Pecuária do Zero ao Profissional: Bem-estar Animal, Manejo Racional e Segurança no Trabalho

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Bem-estar animal: conceito aplicado (Cinco Domínios)

Bem-estar animal é a condição do animal em relação à forma como ele vive e é manejado. Na prática, não é “ser bonzinho”: é reduzir dor, medo e desconforto para que o animal expresse comportamento normal, mantenha saúde e produza melhor. Um modelo muito usado para organizar decisões de manejo é o dos Cinco Domínios, que conecta condições físicas e mentais observáveis.

Os Cinco Domínios e como avaliar no dia a dia

  • Nutrição: acesso adequado a água e alimento, sem competição excessiva. Indicadores: animais desidratados, brigas no cocho/bebedouro, variação grande de escore corporal.
  • Ambiente: conforto térmico, piso seguro, sombra/abrigo quando necessário. Indicadores: ofegação, tremores, animais deitados em locais úmidos, escorregões e quedas.
  • Saúde: ausência de dor, lesões e doença. Indicadores: claudicação, feridas, inchaços, tosse, secreções, apatia.
  • Comportamento: possibilidade de se mover, explorar e interagir normalmente, com manejo previsível. Indicadores: animais isolados, agressividade, relutância em andar, empacamento no corredor.
  • Estado mental: resultado dos quatro anteriores; envolve medo, estresse, frustração ou tranquilidade. Indicadores: olhos muito arregalados, cauda rígida, vocalização intensa, tentativas de fuga, tremores, defecação/urina excessivas durante manejo.

Medo e estresse no curral: por que acontecem e como reduzir

Curral é onde mais ocorrem picos de estresse e acidentes. O medo aumenta quando o animal encontra novidades, dor, pressão excessiva, gritos, choques, escorregões, isolamento do lote e contenções mal ajustadas. Estresse alto reduz desempenho (menor ganho, pior conversão, mais contusões e perdas de carcaça) e eleva risco de acidentes com pessoas.

Princípios de manejo calmo que funcionam

  • Previsibilidade: rotinas e comandos consistentes; menos “surpresas” (barulhos, objetos soltos, cães, pessoas correndo).
  • Pressão e alívio: aplicar pressão mínima para iniciar movimento e retirar assim que o animal responde. O alívio é o “prêmio” que ensina.
  • Trabalhar com o lote: evitar separar um animal sozinho; usar companheiro “calmo” quando necessário.
  • Evitar dor: contenção correta, piso seguro, sem pancadas e sem torções de cauda.
  • Baixa intensidade: passos lentos, voz baixa, sem aglomeração; tempo é investimento para reduzir retrabalho e acidentes.

Zona de fuga e ponto de equilíbrio (aplicação prática)

A zona de fuga é a distância em que o animal começa a se mover quando alguém se aproxima. O ponto de equilíbrio geralmente fica na região do ombro: ao se posicionar atrás do ombro, o animal tende a seguir para frente; à frente do ombro, tende a recuar ou virar. Na prática, o manejador deve entrar e sair da zona de fuga em ângulo, conduzindo o fluxo sem encostar no animal.

Técnicas de movimentação no curral (passo a passo)

1) Preparação antes de mexer com o gado

  • Definir objetivo do manejo (vacinar, apartar, embarcar) e sequência de ações.
  • Conferir equipe: quem abre/fecha porteiras, quem opera tronco, quem registra, quem observa bem-estar.
  • Checar instalações: portões, travas, iluminação, piso, objetos soltos, pontas cortantes.
  • Separar materiais (seringas, agulhas, brincos, prancheta, bastão de manejo permitido) para evitar correria.
  • Planejar lotes: tamanho compatível com corredor e brete, evitando superlotação.

2) Tirar do piquete e levar ao curral

  • Começar com deslocamento lento, mantendo o lote unido.
  • Evitar gritos, correrias e cães mordendo; usar presença e posicionamento.
  • Manter rota livre: fechar acessos errados e abrir o caminho certo antes de iniciar.
  • Se houver empacamento, reduzir pressão (afastar um pouco) e oferecer “saída” visual para frente.

3) Entrada no curral e formação de lotes

  • Usar piquetes de espera com sombra/água quando o manejo for longo.
  • Não misturar categorias muito diferentes (ex.: vacas com bezerros e garrotes) se isso aumentar brigas.
  • Evitar isolamento: conduzir em pequenos grupos, mantendo contato visual entre animais.

4) Condução em corredores e seringa

  • Manter fluxo contínuo: “parar e arrancar” aumenta estresse e empacamento.
  • Trabalhar nas laterais, não atrás empurrando; usar o ponto de equilíbrio.
  • Evitar ângulos mortos e reflexos: sombras fortes, correntes penduradas, plásticos e objetos brilhantes travam o avanço.
  • Se necessário, usar bandeira/raquete de manejo para ampliar presença sem bater.

Uso correto das instalações: corredor, tronco e brete

Corredores e curvas

  • Curvas suaves ajudam o animal a seguir o fluxo sem ver o “fim” do corredor, reduzindo recuos.
  • Laterais fechadas (ou parcialmente fechadas) reduzem distrações externas.
  • Piso: antiderrapante, sem lama profunda nem pedras soltas; quedas geram medo duradouro do local.

Seringa e brete (fila)

  • Evitar superlotação: o lote deve caber com folga para virar a cabeça e respirar sem compressão.
  • Portões devem fechar sem bater; barulho metálico aumenta reatividade.
  • Iluminação uniforme: animais evitam áreas muito escuras ou com feixes de luz no chão.

Tronco de contenção

  • Ajustar largura ao tamanho do animal para conter sem esmagar.
  • Usar pescoceira/cabeceira com cuidado para não causar dor e pânico.
  • Evitar prender por tempo excessivo; organizar equipe para executar rápido e soltar.
  • Manutenção: travas, catracas e pontos de aperto devem estar íntegros para evitar falhas e esmagamentos.

Densidade de lotação: como acertar para reduzir estresse e acidentes

Densidade inadequada é causa comum de contusões, quedas e brigas. No curral, a regra prática é: lotar o suficiente para manter o fluxo, mas não a ponto de comprimir. Em áreas de espera, garantir espaço para o animal se reposicionar sem pisoteio.

Regras práticas observáveis

  • Se há animais com cabeça elevada, ofegantes e pressionando costelas uns nos outros, está cheio demais.
  • Se o lote fica “espalhado”, vira e tenta voltar, pode estar vazio demais para formar fluxo; aumentar tamanho do grupo ou melhorar condução.
  • Em corredores, o grupo deve avançar em “onda” contínua; travamentos repetidos indicam problema de densidade, distração ou ponto de dor (piso, sombra, canto).

Práticas proibidas/indesejáveis (e alternativas)

O que evitar

  • Choque elétrico como rotina (especialmente em face, genitais e ânus).
  • Torção de cauda, pauladas, pontapés, arremesso de objetos.
  • Gritaria, correr no meio do lote, uso de cães agressivos.
  • Arrastar animal caído por longas distâncias ou em piso áspero.
  • Superlotar seringa/brete e fechar portões “na pancada”.

Alternativas de manejo racional

  • Usar posicionamento (zona de fuga/ponto de equilíbrio) e pressão-alívio.
  • Usar bandeira/raquete para ampliar presença sem contato.
  • Corrigir causa do travamento: iluminação, sombra, reflexo, piso, ângulo do portão, ruído.
  • Se um animal cair: parar fluxo, aliviar pressão, dar tempo para levantar; se necessário, usar equipamento adequado e equipe treinada.

Capacitação de equipe: padrão de trabalho e comunicação

Manejo racional depende mais de pessoas do que de força. Padronize um “jeito único” de trabalhar para reduzir improviso.

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Treinamento mínimo recomendado

  • Leitura de comportamento: sinais de medo, dor, fadiga e agressividade.
  • Aplicação prática de zona de fuga e ponto de equilíbrio.
  • Operação segura do tronco, portões e embarcadouro.
  • Procedimentos de emergência: animal caído, fuga, acidente com pessoa.
  • Rotina de checagem de riscos antes do manejo.

Comunicação no curral

  • Definir comandos curtos e padrão (ex.: “fecha”, “abre”, “segura”, “solta”).
  • Um líder coordena o ritmo; evitar duas pessoas “mandando” ao mesmo tempo.
  • Posicionamento combinado: quem fica na frente, laterais, portões e tronco.

Segurança no trabalho: EPI, prevenção de acidentes e inspeção de riscos

EPI recomendado (ajustar à realidade da fazenda)

  • Botina de segurança antiderrapante (preferencialmente com biqueira).
  • Perneira quando houver risco de coice/atrito e em áreas com vegetação densa.
  • Luva adequada para manejo de materiais e para reduzir cortes (sem comprometer tato em procedimentos).
  • Óculos de proteção em atividades com risco de respingos/poeira.
  • Protetor auricular em ambientes muito ruidosos (máquinas, tronco barulhento).
  • Capacete quando houver risco de impacto (embarque, estruturas, máquinas).

Riscos comuns com animais (e como reduzir)

  • Coices e cabeçadas: nunca ficar no “ponto cego” atrás; manter rota de fuga; evitar entrar em espaço apertado com animal solto.
  • Esmagamento em portões: não colocar mãos em frestas; usar travas e manter distância de fechamento.
  • Quedas: piso limpo e antiderrapante; remover lama e esterco acumulado; atenção a mangueiras e cordas no chão.
  • Fuga e atropelamento: portões sempre fechados/ancorados; evitar correr atrás; reorganizar fluxo e reduzir pressão.

Riscos com máquinas e equipamentos

  • Trator/caminhão no embarque: área isolada, sem pessoas entre veículo e rampa; calços e freio acionados.
  • Tomadas de força e partes móveis: proteção instalada; roupas sem partes soltas.
  • Energia elétrica: aterramento, cabos íntegros, disjuntores; evitar improvisos.

Rotina de inspeção de riscos (checklist rápido antes do manejo)

  • Portões e travas funcionando, sem “voltar” sozinhos.
  • Piso sem buracos, lama, óleo, esterco excessivo.
  • Iluminação sem sombras fortes no corredor e no embarcadouro.
  • Objetos soltos removidos (baldes, cordas, arames, tábuas).
  • Tronco: cabeceira, laterais e catracas revisadas; pontos de esmagamento identificados.
  • Rotas de fuga para pessoas desobstruídas.
  • Kit de primeiros socorros acessível e comunicação (rádio/celular) funcionando.

Protocolos de manejo racional com pontos de controle observáveis

Protocolos reduzem variação entre equipes e tornam o bem-estar “auditável”. Abaixo estão três rotinas práticas (vacinação, apartação e embarque) com pontos de controle que podem ser observados e registrados.

Protocolo 1: Vacinação no tronco (passo a passo)

Objetivo

Vacinar com contenção eficiente, mínima dor e mínimo tempo de tronco, mantendo segurança da equipe.

Passos

  • 1) Preparação: separar seringas, agulhas, caixa térmica, descarte perfurocortante, registros; definir funções (condução, tronco, aplicação, anotação).
  • 2) Fluxo até o tronco: conduzir em grupos compatíveis com o brete; manter silêncio relativo; corrigir travamentos por ambiente (sombra, reflexo, ruído).
  • 3) Contenção: ajustar tronco ao tamanho; fechar com firmeza sem pancada; evitar prender cabeça sem necessidade.
  • 4) Aplicação: aplicar com técnica limpa e rápida; evitar múltiplas tentativas; trocar agulha quando perder corte/entortar.
  • 5) Liberação: soltar assim que terminar; manter saída livre para evitar recuo e colisões.
  • 6) Registro: anotar lote, data, produto e ocorrências (animais muito reativos, quedas, falhas de equipamento).

Pontos de controle observáveis (bem-estar e segurança)

  • Tempo médio no tronco por animal dentro do padrão da equipe (sem “fila travada”).
  • Baixa vocalização e poucos recuos no corredor.
  • Ausência de escorregões/quedas (ou ocorrência investigada: piso, densidade, pressa).
  • Sem uso rotineiro de choque; se usado, justificar e corrigir causa do travamento.
  • Equipe fora de zonas de esmagamento; mãos longe de frestas de portões.

Protocolo 2: Apartação (separação de lotes) com manejo calmo

Objetivo

Separar categorias sem correria, reduzindo brigas, quedas e estresse por isolamento.

Passos

  • 1) Planejar critérios: definir claramente quem sai e para onde vai; preparar piquetes/currais de destino com água e espaço.
  • 2) Conduzir em pequenos grupos: evitar separar um único animal; quando necessário, manter um “companheiro” temporário.
  • 3) Usar portões como “direcionadores”: posicionar pessoas para criar corredor visual; abrir apenas o portão correto.
  • 4) Reduzir pressão no momento de decisão: no ponto de apartação, menos gente e menos barulho; o animal precisa enxergar a saída.
  • 5) Fechar e confirmar: conferir se o lote certo ficou no destino; evitar retrabalho que aumenta estresse.

Pontos de controle observáveis

  • Animais caminham (não correm) na maior parte do tempo.
  • Baixa incidência de brigas e montas por mistura inadequada.
  • Sem animais isolados vocalizando por longos períodos.
  • Portões operados sem batidas e sem pessoas “no meio” do fluxo.

Protocolo 3: Embarque para transporte (passo a passo)

Objetivo

Embarcar com fluxo contínuo, sem escorregões, sem pancadas e com lotação correta no veículo, reduzindo contusões e risco de acidentes.

Passos

  • 1) Preparar embarcadouro e veículo: alinhar caminhão/rampa, travar, calçar; checar piso da rampa (aderência) e laterais; remover sombras fortes e objetos soltos.
  • 2) Definir lotes de embarque: separar por categoria/tamanho para reduzir brigas; manter grupos coesos.
  • 3) Conduzir até a rampa: pressão-alívio; evitar empurrar por trás; trabalhar nas laterais; manter silêncio e ritmo.
  • 4) Subida da rampa: garantir boa iluminação e piso aderente; não superlotar a boca da rampa; se travar, reduzir pressão e investigar causa (reflexo, ângulo, barulho).
  • 5) Distribuição no veículo: preencher compartimentos de forma uniforme; evitar compressão; fechar divisórias com calma e segurança.
  • 6) Checagem final: confirmar portas e travas; retirar pessoas da área de risco; liberar veículo apenas com sinal do responsável.

Pontos de controle observáveis

  • Quase nenhum escorregão na rampa; se ocorrer, interromper e corrigir piso/aderência.
  • Ausência de pancadas e choques como rotina; fluxo obtido por posicionamento.
  • Animais entram caminhando, com poucas tentativas de retorno.
  • Pessoas nunca ficam entre caminhão e rampa, nem em linha de esmagamento de portões.
  • Lotação no veículo sem animais comprimidos ou caindo uns sobre os outros.

Indicadores simples para monitorar bem-estar e segurança no manejo

IndicadorComo observarO que sugere quando está alto
VocalizaçãoContar animais vocalizando no corredor/troncoDor, pressão excessiva, contenção ruim
Escorregões/quedasRegistrar ocorrências por manejoPiso ruim, pressa, densidade inadequada
Recuos/empacamentosQuantas vezes o fluxo paraSombras/reflexos, ângulos, medo, excesso de gente
Uso de choqueFrequência e motivoFalha de instalação, treinamento ou planejamento
Contusões/lesõesInspeção visual pós-manejoBatidas, portões, superlotação, piso
Quase-acidentes com pessoasRelato imediato e registroRota de fuga ruim, comunicação falha, pressa

Padronização: um roteiro curto para o “manejo do dia”

1) Reunião rápida (5 min): objetivo, funções, riscos do dia, sinais de parada. 2) Inspeção do curral: piso, portões, tronco, iluminação, objetos soltos. 3) Condução: grupos adequados, pressão-alívio, silêncio, sem correria. 4) Execução: tempo mínimo de contenção, técnica correta, liberação imediata. 5) Registro: ocorrências (quedas, travas, animal reativo), ações corretivas. 

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a condução do gado no curral, qual ação está mais alinhada ao manejo racional para reduzir medo e empacamentos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O manejo racional prioriza pressão e alívio e o uso de zona de fuga e ponto de equilíbrio para conduzir sem encostar e com previsibilidade, reduzindo estresse e travamentos.

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