A organização administrativa e a gestão documental no cartório policial são o conjunto de práticas, rotinas e controles que garantem que cada documento (físico ou digital) seja identificado, localizado, movimentado e guardado com rastreabilidade, reduzindo riscos de extravio, atrasos e retrabalho. Na prática, isso significa padronizar: (1) como os documentos entram e saem, (2) como são classificados e indexados, (3) como são distribuídos internamente (cargas e diligências), (4) como são arquivados e eliminados quando permitido, e (5) como as pendências e prazos são monitorados.
1) Princípios operacionais: rastreabilidade, integridade e previsibilidade
Rastreabilidade
Capacidade de responder rapidamente: “onde está o documento agora?”, “quem recebeu?”, “quando saiu?”, “qual foi o próximo passo?”. Isso exige registros mínimos e consistentes em cada movimentação.
Integridade
Garantia de que o documento não foi alterado indevidamente, não perdeu páginas/anexos e mantém sua completude (assinaturas, carimbos, anexos, mídias). Na prática: conferência de peças, numeração/ordenação, e registro de anexos.
Previsibilidade
Rotinas padronizadas para que todos no cartório executem do mesmo modo: protocolos, checklists, modelos de mapas de controle e pontos de auditoria.
2) Classificação documental: como “dar nome e lugar” ao que chega
Classificar é agrupar documentos por tipo e finalidade para facilitar localização, tramitação e arquivamento. A classificação deve ser simples, estável e aplicada sempre do mesmo jeito.
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Modelo prático de classes (exemplo adaptável)
- Classe A — Expediente externo: ofícios recebidos/enviados, requisições, comunicações de outros órgãos.
- Classe B — Expediente interno: memorandos, ordens de serviço internas, comunicações internas.
- Classe C — Peças e anexos operacionais: termos, relatórios, certidões, juntadas, comprovantes, anexos de mídia (quando houver).
- Classe D — Controle e gestão: livros/planilhas de protocolo, mapas de cargas, mapas de diligências, mapas de prazos, checklists.
- Classe E — Arquivo: pastas/caixas por unidade de arquivamento (por exemplo, por número/ano), com índice.
Passo a passo para classificar um documento ao receber
- 1) Identificar o tipo: ofício, requisição, relatório, comprovante, etc.
- 2) Identificar o vínculo: está ligado a qual procedimento/expediente? (número/ano, se houver).
- 3) Definir a classe: A, B, C, D ou E (ou outra taxonomia interna).
- 4) Definir a unidade de arquivamento: pasta física, pasta digital, caixa, ou “pendente de vinculação”.
- 5) Aplicar marcação mínima: número de protocolo de entrada, data/hora, remetente, assunto e destino interno.
3) Indexação: como tornar o documento “encontrável”
Indexar é registrar metadados (campos) para localizar rapidamente um documento sem depender de memória. A indexação pode ser feita em livro, planilha ou sistema, mas os campos devem ser consistentes.
Campos mínimos recomendados (checklist)
- Identificador: número de protocolo (entrada/saída) e/ou número interno.
- Data/hora: recebimento, distribuição, saída.
- Origem/destino: remetente e destinatário (órgão/setor/pessoa).
- Assunto (padronizado): usar termos curtos e repetíveis (ex.: “requisição de informações”, “cumprimento de diligência”, “encaminhamento de documentos”).
- Vínculo: número/ano do procedimento/expediente relacionado (quando aplicável).
- Responsável interno: servidor/setor que recebeu a carga.
- Status: em triagem, distribuído, aguardando resposta, concluído, arquivado.
- Prazo: data-limite (quando houver) e critério (legal/administrativo/urgente).
- Anexos: quantidade de folhas, mídias, volumes, e observações.
Padrão de assunto (exemplo de vocabulário controlado)
Para evitar variações (“pedido”, “requisição”, “solicitação”), defina um vocabulário controlado com 10–20 assuntos mais comuns e obrigue a escolha de um deles, complementando com detalhe livre quando necessário.
4) Protocolos de recebimento e saída: entrada e expedição sem lacunas
Protocolo de recebimento (entrada)
Objetivo: registrar que algo chegou, em qual condição, e para onde foi encaminhado internamente.
Passo a passo do recebimento
- 1) Triagem inicial: verificar se o documento está completo (assinatura, anexos, páginas).
- 2) Conferência de integridade: contar folhas/anexos e registrar divergências (ex.: “faltam anexos mencionados”).
- 3) Protocolo: atribuir número sequencial de entrada e registrar metadados mínimos.
- 4) Carimbo/registro de recebimento: data/hora e identificação do recebedor (no físico) ou registro equivalente (no digital).
- 5) Destinação interna: encaminhar ao responsável (com registro de carga interna).
- 6) Guarda temporária: se não houver vínculo definido, manter em pasta “pendente de vinculação” com controle diário.
Protocolo de saída (expedição)
Objetivo: registrar o que foi enviado, para quem, por qual meio, e manter prova de envio/recebimento.
Passo a passo da saída
- 1) Conferência final: checar destinatário, anexos e assinaturas.
- 2) Registro de saída: número sequencial de saída, data/hora, destinatário, assunto, meio de envio.
- 3) Comprovante: anexar/registrar evidência do envio (AR, recibo, protocolo eletrônico, e-mail institucional com confirmação, etc.).
- 4) Atualização de status: marcar como “enviado” e, se houver retorno esperado, criar pendência com prazo.
5) Controle de cargas: quem está com o quê (e desde quando)
“Carga” é a atribuição formal de responsabilidade temporária sobre documentos/expedientes. Um controle de cargas bem feito reduz extravio e acelera auditorias internas.
Regras práticas de movimentação interna (padrão mínimo)
- Sem registro, sem carga: nenhum documento sai do local de guarda sem registro.
- Uma carga por vez: evite transferências informais (“depois eu anoto”).
- Responsável nominal: sempre uma pessoa/lotação claramente identificada.
- Prazo de devolução: quando aplicável, registrar data prevista.
- Conferência na devolução: checar integridade (folhas/anexos) e registrar devolução.
Exemplo de mapa de controle de cargas (modelo)
MAPA DE CARGAS (INTERNO) — MODELO SIMPLES (planilha/livro/sistema) Nº carga: ________ Data/hora: ___/___/_____ __:__ Tipo: ( ) retirada ( ) devolução Identificação do documento/expediente: ______________________________ Vínculo (nº/ano): __________________ Volume/folhas/anexos: __________________ Origem (onde estava): __________________ Destino (quem recebe): __________________ Finalidade: ( ) análise ( ) juntada ( ) diligência ( ) expedição ( ) outro: ____ Prazo previsto de devolução: ___/___/_____ Recebedor (nome/matrícula/assinatura): _____________________________ Entregador (nome/assinatura): _____________________________________ Devolução — Data/hora: ___/___/_____ __:__ Conferência: ( ) ok ( ) divergência: ________________________________ Responsável pela conferência: ______________________________________6) Guarda e arquivamento: como manter localizável e protegido
Guardar é manter sob controle durante a fase ativa (uso frequente). Arquivar é organizar para consulta eventual, com regras de localização e preservação.
Boas práticas de guarda (fase ativa)
- Endereçamento físico: estante/armário identificado por código (ex.: A1, A2…), e cada pasta com etiqueta padrão.
- Ordem consistente: por número/ano, por classe, ou por unidade definida (evitar “ordem por memória”).
- Separação de pendências: criar área/pasta “Aguardando retorno” e “Aguardando assinatura/expedição”.
- Controle de acesso: limitar manuseio e registrar retiradas.
Boas práticas de arquivamento (fase menos ativa)
- Índice de caixa/pasta: cada caixa com lista do conteúdo (intervalo de números/anos e itens relevantes).
- Localização registrada: campo “local físico” (ex.: Armário 3, Prateleira B, Caixa 12).
- Condição de preservação: evitar umidade, calor e empilhamento inadequado.
7) Tabela de temporalidade (quando aplicável): retenção, transferência e eliminação
Tabela de temporalidade é o instrumento que define por quanto tempo determinados documentos devem ser mantidos em arquivo corrente/intermediário e qual a destinação final (guarda permanente ou eliminação), conforme normas internas e orientações do órgão/arquivo público competente. Quando houver tabela institucional aplicável, ela deve ser seguida estritamente.
Passo a passo para aplicar a temporalidade (rotina segura)
- 1) Identificar a série documental: qual tipo de documento é e a qual categoria da tabela pertence.
- 2) Verificar prazos e destinação: tempo de guarda e o que fazer ao final (transferir/eliminar/permanente).
- 3) Checar impedimentos: pendência, auditoria, sindicância, ordem superior, ou necessidade administrativa que impeça eliminação.
- 4) Registrar decisão: planilha/termo interno com referência à tabela e responsável.
- 5) Executar conforme norma: transferência para arquivo intermediário/permanente ou eliminação formal (quando autorizada).
8) Gestão de pendências: prazos, retornos e “fila de trabalho”
Gestão de pendências é manter uma visão operacional do que está aguardando ação (interna) ou retorno (externo), com prazos e responsáveis definidos. O objetivo é evitar que demandas “sumam” por falta de acompanhamento.
Tipos comuns de pendência (para padronizar o controle)
- Aguardando retorno externo: resposta a ofício/requisição.
- Aguardando providência interna: assinatura, conferência, juntada, expedição.
- Aguardando cumprimento: diligência distribuída e ainda não devolvida.
- Aguardando saneamento: documento incompleto, falta de anexo, correção de dados.
Exemplo de mapa de pendências e prazos
MAPA DE PENDÊNCIAS (PRAZOS E RETORNOS) — MODELO ID: ________ Data de abertura: ___/___/_____ Origem: __________________________ Assunto (padrão): __________________________ Vínculo (nº/ano): __________________________ Responsável interno: ________________________ Tipo de pendência: ( ) retorno externo ( ) providência interna ( ) diligência ( ) saneamento Prazo: ___/___/_____ Criticidade: ( ) alta ( ) média ( ) baixa Última movimentação (data/ação): ___/___/_____ — ____________________ Próxima ação prevista: _______________________ Status: ( ) aberto ( ) em andamento ( ) resolvido Data de resolução: ___/___/_____ Observações: _________________________________________________9) Mapas de controle: diligências, prazos e movimentação interna
Mapa de diligências (controle de distribuição e devolução)
MAPA DE DILIGÊNCIAS — MODELO Nº: ________ Data de distribuição: ___/___/_____ Destino (equipe/servidor): __________________ Referência (nº/ano): ________________________ Descrição objetiva: __________________________ Meio/rota: _________________________________ Prazo interno: ___/___/_____ Data de devolução: ___/___/_____ Resultado: ( ) cumprida ( ) não cumprida ( ) parcial Observações/pendências: ______________________ Conferência (nome/assinatura): _______________Mapa de prazos (visão semanal)
MAPA DE PRAZOS — VISÃO SEMANAL Semana: ___/___ a ___/___ Item | Referência | Pendência | Responsável | Prazo | Status | Observação 001 | ____/____ | __________ | ___________ | __/__/__ | aberto | _________ 002 | ____/____ | __________ | ___________ | __/__/__ | andam | _________ 003 | ____/____ | __________ | ___________ | __/__/__ | resol | _________Registro de movimentação interna (log mínimo)
Além de cargas, recomenda-se um “log” simples de movimentações relevantes (triagem, distribuição, devolução, arquivamento), especialmente quando há múltiplas mãos no mesmo dia.
LOG DE MOVIMENTAÇÃO — MODELO Data/hora | Referência | Ação | De (setor/pessoa) | Para (setor/pessoa) | Responsável | Observação __/__/__ __:__ | ____/____ | triagem | recepção | cartório | ______ | ______ __/__/__ __:__ | ____/____ | carga | cartório | servidor X | ______ | prazo __/__/__10) Padrões de auditoria e prevenção de extravio
Pontos de auditoria (o que conferir e quando)
- Na entrada: protocolo, integridade, anexos, destino interno.
- Na distribuição (carga): responsável nominal, prazo, finalidade, conferência de volumes/folhas.
- Na devolução: conferência de integridade, atualização de status, registro de próxima etapa.
- Na expedição: registro de saída e comprovante.
- No arquivamento: índice, localização física/digital, status “arquivado”.
Checklist rápido anti-extravio (uso diário)
- Existe algum documento “sem dono” (sem carga) fora do local de guarda?
- Há pendências sem responsável definido?
- Há itens com prazo vencendo em 48h sem próxima ação registrada?
- Há devoluções sem conferência de anexos/folhas?
- Há saídas sem comprovante anexado/registrado?
11) Exercício prático: montar um fluxo de tramitação com auditoria e conferência
Objetivo do exercício: desenhar um fluxo completo de tramitação de um documento recebido (expediente externo), com pontos de auditoria, registros obrigatórios e mapas de controle envolvidos.
Cenário do exercício
Chega ao cartório um ofício externo solicitando informações e anexando 3 documentos. O ofício precisa ser distribuído internamente para providência, gerar resposta e ser expedido, mantendo rastreabilidade.
Passo a passo (monte o fluxo e marque os pontos de controle)
- Etapa 1 — Recebimento e triagem: conferir se o ofício está assinado e se os 3 anexos estão presentes. Ponto de auditoria A: registrar divergência se faltar anexo.
- Etapa 2 — Protocolo de entrada: atribuir número de entrada e indexar (origem, assunto padronizado, vínculo se houver, anexos). Registro essencial: protocolo de entrada + log de movimentação.
- Etapa 3 — Classificação e endereçamento: classificar como “Expediente externo” e colocar em pasta de “Aguardando distribuição” (com localização). Ponto de auditoria B: documento não pode ficar solto sem pasta/local.
- Etapa 4 — Distribuição interna (carga): abrir carga para o responsável interno (nomeado) com prazo de devolução. Registro essencial: mapa de cargas.
- Etapa 5 — Controle de pendência: criar item no mapa de pendências com prazo e criticidade. Ponto de auditoria C: toda carga com prazo deve ter pendência correspondente.
- Etapa 6 — Devolução com resultado: responsável devolve com minuta/elementos para resposta. Conferir se o ofício e anexos retornaram íntegros. Registro essencial: devolução na carga + conferência.
- Etapa 7 — Preparação para expedição: separar resposta e anexos, conferir destinatário e meio de envio. Ponto de auditoria D: checar se o que será enviado corresponde ao que foi registrado.
- Etapa 8 — Protocolo de saída: registrar saída, anexar comprovante de envio e atualizar status. Registro essencial: protocolo de saída + comprovante.
- Etapa 9 — Arquivamento e indexação final: guardar cópia/registro e indicar localização (pasta/caixa). Encerrar pendência. Ponto de auditoria E: não arquivar sem status final e localização registrada.
Entregável do aluno (modelo de fluxo em texto)
Escreva seu fluxo em 9 linhas, uma por etapa, no formato: Etapa → Registro gerado → Responsável → Ponto de auditoria.
EXEMPLO (PREENCHA) 1) Recebimento/triagem → checklist anexos → servidor ____ → Auditoria A: ____ 2) Protocolo entrada → nº ____ + indexação → servidor ____ → Auditoria: ____ 3) Classificação/endereçamento → pasta/local ____ → servidor ____ → Auditoria B: ____ 4) Carga → mapa de cargas nº ____ → servidor ____ → Auditoria: ____ 5) Pendência → mapa de pendências ID ____ → servidor ____ → Auditoria C: ____ 6) Devolução → baixa de carga + conferência → servidor ____ → Auditoria: ____ 7) Preparação expedição → checklist final → servidor ____ → Auditoria D: ____ 8) Protocolo saída → nº ____ + comprovante → servidor ____ → Auditoria: ____ 9) Arquivamento → índice/local ____ + baixa pendência → servidor ____ → Auditoria E: ____