O prefeito como gestor: o que ele decide e o que ele garante
Na gestão municipal, o prefeito é a autoridade máxima do Poder Executivo local. Na prática, isso significa duas coisas ao mesmo tempo: (1) ele define rumos e prioridades (o “para onde” e o “em que ordem”), e (2) ele responde pelos resultados e pela legalidade dos atos (o “como” e o “com que regras”).
O prefeito não executa sozinho as políticas públicas; ele coordena a máquina administrativa para que as secretarias e equipes entreguem serviços e obras com planejamento, orçamento, controle e transparência. Quando uma decisão é tomada, ela precisa virar rotina, processo, ato formal e execução.
Funções práticas do prefeito (traduzidas para o dia a dia)
- Definir prioridades: escolher quais problemas entram primeiro na agenda, com metas e prazos (ex.: reduzir fila de consultas, recuperar vias, ampliar vagas em creche).
- Coordenar secretarias: alinhar ações entre áreas que dependem umas das outras (ex.: Saúde + Administração + Finanças para contratar equipe; Obras + Trânsito para intervenções viárias).
- Representar o município: negociar com governo estadual/federal, consórcios, empresas e sociedade civil; participar de agendas institucionais e assinar pactos e convênios.
- Sancionar atos e normatizar: sancionar leis aprovadas pela Câmara quando cabível; expedir decretos e regulamentos para organizar a execução (ex.: regras de funcionamento de programas, comissões, horários, procedimentos).
- Nomear e exonerar cargos: escolher secretários e ocupantes de cargos de confiança, definindo perfil, metas e critérios de acompanhamento.
- Pactuar com outros entes: firmar convênios, termos de cooperação, adesões a programas e consórcios; negociar contrapartidas e responsabilidades.
- Autorizar e ordenar despesas conforme regras: garantir que gastos sigam orçamento, licitações/contratos, empenho, liquidação e pagamento, com controles e justificativas.
- Prestar contas: responder a órgãos de controle, Câmara, conselhos e população; garantir transparência e correção de rumos quando necessário.
Rotinas de gestão: como essas funções aparecem na agenda do prefeito
1) Reunião de secretariado (coordenação e prioridades)
É a rotina mais importante para transformar prioridades em plano de ação integrado. Pode ser semanal (ou quinzenal) com pauta fixa e decisões registradas.
Roteiro prático (passo a passo):
- Preparação: cada secretaria envia, com antecedência, um resumo de 1 página com: entregas da semana, pendências críticas, riscos, necessidades de decisão do prefeito.
- Leitura de indicadores: o gabinete apresenta um painel simples (ex.: fila de exames, tempo de resposta de manutenção urbana, execução orçamentária, obras com atraso).
- Definição de prioridades da semana: selecionar 3 a 5 focos com responsáveis e prazos.
- Destravamento de gargalos: o prefeito decide o que exige coordenação (ex.: remanejamento de equipe, autorização para iniciar processo de compra, articulação com Câmara).
- Registro e cobrança: ata com decisões, responsáveis, prazos e próximos marcos; acompanhamento na reunião seguinte.
Exemplo de pauta: “fila de consultas”, “manutenção de frota”, “mutirão de limpeza”, “andamento de licitações críticas”, “respostas a ofícios do Ministério Público/Tribunal de Contas”.
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2) Análise de relatórios (controle e tomada de decisão baseada em evidências)
O prefeito precisa de relatórios curtos e frequentes para evitar decisões “no escuro”. O ideal é padronizar o que chega ao gabinete.
| Relatório | Periodicidade | O que o prefeito procura | Decisão típica |
|---|---|---|---|
| Execução orçamentária e financeira | Semanal/mensal | Disponibilidade, riscos de estouro, despesas obrigatórias | Contingenciar, priorizar pagamentos, autorizar abertura de processo |
| Contratos e licitações críticas | Semanal | Prazos, aditivos, riscos de descontinuidade | Determinar plano de continuidade, autorizar termo aditivo conforme justificativa |
| Indicadores de serviços (Saúde, Educação, Limpeza, Obras) | Semanal/mensal | Fila, cobertura, produtividade, reclamações | Redirecionar equipes, pactuar metas, abrir mutirão |
| Ouvidoria e demandas territoriais | Semanal | Bairros mais críticos, temas recorrentes | Definir agenda de campo, acionar força-tarefa |
3) Autorização de despesas (com regras e trilhas de decisão)
Na prática, o prefeito não “paga contas” diretamente, mas pode ser o ordenador de despesas (ou delegar formalmente). Mesmo quando delega, ele precisa garantir que o gasto siga o caminho correto e que exista justificativa pública.
Trilha prática (passo a passo) de uma despesa típica:
- Demanda formal: secretaria solicita (ex.: compra de pneus para ambulâncias) com justificativa e estimativa.
- Verificação orçamentária: checar dotação e compatibilidade com o planejamento e limites.
- Definição do instrumento: compra direta quando permitido ou licitação/registro de preços/contrato, conforme regras.
- Autorização para iniciar o processo: despacho do prefeito (ou do secretário competente, se houver delegação) autorizando a abertura do procedimento.
- Controle jurídico e de conformidade: pareceres e checagens internas.
- Empenho, liquidação e pagamento: etapas administrativas; o prefeito acompanha por relatórios e pontos de decisão (ex.: pagamento prioritário para manter serviço essencial).
Boa prática: criar “níveis de alçada” (quem pode autorizar o quê) e uma lista de despesas estratégicas que sempre sobem ao gabinete (ex.: saúde, merenda, combustível, manutenção de frota, contratos de limpeza).
4) Assinatura de decretos, portarias e mensagens à Câmara (formalização das decisões)
Decisão sem ato formal pode não produzir efeito. O prefeito usa instrumentos para organizar a administração e dialogar com o Legislativo.
- Decreto: regulamenta e organiza a execução (ex.: cria comitê de crise, define regras de funcionamento de um programa, estabelece procedimentos).
- Portaria: designa servidores, comissões, grupos de trabalho (ex.: comissão de inventário, fiscalização de contrato).
- Mensagem/projeto à Câmara: quando a medida exige lei (ex.: criação de programa com impacto orçamentário, alteração de estrutura de cargos, autorização legislativa específica).
- Sanção/veto: após aprovação na Câmara, o prefeito sanciona (transforma em lei) ou veta (total/parcial) com justificativa formal.
Rotina recomendada: uma “mesa de atos” semanal no gabinete, com checklist: base legal, impacto orçamentário, parecer jurídico, comunicação pública e responsável pela execução.
Decisões concretas e como acionar as áreas para executar
Exemplo 1: Reforço de equipes de saúde para reduzir fila de atendimento
Decisão do prefeito: reduzir a fila de consultas em 60 dias, com reforço temporário de equipes e reorganização de agenda.
Áreas acionadas e papéis:
- Saúde: mapeia gargalos (unidades, especialidades), propõe modelo (mutirão, ampliação de horário, teleatendimento), define escala e metas.
- Administração/Recursos Humanos: viabiliza contratação temporária quando cabível, remanejamento interno, banco de horas/plantões conforme regras.
- Finanças/Planejamento: verifica dotação, impacto e priorização; define fonte de recurso e cronograma de desembolso.
- Compras/Licitações: se houver necessidade de insumos/serviços (ex.: exames, locação de equipamentos), inicia processo.
- Jurídico/Controle Interno: valida o modelo (contratação, convênios, pagamentos por produção, termos aditivos).
- Comunicação: informa população (critérios, datas, locais), reduz faltas e organiza fluxo.
Passo a passo prático:
- Prefeito solicita diagnóstico rápido: fila por unidade/especialidade e tempo médio.
- Saúde apresenta 2 ou 3 cenários (ex.: mutirão aos sábados; ampliação noturna; contratação temporária).
- Finanças valida custo e disponibilidade; prefeito escolhe cenário e define meta e prazo.
- Administração e Jurídico definem o caminho legal (remanejamento, contratação, credenciamento, etc.).
- Comunicação lança calendário e orientações; Saúde executa e reporta semanalmente.
- Prefeito acompanha indicador (fila) e ajusta (mais equipes, mudança de unidade, reforço de triagem).
Exemplo 2: Mutirão de limpeza urbana em bairros com maior incidência de reclamações
Decisão do prefeito: realizar mutirão de 10 dias em três bairros, com foco em capina, retirada de entulho e desobstrução de pontos críticos.
Áreas acionadas e papéis:
- Serviços Urbanos/Limpeza: define roteiro, equipes, equipamentos, pontos de descarte e logística.
- Obras/Manutenção: apoia com máquinas, reparos emergenciais em bocas de lobo e pequenos consertos.
- Meio Ambiente: orienta destinação correta, poda autorizada, educação ambiental.
- Fiscalização/Posturas: combate descarte irregular, notifica reincidências, organiza ações educativas e punitivas.
- Trânsito: quando necessário, organiza interdições e segurança operacional.
- Comunicação e Ouvidoria: divulga cronograma por rua, canal para solicitações e retorno pós-ação.
Passo a passo prático:
- Ouvidoria apresenta mapa de reclamações e pontos críticos.
- Prefeito define bairros prioritários e janela de execução.
- Limpeza monta plano diário (ruas, equipes, equipamentos) e estima custo.
- Fiscalização define estratégia para reduzir reincidência (blitz educativa, notificação, multa quando cabível).
- Comunicação divulga cronograma e orienta moradores sobre descarte.
- Após o mutirão, relatório simples: volume retirado, pontos resolvidos, pendências e plano de manutenção.
Exemplo 3: Recomposição da frota municipal (ambulâncias, ônibus escolares, máquinas)
Decisão do prefeito: recuperar a disponibilidade da frota em 90 dias, reduzindo veículos parados e garantindo manutenção preventiva.
Áreas acionadas e papéis:
- Transportes/Frota: inventário (quantos veículos, estado, custo de reparo), plano de manutenção e controle de abastecimento.
- Saúde e Educação: definem veículos críticos (ambulâncias e transporte escolar) e prioridades de atendimento.
- Compras/Licitações: contratação de oficina, compra de peças, pneus, lubrificantes; ou adesão a atas/registro de preços quando aplicável.
- Finanças: programação de pagamentos para evitar paralisação por inadimplência.
- Controle Interno: regras de uso, rastreabilidade (ordem de serviço, checklists), prevenção de desperdício.
Passo a passo prático:
- Prefeito determina inventário em 7 dias: parados, motivos, custo e prazo de retorno.
- Frota classifica por criticidade (serviço essencial x apoio) e monta cronograma.
- Compras inicia processos para itens recorrentes (pneus, baterias, óleo) e serviços (oficina/guincho).
- Finanças define fluxo de pagamento para manter contratos ativos.
- Implantar rotina: checklist diário, manutenção preventiva mensal e relatório de disponibilidade semanal ao gabinete.
Como o prefeito pactua com outros entes (e transforma pacto em entrega)
Pactuar é negociar responsabilidades, metas e recursos com outros níveis de governo ou com arranjos intermunicipais. Na prática, isso envolve escolher o que vale a pena aderir, garantir contrapartidas e organizar a execução local.
Passo a passo prático de um pacto/convênio:
- Identificar oportunidade: programa estadual/federal, consórcio, cooperação técnica.
- Analisar viabilidade: requisitos, prazos, contrapartida, capacidade de execução e manutenção futura.
- Designar responsável: secretaria líder e ponto focal no gabinete.
- Formalizar: minuta, plano de trabalho, cronograma, metas, indicadores e prestação de contas.
- Executar e monitorar: reuniões de acompanhamento, registro de evidências, ajustes.
- Prestar contas: relatórios, notas, medições, publicações e transparência.
Prestação de contas e responsabilidade: o que o prefeito precisa garantir
Responsabilidade na gestão municipal é garantir que decisões sejam: (1) legais (base normativa e processo correto), (2) justificadas (interesse público e prioridade clara), (3) executáveis (recursos, equipe e prazo), e (4) monitoradas (indicadores e correções).
Rotinas que ajudam a sustentar essa responsabilidade:
- Agenda fixa de monitoramento: painel semanal de 10 a 15 indicadores essenciais.
- Despachos padronizados: toda decisão relevante com registro do “por quê”, “quem executa” e “até quando”.
- Gestão de riscos: lista de contratos e serviços críticos com plano de continuidade.
- Transparência ativa: publicar informações essenciais (cronogramas, gastos, resultados) e responder demandas com prazos.
- Relação institucional com a Câmara: encaminhar projetos e mensagens com clareza de impacto, manter canal técnico para dúvidas e ajustes.