, nomes e prazos?
Modelo prático de ângulo (preencha)
Assunto amplo: ____________________________
Recorte (local/tempo/grupo): _______________
O que quero esclarecer/confirmar: ___________
Hipótese de trabalho (provisória): __________
O que preciso obter na entrevista:
- explicações: _____________________________
- dados (números/datas): ___________________
- exemplos concretos: ______________________
- decisões e responsáveis: _________________
- prazos/medidas: __________________________
Riscos de desvio (temas paralelos): _________Roteiro flexível com começo–meio–fim
Um roteiro eficiente é estruturado (para não perder o ângulo) e flexível (para acompanhar respostas relevantes). Pense em três blocos: aquecimento, núcleo investigativo e fechamento. Cada bloco tem uma função e tipos de pergunta mais adequados.
1) Aquecimento (contexto e alinhamento)
Objetivo: estabelecer entendimento comum, termos e limites do que será tratado, sem gastar as perguntas mais importantes cedo demais.
- Perguntas abertas para mapear a versão do entrevistado.
- Perguntas de precisão leves (datas gerais, escopo) para ancorar a conversa.
- Checagem de definições: “Quando você diz X, o que significa na prática?”
Exemplos:
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- “Como você descreve o que aconteceu nas últimas semanas em relação a ______?”
- “Qual foi o marco inicial desse processo e em que mês isso começou?”
- “Quais áreas/etapas estão sob sua responsabilidade direta?”
2) Núcleo investigativo (evidências, decisões, impactos e responsabilização)
Objetivo: obter informações centrais para o ângulo: o que foi decidido, por quem, com base em quê, com quais números, quais consequências e quais prazos. Aqui entram perguntas de precisão, exemplificação e follow-ups de responsabilização.
- Comece com uma pergunta aberta forte (para a narrativa).
- Em seguida, “feche” com precisão (datas, números, documentos).
- Use follow-up para responsabilização quando houver lacunas, contradições ou generalidades.
- Peça exemplos concretos e casos típicos para sair do abstrato.
Exemplos (sequência):
- Aberta: “Quais foram os principais fatores que levaram a ______?”
- Precisão: “Em que data a decisão foi tomada? Quem assinou? Qual foi o número do ato/nota?”
- Exemplificação: “Pode descrever um caso concreto em que isso ocorreu, com local e data?”
- Responsabilização (follow-up): “Quem tinha a atribuição de evitar esse resultado? O que foi feito e o que não foi feito?”
- Precisão (números): “Qual é o total de ______ hoje e qual era há seis meses? Qual a fonte desses números?”
3) Fechamento (checagem, lacunas e próximos passos)
Objetivo: confirmar pontos-chave, testar consistência, obter compromissos verificáveis (prazos, entregas) e abrir espaço para informação que você ainda não perguntou.
- Resumo do que foi dito (em forma de pergunta) para confirmar.
- Perguntas de cenário hipotético com limites éticos (para entender critérios de decisão, não para “armar” o entrevistado).
- Perguntas finais de “porta aberta” para fatos adicionais e documentos.
Exemplos:
- “Para confirmar: você está dizendo que ______ ocorreu por ______ e que a medida ______ começa em ______, correto?”
- “Qual é o prazo mais realista para ______ e qual indicador mostrará que funcionou?”
- “Há algum documento, relatório ou dado que você possa indicar para sustentar esses números?”
- “O que eu não perguntei e que é essencial para entender ______?”
Tipos de perguntas: como formular e quando usar
Perguntas abertas (explorar e revelar narrativa)
Servem para obter explicações e prioridades do entrevistado, sem limitar a resposta.
- Estrutura útil: “Como/por que/o que levou a…”
- Evite: duas perguntas em uma só (“Como aconteceu e quem decidiu?”).
Exemplos:
- “Como foi definido o critério para ______?”
- “Por que a estratégia mudou entre ______ e ______?”
Perguntas fechadas (confirmar e delimitar)
Servem para confirmar fatos específicos, obter “sim/não” e travar pontos que não podem ficar vagos.
Exemplos:
- “Você participou da reunião de ______ no dia ______?”
- “O orçamento aprovado para ______ foi de R$ ______?”
Perguntas de precisão (datas, números, nomes, documentos)
Transformam afirmações genéricas em informação verificável. Use quando a resposta vier vaga (“muito”, “pouco”, “há algum tempo”, “vários”).
Exemplos:
- “Quantos casos foram registrados em ______? Qual período exato?”
- “Qual é o número do contrato/portaria e a data de assinatura?”
- “Quem é o responsável formal por essa etapa (cargo e nome)?”
Perguntas de responsabilização (follow-up)
São perguntas de acompanhamento que pedem clareza sobre decisões, deveres e consequências. Devem ser diretas, sem acusação embutida, e baseadas no que já foi dito.
- Gatilhos para usar: contradição, evasiva, generalização, transferência de culpa, ausência de prazo.
- Estrutura útil: “Quem/qual decisão/qual critério/qual evidência/qual prazo?”
Exemplos:
- “Quando você diz ‘foi decidido’, quem decidiu exatamente e em qual instância?”
- “Qual foi o critério usado para escolher ______ em vez de ______?”
- “O que impediu a execução no prazo? Quem era responsável por destravar isso?”
Perguntas de exemplificação (tirar do abstrato)
Pedem um caso concreto, um episódio, um procedimento real. Ajudam a checar se a explicação “se sustenta” na prática.
Exemplos:
- “Pode descrever passo a passo como ______ acontece no dia a dia?”
- “Me dê um exemplo recente, com data e local, em que ______ foi aplicado.”
Perguntas de cenário hipotético (com limites éticos)
Servem para entender critérios e prioridades em situações possíveis, sem induzir confissão ou criar armadilhas. O objetivo é esclarecer como a decisão seria tomada, não atribuir culpa por algo não ocorrido.
- Use para: testar coerência de políticas, entender protocolos, mapear respostas a riscos.
- Evite: hipóteses difamatórias, acusações disfarçadas, “e se você tivesse feito X?” em tom de julgamento.
Exemplos:
- “Se o indicador ______ voltar a subir no próximo mês, qual é o protocolo e quem aciona quais medidas?”
- “Se houver falta de ______, quais critérios definem a prioridade de atendimento?”
Regras de clareza e linguagem: como evitar ruído
Uma pergunta por vez (e uma ideia por pergunta)
Perguntas duplas geram respostas incompletas e permitem que o entrevistado escolha a parte mais conveniente.
| Evite | Prefira |
|---|---|
| “Por que atrasou e quem é o responsável?” | “Por que atrasou?” (pausa) “Quem era o responsável por cumprir o prazo?” |
| “Qual o impacto e o que será feito?” | “Qual foi o impacto mensurável?” (pausa) “Qual medida será implementada e em qual data?” |
Linguagem neutra (sem adjetivos e sem veredito embutido)
Neutralidade aumenta a chance de resposta completa e reduz resistência.
| Evite | Prefira |
|---|---|
| “Por que vocês falharam?” | “O que não funcionou e por quê?” |
| “Isso foi irresponsável?” | “Quais critérios foram considerados e quais riscos foram avaliados?” |
Ordem estratégica: do amplo ao específico, do simples ao sensível
- Comece amplo para obter a narrativa do entrevistado.
- Depois afunile com precisão (datas, números, nomes).
- Por fim, responsabilização e pontos sensíveis, quando você já tem base para follow-up.
Dica prática: marque no roteiro quais perguntas são “de base” (para construir contexto) e quais são “de confronto factual” (para checar inconsistências). Não antecipe as segundas sem necessidade.
Passo a passo: como construir o roteiro flexível
Passo 1 — Escreva o ângulo em uma frase operacional
Uma frase que contenha recorte e o que precisa ser esclarecido.
Ângulo (1 frase): ____________________________________________Passo 2 — Liste 5 a 8 “respostas que você precisa obter”
Em vez de listar perguntas primeiro, liste entregáveis da entrevista.
- Decisão principal e justificativa
- Responsáveis e instâncias
- Datas-chave
- Números e fontes
- Impactos mensuráveis
- Medidas, prazos e indicadores
Passo 3 — Converta cada entregável em 2 a 3 perguntas de tipos diferentes
Para o mesmo ponto, combine aberta + precisão + exemplificação/follow-up.
Entregável: “Justificativa da decisão X”
- Aberta: “O que levou à decisão X?”
- Precisão: “Quando foi tomada e por quem?”
- Evidência: “Que dados embasaram? Qual documento registra isso?”Passo 4 — Organize em começo–meio–fim e marque prioridades
Classifique cada pergunta como:
- A (essencial): se faltar, o ângulo fica sem resposta.
- B (importante): aprofunda e qualifica.
- C (opcional): se houver tempo.
Isso ajuda a adaptar o roteiro quando o tempo encurta.
Passo 5 — Prepare perguntas-reserva e caminhos alternativos
Entrevistas saem do previsto por evasivas, falta de tempo, mudança de tema ou novas informações. Tenha “cartas na manga” prontas.
- Reservas de precisão: “Qual data exata?”, “Quantos?”, “Qual fonte?”, “Quem assinou?”
- Reservas de exemplificação: “Descreva um caso concreto”, “Como isso funciona na prática?”
- Reservas de responsabilização: “Quem decide?”, “Qual critério?”, “Qual prazo?”, “O que impede?”
- Reservas de checagem: “Estou entendendo corretamente que…?”
Caminhos alternativos (roteiro em árvore):
Se o entrevistado disser “não tenho esse número”:
- “Quem tem?”
- “Quando você pode informar?”
- “Existe relatório público/registro?”
Se a resposta vier genérica (“sempre foi assim”):
- “Desde quando?”
- “Qual foi a última mudança e por quê?”
Se houver contradição interna:
- “Antes você disse ____. Agora disse ____. Qual das duas informações está correta?”Passo 6 — Escreva follow-ups prontos para evasivas comuns
Follow-up não é repetição; é reformulação com foco.
| Evasiva | Follow-up neutro e específico |
|---|---|
| “Estamos trabalhando nisso.” | “Qual medida concreta já foi implementada e em que data?” |
| “Isso é complexo.” | “Qual é o principal fator? E qual é o segundo?” |
| “Não posso comentar.” | “O que você pode esclarecer: o processo, os critérios ou os prazos?” |
| “Não lembro.” | “Você consegue verificar e me dizer até ______? Quem pode confirmar hoje?” |
Exemplo de roteiro completo (modelo adaptável)
Ângulo (exemplo): entender por que um serviço teve queda de capacidade em seis meses, quais decisões explicam isso, e quais medidas têm prazo e indicadores.
Aquecimento
- (A) “Como você descreve a mudança no serviço nos últimos seis meses?”
- (B) “Quais áreas estão sob sua responsabilidade direta nesse processo?”
- (B) “Qual foi o primeiro marco dessa mudança (mês/decisão)?”
Núcleo investigativo
- (A) “Quais decisões contribuíram diretamente para a queda de capacidade?”
- (A) “Quem tomou essas decisões e em quais datas?”
- (A) “Qual era a capacidade antes e qual é agora? Qual a fonte desses números?”
- (B) “Que alternativas foram consideradas e por que foram descartadas?”
- (B) “Pode dar um exemplo concreto de como essa mudança afetou um caso real (data/local)?”
- (A) “O que foi feito para evitar o impacto e o que não foi feito? Por quê?”
Fechamento
- (A) “Para confirmar: os fatores foram ______, as decisões foram ______, e os números são ______, correto?”
- (A) “Qual medida começa primeiro, em que data, e qual indicador mostrará melhora?”
- (B) “Qual é o principal risco de não cumprir o prazo e qual plano de contingência existe?”
- (B) “Há documentos/dados que você recomenda consultar para sustentar essas informações?”