Escopo da perícia de engenharia na investigação criminal
A perícia criminal federal em engenharia aplica princípios de mecânica, ciência dos materiais, engenharia civil, elétrica e de segurança contra incêndio para explicar tecnicamente eventos como acidentes, colapsos, falhas de componentes e ocorrências com incêndio/explosão. O objetivo é transformar vestígios físicos (marcas, deformações, fraturas, resíduos, padrões térmicos) em inferências técnicas verificáveis: o que ocorreu, como ocorreu, e quais causas prováveis e fatores contribuintes são compatíveis com o conjunto probatório.
Em engenharia, é comum existirem múltiplas causas concorrentes (por exemplo, projeto inadequado + manutenção deficiente + sobrecarga + uso fora de especificação). Por isso, a análise deve ser estruturada para: (i) preservar a rastreabilidade das observações, (ii) quantificar incertezas quando houver estimativas, e (iii) explicitar limitações (acessos restritos, destruição por combate a incêndio, remoção de peças, ausência de registros).
Metodologia pericial para análise de falhas (visão prática)
1) Coleta de dados: o que reunir antes e durante a inspeção
O ponto de partida é definir hipóteses técnicas iniciais e uma lista de dados necessários para testá-las. Em perícias de engenharia, a coleta de dados costuma envolver quatro blocos: evento, sistema, ambiente e histórico.
- Dados do evento: data/hora, sequência relatada, intervenções (resgate, guincho, combate a incêndio), alterações no local, quem teve acesso e o que foi removido.
- Dados do sistema: identificação de veículos/estruturas/equipamentos, especificações, capacidade nominal, materiais, desenhos “as built”, diagramas elétricos, manuais, certificados.
- Dados do ambiente: clima, iluminação, condições de piso, presença de água/óleo, ventilação, carga térmica, topografia, sinalização.
- Histórico: manutenção (ordens de serviço), inspeções, reformas, substituições, registros de falhas anteriores, calibrações, logs de sistemas (quando aplicável).
Passo a passo prático (checklist inicial):
- Listar perguntas técnicas que precisam de resposta (ex.: “houve sobrecarga?”, “a fratura é dúctil ou frágil?”, “há evidência de arco elétrico?”).
- Relacionar quais medições/ensaios podem responder a cada pergunta.
- Solicitar ou buscar documentos técnicos essenciais (projeto, manutenção, laudos anteriores, notas de serviço).
- Definir plano de inspeção: áreas prioritárias, riscos, instrumentos necessários e pontos de medição.
2) Inspeção técnica: leitura do cenário e identificação de vestígios de engenharia
A inspeção deve ser orientada por “assinaturas” típicas de falhas: padrões de fratura, deformações plásticas, flambagem, esmagamento, marcas de atrito, delaminação, corrosão, carbonização, fusão, respingos metálicos, deslocamentos e desalinhamentos.
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- Estruturas: flechas excessivas, fissuras (orientação, abertura, continuidade), esmagamento em apoios, instabilidade local, perda de seção por corrosão.
- Máquinas e componentes: desgaste, folgas, marcas de impacto, falha em rolamentos, desalinhamento, fadiga em eixos.
- Elétrica: pontos de aquecimento, isolamento degradado, marcas de arco, conexões frouxas, trilhas de carbono.
- Incêndio/explosão: padrões de queima, gradientes térmicos, deformação por calor, direção de propagação, danos por sobrepressão.
Passo a passo prático (inspeção):
- Fazer varredura geral e registrar o “estado como encontrado” antes de qualquer movimentação.
- Identificar zonas de maior energia/dano e possíveis pontos de origem (impacto inicial, ignição, ruptura).
- Mapear trajetórias prováveis (veículos, projeção de fragmentos, colapso progressivo).
- Selecionar pontos para medições e para ensaios não destrutivos (END), priorizando vestígios mais informativos e menos degradados.
3) Documentação fotográfica e esquemática: como tornar o registro reprodutível
Em engenharia, fotografias precisam permitir comparação dimensional e leitura de detalhes. O registro deve ir do geral ao particular, e sempre que possível incluir referência de escala e orientação.
- Sequência recomendada: panorâmicas do local → vistas médias (setores) → close-ups de vestígios (fraturas, marcas, conexões, soldas, trincas).
- Escala e orientação: régua/escala, seta de norte ou referência fixa, identificação do ponto (ex.: “Pilar P2, face leste”).
- Repetibilidade: fotos ortogonais para medições indiretas e fotos oblíquas para relevo/volume.
Passo a passo prático (padrão de registro):
- Numerar pontos de interesse em croqui/planta e repetir a numeração nas legendas das fotos.
- Para fraturas: fotografar a peça inteira, a região da fratura, e detalhes do “início” e da “propagação” (quando identificáveis).
- Para marcas no pavimento: fotografar em sequência ao longo do comprimento, com escala e referência de início/fim.
4) Medições e metrologia de campo: quantificar para reduzir subjetividade
Medições típicas incluem distâncias, ângulos, alturas, inclinações, espessuras, flechas, aberturas de fissuras, profundidade de deformações, e geometria de marcas. A escolha do instrumento (trena, paquímetro, nível, inclinômetro, estação total, scanner 3D) depende da precisão necessária e do ambiente.
Passo a passo prático (medições):
- Definir grandezas críticas para o modelo (ex.: comprimento de frenagem, raio de curva, flecha de viga, espessura remanescente por corrosão).
- Medir com redundância (duas medições independentes ou dois métodos) quando o valor for decisivo.
- Registrar incerteza operacional: resolução do instrumento, condições de acesso, alinhamento, ponto de referência.
- Guardar “metadados”: quem mediu, quando, instrumento, condições e croqui com pontos.
5) Ensaios não destrutivos (END): quando e como usar
END permitem avaliar integridade e descontinuidades sem danificar o objeto. Em perícia, são úteis para localizar trincas, perda de seção, falhas em soldas, delaminações e aquecimentos anormais.
- Líquido penetrante: trincas superficiais em metais não porosos.
- Partículas magnéticas: trincas superficiais/subsuperficiais em materiais ferromagnéticos.
- Ultrassom: descontinuidades internas, espessura, corrosão sob isolamento (dependendo do arranjo).
- Radiografia: inspeção de soldas e componentes, quando viável e seguro.
- Termografia: pontos quentes em instalações elétricas e anomalias térmicas em sistemas.
- Esclerometria/pacometria (estruturas de concreto): estimativas indiretas de resistência superficial e localização de armaduras.
Passo a passo prático (END):
- Definir a pergunta técnica (ex.: “há trinca na zona termicamente afetada da solda?”).
- Escolher o END compatível com material, geometria e acesso.
- Registrar parâmetros do ensaio (equipamento, calibração, acoplante, ganho, varredura, condições).
- Interpretar resultados com cautela: END indica indícios; a confirmação pode exigir correlação com outras evidências (deformação, fratura, histórico de carga).
6) Reconstrução de eventos: do vestígio ao modelo
Reconstruir é propor uma sequência física compatível com os vestígios e com leis da mecânica/termodinâmica. A reconstrução pode ser qualitativa (sequência e mecanismos) e quantitativa (estimativas numéricas com incerteza).
- Modelos típicos: conservação de energia e quantidade de movimento (acidentes), estabilidade e resistência (estruturas), balanço térmico e ventilação (incêndio), sobrepressão e confinamento (explosões).
- Validação cruzada: o modelo deve explicar múltiplos vestígios ao mesmo tempo (ex.: direção de deformação + marcas no pavimento + posição final).
Passo a passo prático (reconstrução):
- Listar hipóteses concorrentes (H1, H2, H3) e quais vestígios cada uma prevê.
- Montar linha do tempo do evento com pontos fixos (última manutenção, início do fogo, colapso, acionamentos).
- Executar cálculos/estimativas com intervalos (mínimo–máximo) e declarar premissas.
- Checar consistência: se uma hipótese exige uma marca que não existe, ou uma deformação incompatível, ela perde suporte.
Perícias em acidentes de trânsito: cinemática básica e leitura de vestígios
Vestígios típicos e o que eles indicam
- Marcas de frenagem: indicam travamento/ABS, início de reação, variação de atrito; podem ser descontínuas em ABS.
- Marcas de arrasto/raspagem: veículo imobilizado sendo deslocado, contato de partes metálicas com o pavimento.
- Marcas de derrapagem lateral (yaw): perda de aderência em curva, permitem estimar velocidade por raio e atrito.
- Deformações veiculares: direção do impacto, sobreposição, altura de contato, compatibilidade entre veículos/obstáculos.
- Dispersão de detritos e fluidos: possível ponto de impacto e direção de movimento.
Estimativas com incerteza: como apresentar sem “falsa precisão”
Estimativas de velocidade ou desaceleração dependem de parâmetros variáveis (coeficiente de atrito, inclinação, eficiência de frenagem, ABS, condição do pneu). Em vez de um único número, é mais técnico apresentar um intervalo plausível, com premissas explícitas.
Exemplo prático (frenagem em linha reta):
Premissas: pavimento seco, coeficiente de atrito μ entre 0,60 e 0,80; distância de frenagem medida: 28 m; g = 9,81 m/s². Estimativa simplificada: v ≈ sqrt(2 * μ * g * d). Para μ=0,60: v≈18,2 m/s (≈65 km/h). Para μ=0,80: v≈21,0 m/s (≈76 km/h). Resultado: velocidade compatível na faixa ~65–76 km/h, condicionada às premissas.Passo a passo prático (acidente de trânsito):
- Mapear o local: geometria da via, sinalização, visibilidade, declividade, raio de curva.
- Medir e registrar marcas: comprimento, largura, continuidade, posição na faixa, relação com ponto de impacto.
- Documentar deformações: fotos ortogonais, medidas de intrusão quando possível, alturas de contato.
- Integrar dados: posição final, detritos, relatos, eventuais registros (tacógrafo, módulos veiculares quando disponíveis).
- Calcular estimativas em intervalos e testar consistência com o conjunto de vestígios.
Incêndios e explosões sob a perspectiva de engenharia
Diferenças úteis para a análise pericial
- Incêndio: processo de combustão sustentada; foco em origem, primeiro material a queimar, propagação, ventilação e fontes de ignição.
- Explosão: liberação rápida de energia com sobrepressão; foco em confinamento, mistura combustível-oxidante, fonte de ignição e padrões de dano por pressão.
Leitura de padrões e hipóteses técnicas
Em engenharia, a análise busca correlacionar padrões de dano com mecanismos: aquecimento resistivo em conexão frouxa, arco elétrico, superaquecimento por sobrecarga, falha de isolamento, vazamento de combustível, acúmulo de gases em ambiente confinado, falha de válvula/regulador.
- Padrões térmicos: gradientes de carbonização, deformação de metais por calor, colapso de elementos por perda de resistência.
- Ventilação: entradas/saídas de ar influenciam direção e intensidade; aberturas podem criar “efeito chaminé”.
- Instalações elétricas: pontos de maior resistência elétrica (emendas, terminais) podem gerar aquecimento localizado; arcos podem deixar marcas características em condutores e superfícies próximas.
Passo a passo prático (incêndio/explosão):
- Delimitar áreas de maior dano e buscar o menor dano relativo ao redor para inferir direção de propagação.
- Identificar possíveis fontes de ignição (elétrica, mecânica, térmica) e combustíveis disponíveis (líquidos, gases, materiais poliméricos).
- Verificar evidências de sobrepressão: janelas projetadas, portas deformadas, paredes deslocadas, padrões radiais de fragmentos.
- Correlacionar com sistemas de segurança: disjuntores, fusíveis, válvulas de alívio, detectores, registros de manutenção.
- Registrar limitações: combate a incêndio pode deslocar materiais e alterar padrões; colapso pode misturar camadas de queima.
Falhas estruturais e de materiais: mecanismos e evidências
Mecanismos comuns de falha e sinais associados
- Sobrecarga: deformação plástica evidente, esmagamento, ruptura sem sinais de crescimento lento.
- Fadiga: trinca com propagação progressiva; pode haver “marcas” de avanço e região final de ruptura súbita.
- Corrosão: perda de seção, pites, corrosão sob tensão; frequentemente associada a ambiente agressivo e manutenção insuficiente.
- Flambagem/instabilidade: deformações laterais em elementos comprimidos, sensível a imperfeições e vínculos.
- Falha de ligação (parafusos/soldas): arrancamento, cisalhamento, falta de penetração, porosidade; pode gerar colapso progressivo.
- Concreto armado: fissuração por flexão/cisalhamento, destacamento de cobrimento, corrosão de armaduras, esmagamento em regiões comprimidas.
Passo a passo prático (falha estrutural/material)
- Identificar o “elemento crítico” (primeiro a falhar) versus elementos que falharam por consequência.
- Mapear o caminho de cargas: onde a carga entra, como se distribui, onde se concentra.
- Registrar geometria e condições de apoio: vínculos, travamentos, ligações, alterações por reforma.
- Verificar compatibilidade entre dano e mecanismo: por exemplo, flambagem exige compressão e esbeltez; fadiga exige ciclos e concentração de tensões.
- Aplicar END para localizar descontinuidades e estimar perda de seção.
- Quando houver peças fraturadas, preservar faces de fratura e evitar contato/abrasão que destrua microvestígios.
Análise de conformidade técnica: normas, projetos e manutenção
A conformidade técnica avalia se o sistema atendia requisitos de projeto, execução e operação. Em perícia, isso não é “apenas burocracia”: não conformidades podem ser fatores contribuintes (por exemplo, ausência de inspeção periódica, alteração de projeto sem verificação, uso de material fora de especificação).
O que comparar e como organizar
- Projeto vs. executado: conferir dimensões, materiais, detalhamento de ligações, rotas de cabos, proteções, dispositivos de segurança.
- Operação vs. manual/especificação: carga aplicada, ciclos de trabalho, limites de temperatura/pressão, condições ambientais.
- Manutenção: periodicidade, itens críticos, registros de substituição, evidências de improviso (emendas, adaptações).
- Normas técnicas aplicáveis: selecionar as pertinentes ao tipo de estrutura/equipamento e ao período/escopo (projeto, instalação, inspeção, ensaio).
Passo a passo prático (conformidade):
- Listar requisitos técnicos verificáveis (ex.: torque de aperto, classe de parafuso, bitola de cabo, cobrimento mínimo, presença de aterramento).
- Para cada requisito, indicar: fonte (documento/norma), evidência observada, método de verificação (medição/END/documento), e resultado (conforme/não conforme/indeterminado).
- Separar não conformidades “diretas” (capazes de causar falha) de “indiretas” (agravam consequências ou dificultam detecção).
Elaboração de conclusões técnicas: causas prováveis, fatores contribuintes e limitações
Como estruturar o raciocínio pericial
Conclusões em engenharia devem conectar observações a mecanismos físicos, e mecanismos a causas prováveis, deixando claro o grau de suporte do conjunto probatório. Uma forma prática é organizar em três níveis: (1) achados, (2) inferências técnicas, (3) implicações causais.
- Achados (observáveis): “há deformação plástica no longarino”, “há perda de seção por corrosão”, “há marca de frenagem de 28 m”.
- Inferências (mecanismos): “compatível com impacto frontal”, “compatível com flambagem”, “compatível com frenagem intensa em piso de atrito moderado”.
- Causas prováveis e fatores contribuintes: “causa provável: perda de estabilidade por excesso de velocidade em curva”; “fatores contribuintes: pneu com desgaste, sinalização deficiente, manutenção irregular”.
Modelo de redação com cautelas técnicas
Ao redigir, evitar termos absolutos quando há variabilidade não controlada. Preferir “compatível com”, “indica”, “sugere”, “não foi possível descartar”, e quantificar incertezas.
Exemplo de estrutura (adaptável):
Achados principais: (i) marcas de derrapagem lateral com raio aproximado R; (ii) deformação compatível com impacto lateral; (iii) ausência de falha mecânica evidente em componentes críticos inspecionados visualmente. Inferência: dinâmica compatível com perda de aderência em curva. Estimativa: velocidade compatível em intervalo Vmin–Vmax, condicionada a μ e às medições. Causa provável: perda de controle por velocidade incompatível com a geometria/condição da via. Fatores contribuintes: condição do pavimento e desgaste de pneus (se comprovados). Limitações: ausência de dados instrumentais do veículo e restrições de acesso a trechos do local após intervenções.Limitações do conjunto probatório: como declarar sem enfraquecer indevidamente
- Intervenções pós-evento: remoção de peças, combate a incêndio, limpeza do local, guinchamento.
- Degradação: corrosão acelerada após exposição, carbonização, colapso secundário.
- Ausência de registros: manutenção não documentada, projeto desatualizado, falta de dados de operação.
- Acesso e segurança: áreas instáveis, risco elétrico, risco químico, impossibilidade de END em determinadas regiões.
Mesmo com limitações, é possível sustentar conclusões parciais: delimitar o que foi possível afirmar, o que ficou indeterminado e quais hipóteses foram descartadas por incompatibilidade com vestígios.