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Concurso Caixa Econômica Federal - Médico do Trabalho: Preparação Técnica e Legislação

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14 páginas

Perícia Médica e Nexo Causal no Contexto da Caixa: Relatórios, Conflitos e Tomada de Decisão

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Conceitos essenciais: perícia médica, nexo causal e tomada de decisão

No contexto do trabalho bancário, a perícia médica e a avaliação de nexo causal servem para responder, com base técnica e documental, perguntas objetivas: há incapacidade? Qual o grau e a duração? Existe relação entre o agravo e o trabalho (nexo causal) ou o trabalho contribuiu parcialmente (concausa)? Quais medidas são necessárias para reduzir risco, adaptar tarefas ou orientar encaminhamentos?

Perícia médica é um ato técnico voltado à produção de prova e à tomada de decisão (administrativa, previdenciária ou judicial). Diferencia-se do atendimento assistencial: o foco é a análise crítica de evidências, coerência interna e consistência entre relato, exame e funcionalidade.

Nexo causal é a relação de causa e efeito entre exposição ocupacional e agravo. Concausa ocorre quando o trabalho não é a causa única, mas contribui de forma relevante para o desencadeamento, agravamento ou manutenção do quadro. Em bancos, isso aparece com frequência em queixas musculoesqueléticas (ex.: sobrecarga por repetitividade e postura) e em quadros de saúde mental (ex.: estressores organizacionais), exigindo análise cuidadosa de temporalidade, intensidade e plausibilidade.

Estrutura de um relatório médico-pericial consistente

Um relatório robusto é aquele que permite a outro médico compreender o raciocínio, reproduzir a linha lógica e identificar as evidências usadas. A seguir, um roteiro prático com itens que não devem faltar.

1) Identificação e objetivo do documento

  • Quem solicita (empresa, INSS, judicial, auditoria interna) e qual a pergunta a ser respondida (incapacidade? nexo? aptidão com restrições? necessidade de adaptação?).
  • Tipo de documento: relatório técnico, parecer, laudo pericial (quando aplicável), nota técnica interna.
  • Data, local, identificação do médico, CRM e qualificação pertinente.

2) Descrição da função e do trabalho real

Evite descrições genéricas. O ponto crítico é caracterizar o trabalho real (o que efetivamente se faz) e não apenas o cargo. Inclua:

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  • Função/cargo, setor, jornada, pausas, metas, alternância de tarefas.
  • Tarefas-chave (ex.: atendimento contínuo ao público, digitação, conferência, manuseio de numerário, uso de mouse/teclado, telefonia, reuniões, deslocamentos).
  • Demandas físicas e cognitivas: repetitividade, postura estática, força, precisão manual, pressão temporal, carga emocional, exposição a conflitos com clientes.
  • Condições do posto: mobiliário, altura de mesa/cadeira, duplo monitor, apoio de punho, headset, iluminação, ruído, temperatura.
  • Eventos relevantes: mudança de setor, aumento de demanda, implantação de sistema, retorno pós-afastamento.

3) Exposição e fatores de risco: o que é relevante para o caso

Selecione apenas exposições com plausibilidade para o agravo. Exemplo: em dor cervical e ombro, descreva tempo em postura sentada, uso de mouse, elevação de ombro, ausência de pausas; em transtornos ansiosos, descreva estressores organizacionais concretos (picos de demanda, assédio, conflitos recorrentes, incidentes críticos), sem juízo moral.

4) História clínica dirigida e linha do tempo

Organize em cronologia, com datas aproximadas quando não houver exatidão:

  • Início dos sintomas e contexto (antes/depois de mudança de função, aumento de volume, evento agudo).
  • Evolução: progressão, flutuações, crises, fatores de melhora/piora.
  • Impacto funcional: o que deixou de conseguir fazer no trabalho e fora dele.
  • Antecedentes relevantes: doenças prévias, lesões, comorbidades, uso de medicações, hábitos (ex.: atividade física), fatores extraocupacionais pertinentes (sem invadir privacidade além do necessário).

5) Tratamentos e resposta terapêutica

  • Tratamentos realizados (fisioterapia, psicoterapia, medicações, infiltrações, cirurgia, reabilitação).
  • Adesão e resposta: melhora parcial, refratariedade, efeitos colaterais, interrupções.
  • Condutas atuais e plano terapêutico (quando pertinente ao objetivo do relatório).

6) Exame físico e/ou exame do estado mental: achados objetivos

Registre achados positivos e negativos relevantes, com linguagem técnica e reprodutível. Exemplos:

  • Musculoesquelético: amplitude de movimento, testes provocativos, força, sensibilidade, sinais de compressão nervosa, trofismo, pontos dolorosos, padrão de dor.
  • Neurológico: reflexos, dermátomos, sinais de alarme.
  • Saúde mental: aparência, comportamento, humor/afeto, pensamento, cognição, insight, risco (quando aplicável), sempre com foco funcional.

7) Limitações funcionais e capacidade laborativa

Traduza diagnóstico em restrições funcionais (o que pode/não pode fazer), evitando apenas repetir CID. Exemplos de redação funcional:

  • “Limitação para digitação contínua por mais de X minutos sem pausa; necessidade de alternância de tarefas.”
  • “Evitar elevação sustentada de membros superiores e movimentos repetitivos de pinça por períodos prolongados.”
  • “Limitação para atendimento em ambiente de alta demanda com exposição a conflitos; necessidade de tarefas com menor carga emocional por período definido.”

Quando possível, indique grau (leve/moderado/importante), duração estimada e condições de retorno (adaptação, reabilitação, acompanhamento).

8) Justificativa técnica: como você chegou à conclusão

Esta é a parte mais auditável. Conecte evidências e raciocínio:

  • Coerência entre queixa, exame e funcionalidade.
  • Compatibilidade entre exposição e agravo (plausibilidade e temporalidade).
  • Documentos analisados (exames, relatórios, prontuários, atestados, avaliações funcionais).
  • Hipóteses alternativas e por que são menos prováveis.

Passo a passo prático para avaliar nexo causal e concausal

Use um método estruturado para reduzir vieses e aumentar reprodutibilidade.

Passo 1: Defina claramente o agravo e o desfecho

  • Qual condição está sendo avaliada (diagnóstico clínico e/ou sindrômico)?
  • Qual desfecho importa para a decisão: incapacidade, necessidade de restrição, agravamento, recidiva, risco de piora?

Passo 2: Construa a linha do tempo (sintomas x trabalho)

  • Início dos sintomas em relação ao início/alteração de exposição.
  • Variação com afastamentos, férias, mudança de setor, home office, adaptações.
  • Recorrência ao retornar à mesma condição de trabalho.

Passo 3: Verifique plausibilidade e mecanismo

Pergunte: existe mecanismo conhecido que conecte a exposição ao agravo? Exemplos práticos:

  • Dor em punho/mão: repetitividade, postura, força, tempo de exposição, ausência de pausas.
  • Dor lombar: postura sentada prolongada, ergonomia inadequada, sedentarismo (como fator concorrente), estresse (como modulador de dor).
  • Quadro ansioso/depressivo: estressores persistentes, incidentes críticos, conflitos, sobrecarga, falta de controle sobre o trabalho; avaliar também vulnerabilidades individuais e eventos extraocupacionais.

Passo 4: Analise intensidade, frequência e duração da exposição

  • Quanto tempo por dia/semana? Há picos sazonais?
  • Há alternância de tarefas ou monotonia/repetitividade?
  • Há medidas de controle implementadas e sua efetividade?

Passo 5: Considere fatores concorrentes e concausas

  • Comorbidades (ex.: diabetes e neuropatia; obesidade e dor lombar; transtornos prévios).
  • Atividades extraocupacionais relevantes (ex.: segundo emprego com digitação intensa).
  • Fatores psicossociais e de sono.

Concausa não é “culpa compartilhada”; é contribuição causal relevante. No texto, descreva o peso relativo de forma qualitativa (ex.: “o trabalho atuou como fator de agravamento em contexto de condição pré-existente”).

Passo 6: Cheque coerência clínica e consistência documental

  • Os sintomas descritos são compatíveis com o exame físico/mental?
  • Há consistência entre relatos ao longo do tempo (prontuários, atestados, exames)?
  • Há sinais de alarme que exigem reavaliação diagnóstica?

Passo 7: Conclua com classificação objetiva

Evite frases vagas. Prefira categorias claras, por exemplo:

  • Nexo causal provável / possível / improvável (com justificativa).
  • Concausa presente / ausente (com fatores identificados).
  • Incapacidade: inexistente / parcial / total; temporária / permanente (com base funcional).

Passo a passo prático para avaliar capacidade laborativa (foco funcional)

Passo 1: Defina as exigências essenciais do posto

  • Quais tarefas são indispensáveis e quais são negociáveis?
  • Quais exigências são críticas: digitação contínua, atendimento ao público, tomada de decisão sob pressão, metas, postura estática?

Passo 2: Meça funcionalidade no exame e na entrevista

  • O que o trabalhador consegue fazer hoje, por quanto tempo, com qual intensidade?
  • Que atividades pioram e quais aliviam?
  • Há limitação por dor, fadiga, déficit cognitivo, ansiedade, efeitos de medicação?

Passo 3: Coerência entre sintomas, exame e desempenho

Critérios práticos de coerência:

  • Compatibilidade anatômica: distribuição de dor/parestesia e achados neurológicos.
  • Reprodutibilidade: testes e manobras com respostas consistentes.
  • Proporcionalidade: intensidade referida versus impacto funcional observado e documentado.
  • Consistência longitudinal: evolução compatível com tratamentos e tempo.

Quando houver inconsistências, descreva como “incongruências” e indique necessidade de complementação (ex.: avaliação funcional, exames adicionais), evitando imputar intenção.

Passo 4: Determine restrições, adaptações e prazo de reavaliação

  • Restrições específicas (o que evitar) e recomendações (o que fazer).
  • Adaptações: pausas programadas, alternância de tarefas, ajustes ergonômicos, redução temporária de atendimento em pico, tarefas de retaguarda.
  • Prazo para reavaliação e critérios de melhora (ex.: tolerância a X horas de digitação com pausas).

Passo 5: Registre risco de agravamento e medidas de controle

Quando a permanência na atividade puder piorar o quadro, explicite o risco e as medidas mitigadoras. Exemplo: “manter digitação contínua sem pausas tende a perpetuar sintomas; recomenda-se alternância e adequação do posto”.

Manejo de divergências: médico assistente, médico do trabalho e perícia

Divergências são comuns porque cada ator tem objetivos distintos: o assistente prioriza cuidado e alívio do sofrimento; o médico do trabalho foca compatibilidade saúde-trabalho e prevenção; a perícia busca prova técnica para decisão. O manejo adequado depende de postura técnica, comunicação clara e documentação robusta.

Princípios de postura técnica

  • Separar fatos (documentos, achados, cronologia) de interpretações (hipóteses e inferências).
  • Evitar linguagem acusatória ou desqualificadora (“simulação”, “má-fé”) sem base técnica inequívoca.
  • Reconhecer incertezas e limites: “dados insuficientes para afirmar”, “necessária complementação”.

Como responder a um relatório do médico assistente que diverge

Estratégia prática em 4 etapas:

  • 1) Identifique o ponto de divergência: diagnóstico, nexo, incapacidade, prazo, restrições.
  • 2) Compare evidências: quais exames/achados sustentam cada posição? há dados novos?
  • 3) Refaça o raciocínio com base funcional: mesmo com diagnóstico igual, a capacidade pode diferir conforme exigências do posto e limitações.
  • 4) Documente a síntese: “considerado relatório X de data Y; divergência em Z; decisão baseada em A, B, C”.

Como manejar conflito entre médico do trabalho e perícia

  • Padronize linguagem e critérios: descreva função, limitações e medidas recomendadas de forma objetiva.
  • Se a perícia conclui aptidão e o médico do trabalho entende haver restrição, explicite o risco ocupacional e o nexo funcional (tarefa específica que agrava), propondo adaptação proporcional.
  • Se a perícia conclui incapacidade e o médico do trabalho vê possibilidade de retorno adaptado, descreva quais adaptações tornam o retorno viável e quais indicadores monitorar (dor, desempenho, recaídas).

Comunicação clara: como escrever para ser entendido e auditável

  • Use frases curtas e termos operacionais: “apto com restrições”, “incapacidade parcial temporária”, “necessita alternância de tarefas”.
  • Evite jargões sem definição e evite CID como justificativa única.
  • Inclua sempre: documentos analisados, achados, limitações, recomendações, prazo de reavaliação.

Modelos práticos de trechos (para adaptar ao caso)

Trecho de descrição funcional

Atividade habitual: atendimento ao público e operações em sistema informatizado, com digitação e uso de mouse de forma predominante, postura sentada prolongada, picos de demanda em horários específicos e baixa alternância de tarefas. Jornada de 6h/dia, com pausas irregulares conforme fluxo de atendimento.

Trecho de limitações e recomendações

Limitações atuais: limitação para digitação contínua prolongada e para movimentos repetitivos de punho sem pausas, com piora referida após 20–30 minutos. Exame compatível com dor à palpação e testes provocativos positivos, sem déficit neurológico objetivo. Recomenda-se alternância de tarefas, pausas programadas, adequação ergonômica do posto e reavaliação em 30–45 dias.

Trecho de nexo/concausa com justificativa

Temporalidade: início dos sintomas após aumento sustentado de demanda e intensificação de digitação, com melhora parcial em períodos de afastamento e piora ao retorno às mesmas condições. Plausibilidade: exposição a repetitividade e postura estática é compatível com o quadro. Fatores concorrentes: sedentarismo e sobrepeso relatados, atuando como concausas. Conclusão: concausa ocupacional presente; nexo causal exclusivo não caracterizado.

Checklist de qualidade do relatório (antes de assinar)

  • O objetivo do documento está explícito e respondido?
  • A descrição do trabalho real permite entender as exigências?
  • Há linha do tempo clara (exposição x sintomas x tratamentos)?
  • Exame e achados estão descritos de forma reprodutível?
  • Limitações estão em linguagem funcional (não apenas diagnóstico)?
  • O nexo/concausa foi analisado com plausibilidade, temporalidade e fatores concorrentes?
  • Há coerência interna e referência aos documentos analisados?
  • Recomendações são específicas, proporcionais e com prazo de reavaliação?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao elaborar um relatório médico-pericial para avaliar incapacidade e nexo (ou concausa) no trabalho bancário, qual abordagem torna o documento mais auditável e útil para tomada de decisão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um relatório consistente deve permitir que outro médico siga o raciocínio: caracterizar trabalho real, organizar cronologia, registrar achados reprodutíveis, expressar limitações em linguagem funcional e sustentar a conclusão com plausibilidade/temporalidade e documentos.

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