Definição de ângulo e roteiro de perguntas para entrevistas jornalísticas

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Definição de ângulo: o que é e como orientar o roteiro

O ângulo é a perspectiva específica pela qual você vai abordar um tema na entrevista. Ele funciona como um “recorte” que define o que entra, o que fica de fora e qual tipo de evidência você precisa obter (explicações, números, exemplos, responsabilidades, decisões, impactos). Um bom ângulo transforma um assunto amplo em uma conversa guiada por objetivos verificáveis.

Ângulo não é tema. Tema é “transporte público”; ângulo pode ser “por que a frota caiu 12% em seis meses e quais decisões levaram a isso”. Tema é “saúde”; ângulo pode ser “como a fila de exames dobrou e quais medidas têm prazo e orçamento”.

Checklist rápido para testar se o ângulo está bem definido

  • Recorte: está claro “sobre o quê exatamente” e “em qual período/local”?
  • Promessa de apuração: que tipo de informação a entrevista precisa entregar (causas, dados, decisões, impacto, solução, responsabilidade)?
  • Critério de relevância: cada pergunta ajuda a responder o ângulo?
  • Verificabilidade: há espaço para obter datas, números, documentos, nomes e prazos?

Modelo prático de ângulo (preencha)

Assunto amplo: ____________________________
Recorte (local/tempo/grupo): _______________
O que quero esclarecer/confirmar: ___________
Hipótese de trabalho (provisória): __________
O que preciso obter na entrevista:
- explicações: _____________________________
- dados (números/datas): ___________________
- exemplos concretos: ______________________
- decisões e responsáveis: _________________
- prazos/medidas: __________________________
Riscos de desvio (temas paralelos): _________

Roteiro flexível com começo–meio–fim

Um roteiro eficiente é estruturado (para não perder o ângulo) e flexível (para acompanhar respostas relevantes). Pense em três blocos: aquecimento, núcleo investigativo e fechamento. Cada bloco tem uma função e tipos de pergunta mais adequados.

1) Aquecimento (contexto e alinhamento)

Objetivo: estabelecer entendimento comum, termos e limites do que será tratado, sem gastar as perguntas mais importantes cedo demais.

  • Perguntas abertas para mapear a versão do entrevistado.
  • Perguntas de precisão leves (datas gerais, escopo) para ancorar a conversa.
  • Checagem de definições: “Quando você diz X, o que significa na prática?”

Exemplos:

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  • “Como você descreve o que aconteceu nas últimas semanas em relação a ______?”
  • “Qual foi o marco inicial desse processo e em que mês isso começou?”
  • “Quais áreas/etapas estão sob sua responsabilidade direta?”

2) Núcleo investigativo (evidências, decisões, impactos e responsabilização)

Objetivo: obter informações centrais para o ângulo: o que foi decidido, por quem, com base em quê, com quais números, quais consequências e quais prazos. Aqui entram perguntas de precisão, exemplificação e follow-ups de responsabilização.

  • Comece com uma pergunta aberta forte (para a narrativa).
  • Em seguida, “feche” com precisão (datas, números, documentos).
  • Use follow-up para responsabilização quando houver lacunas, contradições ou generalidades.
  • Peça exemplos concretos e casos típicos para sair do abstrato.

Exemplos (sequência):

  • Aberta: “Quais foram os principais fatores que levaram a ______?”
  • Precisão: “Em que data a decisão foi tomada? Quem assinou? Qual foi o número do ato/nota?”
  • Exemplificação: “Pode descrever um caso concreto em que isso ocorreu, com local e data?”
  • Responsabilização (follow-up): “Quem tinha a atribuição de evitar esse resultado? O que foi feito e o que não foi feito?”
  • Precisão (números): “Qual é o total de ______ hoje e qual era há seis meses? Qual a fonte desses números?”

3) Fechamento (checagem, lacunas e próximos passos)

Objetivo: confirmar pontos-chave, testar consistência, obter compromissos verificáveis (prazos, entregas) e abrir espaço para informação que você ainda não perguntou.

  • Resumo do que foi dito (em forma de pergunta) para confirmar.
  • Perguntas de cenário hipotético com limites éticos (para entender critérios de decisão, não para “armar” o entrevistado).
  • Perguntas finais de “porta aberta” para fatos adicionais e documentos.

Exemplos:

  • “Para confirmar: você está dizendo que ______ ocorreu por ______ e que a medida ______ começa em ______, correto?”
  • “Qual é o prazo mais realista para ______ e qual indicador mostrará que funcionou?”
  • “Há algum documento, relatório ou dado que você possa indicar para sustentar esses números?”
  • “O que eu não perguntei e que é essencial para entender ______?”

Tipos de perguntas: como formular e quando usar

Perguntas abertas (explorar e revelar narrativa)

Servem para obter explicações e prioridades do entrevistado, sem limitar a resposta.

  • Estrutura útil: “Como/por que/o que levou a…”
  • Evite: duas perguntas em uma só (“Como aconteceu e quem decidiu?”).

Exemplos:

  • “Como foi definido o critério para ______?”
  • “Por que a estratégia mudou entre ______ e ______?”

Perguntas fechadas (confirmar e delimitar)

Servem para confirmar fatos específicos, obter “sim/não” e travar pontos que não podem ficar vagos.

Exemplos:

  • “Você participou da reunião de ______ no dia ______?”
  • “O orçamento aprovado para ______ foi de R$ ______?”

Perguntas de precisão (datas, números, nomes, documentos)

Transformam afirmações genéricas em informação verificável. Use quando a resposta vier vaga (“muito”, “pouco”, “há algum tempo”, “vários”).

Exemplos:

  • “Quantos casos foram registrados em ______? Qual período exato?”
  • “Qual é o número do contrato/portaria e a data de assinatura?”
  • “Quem é o responsável formal por essa etapa (cargo e nome)?”

Perguntas de responsabilização (follow-up)

São perguntas de acompanhamento que pedem clareza sobre decisões, deveres e consequências. Devem ser diretas, sem acusação embutida, e baseadas no que já foi dito.

  • Gatilhos para usar: contradição, evasiva, generalização, transferência de culpa, ausência de prazo.
  • Estrutura útil: “Quem/qual decisão/qual critério/qual evidência/qual prazo?”

Exemplos:

  • “Quando você diz ‘foi decidido’, quem decidiu exatamente e em qual instância?”
  • “Qual foi o critério usado para escolher ______ em vez de ______?”
  • “O que impediu a execução no prazo? Quem era responsável por destravar isso?”

Perguntas de exemplificação (tirar do abstrato)

Pedem um caso concreto, um episódio, um procedimento real. Ajudam a checar se a explicação “se sustenta” na prática.

Exemplos:

  • “Pode descrever passo a passo como ______ acontece no dia a dia?”
  • “Me dê um exemplo recente, com data e local, em que ______ foi aplicado.”

Perguntas de cenário hipotético (com limites éticos)

Servem para entender critérios e prioridades em situações possíveis, sem induzir confissão ou criar armadilhas. O objetivo é esclarecer como a decisão seria tomada, não atribuir culpa por algo não ocorrido.

  • Use para: testar coerência de políticas, entender protocolos, mapear respostas a riscos.
  • Evite: hipóteses difamatórias, acusações disfarçadas, “e se você tivesse feito X?” em tom de julgamento.

Exemplos:

  • “Se o indicador ______ voltar a subir no próximo mês, qual é o protocolo e quem aciona quais medidas?”
  • “Se houver falta de ______, quais critérios definem a prioridade de atendimento?”

Regras de clareza e linguagem: como evitar ruído

Uma pergunta por vez (e uma ideia por pergunta)

Perguntas duplas geram respostas incompletas e permitem que o entrevistado escolha a parte mais conveniente.

EvitePrefira
“Por que atrasou e quem é o responsável?”“Por que atrasou?” (pausa) “Quem era o responsável por cumprir o prazo?”
“Qual o impacto e o que será feito?”“Qual foi o impacto mensurável?” (pausa) “Qual medida será implementada e em qual data?”

Linguagem neutra (sem adjetivos e sem veredito embutido)

Neutralidade aumenta a chance de resposta completa e reduz resistência.

EvitePrefira
“Por que vocês falharam?”“O que não funcionou e por quê?”
“Isso foi irresponsável?”“Quais critérios foram considerados e quais riscos foram avaliados?”

Ordem estratégica: do amplo ao específico, do simples ao sensível

  • Comece amplo para obter a narrativa do entrevistado.
  • Depois afunile com precisão (datas, números, nomes).
  • Por fim, responsabilização e pontos sensíveis, quando você já tem base para follow-up.

Dica prática: marque no roteiro quais perguntas são “de base” (para construir contexto) e quais são “de confronto factual” (para checar inconsistências). Não antecipe as segundas sem necessidade.

Passo a passo: como construir o roteiro flexível

Passo 1 — Escreva o ângulo em uma frase operacional

Uma frase que contenha recorte e o que precisa ser esclarecido.

Ângulo (1 frase): ____________________________________________

Passo 2 — Liste 5 a 8 “respostas que você precisa obter”

Em vez de listar perguntas primeiro, liste entregáveis da entrevista.

  • Decisão principal e justificativa
  • Responsáveis e instâncias
  • Datas-chave
  • Números e fontes
  • Impactos mensuráveis
  • Medidas, prazos e indicadores

Passo 3 — Converta cada entregável em 2 a 3 perguntas de tipos diferentes

Para o mesmo ponto, combine aberta + precisão + exemplificação/follow-up.

Entregável: “Justificativa da decisão X”
- Aberta: “O que levou à decisão X?”
- Precisão: “Quando foi tomada e por quem?”
- Evidência: “Que dados embasaram? Qual documento registra isso?”

Passo 4 — Organize em começo–meio–fim e marque prioridades

Classifique cada pergunta como:

  • A (essencial): se faltar, o ângulo fica sem resposta.
  • B (importante): aprofunda e qualifica.
  • C (opcional): se houver tempo.

Isso ajuda a adaptar o roteiro quando o tempo encurta.

Passo 5 — Prepare perguntas-reserva e caminhos alternativos

Entrevistas saem do previsto por evasivas, falta de tempo, mudança de tema ou novas informações. Tenha “cartas na manga” prontas.

  • Reservas de precisão: “Qual data exata?”, “Quantos?”, “Qual fonte?”, “Quem assinou?”
  • Reservas de exemplificação: “Descreva um caso concreto”, “Como isso funciona na prática?”
  • Reservas de responsabilização: “Quem decide?”, “Qual critério?”, “Qual prazo?”, “O que impede?”
  • Reservas de checagem: “Estou entendendo corretamente que…?”

Caminhos alternativos (roteiro em árvore):

Se o entrevistado disser “não tenho esse número”:
- “Quem tem?”
- “Quando você pode informar?”
- “Existe relatório público/registro?”

Se a resposta vier genérica (“sempre foi assim”):
- “Desde quando?”
- “Qual foi a última mudança e por quê?”

Se houver contradição interna:
- “Antes você disse ____. Agora disse ____. Qual das duas informações está correta?”

Passo 6 — Escreva follow-ups prontos para evasivas comuns

Follow-up não é repetição; é reformulação com foco.

EvasivaFollow-up neutro e específico
“Estamos trabalhando nisso.”“Qual medida concreta já foi implementada e em que data?”
“Isso é complexo.”“Qual é o principal fator? E qual é o segundo?”
“Não posso comentar.”“O que você pode esclarecer: o processo, os critérios ou os prazos?”
“Não lembro.”“Você consegue verificar e me dizer até ______? Quem pode confirmar hoje?”

Exemplo de roteiro completo (modelo adaptável)

Ângulo (exemplo): entender por que um serviço teve queda de capacidade em seis meses, quais decisões explicam isso, e quais medidas têm prazo e indicadores.

Aquecimento

  • (A) “Como você descreve a mudança no serviço nos últimos seis meses?”
  • (B) “Quais áreas estão sob sua responsabilidade direta nesse processo?”
  • (B) “Qual foi o primeiro marco dessa mudança (mês/decisão)?”

Núcleo investigativo

  • (A) “Quais decisões contribuíram diretamente para a queda de capacidade?”
  • (A) “Quem tomou essas decisões e em quais datas?”
  • (A) “Qual era a capacidade antes e qual é agora? Qual a fonte desses números?”
  • (B) “Que alternativas foram consideradas e por que foram descartadas?”
  • (B) “Pode dar um exemplo concreto de como essa mudança afetou um caso real (data/local)?”
  • (A) “O que foi feito para evitar o impacto e o que não foi feito? Por quê?”

Fechamento

  • (A) “Para confirmar: os fatores foram ______, as decisões foram ______, e os números são ______, correto?”
  • (A) “Qual medida começa primeiro, em que data, e qual indicador mostrará melhora?”
  • (B) “Qual é o principal risco de não cumprir o prazo e qual plano de contingência existe?”
  • (B) “Há documentos/dados que você recomenda consultar para sustentar essas informações?”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao elaborar o roteiro de uma entrevista jornalística com base em um ângulo bem definido, qual sequência de abordagem é a mais adequada para manter a conversa verificável e focada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A ordem recomendada é do amplo ao específico: primeiro narrativa, depois precisão para tornar a informação verificável e, com base nisso, follow-ups de responsabilização e temas sensíveis.

Próximo capitúlo

Abertura, rapport e acordos de atribuição na entrevista jornalística

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