Objetivo da gestão econômica na pecuária
Gestão de custos na pecuária é transformar o “quanto entrou e quanto saiu” em números comparáveis por animal, por kg produzido e por atividade (cria, recria, engorda, leite). Isso permite: (1) saber o custo real de produzir, (2) formar preço de venda com margem, (3) identificar gargalos (insumo, mão de obra, perdas, desempenho), (4) decidir compra/venda e giro de capital com base em indicadores.
Separação de custos: fixos, variáveis e investimentos
1) Custos fixos (CF)
São gastos que existem mesmo com pouca produção no curto prazo. Em geral, variam pouco com o número de animais no mês.
- Mão de obra fixa (salários, encargos)
- Energia mínima/assinaturas, internet, vigilância
- Manutenção recorrente (quando previsível e mensalizada)
- Impostos e taxas (ITR, licenças, contador)
- Depreciação (máquinas, instalações, cercas, ordenha)
- Juros de financiamentos (separar amortização de principal)
2) Custos variáveis (CV)
São proporcionais ao nível de produção ou ao número de animais movimentados no período.
- Ração, suplemento mineral, volumoso comprado
- Medicamentos e materiais de manejo (seringas, brincos)
- Fretes, comissões, taxas de abate/leilão
- Combustível e manutenção por uso (quando ligado à operação)
- Insumos de pasto/lavoura destinados ao rebanho (adubo, sementes) quando apropriado ao centro de custos
3) Investimentos (CAPEX) x despesas
Investimento é compra de bem com vida útil longa (curral, trator, ordenhadeira). Não entra inteiro como custo do mês; entra via depreciação (e, se houver, custo de capital/juros). Despesa é consumo do mês (sal, diesel, medicamento).
Passo a passo: como classificar corretamente
- Passo 1: Liste todas as saídas do extrato bancário/caixa do mês.
- Passo 2: Para cada item, marque: CF, CV ou Investimento.
- Passo 3: Defina o centro de custos (cria, recria, engorda, leite, administrativo).
- Passo 4: Se um gasto atende mais de uma atividade (ex.: mão de obra, energia), crie uma regra de rateio (por cabeça-dia, por horas, por % de uso).
Centro de custos por atividade (cria, recria, engorda, leite)
Centro de custos é uma “caixa” onde entram receitas e custos diretamente ligados a uma atividade. A regra prática é: quem gera a receita deve carregar os custos que a viabilizam.
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Estrutura recomendada
- Cria: vacas, touros/IA, bezerros até desmama; receitas de bezerros e descarte de matrizes.
- Recria: pós-desmama até entrada na engorda ou venda; receitas de venda de recriados.
- Engorda: terminação a pasto, semi ou confinamento; receitas de venda/abate.
- Leite: vacas em lactação, secas e reposição (se optar); receitas de leite e animais descartados.
- Administrativo/estrutura: custos comuns (contador, internet, vigilância) para rateio.
Rateios: regras simples e auditáveis
- Por cabeça-dia: bom para custos gerais (mão de obra, energia). Ex.: 60% do rebanho (em cabeça-dia) está na cria, então 60% do custo comum vai para cria.
- Por consumo: insumos medidos (ração por lote, diesel por operação).
- Por receita: alternativa quando não há medição (menos precisa, mas útil no início).
Como registrar despesas e receitas (rotina mensal)
Plano de contas (modelo)
Use um plano de contas padronizado para comparar meses e anos.
- Receitas: venda de animais (por categoria), leite, subprodutos, serviços, bonificações.
- Custos variáveis: alimentação, sanidade, reprodução (serviços), fretes/comissões, materiais.
- Custos fixos: salários/encargos, energia, manutenção, impostos, serviços (contador), depreciação.
- Financeiro: juros, tarifas bancárias.
- Investimentos: máquinas, benfeitorias, cercas, melhorias.
Passo a passo prático (fechamento do mês)
- Passo 1 — Captura: reúna notas, recibos, extratos e romaneios (compra/venda).
- Passo 2 — Lançamento: registre cada item com data, fornecedor/cliente, centro de custos, categoria e forma de pagamento.
- Passo 3 — Competência: se comprou insumo para usar em vários meses, lance no estoque e reconheça como custo conforme consumo (evita “mês caro/mês barato” artificial).
- Passo 4 — Rateios: aplique regras definidas e mantenha-as constantes por trimestre/semestre.
- Passo 5 — Conferência: total do caixa/banco deve bater com entradas e saídas (diferença vira “ajuste/pendência”).
Controle de estoque de insumos, perdas e sobras
Sem estoque, o custo por kg produzido fica distorcido: você paga hoje e “consome” ao longo de meses. O controle mínimo deve existir para: ração/concentrado, mineral, medicamentos, sêmen (se aplicável), combustível e materiais.
Campos essenciais do estoque
- Item
- Unidade (kg, saco, litro, dose)
- Saldo inicial
- Entradas (compras)
- Saídas (consumo por centro de custos e/ou lote)
- Perdas (umidade, pragas, vencimento, derramamento)
- Sobras/ajustes (inventário físico)
- Saldo final
- Custo médio (R$/unidade)
Passo a passo: custo médio e consumo
- Passo 1: faça inventário físico no início do mês (saldo inicial).
- Passo 2: registre compras (quantidade e valor).
- Passo 3: calcule custo médio:
(valor do saldo inicial + valor das compras) / (quantidade saldo inicial + quantidade comprada). - Passo 4: registre consumo (saídas) por atividade/lote.
- Passo 5: registre perdas separadamente (não “esconda” no consumo).
Cálculos fundamentais: custo por cabeça/mês e custo por kg produzido
1) Custo por cabeça/mês
Útil para comparar lotes, fases e sistemas. Exige definir o “número médio de cabeças” no mês.
Fórmulas:
- Cabeças médias no mês (aproximação):
(cabeças no início + cabeças no fim) / 2 - Custo total do mês:
CF + CV(por centro de custos ou fazenda) - Custo por cabeça/mês:
custo total do mês / cabeças médias
Exemplo: Engorda com 300 cabeças no início e 260 no fim. Cabeças médias = (300+260)/2 = 280. Se custo do mês (CF rateado + CV) = R$ 140.000, então custo/cabeça/mês = 140.000/280 = R$ 500.
2) Custo por kg produzido
O “kg produzido” depende do produto: em engorda, pode ser kg de ganho de peso vivo; no leite, litros (ou kg de leite). O ideal é usar a unidade que gera receita.
Engorda (custo por kg de ganho):
- Ganho total do lote no mês (kg):
GMD (kg/dia) × dias × cabeças médias - Custo por kg ganho:
custo do mês do centro de custos / ganho total (kg)
Exemplo: GMD = 1,2 kg/dia; dias = 30; cabeças médias = 280 → ganho total = 1,2×30×280 = 10.080 kg. Custo do mês = R$ 140.000 → custo/kg ganho = 140.000/10.080 = R$ 13,89/kg.
Leite (custo por litro):
- Litros do mês:
litros/vaca/dia × vacas em lactação médias × dias - Custo por litro:
custo do centro de leite / litros do mês
Margem bruta e resultado operacional
Margem bruta (MB)
Mostra se a atividade “se paga” antes da estrutura fixa.
- MB (R$):
Receita − Custos Variáveis - MB (%):
MB / Receita
Resultado operacional (RO)
Mostra se a atividade sustenta também a estrutura (fixos e depreciação). Use por centro de custos e no consolidado da fazenda.
- RO (R$):
Receita − (Custos Variáveis + Custos Fixos alocados)
Observação prática: depreciação e “custo de capital”
Depreciação entra no custo fixo para refletir desgaste do patrimônio. Se você quiser comparar “produzir x aplicar dinheiro”, inclua também um custo de oportunidade do capital (taxa anual convertida para mês) como linha separada, para não confundir operação com decisão financeira.
Formação do preço de venda (animal e leite)
Preço mínimo (piso) baseado em custo
Preço mínimo é o valor que cobre custos e a margem desejada. Para animal, escolha a unidade comercial (arroba, kg vivo, kg carcaça) e converta.
Modelo geral:
- Preço mínimo:
Custo unitário / (1 − margem desejada)
Exemplo (engorda): custo/kg ganho = R$ 13,89. Se você quer margem de 15% sobre o preço: preço mínimo/kg ganho = 13,89/(1−0,15)= R$ 16,34. Depois, conecte isso ao preço de venda por kg vivo/arrouba usando rendimento e peso final (na planilha, deixe explícitas as conversões).
Preço-alvo orientado por mercado + gatilhos
Na prática, o mercado define o teto. Então use dois números: preço mínimo (não vender abaixo, salvo estratégia) e preço-alvo (quando vender). Entre eles, entram gatilhos de decisão: necessidade de caixa, lotação, custo de manter mais um mês, risco de queda de preço.
Indicadores-chave e conexão com rentabilidade
Indicadores zootécnicos viram dinheiro quando afetam: (1) produção por área/animal, (2) custo por unidade produzida, (3) giro de capital, (4) risco (mortalidade, descarte, penalizações).
Taxa de lotação
- O que é: animais ou UA por hectare.
- Conexão com lucro: lotação adequada dilui custos fixos por kg produzido. Lotação acima da capacidade aumenta custo (queda de desempenho, mais suplementação, perdas).
Taxa de desfrute
- O que é: % do rebanho vendido/abatido no ano (inclui descarte).
- Conexão com lucro: maior desfrute (com reposição planejada) aumenta receita e giro do capital; desfrute baixo costuma “prender” capital em animais improdutivos.
Mortalidade
- O que é: % de animais mortos no período.
- Conexão com lucro: mortalidade é perda direta de receita e de custos já incorridos (alimentação, mão de obra). Na planilha, trate como linha específica para enxergar impacto.
GMD (ganho médio diário)
- O que é: kg/dia por animal.
- Conexão com lucro: GMD maior reduz dias para atingir peso de venda, diminui custo fixo por kg e melhora giro do capital. Porém, pode elevar CV (ração). O indicador econômico é custo por kg ganho e margem por cabeça, não apenas GMD.
Taxa de prenhez
- O que é: % de fêmeas prenhes em relação às expostas.
- Conexão com lucro: prenhez alta aumenta bezerros desmamados por vaca/ano, dilui custo das matrizes e reduz “vaca vazia” consumindo recursos.
Litros/vaca/dia (leite)
- O que é: produtividade média das vacas em lactação.
- Conexão com lucro: dilui CF por litro, mas deve ser analisado junto do custo alimentar por litro e do preço recebido.
CCS e CBT (quando aplicável no leite)
- O que é: indicadores de qualidade do leite (sanidade e higiene).
- Conexão com lucro: afetam bonificações/penalizações e perdas por descarte de leite, além de custos indiretos (tratamentos, descarte de vacas).
Mapa de conexão (indicador → efeito econômico)
| Indicador | Afeta diretamente | Resultado econômico típico |
|---|---|---|
| Lotação | kg/ha, custo fixo/kg | mais produção por área ou mais custo por queda de desempenho |
| Desfrute | receita anual, giro | mais caixa e menor capital “parado” |
| Mortalidade | perda de ativos + custos | queda de margem e aumento do custo unitário |
| GMD | dias até venda, custo/cabeça | melhor giro e menor custo fixo/kg |
| Prenhez | bezerros/ano, reposição | mais receita por matriz e menor custo por bezerro |
| Litros/vaca/dia | litros/mês, CF/litro | diluição de fixos, depende do custo alimentar |
| CCS/CBT | preço do leite, descarte | bonificação/penalização e perdas evitadas |
Planilhas conceituais: campos e fórmulas (modelos)
1) Planilha “Lançamentos” (base do financeiro)
Campos: Data | Documento | Fornecedor/Cliente | Descrição | Centro de custos | Categoria (plano de contas) | Tipo (Receita/Despesa/Investimento) | Valor | Forma de pagamento | Observação.
Regras: (1) toda linha tem centro de custos; (2) investimento não entra no custo do mês; (3) despesas com insumo estocável vão para “Estoque” (ativo) e só viram custo quando consumidas.
2) Planilha “Estoque e Consumo”
Campos: Mês | Item | Unidade | Saldo inicial (qtde) | Entradas (qtde) | Entradas (R$) | Qtde disponível | Custo médio (R$/un) | Consumo Cria | Consumo Recria | Consumo Engorda | Consumo Leite | Perdas | Saldo final.
Fórmulas:
Qtde disponível = Saldo inicial + EntradasCusto médio = (Valor saldo inicial + Entradas (R$)) / Qtde disponívelCusto consumido por centro = Consumo (qtde) × Custo médioSaldo final = Qtde disponível − (Consumos + Perdas)
3) Planilha “Centro de Custos (DRE gerencial)”
Colunas: Cria | Recria | Engorda | Leite | Administrativo | Total.
Linhas:
- Receita (por tipo)
- (−) Custos variáveis (alimentação, sanidade, fretes, comissões, etc.)
- = Margem bruta
- (−) Custos fixos alocados (mão de obra, energia, manutenção, depreciação)
- = Resultado operacional
Fórmulas:
Margem bruta = Receita − CVResultado operacional = Margem bruta − CF alocadosCF alocados (por cabeça-dia) = CF total × (cabeça-dia do centro / cabeça-dia total)
4) Planilha “Custo unitário e preço mínimo”
Campos (engorda): Cabeças médias | Dias | GMD | Ganho total (kg) | Custo total do mês | Custo/kg ganho | Margem desejada (%) | Preço mínimo/kg ganho.
Fórmulas:
Ganho total = Cabeças médias × Dias × GMDCusto/kg ganho = Custo total / Ganho totalPreço mínimo = Custo/kg ganho / (1 − Margem)
Campos (leite): Vacas lactação médias | Litros/vaca/dia | Dias | Litros do mês | Custo total do leite | Custo/litro | Preço recebido | Margem/litro.
Fórmulas:
Litros do mês = Vacas × Litros/vaca/dia × DiasCusto/litro = Custo total / LitrosMargem/litro = Preço recebido − Custo/litro
Roteiro de tomada de decisão: compra de insumos, venda e giro de capital
1) Decisão de compra de insumos (checklist econômico)
- Passo 1 — Defina a necessidade: qual atividade/lote será atendido e por quantos dias.
- Passo 2 — Meça o estoque: saldo físico e consumo médio (evita compra por “sensação”).
- Passo 3 — Calcule custo por unidade produzida: quanto esse insumo adiciona ao
custo/kg ganhooucusto/litro. - Passo 4 — Compare fornecedores: use R$/kg de nutriente útil (ou R$/dose efetiva) quando aplicável, e inclua frete/perdas.
- Passo 5 — Avalie impacto no caixa: prazo, juros embutidos, desconto à vista, e se a compra aumenta o capital empatado em estoque.
- Passo 6 — Regra de decisão: comprar se (a) reduz custo unitário ou (b) aumenta produção com margem positiva e (c) não estrangula o caixa.
2) Decisão de venda (animal/leite) com base em margem e custo de manter
Para animal, a pergunta prática é: vale a pena segurar mais 30 dias?
- Passo 1: estime o ganho esperado no próximo mês (kg) e o custo incremental (principalmente alimentação + custos operacionais).
- Passo 2: calcule custo incremental por kg:
custo incremental / ganho esperado. - Passo 3: compare com o preço incremental (quanto o mercado paga por esse kg adicional, considerando rendimento/bonificações).
- Regra: se
preço incremental > custo incremental, segurar tende a aumentar margem; se for menor, vender tende a proteger resultado e caixa.
Para leite, use: margem por litro e impacto de qualidade (CCS/CBT) no preço. Se a margem por litro cair abaixo do custo variável por litro por vários ciclos, revise dieta/insumos/eficiência e priorize ações que reduzam CV sem derrubar produção.
3) Giro de capital (evitar “lucro no papel e falta de caixa”)
- Passo 1 — Mapa de compromissos: liste pagamentos fixos (folha, financiamentos, energia) e variáveis previstos (ração, frete) por semana.
- Passo 2 — Previsão de entradas: datas prováveis de venda de animais/leite e valores conservadores.
- Passo 3 — Capital de giro mínimo: mantenha reserva para cobrir 1 a 2 ciclos de compra do principal insumo (ex.: alimentação), ajustando ao risco do sistema.
- Passo 4 — Prioridade de uso do caixa: (1) itens que evitam perda produtiva imediata, (2) itens com retorno rápido e mensurável, (3) melhorias estruturais.
- Passo 5 — Indicadores de alerta: aumento de estoque sem aumento de produção, custo/kg subindo por 2–3 meses, RO negativo em um centro de custos, mortalidade acima do padrão, queda de GMD ou litros/vaca/dia com custo alimentar crescente.
Boas práticas de implementação (para começar simples e evoluir)
- Comece pelo essencial: lançamentos + estoque de principais insumos + DRE por centro de custos.
- Padronize categorias: não mude nomes todo mês; isso permite comparar.
- Use poucos rateios, mas consistentes: cabeça-dia costuma resolver 80% do problema no início.
- Separe “produção” de “financeiro”: desempenho (kg, litros, prenhez) alimenta o custo unitário; o financeiro mostra caixa e compromissos.
- Trate perdas como linha própria: perdas aparecem como custo oculto; quando visíveis, viram alvo de ação.