O que é uma ordem e por que ela muda o seu risco
Ordem é a instrução que você envia ao mercado para comprar ou vender um ativo. No day trade, o tipo de ordem define como você entra e sai, e isso afeta diretamente: (1) a chance de execução, (2) o preço final (slippage), (3) o controle de perdas e (4) o risco de “ficar preso” em uma posição por falta de liquidez.
Na prática, toda ordem tenta equilibrar dois objetivos que competem entre si:
- Garantir execução (sair/entrar de qualquer jeito) — normalmente com ordem a mercado.
- Controlar preço (não pagar/vender pior do que você aceita) — normalmente com ordem limitada.
Ao longo do capítulo, considere sempre três perguntas antes de enviar uma ordem: qual é meu preço máximo/mínimo aceitável? qual é a urgência? qual é a liquidez do ativo agora?
Leitura rápida do book: o que importa para entender execução
Sem entrar em detalhes avançados, pense no book como duas filas:
- Compradores (bid): ofertas para comprar, com seus preços e quantidades.
- Vendedores (ask): ofertas para vender, com seus preços e quantidades.
O melhor bid e o melhor ask formam o “miolo” (spread). A execução acontece quando sua ordem “bate” no lado oposto (agressão) ou quando alguém bate na sua (passiva).
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Ordem a mercado (Market): execução primeiro, preço depois
Conceito
A ordem a mercado executa imediatamente contra as melhores ofertas disponíveis no book. Ela prioriza ser executada, não o preço.
Quando faz sentido (controle de risco)
- Saída de emergência: quando você precisa zerar a posição rapidamente (por exemplo, rompimento contra você, aumento súbito de volatilidade, erro operacional).
- Stop “duro” em ativos muito líquidos: quando o risco de não executar é pior do que o risco de alguns centavos/pontos de slippage.
Consequências práticas (cenário)
Cenário 1 — slippage por spread/volatilidade: você está comprado e decide vender a mercado. O melhor bid está em 100,00 com pouca quantidade; abaixo dele há 99,95 e 99,90. Se sua quantidade for maior que a disponível em 100,00, parte executa em 100,00 e o restante “varre” níveis inferiores, piorando o preço médio.
Cenário 2 — baixa liquidez: em um ativo com book raso, uma ordem a mercado pode atravessar vários níveis e gerar um preço médio muito pior do que o esperado.
Erros comuns e como evitar
- Usar mercado em baixa liquidez: evite em ativos com spread grande e pouca profundidade. Prefira limitada ou reduza tamanho.
- Enviar mercado com tamanho grande: quebre em partes (se sua corretora/roteamento permitir) ou use limite agressivo (explicado adiante).
Ordem limitada (Limit): preço controlado, execução incerta
Conceito
Você define o preço máximo que aceita pagar (compra) ou o preço mínimo que aceita receber (venda). A ordem só executa naquele preço ou melhor.
Quando faz sentido (controle de risco)
- Entradas planejadas: quando você quer um ponto específico e aceita perder a oportunidade se não bater.
- Saídas com alvo: take profit com preço definido.
- Reduzir slippage em momentos de spread maior.
Passo a passo prático (entrada e saída)
- Defina o ponto: exemplo: comprar se voltar para 100,10.
- Escolha o preço limite: 100,10 (ou um pouco mais agressivo se quiser aumentar chance de execução).
- Defina quantidade coerente com o book (evite ser grande demais para o nível).
- Acompanhe o status: se ficar “na fila”, você pode: manter, cancelar, ou ajustar.
Consequências práticas (cenários)
Cenário 1 — não executa: você coloca compra limitada em 100,10, mas o preço só cai até 100,11 e volta a subir. Resultado: você fica de fora.
Cenário 2 — execução parcial: você compra 1.000 unidades a 100,10, mas só existem 300 disponíveis naquele preço. Executa 300 e os 700 restantes ficam pendentes na fila (podem executar depois, ou não).
Cenário 3 — limite “fora do book”: você coloca venda limitada muito acima do preço atual (por exemplo, 101,50 quando o mercado está 100,20/100,21). A ordem fica parada e não ajuda em uma saída urgente.
Erros comuns e como evitar
- Limite longe demais para “não pagar caro”: em entradas, isso pode virar “não entrar nunca”. Ajuste com base no spread e na sua urgência.
- Usar limitada como stop (para sair de prejuízo): em movimento rápido, pode não executar e o prejuízo aumentar.
Ordem stop (Stop Market): gatilho + execução a mercado
Conceito
A ordem stop fica “armada” e só vira uma ordem de execução quando o preço atinge um preço de disparo (trigger). No stop market, ao disparar, ela vira uma ordem a mercado.
Quando faz sentido (controle de risco)
- Stop loss para limitar perda: você aceita slippage para garantir saída.
- Entrada por rompimento: entrar quando o preço superar um nível, priorizando execução.
Passo a passo prático (stop loss)
- Defina o ponto de invalidação: onde sua ideia de trade “não faz mais sentido”.
- Escolha o trigger: exemplo: se perder 99,90, quero sair.
- Configure stop market: venda stop com trigger em 99,90 (para posição comprada).
- Revise tamanho: o tamanho deve caber na liquidez do ativo para reduzir slippage.
Consequências práticas (cenários)
Cenário 1 — gap/varrida: você está comprado, stop em 99,90. Sai uma notícia e o preço “pula” de 99,95 direto para 99,70. O stop dispara e executa a mercado perto de 99,70 (ou pior), gerando slippage maior do que o planejado.
Cenário 2 — disparo por ruído: o preço encosta em 99,90 por um instante e volta. Seu stop executa e você sai antes do movimento a favor.
Erros comuns e como evitar
- Stop mal posicionado (muito curto): colocar o stop no “meio do barulho” aumenta chance de ser estopado por oscilação normal. Use um ponto técnico/estrutural (ex.: abaixo de um fundo relevante) e compatível com sua tolerância de risco.
- Stop óbvio demais: níveis muito evidentes podem concentrar ordens. Não é para “inventar” stop, mas vale evitar colocar exatamente no número redondo se isso não fizer sentido técnico.
- Não considerar slippage: em ativos/horários mais voláteis, planeje uma folga (risco adicional) ou reduza tamanho.
Ordem stop-limit: gatilho + execução limitada
Conceito
No stop-limit, ao atingir o trigger, sua ordem vira uma ordem limitada com um preço limite definido. Você controla o pior preço aceito, mas pode não executar.
Quando faz sentido (controle de risco)
- Evitar slippage extremo em ativos com spread grande, aceitando o risco de não sair.
- Entradas por rompimento com controle de preço: você quer entrar no rompimento, mas não aceita pagar muito acima.
Passo a passo prático (stop-limit de saída)
- Defina o trigger: exemplo: vender se bater 99,90.
- Defina o limite: exemplo: vender no mínimo a 99,85.
- Entenda o intervalo: entre 99,90 (disparo) e 99,85 (pior preço aceito), você está dizendo “aceito escorregar até aqui, mas não além”.
Consequências práticas (cenários)
Cenário 1 — não executa em queda rápida: o preço cai de 99,95 para 99,70. O stop dispara em 99,90, mas sua venda limitada em 99,85 não encontra compradores nesse nível. Resultado: você continua posicionado enquanto o mercado cai.
Cenário 2 — execução parcial: dispara e executa parte em 99,85, mas falta liquidez para o restante. Você fica com posição residual sem perceber se não monitorar.
Erro comum e como evitar
- Usar stop-limit como “garantia” de stop loss: ele não garante saída. Se sua prioridade é limitar dano com alta probabilidade de zeragem, prefira stop market (ou reduza tamanho/evite o ativo).
OCO e ordens encadeadas: automatizando saída com alvo e stop
Conceito
OCO (One Cancels the Other) é um conjunto de duas ordens ligadas: normalmente alvo (limit) e stop (stop market ou stop-limit). Quando uma executa, a outra é cancelada automaticamente. Ordens encadeadas (bracket) seguem a mesma lógica: ao entrar, você já deixa programadas as saídas.
Quando faz sentido (controle de risco)
- Disciplina operacional: evita esquecer stop ou alvo.
- Reduz erro manual em momentos de volatilidade.
- Padronização: cada trade já nasce com risco e retorno definidos.
Passo a passo prático (exemplo numérico)
Você compra a 100,20 e quer: stop em 99,90 e alvo em 100,80.
- Entrada: compra (limit ou market, conforme seu plano).
- Monte o OCO: (a) venda limitada em 100,80 (alvo) e (b) venda stop market com trigger em 99,90 (stop).
- Confira quantidades: as duas pernas devem ter a mesma quantidade da posição (ou a quantidade que você quer proteger).
- Monitore execução parcial: se a entrada executou parcial, ajuste o OCO para não ficar com ordens maiores do que sua posição.
Consequências práticas (cenários)
Cenário 1 — entrada parcial + OCO cheio: você tentou comprar 1.000, executou 400. Se o OCO ficar com 1.000, você pode acabar com ordens de venda maiores que sua posição (risco de ficar “vendido” dependendo das regras do ambiente). A prática correta é ajustar o OCO para 400 (ou usar recurso que vincule automaticamente ao executado).
Cenário 2 — alvo executa parcial: sua venda limitada no alvo pega 600 de 1.000 e o mercado volta. Se o OCO não for bem gerenciado, você pode ficar com stop apenas para parte da posição ou com stop cancelado indevidamente. O ideal é garantir que o stop permaneça protegendo o restante (ou usar OCO com suporte a parcial, conforme disponível).
Execução parcial, não execução e preço pior: como isso aparece no seu resultado
1) Execução parcial
Acontece quando não há quantidade suficiente no preço que você pediu (limit) ou quando sua ordem “varre” níveis (market) e não preenche tudo no primeiro nível. Isso muda seu preço médio e pode bagunçar o gerenciamento de risco se você não ajustar stops/alvos para o tamanho real.
Checklist rápido:
- Conferir quantidade executada vs. enviada.
- Recalcular preço médio da posição.
- Ajustar stop/alvo para a quantidade correta.
2) Não execução
Mais comum em ordens limitadas e stop-limit. Você escolhe preço, mas o mercado pode não voltar lá (entrada) ou pode atravessar rápido demais (saída).
Checklist rápido:
- Se a ordem é de proteção (stop), priorize execução (stop market) em vez de preço.
- Se a ordem é de oportunidade (entrada), aceite ficar de fora quando o preço não vier.
3) Execução com preço pior (slippage)
Slippage é a diferença entre o preço esperado e o preço executado, comum em ordens a mercado e em stops (porque stop market vira mercado ao disparar). Ele aumenta com: spread maior, book raso, volatilidade e tamanho grande.
Como reduzir:
- Operar ativos/horários com melhor liquidez.
- Evitar mercado em momentos de spike.
- Diminuir tamanho ou fracionar.
- Usar limite agressivo quando a urgência é moderada (ex.: comprar no ask com limite no ask, em vez de market).
Erros comuns (e como corrigir) em formato de cenários
Erro 1 — Stop mal posicionado (curto demais)
Sintoma: você é estopado repetidamente por pequenas oscilações e o preço volta a favor.
Correção prática:
- Posicione o stop no ponto que invalida a ideia (ex.: abaixo de um fundo/nível), não no ponto “que dói menos”.
- Se o stop técnico fica longe demais para seu risco máximo, a correção é reduzir tamanho ou não fazer o trade.
Erro 2 — Ordem a mercado em baixa liquidez
Sintoma: preço médio muito pior do que o visto na tela; slippage grande.
Correção prática:
- Trocar por limit (para entrada/saída não urgente) ou por stop market com tamanho menor (para proteção).
- Checar spread e profundidade antes de enviar.
Erro 3 — Limite fora do book (ordem “inútil”)
Sintoma: você coloca uma ordem limitada muito distante e ela não participa do fluxo; quando precisa sair, já é tarde.
Correção prática:
- Para alvo, ok ficar distante (é intencional). Para saída de risco, não use limite distante: use stop (market) ou stop-limit com intervalo realista.
- Se a intenção era entrar, aproxime o limite do preço atual ou aceite que é uma ordem “de oportunidade” e pode não executar.
Erro 4 — Stop-limit apertado demais
Sintoma: o stop dispara, mas não executa; você fica preso na posição em movimento contra.
Correção prática:
- Se a prioridade é sair, prefira stop market.
- Se usar stop-limit, defina um limite com folga compatível com a volatilidade (um intervalo que faça sentido para o ativo).
Erro 5 — OCO mal configurado (quantidade errada ou pernas invertidas)
Sintoma: sobra ordem aberta após execução, ou a ordem de stop fica sem proteger a posição.
Correção prática:
- Antes de enviar, conferir: lado (compra/venda), quantidade, trigger e preço limite.
- Após execução parcial, ajustar imediatamente as ordens vinculadas.
Tabela-resumo: qual ordem usar em cada intenção
| Intenção | Ordem mais comum | Vantagem | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Entrar com preço específico | Limit | Controla preço | Pode não executar |
| Entrar no rompimento com urgência | Stop Market | Alta chance de execução | Slippage |
| Sair no alvo | Limit | Preço definido | Pode executar parcial |
| Stop loss (proteção) | Stop Market | Prioriza zeragem | Slippage em movimento rápido |
| Stop com controle de pior preço | Stop-Limit | Limita slippage | Pode não executar |
| Automatizar alvo + stop | OCO/Encadeadas | Disciplina e menos erro manual | Configuração/ajuste em parcial |