Conceitos essenciais: perícia médica, nexo causal e tomada de decisão
No contexto do trabalho bancário, a perícia médica e a avaliação de nexo causal servem para responder, com base técnica e documental, perguntas objetivas: há incapacidade? Qual o grau e a duração? Existe relação entre o agravo e o trabalho (nexo causal) ou o trabalho contribuiu parcialmente (concausa)? Quais medidas são necessárias para reduzir risco, adaptar tarefas ou orientar encaminhamentos?
Perícia médica é um ato técnico voltado à produção de prova e à tomada de decisão (administrativa, previdenciária ou judicial). Diferencia-se do atendimento assistencial: o foco é a análise crítica de evidências, coerência interna e consistência entre relato, exame e funcionalidade.
Nexo causal é a relação de causa e efeito entre exposição ocupacional e agravo. Concausa ocorre quando o trabalho não é a causa única, mas contribui de forma relevante para o desencadeamento, agravamento ou manutenção do quadro. Em bancos, isso aparece com frequência em queixas musculoesqueléticas (ex.: sobrecarga por repetitividade e postura) e em quadros de saúde mental (ex.: estressores organizacionais), exigindo análise cuidadosa de temporalidade, intensidade e plausibilidade.
Estrutura de um relatório médico-pericial consistente
Um relatório robusto é aquele que permite a outro médico compreender o raciocínio, reproduzir a linha lógica e identificar as evidências usadas. A seguir, um roteiro prático com itens que não devem faltar.
1) Identificação e objetivo do documento
- Quem solicita (empresa, INSS, judicial, auditoria interna) e qual a pergunta a ser respondida (incapacidade? nexo? aptidão com restrições? necessidade de adaptação?).
- Tipo de documento: relatório técnico, parecer, laudo pericial (quando aplicável), nota técnica interna.
- Data, local, identificação do médico, CRM e qualificação pertinente.
2) Descrição da função e do trabalho real
Evite descrições genéricas. O ponto crítico é caracterizar o trabalho real (o que efetivamente se faz) e não apenas o cargo. Inclua:
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- Função/cargo, setor, jornada, pausas, metas, alternância de tarefas.
- Tarefas-chave (ex.: atendimento contínuo ao público, digitação, conferência, manuseio de numerário, uso de mouse/teclado, telefonia, reuniões, deslocamentos).
- Demandas físicas e cognitivas: repetitividade, postura estática, força, precisão manual, pressão temporal, carga emocional, exposição a conflitos com clientes.
- Condições do posto: mobiliário, altura de mesa/cadeira, duplo monitor, apoio de punho, headset, iluminação, ruído, temperatura.
- Eventos relevantes: mudança de setor, aumento de demanda, implantação de sistema, retorno pós-afastamento.
3) Exposição e fatores de risco: o que é relevante para o caso
Selecione apenas exposições com plausibilidade para o agravo. Exemplo: em dor cervical e ombro, descreva tempo em postura sentada, uso de mouse, elevação de ombro, ausência de pausas; em transtornos ansiosos, descreva estressores organizacionais concretos (picos de demanda, assédio, conflitos recorrentes, incidentes críticos), sem juízo moral.
4) História clínica dirigida e linha do tempo
Organize em cronologia, com datas aproximadas quando não houver exatidão:
- Início dos sintomas e contexto (antes/depois de mudança de função, aumento de volume, evento agudo).
- Evolução: progressão, flutuações, crises, fatores de melhora/piora.
- Impacto funcional: o que deixou de conseguir fazer no trabalho e fora dele.
- Antecedentes relevantes: doenças prévias, lesões, comorbidades, uso de medicações, hábitos (ex.: atividade física), fatores extraocupacionais pertinentes (sem invadir privacidade além do necessário).
5) Tratamentos e resposta terapêutica
- Tratamentos realizados (fisioterapia, psicoterapia, medicações, infiltrações, cirurgia, reabilitação).
- Adesão e resposta: melhora parcial, refratariedade, efeitos colaterais, interrupções.
- Condutas atuais e plano terapêutico (quando pertinente ao objetivo do relatório).
6) Exame físico e/ou exame do estado mental: achados objetivos
Registre achados positivos e negativos relevantes, com linguagem técnica e reprodutível. Exemplos:
- Musculoesquelético: amplitude de movimento, testes provocativos, força, sensibilidade, sinais de compressão nervosa, trofismo, pontos dolorosos, padrão de dor.
- Neurológico: reflexos, dermátomos, sinais de alarme.
- Saúde mental: aparência, comportamento, humor/afeto, pensamento, cognição, insight, risco (quando aplicável), sempre com foco funcional.
7) Limitações funcionais e capacidade laborativa
Traduza diagnóstico em restrições funcionais (o que pode/não pode fazer), evitando apenas repetir CID. Exemplos de redação funcional:
- “Limitação para digitação contínua por mais de X minutos sem pausa; necessidade de alternância de tarefas.”
- “Evitar elevação sustentada de membros superiores e movimentos repetitivos de pinça por períodos prolongados.”
- “Limitação para atendimento em ambiente de alta demanda com exposição a conflitos; necessidade de tarefas com menor carga emocional por período definido.”
Quando possível, indique grau (leve/moderado/importante), duração estimada e condições de retorno (adaptação, reabilitação, acompanhamento).
8) Justificativa técnica: como você chegou à conclusão
Esta é a parte mais auditável. Conecte evidências e raciocínio:
- Coerência entre queixa, exame e funcionalidade.
- Compatibilidade entre exposição e agravo (plausibilidade e temporalidade).
- Documentos analisados (exames, relatórios, prontuários, atestados, avaliações funcionais).
- Hipóteses alternativas e por que são menos prováveis.
Passo a passo prático para avaliar nexo causal e concausal
Use um método estruturado para reduzir vieses e aumentar reprodutibilidade.
Passo 1: Defina claramente o agravo e o desfecho
- Qual condição está sendo avaliada (diagnóstico clínico e/ou sindrômico)?
- Qual desfecho importa para a decisão: incapacidade, necessidade de restrição, agravamento, recidiva, risco de piora?
Passo 2: Construa a linha do tempo (sintomas x trabalho)
- Início dos sintomas em relação ao início/alteração de exposição.
- Variação com afastamentos, férias, mudança de setor, home office, adaptações.
- Recorrência ao retornar à mesma condição de trabalho.
Passo 3: Verifique plausibilidade e mecanismo
Pergunte: existe mecanismo conhecido que conecte a exposição ao agravo? Exemplos práticos:
- Dor em punho/mão: repetitividade, postura, força, tempo de exposição, ausência de pausas.
- Dor lombar: postura sentada prolongada, ergonomia inadequada, sedentarismo (como fator concorrente), estresse (como modulador de dor).
- Quadro ansioso/depressivo: estressores persistentes, incidentes críticos, conflitos, sobrecarga, falta de controle sobre o trabalho; avaliar também vulnerabilidades individuais e eventos extraocupacionais.
Passo 4: Analise intensidade, frequência e duração da exposição
- Quanto tempo por dia/semana? Há picos sazonais?
- Há alternância de tarefas ou monotonia/repetitividade?
- Há medidas de controle implementadas e sua efetividade?
Passo 5: Considere fatores concorrentes e concausas
- Comorbidades (ex.: diabetes e neuropatia; obesidade e dor lombar; transtornos prévios).
- Atividades extraocupacionais relevantes (ex.: segundo emprego com digitação intensa).
- Fatores psicossociais e de sono.
Concausa não é “culpa compartilhada”; é contribuição causal relevante. No texto, descreva o peso relativo de forma qualitativa (ex.: “o trabalho atuou como fator de agravamento em contexto de condição pré-existente”).
Passo 6: Cheque coerência clínica e consistência documental
- Os sintomas descritos são compatíveis com o exame físico/mental?
- Há consistência entre relatos ao longo do tempo (prontuários, atestados, exames)?
- Há sinais de alarme que exigem reavaliação diagnóstica?
Passo 7: Conclua com classificação objetiva
Evite frases vagas. Prefira categorias claras, por exemplo:
- Nexo causal provável / possível / improvável (com justificativa).
- Concausa presente / ausente (com fatores identificados).
- Incapacidade: inexistente / parcial / total; temporária / permanente (com base funcional).
Passo a passo prático para avaliar capacidade laborativa (foco funcional)
Passo 1: Defina as exigências essenciais do posto
- Quais tarefas são indispensáveis e quais são negociáveis?
- Quais exigências são críticas: digitação contínua, atendimento ao público, tomada de decisão sob pressão, metas, postura estática?
Passo 2: Meça funcionalidade no exame e na entrevista
- O que o trabalhador consegue fazer hoje, por quanto tempo, com qual intensidade?
- Que atividades pioram e quais aliviam?
- Há limitação por dor, fadiga, déficit cognitivo, ansiedade, efeitos de medicação?
Passo 3: Coerência entre sintomas, exame e desempenho
Critérios práticos de coerência:
- Compatibilidade anatômica: distribuição de dor/parestesia e achados neurológicos.
- Reprodutibilidade: testes e manobras com respostas consistentes.
- Proporcionalidade: intensidade referida versus impacto funcional observado e documentado.
- Consistência longitudinal: evolução compatível com tratamentos e tempo.
Quando houver inconsistências, descreva como “incongruências” e indique necessidade de complementação (ex.: avaliação funcional, exames adicionais), evitando imputar intenção.
Passo 4: Determine restrições, adaptações e prazo de reavaliação
- Restrições específicas (o que evitar) e recomendações (o que fazer).
- Adaptações: pausas programadas, alternância de tarefas, ajustes ergonômicos, redução temporária de atendimento em pico, tarefas de retaguarda.
- Prazo para reavaliação e critérios de melhora (ex.: tolerância a X horas de digitação com pausas).
Passo 5: Registre risco de agravamento e medidas de controle
Quando a permanência na atividade puder piorar o quadro, explicite o risco e as medidas mitigadoras. Exemplo: “manter digitação contínua sem pausas tende a perpetuar sintomas; recomenda-se alternância e adequação do posto”.
Manejo de divergências: médico assistente, médico do trabalho e perícia
Divergências são comuns porque cada ator tem objetivos distintos: o assistente prioriza cuidado e alívio do sofrimento; o médico do trabalho foca compatibilidade saúde-trabalho e prevenção; a perícia busca prova técnica para decisão. O manejo adequado depende de postura técnica, comunicação clara e documentação robusta.
Princípios de postura técnica
- Separar fatos (documentos, achados, cronologia) de interpretações (hipóteses e inferências).
- Evitar linguagem acusatória ou desqualificadora (“simulação”, “má-fé”) sem base técnica inequívoca.
- Reconhecer incertezas e limites: “dados insuficientes para afirmar”, “necessária complementação”.
Como responder a um relatório do médico assistente que diverge
Estratégia prática em 4 etapas:
- 1) Identifique o ponto de divergência: diagnóstico, nexo, incapacidade, prazo, restrições.
- 2) Compare evidências: quais exames/achados sustentam cada posição? há dados novos?
- 3) Refaça o raciocínio com base funcional: mesmo com diagnóstico igual, a capacidade pode diferir conforme exigências do posto e limitações.
- 4) Documente a síntese: “considerado relatório X de data Y; divergência em Z; decisão baseada em A, B, C”.
Como manejar conflito entre médico do trabalho e perícia
- Padronize linguagem e critérios: descreva função, limitações e medidas recomendadas de forma objetiva.
- Se a perícia conclui aptidão e o médico do trabalho entende haver restrição, explicite o risco ocupacional e o nexo funcional (tarefa específica que agrava), propondo adaptação proporcional.
- Se a perícia conclui incapacidade e o médico do trabalho vê possibilidade de retorno adaptado, descreva quais adaptações tornam o retorno viável e quais indicadores monitorar (dor, desempenho, recaídas).
Comunicação clara: como escrever para ser entendido e auditável
- Use frases curtas e termos operacionais: “apto com restrições”, “incapacidade parcial temporária”, “necessita alternância de tarefas”.
- Evite jargões sem definição e evite CID como justificativa única.
- Inclua sempre: documentos analisados, achados, limitações, recomendações, prazo de reavaliação.
Modelos práticos de trechos (para adaptar ao caso)
Trecho de descrição funcional
Atividade habitual: atendimento ao público e operações em sistema informatizado, com digitação e uso de mouse de forma predominante, postura sentada prolongada, picos de demanda em horários específicos e baixa alternância de tarefas. Jornada de 6h/dia, com pausas irregulares conforme fluxo de atendimento.Trecho de limitações e recomendações
Limitações atuais: limitação para digitação contínua prolongada e para movimentos repetitivos de punho sem pausas, com piora referida após 20–30 minutos. Exame compatível com dor à palpação e testes provocativos positivos, sem déficit neurológico objetivo. Recomenda-se alternância de tarefas, pausas programadas, adequação ergonômica do posto e reavaliação em 30–45 dias.Trecho de nexo/concausa com justificativa
Temporalidade: início dos sintomas após aumento sustentado de demanda e intensificação de digitação, com melhora parcial em períodos de afastamento e piora ao retorno às mesmas condições. Plausibilidade: exposição a repetitividade e postura estática é compatível com o quadro. Fatores concorrentes: sedentarismo e sobrepeso relatados, atuando como concausas. Conclusão: concausa ocupacional presente; nexo causal exclusivo não caracterizado.Checklist de qualidade do relatório (antes de assinar)
- O objetivo do documento está explícito e respondido?
- A descrição do trabalho real permite entender as exigências?
- Há linha do tempo clara (exposição x sintomas x tratamentos)?
- Exame e achados estão descritos de forma reprodutível?
- Limitações estão em linguagem funcional (não apenas diagnóstico)?
- O nexo/concausa foi analisado com plausibilidade, temporalidade e fatores concorrentes?
- Há coerência interna e referência aos documentos analisados?
- Recomendações são específicas, proporcionais e com prazo de reavaliação?