O que são compras, contratos e licitações (na prática)
Compras públicas municipais são o conjunto de rotinas usadas para transformar uma necessidade de uma área (por exemplo, alimentação escolar, combustível, manutenção de prédio) em uma entrega feita por um fornecedor, com regras para garantir isonomia (todos podem disputar), vantajosidade (melhor resultado para a administração) e rastreabilidade (tudo documentado no processo).
Na rotina, isso se materializa em três “peças” principais: licitação/contratação (como escolher o fornecedor), contrato/ata (o que foi combinado) e fiscalização/recebimento (como comprovar que foi entregue corretamente antes de pagar).
Fluxo de contratação municipal em linguagem simples
A sequência abaixo descreve um fluxo típico. A nomenclatura pode variar (pregoeiro/agente de contratação, comissão, setor de compras), mas as etapas são semelhantes.
1) Planejamento da contratação (o “por quê” e o “quanto”)
É a etapa em que a área que precisa do bem/serviço organiza a demanda e evita compras improvisadas. Aqui se define: necessidade, quantidades, prazo, local de entrega, forma de medição e riscos.
- Saídas comuns: documento de demanda (requisição), estudo técnico preliminar (quando aplicável), mapa de consumo/estimativa (ex.: histórico de merenda por aluno), termo de referência/projeto básico (rascunho inicial).
- Ponto de atenção: planejar com base em dados (consumo anterior, calendário escolar, rotas de coleta, frota ativa) reduz aditivos e urgências.
2) Especificação do objeto (o “o que exatamente” será contratado)
É a descrição do que a prefeitura quer comprar/contratar. Uma boa especificação evita disputa por “coisas diferentes” e reduz risco de entrega inadequada.
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- O que deve aparecer: descrição clara, unidade de medida, padrões de qualidade, critérios de aceitação, prazos, locais, garantias, obrigações do contratado e da prefeitura, forma de medição e pagamento.
- Como escrever bem: descreva por desempenho e requisitos verificáveis (ex.: “coleta 3x por semana em rota X, com pesagem em balança certificada”), evitando marcas, salvo justificativa técnica.
- Exemplo: em manutenção predial, em vez de “reforma do telhado”, detalhar área, tipo de telha, estrutura, calhas, normas aplicáveis, prazo, e como será medida a execução (m² executado, etapas).
3) Pesquisa de preços (o “quanto custa” de forma justificável)
Serve para estimar o valor e verificar se a contratação é compatível com o mercado. A pesquisa precisa ser documentada e coerente com o objeto.
- Fontes usuais: cotações com fornecedores, contratos/atas recentes, painéis de preços, notas fiscais, referências regionais, tabelas setoriais (quando aceitas).
- Cuidados: comparar itens equivalentes (mesma unidade, mesma qualidade), registrar data, condições (frete, impostos, prazo), e tratar outliers (preços muito fora do padrão).
4) Escolha da modalidade/forma de contratação (qual caminho seguir)
Com o objeto e o valor estimado, a prefeitura define a forma de contratar conforme as regras aplicáveis (por exemplo, licitação, dispensa, inexigibilidade, registro de preços). A escolha deve ser justificada no processo.
- Quando tende a ser licitação: compras e serviços comuns com competição possível (ex.: combustível, gêneros alimentícios, manutenção).
- Quando pode haver dispensa: hipóteses legais específicas (ex.: baixo valor, emergência, situações previstas em lei), sempre com justificativa, pesquisa de preços e formalização mínima.
- Quando pode haver inexigibilidade: inviabilidade de competição (ex.: fornecedor exclusivo comprovado, contratação de profissional de notória especialização em casos cabíveis), com documentação robusta.
- Registro de preços: útil para demandas recorrentes e entregas parceladas (ex.: merenda, materiais de limpeza), reduzindo repetição de licitações e permitindo pedidos conforme consumo.
5) Preparação do edital/convite e análise jurídica (as “regras do jogo”)
O instrumento convocatório (edital/aviso) consolida objeto, critérios de julgamento, habilitação, prazos, sanções, minuta de contrato/ata e anexos (termo de referência, planilhas, projetos).
- Julgamento: definir se será menor preço, maior desconto, técnica e preço (quando cabível), e como será a disputa.
- Habilitação: exigir documentos necessários e proporcionais (regularidade fiscal, qualificação técnica compatível, etc.).
- Jurídico: revisa a conformidade do edital/minuta e aponta ajustes para reduzir risco de impugnações e nulidades.
6) Seleção do fornecedor (disputa, análise e adjudicação)
É a fase em que os fornecedores apresentam propostas e documentos, e a administração escolhe a proposta vencedora conforme as regras do edital.
- Atos típicos: sessão pública (quando aplicável), lances, julgamento, verificação de habilitação, recursos, adjudicação e homologação.
- Boas práticas: registrar tudo em ata, responder pedidos de esclarecimento, tratar recursos com fundamentação e manter isonomia.
7) Contrato, ata e empenho (formalizar para executar)
Após a seleção, formaliza-se o vínculo: contrato administrativo, instrumento equivalente ou ata de registro de preços. Em seguida, a execução só deve começar com a formalização interna necessária (como a autorização e o empenho, conforme o caso).
- O contrato precisa deixar claro: objeto, preço, prazos, reajuste/revisão, garantias, sanções, responsabilidades, forma de medição, condições de pagamento, gestão e fiscalização.
- Ordem de fornecimento/serviço: documento operacional que autoriza a entrega/execução conforme contrato/ata.
8) Fiscalização e gestão do contrato (acompanhar para garantir entrega)
Fiscalizar é verificar se o contratado está entregando conforme combinado. Gestão do contrato é organizar prazos, aditivos, comunicações e registros para que a execução não “desande”.
- Ferramentas práticas: diário de obra/registro de ocorrências, checklists de recebimento, relatórios de medição, fotos, laudos, controle de saldo de ata/contrato, cronograma físico-financeiro (quando aplicável).
- Comunicação formal: notificações e ordens devem ser registradas no processo (evita “combinados” sem prova).
9) Recebimento, liquidação e pagamento (pagar só o que foi entregue)
O recebimento pode ser provisório e definitivo, conforme o tipo de objeto. A liquidação é a verificação documental e material de que a entrega ocorreu corretamente (quantidade, qualidade, prazo, conformidade). Só depois disso o financeiro processa o pagamento.
- Exemplo: em merenda, conferir notas, lotes, validade, temperatura/transporte (quando aplicável), quantidades por item e conformidade com o termo de referência.
- Exemplo: em manutenção predial, medir serviços executados (m², pontos instalados, etapas), conferir materiais previstos e registrar aceite.
Papéis e responsabilidades: quem faz o quê
Uma contratação municipal funciona melhor quando cada ator cumpre seu papel e registra suas decisões no processo.
| Papel | Responsabilidade prática | Erros comuns a evitar |
|---|---|---|
| Requisitante (área demandante) | Definir a necessidade, quantidades, especificação inicial, critérios de aceitação e apoiar a fiscalização | Pedir “genérico”, sem unidade de medida; estimar quantidade sem base; mudar o escopo durante a execução |
| Setor de compras/contratações | Conduzir o processo, orientar documentos, consolidar pesquisa de preços, publicar e operacionalizar a seleção | Aceitar termo de referência incompleto; não padronizar anexos; falhas de publicidade e prazos |
| Comissão/Agente responsável pela seleção | Conduzir a disputa, julgar propostas, analisar habilitação e recursos, registrar atas | Critérios de julgamento confusos; tratamento desigual; decisões sem motivação |
| Jurídico | Analisar edital/minuta, apontar riscos e adequações legais, revisar aditivos e sanções | Entrar tarde no processo; validar minuta sem anexos técnicos consistentes |
| Fiscal do contrato | Acompanhar execução, medir, atestar recebimento, registrar ocorrências e solicitar providências | Atestar sem conferir; não registrar evidências; não controlar prazos e saldo contratual |
| Contabilidade/Financeiro | Verificar documentação para liquidação/pagamento, retenções, conformidade fiscal e fluxo de desembolso | Pagar sem atesto/medição; aceitar nota sem vínculo claro ao contrato; falhas em retenções |
Exemplos de contratações típicas (com pontos críticos)
1) Merenda escolar (gêneros alimentícios)
Objeto típico: fornecimento parcelado de itens (arroz, feijão, carnes, hortifrúti, leite), com entregas semanais ou quinzenais.
- Especificação: unidade (kg, litro, pacote), padrão de qualidade, marcas proibidas (salvo justificativa), exigências sanitárias, validade mínima, condições de transporte/armazenamento.
- Medição/recebimento: conferência por item e lote, registro de substituições, controle de saldo por item na ata/contrato.
- Risco recorrente: termo de referência sem cardápio/planejamento de consumo; itens com descrição ambígua (ex.: “carne bovina” sem corte/padrão).
2) Combustível (abastecimento da frota)
Objeto típico: fornecimento de gasolina/diesel com abastecimento por demanda, com controle por veículo.
- Especificação: tipo de combustível, padrão de qualidade, forma de controle (cartão, requisição, sistema), limite por veículo, local do posto e raio máximo (quando justificável), prazo de faturamento.
- Medição/recebimento: relatórios por placa, hodômetro, centro de custo, conciliação de notas com requisições.
- Risco recorrente: falta de controle de consumo e de autorização de abastecimento; pagamento sem conciliação.
3) Manutenção predial (escolas, postos de saúde, prédios administrativos)
Objeto típico: serviços de reparo elétrico/hidráulico, pintura, telhado, pequenos consertos, ou manutenção preventiva.
- Especificação: escopo por ambiente/serviço, materiais mínimos, normas técnicas, prazos por chamado, critérios de medição (por item, por m², por hora técnica quando justificável), garantia.
- Medição/recebimento: ordens de serviço, fotos antes/depois, medições assinadas, teste de funcionamento, aceite por etapa.
- Risco recorrente: contratar “manutenção geral” sem detalhar itens; medições subjetivas; aditivos por falha de levantamento.
4) Coleta de resíduos (domiciliar e/ou limpeza urbana)
Objeto típico: coleta regular, transporte e destinação, varrição, capina, operação de transbordo (conforme arranjo local).
- Especificação: rotas, frequência, áreas atendidas, tipo de resíduo, exigências de frota/equipamentos, indicadores (ex.: cumprimento de rota), forma de medição (tonelada, km, equipe/hora, ou combinação), exigências ambientais e de segurança.
- Medição/recebimento: relatórios de rota, pesagens, controle de frota, registros de ocorrências, auditorias amostrais.
- Risco recorrente: medição mal definida (paga-se “por mês” sem indicador), rotas desatualizadas, dificuldade de comprovar execução.
Passo a passo prático: como montar um Termo de Referência (TR) que ajuda a execução
Um TR bem feito reduz impugnações, retrabalho e aditivos. Use este roteiro como base e adapte ao seu município.
- Contexto e necessidade: qual problema será resolvido e quem será atendido (ex.: abastecer frota da saúde e obras).
- Objeto: descrição direta, com unidade de fornecimento/execução.
- Quantitativos: memória de cálculo (histórico, projeção, sazonalidade). Inclua tabela de itens quando for compra.
- Requisitos de qualidade: padrões, normas, certificações quando necessárias, critérios de aceitação verificáveis.
- Local e prazo: onde entrega/execução ocorrerá, cronograma, prazos por entrega/chamado.
- Forma de execução: entregas parceladas, chamados, plantão, logística, interface com unidades.
- Medição e pagamento: como medir (kg, litro, m², tonelada, rota), quais evidências, periodicidade de faturamento.
- Obrigações do contratado: equipe, equipamentos, EPIs, substituições, garantia, seguros quando cabíveis.
- Obrigações da prefeitura: fornecer acesso, indicar fiscal, aprovar medições, disponibilizar locais.
- Gestão de riscos: riscos previsíveis e mitigação (ex.: sazonalidade de hortifrúti; rotas de coleta em período chuvoso).
- Sanções e glosas: quando haverá desconto por não conformidade (ex.: item fora da especificação; rota não cumprida).
- Anexos: mapas de rota, plantas, planilhas, cardápios, lista de unidades atendidas.
Checklist prático de riscos (para usar antes de publicar e durante a execução)
1) Especificação mal feita
- O objeto está mensurável (unidade de medida clara)?
- Os critérios de aceitação permitem dizer “entregou/não entregou” sem subjetividade?
- Há requisitos de qualidade e evidências de comprovação (laudos, fotos, pesagem, relatórios)?
- Evitei direcionamento (marca/modelo) sem justificativa técnica?
2) Prazos e cronograma
- Os prazos de entrega/execução são compatíveis com a realidade (logística, sazonalidade, rotas)?
- Existe prazo para correção de não conformidades?
- Há plano para transição/continuidade (ex.: fim de contrato de coleta; início do ano letivo para merenda)?
3) Medições e recebimento
- Está definido como medir (o que conta e o que não conta)?
- Quem mede, com que documentos, e onde isso fica arquivado?
- Há segregação mínima: quem solicita não é o único a atestar sem conferência?
- Existe controle de saldo (quantitativos/itens) para evitar extrapolar o contratado?
4) Aditivos e mudanças de escopo
- O TR prevê variações previsíveis (entregas parceladas, sazonalidade, chamados)?
- O processo tem justificativas e evidências para qualquer alteração (quantidade, prazo, valor)?
- O fiscal registra ocorrências desde o início (para não “descobrir” o problema só no fim)?
- Há controle de vigência e gatilhos para iniciar nova contratação antes do término?