Pecuária do Zero ao Profissional: Comercialização, Qualidade do Produto e Logística de Venda

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é comercialização na pecuária (e por que ela muda o resultado)

Comercialização é o conjunto de decisões e rotinas que transformam o animal (ou o leite) em receita: escolher o canal de venda, atender padrões de qualidade, preparar o lote para entrega, negociar condições e conferir se o pagamento recebido corresponde ao que foi entregue. Na prática, dois lotes com o mesmo peso podem gerar receitas diferentes por causa de padronização, rendimento, bonificações, descontos e perdas no manejo pré-abate/transporte.

Canais de venda: quando usar cada um

1) Frigorífico (boi gordo / vacas / novilhas)

Como funciona: venda para abate, com pagamento baseado em peso (vivo ou carcaça) e critérios de classificação. Pode haver contratos, escalas e bonificações por qualidade.

  • Vantagens: escoamento de volume, previsibilidade de retirada, possibilidade de bonificação (idade, acabamento, padrão de carcaça, programas).
  • Pontos de atenção: rendimento e descontos (contusões, condenações, excesso/defeito de gordura, jejum inadequado, documentação), prazos de pagamento e regras de pesagem.

2) Leilões (reposição e, em algumas regiões, gordo)

Como funciona: venda em pista, com comissão e regras do evento. Preço é formado pela disputa entre compradores; a apresentação do lote e a padronização influenciam diretamente o lance.

  • Vantagens: boa vitrine para genética/reposição, possibilidade de prêmio por lotes muito uniformes e bem apresentados.
  • Pontos de atenção: custos (comissão, frete, estadia), risco de preço abaixo do esperado, exigências sanitárias do evento e estresse de manejo/transporte.

3) Venda direta (para outro produtor, açougue, restaurante, consumidor final)

Como funciona: negociação direta, com maior controle de preço e condições. Pode ser venda do animal vivo, da carcaça (quando permitido e via estabelecimento regularizado) ou de produtos lácteos conforme legislação.

  • Vantagens: potencial de melhor preço quando há diferenciação (raça, acabamento, regularidade), flexibilidade de volume e calendário.
  • Pontos de atenção: formalização (nota, GTA, contratos), risco de inadimplência, logística e exigências legais/sanitárias do destino.

4) Laticínios (leite)

Como funciona: entrega contínua, com pagamento por volume e qualidade. A remuneração costuma considerar parâmetros como CBT/CCS, teor de gordura/proteína, crioscopia, resíduos e temperatura na coleta.

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  • Vantagens: receita recorrente, bonificações por qualidade e volume, possibilidade de contratos.
  • Pontos de atenção: penalizações por qualidade, necessidade de rotina rígida de resfriamento e higiene, e conferência de laudos e volumes coletados.

Padrões de classificação e por que a padronização do lote aumenta o preço

Conceito: “lote padronizado”

Lote padronizado é um grupo de animais com peso, idade, sexo, tipo racial e acabamento semelhantes. Para o comprador, isso reduz incerteza e facilita planejamento (abate, desossa, escala, reposição). Por isso, lotes uniformes tendem a receber melhor preço por cabeça/@ e menor desconto.

Como a padronização influencia preço (na prática)

  • Menos “cauda” de animais leves/pesados: reduz risco de parte do lote não atender o padrão do comprador (ex.: animais que “ficam para trás”).
  • Rendimento mais previsível: animais semelhantes tendem a entregar carcaças mais homogêneas, reduzindo descontos e melhorando bonificações.
  • Menos tempo de curral e reprocesso: embarque e descarga mais rápidos, menor estresse e menos contusões.

Classificação: o que normalmente entra na conta

Os critérios variam por comprador e região, mas geralmente envolvem:

  • Peso e faixa de peso (vivo ou carcaça).
  • Idade/categoria (dente, novilho, vaca, etc.).
  • Acabamento de gordura (insuficiente pode gerar desconto; excesso pode reduzir rendimento de cortes e também gerar desconto).
  • Conformação/musculosidade (impacta rendimento de cortes).
  • Integridade (contusões, fraturas, abscessos, marcas de injeção).

Aplicação prática: antes de ofertar, defina o “padrão-alvo” do lote (ex.: faixa de peso e acabamento) e separe os animais fora do padrão para outra data/canal. Isso costuma valer mais do que “forçar” todos a irem juntos.

Preparação para venda: passo a passo operacional

1) Definir o objetivo do lote e o canal

  • Escolha o destino (frigorífico, leilão, venda direta, laticínio) e o padrão exigido.
  • Confirme: forma de pagamento (peso vivo/carcaça/volume), prazos, bonificações e descontos.

2) Terminação e “fechamento” do lote

Objetivo: entregar animais dentro do padrão combinado, com mínimo risco de desconto.

  • Trave a composição do lote alguns dias antes: evite misturar categorias e tamanhos na última hora.
  • Revise identificação (brincos, marcações) para evitar troca de animais e divergência documental.
  • Faça triagem visual de acabamento e conformação para retirar “fora de padrão”.

3) Jejum pré-embarque (manejo para reduzir perdas)

Conceito: jejum é a retirada de alimento por um período controlado para reduzir conteúdo gastrointestinal, melhorar segurança no transporte e diminuir sujidade. Jejum mal feito pode aumentar estresse, desidratação, quedas, contusões e até mortalidade.

Passo a passo recomendado (ajuste ao protocolo do comprador e orientação técnica):

  • Planeje o horário do embarque e organize o curral com antecedência.
  • Retire alimento de forma programada; mantenha água disponível sempre que possível até próximo do embarque, conforme logística e segurança.
  • Evite jejum excessivo: aumenta perda de peso e risco de estresse térmico.
  • Evite manejo agressivo no período de jejum (gritos, choques, correria), pois isso aumenta contusões e queda de rendimento.

4) Embarque e transporte (redução de contusões, estresse e mortalidade)

Principais fontes de perda: escorregões, quedas, batidas em quinas, superlotação no caminhão, mistura de lotes, calor, tempo de viagem e paradas inadequadas.

Passo a passo de embarque:

  • Inspeção do caminhão: piso antiderrapante, laterais íntegras, sem pontas/arestas, divisórias funcionando, ventilação adequada.
  • Organização do curral: corredores livres, portões funcionando, iluminação sem sombras fortes, piso seguro.
  • Carregamento por grupos homogêneos: separe por tamanho/categoria; evite misturar animais muito diferentes.
  • Densidade correta: superlotação aumenta quedas e contusões; espaço demais aumenta deslocamento e batidas. Ajuste ao porte e às condições climáticas.
  • Manejo calmo: use bandeiras/fitas e pontos de equilíbrio; minimize uso de choques.
  • Rota e horário: prefira horários mais frescos e rotas com menos trepidação quando possível.

5) Documentação sanitária e de transporte

Objetivo: evitar retenção em barreiras, recusa no destino e atrasos que geram estresse e perda de peso.

  • GTA (Guia de Trânsito Animal) conforme espécie, finalidade e destino.
  • Nota fiscal (venda/remessa) conforme operação.
  • Exigências do destino: alguns compradores pedem declarações, cadastro, testes ou comprovações específicas.
  • Dados do lote: quantidade, categoria, identificação quando aplicável, origem/destino, data e horário.

Dica prática: mantenha uma pasta (física ou digital) com modelos e dados fixos da fazenda (inscrição, endereços, cadastros) para emitir documentos sem erro em dias de embarque.

Noções de negociação: como ler uma proposta sem cair em armadilhas

Elementos que mais mudam o resultado

  • Base de preço: por kg vivo, por @, por kg de carcaça, por litro (leite), por cabeça.
  • Prazo de pagamento: à vista, D+X dias, parcelado. Prazo maior tem custo financeiro.
  • Rendimento (quando abate): diferença entre peso vivo e carcaça; pequenas variações mudam muito a receita.
  • Bonificações: padrão de carcaça, idade, programas, volume, regularidade, qualidade (no leite: CBT/CCS, sólidos).
  • Descontos: contusões, condenações, excesso/defeito de gordura, animais fora do padrão, frete, comissão, taxas, quebra de contrato.

Como comparar duas propostas (método prático)

Compare propostas pelo resultado líquido esperado, não só pelo “preço anunciado”. Use uma planilha simples com os mesmos campos para todas as ofertas.

ItemProposta AProposta B
Preço baseR$ ...R$ ...
Forma de pesagem (vivo/carcaça)......
Rendimento esperado (%)......
Bonificações prováveisR$ ...R$ ...
Descontos prováveisR$ ...R$ ...
Frete/comissão/taxasR$ ...R$ ...
Prazo (dias) e custo financeiroR$ ...R$ ...
Resultado líquido estimadoR$ ...R$ ...

Conta rápida para avaliar margem na venda de gado (exemplo)

Cenário: lote com 30 animais. Peso médio vivo estimado: 520 kg. Venda por carcaça com rendimento esperado de 54%. Preço base: R$ 250/@ (15 kg). Bonificação: +R$ 5/@ se dentro do padrão. Desconto médio estimado por contusões: -R$ 2/@. Frete: R$ 3.000. Pagamento D+30 (considere custo financeiro).

1) Peso de carcaça por animal = 520 * 0,54 = 280,8 kg = 18,72 @  (pois 1@ = 15 kg) 2) Receita base por animal = 18,72 * 250 = R$ 4.680,00 3) Ajustes por animal = (bonificação 5 - desconto 2) * 18,72 = 3 * 18,72 = R$ 56,16 4) Receita ajustada por animal = 4.680 + 56,16 = R$ 4.736,16 5) Receita do lote (30) = 4.736,16 * 30 = R$ 142.084,80 6) Receita líquida antes do financeiro = 142.084,80 - 3.000 = R$ 139.084,80

Como usar: rode a mesma estrutura para cada comprador mudando rendimento, bonificações, descontos, frete e prazo. A proposta “melhor” é a que entrega maior resultado líquido com menor risco de desconto.

Checklist pré-venda (gado de corte)

  • Lote e padrão
    • Animais separados por categoria e faixa de peso
    • Uniformidade conferida (retirar fora do padrão)
    • Identificação conferida (brincos/marcações)
  • Condições comerciais
    • Canal definido e proposta registrada (preço, base, bonificações, descontos)
    • Prazo de pagamento confirmado e responsável pelo recebimento definido
    • Frete: quem paga, valor, data e transportador
  • Documentos
    • GTA emitida e conferida (origem/destino/quantidade/finalidade)
    • Nota fiscal emitida (dados do comprador, produto, quantidade, valores)
    • Exigências do destino atendidas (cadastro, regras do frigorífico/leilão)
  • Infra e manejo
    • Curral e embarcadouro revisados (piso, portões, iluminação)
    • Caminhão inspecionado (piso, laterais, divisórias, limpeza)
    • Equipe orientada para manejo calmo e fluxo de embarque
  • Jejum e bem-estar
    • Horário de retirada de alimento planejado
    • Água disponível conforme logística e segurança
    • Embarque em horário mais fresco quando possível

Checklist pré-venda (leite para laticínio)

  • Rotina de resfriamento e temperatura do tanque conferidas
  • Higienização de equipamentos e sala de ordenha conferidas
  • Registro de volume diário e coleta (data/horário)
  • Laudos/relatórios de qualidade (CBT/CCS/sólidos) organizados
  • Condições comerciais: tabela de pagamento, bonificações e descontos atualizados

Fluxo de conferência: notas, pesagens e recebimentos

1) Antes do embarque/coleta

  • Registrar o lote: quantidade, categoria, identificação (se aplicável), peso estimado e destino.
  • Salvar a proposta (print, e-mail ou contrato) com preço, base, bonificações/descontos e prazo.
  • Emitir e conferir documentos: GTA e nota fiscal (dados e quantidades).

2) No embarque

  • Conferir contagem na entrada do caminhão (dupla checagem: responsável da fazenda + motorista).
  • Registrar evidências: fotos do lacre (se houver), placa do caminhão, horário de saída e condições do lote.
  • Registrar ocorrências: animal caído, ferimento, atraso, chuva/calor extremo, problemas no veículo.

3) Na pesagem/recebimento no destino

  • Solicitar comprovantes: ticket de balança (peso vivo) ou romaneio/laudo (carcaça), ou relatório de coleta (leite).
  • Conferir divergências: quantidade recebida vs. embarcada; horários; categoria; identificação quando aplicável.
  • Checar descontos: contusões, condenações, fora de padrão, taxas e frete conforme combinado.

4) No faturamento e pagamento

  • Conferir nota x romaneio: valores, quantidades, base de cálculo e impostos.
  • Conferir bonificações: se critérios foram atingidos e se foram aplicadas corretamente.
  • Conferir prazo: data prevista e data efetiva; registrar atraso e custo financeiro.
  • Arquivar o dossiê da venda: proposta + GTA + NF + tickets/romaneios + comprovante de pagamento.

Erros comuns que geram desconto (e como evitar)

  • Lote desuniforme: separar por faixa de peso/categoria e vender em datas/canais diferentes.
  • Jejum desorganizado: planejar horários e reduzir tempo de curral; evitar manejo agressivo.
  • Embarcadouro ruim e caminhão inadequado: revisar estrutura e exigir veículo em boas condições.
  • Documentação com erro: conferir origem/destino/quantidade e manter dados cadastrais atualizados.
  • Negociar só “preço”: sempre colocar na conta rendimento, descontos, frete, comissões e prazo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao comparar duas propostas de venda de gado, qual prática melhor evita cair na armadilha de escolher apenas pelo “preço anunciado”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A melhor comparação é pelo resultado líquido esperado, somando bonificações e subtraindo descontos, frete/taxas e o custo do prazo. Só o preço base pode esconder perdas por rendimento, contusões e outras regras.

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