Objetivo do manejo do parto à recria
Do parto ao fim da recria, o foco é simples: manter o bezerro vivo, saudável e ganhando peso de forma contínua, enquanto a vaca mantém condição corporal suficiente para emprenhar novamente. Na prática, desempenho vem de rotina bem executada (primeiras horas de vida), nutrição adequada (leite + pasto + suplemento) e controle de riscos (diarreias, pneumonias, parasitas e falhas de manejo).
Manejo do parto ao desmame (rotina de campo)
1) Primeiras 2 horas: cuidados neonatais e colostragem
O bezerro nasce sem imunidade efetiva e depende do colostro para adquirir anticorpos. A absorção de imunoglobulinas cai rapidamente após o nascimento, então o tempo é o fator mais crítico.
- Verificar respiração e vigor: se necessário, remover muco das narinas e estimular a respiração (fricção vigorosa com toalha/palha).
- Garantir que mame cedo: observar se o bezerro levanta e pega teto. Se não mamar, intervir (conduzir ao teto, ordenhar e fornecer colostro).
- Meta prática de colostro: fornecer colostro de boa qualidade o quanto antes. Regra operacional: o mais cedo possível e em volume suficiente para encher o abomaso e garantir transferência de imunidade. Em rebanhos com histórico de falhas, padronize protocolo com colostro armazenado (congelado) e aquecido em banho-maria morno (sem ferver).
2) Primeiras 24 horas: cura do umbigo, identificação e registro
Umbigo é porta de entrada para infecções que derrubam desempenho (onfalite, artrite, septicemia). Identificação e registro permitem rastrear problemas e medir resultados.
- Cura do umbigo: imersão do coto umbilical em solução antisséptica apropriada (frasco “copo”/imersão) logo após o parto e repetir conforme protocolo da fazenda, especialmente em ambiente úmido/sujo.
- Identificação: brinco numerado (e/ou tatuagem) e registro de data, sexo, mãe, local do parto e observações (dificuldade de parto, fraqueza, gemelaridade).
- Peso ao nascer (se possível): balança ou fita/estimativa padronizada. Esse dado ajuda a interpretar ganho até a desmama.
3) Primeira semana: prevenção de diarreias (scours) e falhas de manejo
Diarreia neonatal costuma ser multifatorial: falha de colostro, ambiente contaminado, estresse térmico, lotação alta e manejo irregular. O objetivo é reduzir exposição e aumentar resistência do bezerro.
- Ambiente: maternidade seca, com boa drenagem, sombra e proteção contra vento/chuva. Evitar lama e acúmulo de fezes.
- Rotina de observação: checar bezerros 1–2 vezes ao dia na primeira semana: fezes, apetite, postura, umbigo, desidratação (olhos fundos, pele sem elasticidade).
- Água e cocho limpos (quando houver creep): contaminação de cocho é gatilho comum de diarreia.
- Intervenção rápida: ao primeiro sinal de diarreia, priorizar reidratação e correção de manejo (sombra, higiene, acesso ao leite). Quanto mais cedo agir, menor a perda de ganho.
4) Do 15º dia ao desmame: prevenção de pneumonias e manutenção do ganho
Pneumonia reduz ganho e aumenta mortalidade, especialmente em mudanças bruscas de clima, poeira, manejo estressante e lotes misturados. O foco é reduzir estresse e melhorar conforto.
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- Conforto térmico: sombra e acesso a água; evitar lotação excessiva em piquetes pequenos.
- Poeira e manejo: evitar movimentações longas e em horários quentes; reduzir gritaria e correria.
- Observação de sinais: tosse, secreção nasal, respiração ofegante, orelhas caídas, apatia. Isolar e tratar conforme orientação técnica da fazenda.
Creep-feeding e creep-grazing: quando e como usar
Conceito e objetivo
Creep-feeding é oferecer suplemento concentrado ao bezerro em cocho de acesso exclusivo (com “cercado creep”), aumentando ganho pré-desmama e reduzindo estresse na desmama. Creep-grazing é permitir acesso do bezerro a uma área de pasto de melhor qualidade (capim mais novo/folhoso) sem a vaca, elevando ingestão de forragem de alta digestibilidade.
Quando faz mais diferença
- Vacas com menor produção de leite (primíparas, vacas em condição corporal baixa).
- Pastagens limitantes (seca, baixa proteína, alta fibra).
- Meta de desmama pesada (venda de bezerro, reposição acelerada, padronização de lotes).
Passo a passo prático do creep-feeding
- Escolha do local: área seca, próxima à água, com sombra e fácil acesso para abastecimento.
- Instalação do creep: entrada que permita bezerros e impeça vacas (altura/largura ajustadas ao tamanho dos bezerros).
- Cocho e higiene: cocho coberto ou com proteção contra chuva; limpeza frequente para evitar mofo e contaminação.
- Adaptação: iniciar com pequena oferta diária e aumentar gradualmente para evitar desperdício e distúrbios digestivos.
- Consumo-alvo: trabalhar com metas de consumo compatíveis com idade e objetivo de ganho; ajustar pela sobra no cocho (sobra constante indica excesso; cocho “zerado” cedo indica falta).
- Monitoramento: observar fezes, timpanismo, uniformidade do lote e ganho de peso (pesagens/estimativas).
Passo a passo prático do creep-grazing
- Definir área premium: piquete com melhor capim (mais folha, menor talo), preferencialmente próximo ao lote de vacas.
- Montar acesso seletivo: passagem que permita bezerros e restrinja vacas.
- Rotação: manter o capim sempre “novo” para o bezerro; se passar do ponto, perde o efeito.
- Água e sombra: garantir conforto também dentro/ao redor da área creep.
Critérios para desmama: idade, peso e condição corporal da vaca
Conceito
Desmamar não é apenas “tirar o bezerro da vaca”; é uma decisão de desempenho e eficiência. O melhor ponto é quando o bezerro já consegue manter ganho com pasto + suplemento e quando a vaca precisa recuperar condição corporal para manter a eficiência reprodutiva.
Critérios práticos (use em conjunto)
- Idade: desmama tradicional ocorre em torno de 6–8 meses, mas pode ser ajustada conforme oferta de pasto, objetivo de venda e condição das vacas.
- Peso do bezerro: definir meta por sistema (ex.: padronização de lote para comercialização). O importante é peso mínimo com segurança para enfrentar a transição sem “travada”.
- Condição corporal da vaca (ECC): se a vaca está perdendo ECC e há risco de comprometer a próxima prenhez, a desmama (inclusive antecipada) pode ser ferramenta de manejo.
- Oferta de forragem: se o pasto não sustenta vaca + bezerro, a desmama ou suplementação do bezerro (creep) evita queda de desempenho.
Desmama com menor estresse (rotina operacional)
- Pré-desmama: acostumar bezerro ao cocho e à presença humana; isso reduz perda de peso pós-desmama.
- Separação planejada: evitar longas distâncias e poeira; fornecer água e suplemento imediatamente no lote de desmamados.
- Lotes homogêneos: separar por peso/sexo quando possível para reduzir competição.
Recria a pasto com suplementação: metas de ganho e prevenção de atrasos
Conceito
Recria é a fase em que o animal “constrói” estrutura e peso de forma econômica. O maior erro é aceitar ganho baixo por muitos meses: o atraso se acumula e empurra a idade ao abate (machos) ou a idade ao primeiro parto (fêmeas). A regra é manter ganho contínuo, mesmo na seca, com ajuste de lotação e suplementação.
Metas de ganho (como definir)
As metas variam por genética, sexo, categoria e estratégia (abate mais cedo vs. mais tarde; novilha precoce vs. tradicional). Em vez de um número fixo universal, trabalhe com:
- Meta mínima de GMD (ganho médio diário) para não “travar”: definir um piso por estação (águas e seca) e corrigir rapidamente quando ficar abaixo.
- Meta por marco de peso: estabelecer pesos-alvo em idades-chave (ex.: 30, 60, 90 dias pós-desmama; entrada/saída da seca).
- Meta por escore corporal: manter ECC adequado para a categoria, evitando animais “costeludos” na seca e “gordos” precocemente quando o objetivo é crescimento.
Estratégia prática de suplementação na recria a pasto
O suplemento deve corrigir o que o pasto não entrega (proteína na seca, energia quando a qualidade cai, minerais sempre). Ajuste por estação:
- Águas: foco em mineralização e, se necessário, suplemento proteico/energético leve para acelerar ganho e padronizar lote.
- Transição águas-seca: momento crítico; antecipar suplementação evita queda brusca de desempenho.
- Seca: geralmente exige suplemento proteico (para melhorar uso da fibra) e, conforme meta, aporte energético. Sem isso, o animal perde tempo e “encurta” a janela de abate/primeiro parto.
Como evitar atrasos que comprometem idade ao abate ou ao primeiro parto
- Pesagem e correção rápida: se o ganho caiu, agir na causa (pasto, lotação, suplemento, água, parasitas, sombra) na mesma semana, não “no próximo mês”.
- Controle de lotação: lotação acima do suporte do pasto é o jeito mais rápido de perder desempenho; ajustar com desmama estratégica, venda, remanejamento de categorias ou suplementação mais intensa.
- Uniformidade de lote: animais muito desuniformes geram competição e dificultam ajuste de suplemento; separar leves e pesados melhora resposta.
- Cocho e acesso: cocho insuficiente causa dominância e “ganho escondido” (alguns ganham, outros travam). Garantir espaço de cocho e distribuição adequada.
- Água: distância grande até água reduz consumo de pasto e suplemento; manter pontos de água bem posicionados e limpos.
Checklists de manejo por fase
Checklist: parto (maternidade)
- Área seca, limpa, com sombra e boa drenagem
- Ronda de partos em horários definidos
- Kit disponível: antisséptico para umbigo, frasco de imersão, brincos/identificação, registro, luvas, toalha/palha
- Plano para bezerro fraco: condução ao teto e fornecimento de colostro
- Registro do parto (mãe, data, observações)
Checklist: 0–48 horas (neonato)
- Confirmar mamada e vigor
- Cura do umbigo realizada e conferida
- Identificação aplicada e registrada
- Observação de hipotermia/hipertermia e desidratação
- Separar e monitorar casos de risco (parto difícil, gemelar, bezerro pequeno/fraco)
Checklist: 3–30 dias (risco de diarreia)
- Ronda diária: fezes, apetite, umbigo, hidratação
- Ambiente sem lama e sem acúmulo de fezes
- Cocho/água (se houver creep) limpos e protegidos de chuva
- Registro de casos (data, gravidade, tratamento, evolução)
Checklist: 30 dias ao desmame (ganho e prevenção de pneumonia)
- Observação de tosse, secreção nasal, apatia
- Evitar poeira e manejo estressante
- Se usar creep: consumo monitorado e ajuste de oferta
- Planejar desmama: lote, piquete, água, cocho, suplemento
Checklist: pós-desmama (primeiros 30 dias)
- Água e suplemento disponíveis imediatamente
- Lotes homogêneos por peso/sexo
- Ronda diária na primeira semana (queda de consumo, diarreia, pneumonia)
- Revisar cocho: espaço, sobra, qualidade do suplemento
- Pesagem/estimativa ao início e ao final do período
Checklist: recria a pasto (rotina mensal)
- Condição do pasto (altura, folha, presença de talo, disponibilidade)
- Lotação ajustada ao suporte
- Suplemento: consumo real vs. planejado e qualidade (sem empedramento/mofo)
- Água: limpeza e vazão
- Pesagem/avaliação de ECC e separação de “atrasados”
Indicadores para acompanhamento (painel de desempenho)
| Indicador | Como medir | Por que importa | Ação quando piora |
|---|---|---|---|
| Peso ao nascer | Balança/registro | Base para avaliar ganho e risco neonatal | Revisar manejo de parto, colostro e seleção de matrizes |
| Peso à desmama | Pesagem do lote | Principal resultado da fase cria | Ajustar creep, pasto, lotação e sanidade de bezerros |
| GMD pré e pós-desmama | (Peso final - inicial)/dias | Mostra “travadas” rapidamente | Corrigir suplemento, acesso a cocho, qualidade do pasto e estresse |
| Escore de condição corporal (ECC) da vaca | Avaliação visual padronizada | Indica risco de queda de eficiência reprodutiva | Desmama estratégica, ajuste nutricional e lotação |
| Taxa de morbidade (diarreia/pneumonia) | Casos/total do lote | Doença reduz ganho e aumenta custo | Revisar colostragem, higiene, conforto, manejo e resposta rápida |
| Taxa de mortalidade | Óbitos/total do lote | Indicador crítico de falhas de manejo | Auditar rotina neonatal, ambiente, tempo de intervenção e registros |
| Uniformidade do lote | Desvio de peso/observação | Afeta competição e eficiência do suplemento | Separar por peso e ajustar oferta/estrutura de cocho |
Modelos de registros (para padronizar a rotina)
Ficha rápida do bezerro (campo)
ID: ____ Data nascimento: __/__/__ Sexo: ( )M ( )F Mãe: ____ Observações do parto: ____________ Colostro: ( )mamou cedo ( )intervenção Umbigo: ( )feito ( )refeito Data: __/__/__ Eventos: diarreia ( )sim ( )não pneumonia ( )sim ( )não Tratamentos: ____________Controle do creep (semanal)
Semana: __/__/__ a __/__/__ Nº bezerros: ____ Tipo suplemento: ____ Oferta/dia: ____ Sobra: ( )alta ( )ok ( )zero Consumo estimado/cab/dia: ____ Observações (fezes, desperdício, mofo, dominância): ____________Controle da recria (mensal)
Mês: ____ Lote: ____ Peso médio: ____ GMD: ____ ECC médio: ____ Pasto (qualidade/disponibilidade): ____ Suplemento (tipo/consumo): ____ Ocorrências sanitárias: ____ Ações corretivas: ____