Pecuária do Zero ao Profissional: Cria, Desmama e Recria com Foco em Desempenho

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Objetivo do manejo do parto à recria

Do parto ao fim da recria, o foco é simples: manter o bezerro vivo, saudável e ganhando peso de forma contínua, enquanto a vaca mantém condição corporal suficiente para emprenhar novamente. Na prática, desempenho vem de rotina bem executada (primeiras horas de vida), nutrição adequada (leite + pasto + suplemento) e controle de riscos (diarreias, pneumonias, parasitas e falhas de manejo).

Manejo do parto ao desmame (rotina de campo)

1) Primeiras 2 horas: cuidados neonatais e colostragem

O bezerro nasce sem imunidade efetiva e depende do colostro para adquirir anticorpos. A absorção de imunoglobulinas cai rapidamente após o nascimento, então o tempo é o fator mais crítico.

  • Verificar respiração e vigor: se necessário, remover muco das narinas e estimular a respiração (fricção vigorosa com toalha/palha).
  • Garantir que mame cedo: observar se o bezerro levanta e pega teto. Se não mamar, intervir (conduzir ao teto, ordenhar e fornecer colostro).
  • Meta prática de colostro: fornecer colostro de boa qualidade o quanto antes. Regra operacional: o mais cedo possível e em volume suficiente para encher o abomaso e garantir transferência de imunidade. Em rebanhos com histórico de falhas, padronize protocolo com colostro armazenado (congelado) e aquecido em banho-maria morno (sem ferver).

2) Primeiras 24 horas: cura do umbigo, identificação e registro

Umbigo é porta de entrada para infecções que derrubam desempenho (onfalite, artrite, septicemia). Identificação e registro permitem rastrear problemas e medir resultados.

  • Cura do umbigo: imersão do coto umbilical em solução antisséptica apropriada (frasco “copo”/imersão) logo após o parto e repetir conforme protocolo da fazenda, especialmente em ambiente úmido/sujo.
  • Identificação: brinco numerado (e/ou tatuagem) e registro de data, sexo, mãe, local do parto e observações (dificuldade de parto, fraqueza, gemelaridade).
  • Peso ao nascer (se possível): balança ou fita/estimativa padronizada. Esse dado ajuda a interpretar ganho até a desmama.

3) Primeira semana: prevenção de diarreias (scours) e falhas de manejo

Diarreia neonatal costuma ser multifatorial: falha de colostro, ambiente contaminado, estresse térmico, lotação alta e manejo irregular. O objetivo é reduzir exposição e aumentar resistência do bezerro.

  • Ambiente: maternidade seca, com boa drenagem, sombra e proteção contra vento/chuva. Evitar lama e acúmulo de fezes.
  • Rotina de observação: checar bezerros 1–2 vezes ao dia na primeira semana: fezes, apetite, postura, umbigo, desidratação (olhos fundos, pele sem elasticidade).
  • Água e cocho limpos (quando houver creep): contaminação de cocho é gatilho comum de diarreia.
  • Intervenção rápida: ao primeiro sinal de diarreia, priorizar reidratação e correção de manejo (sombra, higiene, acesso ao leite). Quanto mais cedo agir, menor a perda de ganho.

4) Do 15º dia ao desmame: prevenção de pneumonias e manutenção do ganho

Pneumonia reduz ganho e aumenta mortalidade, especialmente em mudanças bruscas de clima, poeira, manejo estressante e lotes misturados. O foco é reduzir estresse e melhorar conforto.

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  • Conforto térmico: sombra e acesso a água; evitar lotação excessiva em piquetes pequenos.
  • Poeira e manejo: evitar movimentações longas e em horários quentes; reduzir gritaria e correria.
  • Observação de sinais: tosse, secreção nasal, respiração ofegante, orelhas caídas, apatia. Isolar e tratar conforme orientação técnica da fazenda.

Creep-feeding e creep-grazing: quando e como usar

Conceito e objetivo

Creep-feeding é oferecer suplemento concentrado ao bezerro em cocho de acesso exclusivo (com “cercado creep”), aumentando ganho pré-desmama e reduzindo estresse na desmama. Creep-grazing é permitir acesso do bezerro a uma área de pasto de melhor qualidade (capim mais novo/folhoso) sem a vaca, elevando ingestão de forragem de alta digestibilidade.

Quando faz mais diferença

  • Vacas com menor produção de leite (primíparas, vacas em condição corporal baixa).
  • Pastagens limitantes (seca, baixa proteína, alta fibra).
  • Meta de desmama pesada (venda de bezerro, reposição acelerada, padronização de lotes).

Passo a passo prático do creep-feeding

  1. Escolha do local: área seca, próxima à água, com sombra e fácil acesso para abastecimento.
  2. Instalação do creep: entrada que permita bezerros e impeça vacas (altura/largura ajustadas ao tamanho dos bezerros).
  3. Cocho e higiene: cocho coberto ou com proteção contra chuva; limpeza frequente para evitar mofo e contaminação.
  4. Adaptação: iniciar com pequena oferta diária e aumentar gradualmente para evitar desperdício e distúrbios digestivos.
  5. Consumo-alvo: trabalhar com metas de consumo compatíveis com idade e objetivo de ganho; ajustar pela sobra no cocho (sobra constante indica excesso; cocho “zerado” cedo indica falta).
  6. Monitoramento: observar fezes, timpanismo, uniformidade do lote e ganho de peso (pesagens/estimativas).

Passo a passo prático do creep-grazing

  1. Definir área premium: piquete com melhor capim (mais folha, menor talo), preferencialmente próximo ao lote de vacas.
  2. Montar acesso seletivo: passagem que permita bezerros e restrinja vacas.
  3. Rotação: manter o capim sempre “novo” para o bezerro; se passar do ponto, perde o efeito.
  4. Água e sombra: garantir conforto também dentro/ao redor da área creep.

Critérios para desmama: idade, peso e condição corporal da vaca

Conceito

Desmamar não é apenas “tirar o bezerro da vaca”; é uma decisão de desempenho e eficiência. O melhor ponto é quando o bezerro já consegue manter ganho com pasto + suplemento e quando a vaca precisa recuperar condição corporal para manter a eficiência reprodutiva.

Critérios práticos (use em conjunto)

  • Idade: desmama tradicional ocorre em torno de 6–8 meses, mas pode ser ajustada conforme oferta de pasto, objetivo de venda e condição das vacas.
  • Peso do bezerro: definir meta por sistema (ex.: padronização de lote para comercialização). O importante é peso mínimo com segurança para enfrentar a transição sem “travada”.
  • Condição corporal da vaca (ECC): se a vaca está perdendo ECC e há risco de comprometer a próxima prenhez, a desmama (inclusive antecipada) pode ser ferramenta de manejo.
  • Oferta de forragem: se o pasto não sustenta vaca + bezerro, a desmama ou suplementação do bezerro (creep) evita queda de desempenho.

Desmama com menor estresse (rotina operacional)

  • Pré-desmama: acostumar bezerro ao cocho e à presença humana; isso reduz perda de peso pós-desmama.
  • Separação planejada: evitar longas distâncias e poeira; fornecer água e suplemento imediatamente no lote de desmamados.
  • Lotes homogêneos: separar por peso/sexo quando possível para reduzir competição.

Recria a pasto com suplementação: metas de ganho e prevenção de atrasos

Conceito

Recria é a fase em que o animal “constrói” estrutura e peso de forma econômica. O maior erro é aceitar ganho baixo por muitos meses: o atraso se acumula e empurra a idade ao abate (machos) ou a idade ao primeiro parto (fêmeas). A regra é manter ganho contínuo, mesmo na seca, com ajuste de lotação e suplementação.

Metas de ganho (como definir)

As metas variam por genética, sexo, categoria e estratégia (abate mais cedo vs. mais tarde; novilha precoce vs. tradicional). Em vez de um número fixo universal, trabalhe com:

  • Meta mínima de GMD (ganho médio diário) para não “travar”: definir um piso por estação (águas e seca) e corrigir rapidamente quando ficar abaixo.
  • Meta por marco de peso: estabelecer pesos-alvo em idades-chave (ex.: 30, 60, 90 dias pós-desmama; entrada/saída da seca).
  • Meta por escore corporal: manter ECC adequado para a categoria, evitando animais “costeludos” na seca e “gordos” precocemente quando o objetivo é crescimento.

Estratégia prática de suplementação na recria a pasto

O suplemento deve corrigir o que o pasto não entrega (proteína na seca, energia quando a qualidade cai, minerais sempre). Ajuste por estação:

  • Águas: foco em mineralização e, se necessário, suplemento proteico/energético leve para acelerar ganho e padronizar lote.
  • Transição águas-seca: momento crítico; antecipar suplementação evita queda brusca de desempenho.
  • Seca: geralmente exige suplemento proteico (para melhorar uso da fibra) e, conforme meta, aporte energético. Sem isso, o animal perde tempo e “encurta” a janela de abate/primeiro parto.

Como evitar atrasos que comprometem idade ao abate ou ao primeiro parto

  • Pesagem e correção rápida: se o ganho caiu, agir na causa (pasto, lotação, suplemento, água, parasitas, sombra) na mesma semana, não “no próximo mês”.
  • Controle de lotação: lotação acima do suporte do pasto é o jeito mais rápido de perder desempenho; ajustar com desmama estratégica, venda, remanejamento de categorias ou suplementação mais intensa.
  • Uniformidade de lote: animais muito desuniformes geram competição e dificultam ajuste de suplemento; separar leves e pesados melhora resposta.
  • Cocho e acesso: cocho insuficiente causa dominância e “ganho escondido” (alguns ganham, outros travam). Garantir espaço de cocho e distribuição adequada.
  • Água: distância grande até água reduz consumo de pasto e suplemento; manter pontos de água bem posicionados e limpos.

Checklists de manejo por fase

Checklist: parto (maternidade)

  • Área seca, limpa, com sombra e boa drenagem
  • Ronda de partos em horários definidos
  • Kit disponível: antisséptico para umbigo, frasco de imersão, brincos/identificação, registro, luvas, toalha/palha
  • Plano para bezerro fraco: condução ao teto e fornecimento de colostro
  • Registro do parto (mãe, data, observações)

Checklist: 0–48 horas (neonato)

  • Confirmar mamada e vigor
  • Cura do umbigo realizada e conferida
  • Identificação aplicada e registrada
  • Observação de hipotermia/hipertermia e desidratação
  • Separar e monitorar casos de risco (parto difícil, gemelar, bezerro pequeno/fraco)

Checklist: 3–30 dias (risco de diarreia)

  • Ronda diária: fezes, apetite, umbigo, hidratação
  • Ambiente sem lama e sem acúmulo de fezes
  • Cocho/água (se houver creep) limpos e protegidos de chuva
  • Registro de casos (data, gravidade, tratamento, evolução)

Checklist: 30 dias ao desmame (ganho e prevenção de pneumonia)

  • Observação de tosse, secreção nasal, apatia
  • Evitar poeira e manejo estressante
  • Se usar creep: consumo monitorado e ajuste de oferta
  • Planejar desmama: lote, piquete, água, cocho, suplemento

Checklist: pós-desmama (primeiros 30 dias)

  • Água e suplemento disponíveis imediatamente
  • Lotes homogêneos por peso/sexo
  • Ronda diária na primeira semana (queda de consumo, diarreia, pneumonia)
  • Revisar cocho: espaço, sobra, qualidade do suplemento
  • Pesagem/estimativa ao início e ao final do período

Checklist: recria a pasto (rotina mensal)

  • Condição do pasto (altura, folha, presença de talo, disponibilidade)
  • Lotação ajustada ao suporte
  • Suplemento: consumo real vs. planejado e qualidade (sem empedramento/mofo)
  • Água: limpeza e vazão
  • Pesagem/avaliação de ECC e separação de “atrasados”

Indicadores para acompanhamento (painel de desempenho)

IndicadorComo medirPor que importaAção quando piora
Peso ao nascerBalança/registroBase para avaliar ganho e risco neonatalRevisar manejo de parto, colostro e seleção de matrizes
Peso à desmamaPesagem do lotePrincipal resultado da fase criaAjustar creep, pasto, lotação e sanidade de bezerros
GMD pré e pós-desmama(Peso final - inicial)/diasMostra “travadas” rapidamenteCorrigir suplemento, acesso a cocho, qualidade do pasto e estresse
Escore de condição corporal (ECC) da vacaAvaliação visual padronizadaIndica risco de queda de eficiência reprodutivaDesmama estratégica, ajuste nutricional e lotação
Taxa de morbidade (diarreia/pneumonia)Casos/total do loteDoença reduz ganho e aumenta custoRevisar colostragem, higiene, conforto, manejo e resposta rápida
Taxa de mortalidadeÓbitos/total do loteIndicador crítico de falhas de manejoAuditar rotina neonatal, ambiente, tempo de intervenção e registros
Uniformidade do loteDesvio de peso/observaçãoAfeta competição e eficiência do suplementoSeparar por peso e ajustar oferta/estrutura de cocho

Modelos de registros (para padronizar a rotina)

Ficha rápida do bezerro (campo)

ID: ____  Data nascimento: __/__/__  Sexo: ( )M ( )F  Mãe: ____  Observações do parto: ____________ Colostro: ( )mamou cedo ( )intervenção  Umbigo: ( )feito ( )refeito  Data: __/__/__ Eventos: diarreia ( )sim ( )não  pneumonia ( )sim ( )não  Tratamentos: ____________

Controle do creep (semanal)

Semana: __/__/__ a __/__/__  Nº bezerros: ____ Tipo suplemento: ____ Oferta/dia: ____ Sobra: ( )alta ( )ok ( )zero Consumo estimado/cab/dia: ____ Observações (fezes, desperdício, mofo, dominância): ____________

Controle da recria (mensal)

Mês: ____  Lote: ____  Peso médio: ____  GMD: ____  ECC médio: ____ Pasto (qualidade/disponibilidade): ____ Suplemento (tipo/consumo): ____ Ocorrências sanitárias: ____ Ações corretivas: ____

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na fase do parto às primeiras horas de vida, qual prática é mais crítica para reduzir doenças e garantir bom desempenho do bezerro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O bezerro nasce sem imunidade efetiva e depende do colostro. A absorção de imunoglobulinas cai rapidamente após o nascimento, por isso o tempo é o fator mais crítico e pode exigir intervenção para garantir mamada.

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