Orçamento como ferramenta de gestão: o “plano financeiro” do ano
O orçamento municipal é o instrumento que organiza, em valores e regras, o que a prefeitura espera arrecadar e como pretende gastar ao longo do ano. Na prática, ele funciona como um mapa: define limites, prioridades e condições para que cada despesa seja autorizada, executada e paga. Sem orçamento (ou fora dele), a prefeitura não pode simplesmente “comprar” ou “contratar” algo, mesmo que a necessidade seja real e urgente.
O orçamento não é uma lista de desejos: ele precisa caber dentro da previsão de receitas e respeitar regras legais e fiscais. Por isso, um pedido do cotidiano (ex.: consertar um telhado, comprar uniformes, contratar um serviço) passa por verificações antes de virar gasto efetivo.
O ciclo orçamentário na prática (sem teoria excessiva)
- Previsão de receitas: estimativa do quanto entrará no caixa ao longo do ano.
- Definição de despesas: distribuição do dinheiro previsto entre áreas, ações e itens de gasto, com limites.
- Execução ao longo do ano: transformação do que está planejado em compromissos (empenhos), entregas e pagamentos, conforme a arrecadação e as regras.
- Controle e ajustes: acompanhamento para não gastar além do permitido e para remanejar quando necessário (com autorização).
De onde vem o dinheiro: receita própria e transferências
Para entender por que o orçamento tem limites, é essencial diferenciar as fontes de receita:
- Receita própria: arrecadação do próprio município, como IPTU, ISS, ITBI, taxas e receitas patrimoniais. Em muitos municípios, ela não é suficiente para cobrir todas as políticas e serviços.
- Transferências: recursos que vêm de outros entes, como repasses constitucionais e legais (ex.: parcelas de impostos compartilhados) e transferências para finalidades específicas (muitas vezes com regras de aplicação).
Na rotina, isso significa que parte do dinheiro pode ter “destino” ou condições de uso. Exemplo: um recurso recebido para educação não pode ser usado para pavimentação, e vice-versa, quando houver vinculação legal ou contratual.
Para onde vai o dinheiro: despesa corrente e despesa de capital
O orçamento também organiza o gasto por natureza. Duas categorias ajudam a traduzir o dia a dia:
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- Despesa corrente: mantém o serviço funcionando. Exemplos: salários, energia, água, material de consumo, merenda, combustível, manutenção, serviços terceirizados.
- Despesa de capital: amplia ou melhora a estrutura pública. Exemplos: obras, compra de equipamentos duráveis, veículos, construção de escola, reforma com aumento de capacidade, investimentos.
Essa distinção importa porque cada tipo de despesa tem planejamento, prazos e controles diferentes. Uma compra de uniformes, por exemplo, costuma ser despesa corrente (material de distribuição/consumo), enquanto a construção de uma quadra escolar é despesa de capital.
Conceitos essenciais traduzidos: dotação, empenho, liquidação e pagamento
Dotação: o “limite autorizado”
Dotação orçamentária é o valor reservado no orçamento para uma finalidade específica (uma ação, atividade, projeto e seu tipo de gasto). Pense como um “teto” autorizado: a secretaria só pode assumir compromissos até aquele limite, naquela finalidade.
Exemplo prático: existe dotação para “aquisição de uniformes escolares” dentro da área de educação. Se não existir dotação suficiente, o pedido não pode seguir para compra até que haja ajuste autorizado (como suplementação/remanejamento, quando permitido).
Empenho: quando a prefeitura assume o compromisso
Empenhar é reservar oficialmente parte da dotação para um fornecedor/contrato, criando a obrigação de pagamento se a entrega ocorrer conforme o combinado. É o passo que transforma intenção em compromisso formal.
Sem empenho, a administração não deveria receber o bem/serviço (regra de controle para evitar “comprar primeiro e ver como paga depois”).
Liquidação: conferir se foi entregue corretamente
Liquidar é verificar e registrar que o bem/serviço foi entregue e aceito, com base em documentos e conferências (quantidade, qualidade, conformidade). É aqui que o “controle do recebimento” aparece com força.
Pagamento: saída do dinheiro
Pagar é efetivar a transferência ao fornecedor após a liquidação, respeitando cronograma financeiro, disponibilidade de caixa, ordem de pagamentos e regras internas.
Por que um pedido não pode ser atendido “na hora”
Mesmo pedidos simples exigem checagens para garantir legalidade, planejamento e uso correto do dinheiro público. As verificações mais comuns incluem:
- Existe necessidade formalizada? O que será comprado/contratado, para quem, em qual quantidade e com justificativa.
- Há dotação suficiente? O orçamento tem saldo para aquela finalidade?
- A despesa é permitida com aquela fonte de recurso? Se o dinheiro é vinculado, ele pode pagar esse item?
- Qual é a forma correta de contratação? Compra direta ou procedimento competitivo, conforme regras e valores.
- O preço está adequado? Pesquisa de preços/estimativas para evitar sobrepreço.
- Quem atesta o recebimento? Definição de responsável por conferir e aceitar o material/serviço.
- Há disponibilidade financeira no momento do pagamento? O orçamento autoriza, mas o caixa e o cronograma de desembolso também importam.
O ponto central: orçamento autoriza e limita; a execução transforma autorização em compromisso, entrega e pagamento, com controles em cada etapa.
Passo a passo prático: do planejamento à execução ao longo do ano
1) Planejamento de receitas e definição de prioridades de gasto
As áreas estimam necessidades (ex.: quantidade de alunos, demanda por transporte escolar, manutenção de unidades). A equipe de finanças consolida com a previsão de receitas e define limites por área/ação. O resultado é um orçamento com dotações distribuídas.
2) Programação financeira: quando o dinheiro entra e quando pode sair
Mesmo com dotação aprovada, a prefeitura precisa organizar o fluxo de caixa: algumas receitas entram mais em certos meses, e despesas obrigatórias (como folha e contratos essenciais) têm prioridade de pagamento. Isso afeta o “timing” de compras e pagamentos.
3) Execução da despesa durante o ano
- Início: pedidos são transformados em processos de compra/contratação, com verificação de dotação.
- Meio: ocorre o empenho quando a contratação é definida.
- Após entrega: liquidação com conferência e documentação.
- Por fim: pagamento, conforme regras e disponibilidade financeira.
4) Ajustes necessários (quando a realidade muda)
Se a arrecadação ficar abaixo do previsto, pode ser necessário segurar despesas não essenciais. Se surgir uma necessidade não prevista, pode ser preciso remanejar/suplementar dotação, seguindo as autorizações aplicáveis. O importante é que o ajuste é um procedimento formal: não é “tirar de um lugar e colocar em outro” informalmente.
Exemplo narrado: aquisição de uniformes escolares (do pedido ao pagamento)
Cenário
Uma escola municipal informa que o número de matrículas aumentou e que parte dos alunos não receberá uniforme se a compra não for ampliada. A direção solicita reposição e complementação de kits (camiseta e bermuda/short-saia), com tamanhos variados.
Etapa 1 — Pedido bem definido (o que evita retrabalho)
A escola organiza as informações: quantidade por tamanho, tipo de tecido, padrão de cor, necessidade de entrega antes do início do semestre e justificativa (aumento de matrículas e reposição por desgaste). Esse detalhamento é um ponto de controle: sem especificação clara, a compra pode sair errada ou ser questionada.
Etapa 2 — Checagem orçamentária: existe dotação e saldo?
A área responsável verifica no orçamento da educação se há dotação para aquisição de uniformes e se existe saldo disponível. Aqui aparecem duas perguntas práticas:
- O item está previsto na ação correta? Uniforme deve estar vinculado à ação/atividade de apoio ao aluno/funcionamento da rede.
- Há saldo suficiente para a quantidade necessária? Se não houver, será preciso reduzir o pedido, fracionar entregas no tempo (se permitido) ou solicitar ajuste formal de dotação.
Ponto de controle: sem dotação/saldo, não se avança para contratação.
Etapa 3 — Estimativa de custo e pesquisa de preços
Antes de contratar, a prefeitura estima o valor total. Isso pode envolver coleta de cotações, consulta a contratações similares e análise do padrão do mercado. O objetivo é definir um preço de referência e evitar pagar acima do razoável.
Ponto de controle: justificativa do preço e documentação da pesquisa.
Etapa 4 — Definição da forma de contratação
Com especificação e preço estimado, define-se o procedimento de compra adequado às regras e ao valor. Também se define prazo de entrega, critérios de qualidade, amostras (se aplicável) e condições de recebimento.
Ponto de controle: regras do procedimento e critérios objetivos para evitar direcionamento e garantir competitividade/isonomia quando exigido.
Etapa 5 — Empenho: reserva formal do orçamento
Após a contratação ser definida (por exemplo, com fornecedor vencedor), a prefeitura emite o empenho no valor correspondente, vinculando a despesa à dotação. A partir daí, existe um compromisso formal de pagamento, condicionado à entrega correta.
Ponto de controle: conferência de saldo da dotação no momento do empenho e compatibilidade do objeto com a dotação.
Etapa 6 — Entrega e recebimento: conferência do uniforme
O fornecedor entrega os uniformes. Uma equipe designada confere:
- quantidades por tamanho
- qualidade do tecido e costura
- cor e padronização
- eventuais defeitos
- conformidade com a especificação
Se houver divergências, registra-se ocorrência e pode haver recusa parcial, substituição ou ajuste conforme previsto.
Ponto de controle: registro do recebimento e evidências (relatório, termo de recebimento, notas, fotos quando aplicável).
Etapa 7 — Liquidação: atestar que a entrega foi correta
Com a conferência concluída e a documentação em ordem (nota fiscal, termo de recebimento/atesto, relatórios), a despesa é liquidada. Isso significa: “foi entregue como contratado, então está apto a pagar”.
Ponto de controle: o atesto deve ser feito por responsável competente e com base em verificação real, não automática.
Etapa 8 — Pagamento: saída do recurso conforme programação financeira
Após a liquidação, o pagamento é programado. Mesmo com tudo correto, pode haver fila de pagamentos e necessidade de respeitar o fluxo de caixa do mês. O pagamento é então realizado ao fornecedor.
Pontos de controle: autorização de pagamento, conferência de dados bancários, retenções aplicáveis (quando houver) e registro contábil.
O que esse exemplo mostra sobre “não dá para atender na hora”
- Sem dotação e saldo, não existe autorização para gastar.
- Sem pesquisa de preço e procedimento adequado, a compra pode ser irregular ou mais cara.
- Sem empenho, a prefeitura não deve assumir entrega.
- Sem liquidação (atesto), não se paga.
- Mesmo liquidado, o pagamento segue programação financeira e controles.