Por que medir o onboarding (e o que “bom” significa)
Indicadores de onboarding servem para responder três perguntas objetivas: (1) a pessoa conseguiu começar a trabalhar sem fricção? (adaptação operacional), (2) ela atingiu desempenho inicial no tempo esperado? (produtividade), e (3) ela permaneceu e se engajou? (retenção). Medir não é “controlar pessoas”; é controlar o processo: identificar gargalos previsíveis (ex.: atrasos de acesso, metas pouco claras, baixa qualidade de treinamento) e corrigir antes que virem queda de performance ou desligamentos.
Um sistema de indicadores eficaz combina métricas de processo (o que o onboarding entregou) e métricas de resultado (o que mudou no comportamento/entrega e na permanência). Confirmar apenas “se o checklist foi concluído” é insuficiente; por outro lado, olhar só para “retenção em 90 dias” sem entender causas também não ajuda. O ideal é um painel mínimo com poucos indicadores, revisado com frequência e com donos claros.
Métricas essenciais (o que medir e como definir)
1) Tempo até produtividade (Time to Productivity)
Conceito: tempo necessário para o novo colaborador atingir um nível de entrega considerado “autônomo” para a função. Deve ser definido por função/nível, com critérios observáveis.
Como definir na prática: escolha 1 a 3 sinais de produtividade inicial, por exemplo:
- Vendas: primeira proposta enviada sem revisão pesada; primeira reunião conduzida sozinho; % de metas de atividade atingidas.
- Suporte: primeiro ticket resolvido com SLA e qualidade; taxa de reabertura abaixo de X%.
- Engenharia: primeiro PR aprovado com poucas correções; primeiro deploy acompanhado; tarefas concluídas por sprint.
- Operações: execução de rotina crítica sem retrabalho; auditoria interna sem não conformidades.
Indicador: dias corridos até atingir o critério. Registre também a distribuição (mediana e percentis), não apenas a média.
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2) Taxa de conclusão de checklists (por etapa e no prazo)
Conceito: mede se as entregas do processo foram realizadas (e quando). A taxa “concluído” sozinha pode mascarar atrasos; por isso, acompanhe conclusão no prazo.
Como medir:
- % concluído por etapa (ex.: Dia 1, Semana 1, 30 dias).
- % concluído no prazo (SLA do onboarding).
- Itens críticos pendentes (ex.: acesso a sistemas-chave, permissões, equipamentos).
3) NPS do onboarding (eNPS do processo)
Conceito: mede recomendação do processo de onboarding (não da empresa como um todo). Pergunta padrão: “Em uma escala de 0 a 10, o quanto você recomendaria o onboarding para um colega que está entrando?”
Como aplicar: colete em 2 momentos para capturar a curva de experiência:
- Dia 7 (primeira impressão operacional).
- Dia 30 (percepção após iniciar entregas).
Complemento obrigatório: uma pergunta aberta: “O que mais ajudou?” e “O que mais atrapalhou?”. Sem isso, o NPS vira número sem ação.
4) Satisfação com liderança (clareza, apoio e feedback)
Conceito: mede se a liderança está cumprindo o papel de orientar, priorizar e dar feedback no início. É um dos melhores preditores de engajamento e retenção no curto prazo.
Como medir: use 3 a 5 itens em escala de 1 a 5 (discordo–concordo), por exemplo:
- “Entendi claramente o que é esperado de mim nas primeiras semanas.”
- “Recebi feedback útil e no tempo certo.”
- “Tenho espaço para tirar dúvidas sem receio.”
- “Minhas prioridades estão claras.”
5) Incidentes de acesso (TI e permissões) e tempo de resolução
Conceito: mede fricção operacional: quantos problemas de acesso ocorreram e quanto tempo levaram para ser resolvidos. Impacta diretamente tempo até produtividade.
Como medir:
- # de tickets por novo colaborador nos primeiros 7/30 dias.
- Tempo médio/mediano de resolução (MTTR) para itens críticos.
- % de tickets reabertos (qualidade da solução).
6) Rotatividade em 30/90/180 dias
Conceito: mede retenção no período em que o onboarding deveria reduzir incerteza e acelerar adaptação. Separe desligamentos voluntários e involuntários.
Como medir:
- Turnover 30/90/180 = desligados no período / admitidos no período (ajuste coortes quando necessário).
- Segmentação: por área, cargo, gestor, localidade, modalidade (remoto/híbrido/presencial).
7) Absenteísmo (primeiros 30/90 dias)
Conceito: faltas e atrasos no início podem indicar problemas de saúde, desengajamento, sobrecarga, dificuldades de deslocamento ou falhas de integração.
Como medir:
- % de dias ausentes no período (ou horas).
- Comparação com baseline da área/cargo.
- Leitura cuidadosa: absenteísmo é multifatorial; evite conclusões sem contexto.
Como coletar dados (com baixo esforço e alta utilidade)
1) Pesquisas rápidas (pulse surveys)
Use formulários curtos (2 a 6 perguntas) em momentos fixos. O objetivo é capturar sinais cedo, quando ainda dá tempo de corrigir para aquela pessoa e para as próximas.
Roteiro sugerido (Dia 7):
- NPS do onboarding (0–10)
- “Tenho os acessos e ferramentas necessários para trabalhar” (1–5)
- “Entendi minhas prioridades para esta semana” (1–5)
- Campo aberto: “Maior obstáculo até agora”
Roteiro sugerido (Dia 30):
- NPS do onboarding (0–10)
- “Recebi feedback suficiente para melhorar” (1–5)
- “Sinto que estou contribuindo de forma relevante” (1–5)
- Campo aberto: “Uma melhoria que você faria no onboarding”
2) Entrevistas curtas (15–20 min) com amostra
Entrevistas ajudam a explicar o “porquê” por trás dos números. Faça com uma amostra (ex.: 20% dos admitidos do mês ou todos de áreas críticas).
Perguntas práticas:
- “Qual foi o momento de maior confusão nas primeiras duas semanas?”
- “O que você gostaria de ter recebido antes?”
- “Quais sistemas/processos mais travaram seu trabalho?”
- “O que seu gestor poderia ter feito diferente?”
3) Análise de tickets e prazos (dados operacionais)
Extraia dados do sistema de chamados e do controle do onboarding (planilha, ferramenta interna, etc.). O foco é identificar gargalos repetidos e SLAs quebrados.
Como organizar:
- Classifique tickets por categoria (acesso, hardware, permissões, dúvidas de processo, etc.).
- Marque “crítico” vs “não crítico” (crítico = impede trabalhar).
- Meça volume, MTTR e reincidência por área e por tipo.
4) Análise de entregas iniciais (desempenho)
Evite criar um “KPI universal” de performance. Em vez disso, defina critérios mínimos por função e registre quando foram atingidos. Use fontes já existentes: metas de período, qualidade de entregas, SLAs, revisões, indicadores de produção.
Como interpretar os indicadores (leituras que evitam erros comuns)
Separar sintomas de causas
- NPS baixo pode ser sintoma; a causa pode ser atraso de acesso, excesso de reuniões, falta de clareza de prioridades ou baixa qualidade de materiais.
- Tempo até produtividade alto pode ser causado por falta de permissões, baixa disponibilidade do gestor, ou curva de aprendizado subestimada.
Usar coortes e segmentação
Compare pessoas que entraram no mesmo período (coorte) e segmente por variáveis que mudam a experiência: área, gestor, localidade, senioridade, modalidade de trabalho. Isso evita conclusões injustas (ex.: comparar funções com complexidades diferentes).
Olhar distribuição, não só média
Se a média de tempo até produtividade é 45 dias, mas 30% levam 80 dias, existe um problema de consistência. Use mediana e percentis (P75/P90) para enxergar outliers e gargalos.
Relacionar indicadores (correlação prática)
Crie leituras combinadas simples, por exemplo:
- Incidentes de acesso altos + tempo até produtividade alto = provável gargalo operacional (TI/permissões/processos).
- Satisfação com liderança baixa + turnover 90 dias alto = provável falha de alinhamento/feedback/priorização.
- Checklist “concluído” alto, mas NPS baixo = checklist pode estar marcando tarefas que não geram valor (ou está “no papel”).
Painel mínimo recomendado (enxuto e acionável)
Um painel mínimo deve caber em uma página e ser revisado mensalmente (com leitura quinzenal em áreas com alto volume de contratações). Sugestão de estrutura:
| Dimensão | Indicador | Frequência | Segmentação mínima |
|---|---|---|---|
| Processo | % checklist concluído no prazo (Dia 1 / Semana 1 / 30 dias) | Semanal/Mensal | Área, gestor |
| Experiência | NPS do onboarding (Dia 7 e Dia 30) | Mensal | Área, modalidade |
| Liderança | Satisfação com liderança (itens 1–5) | Mensal | Gestor, área |
| Operação | # tickets por pessoa (7/30 dias) + MTTR de itens críticos | Semanal/Mensal | Categoria, área |
| Resultado | Tempo até produtividade (mediana + P75) | Mensal | Função, senioridade |
| Retenção | Turnover 30/90/180 (voluntário/involuntário) | Mensal/Trimestral | Área, gestor |
| Presença | Absenteísmo 30/90 dias | Mensal | Área, localidade |
Metas iniciais realistas (para começar sem distorcer o comportamento)
Metas iniciais devem ser tratadas como baseline + melhoria contínua. No início, priorize metas de processo e operação (mais controláveis) e use metas de resultado com cautela (dependem de função, mercado e gestão).
Exemplos de metas iniciais (ajuste ao seu contexto)
- Checklist no prazo: 85% no prazo no primeiro ciclo; evoluir para 95% em 2–3 ciclos.
- Incidentes de acesso críticos: reduzir em 30% em 60 dias; MTTR crítico abaixo de 8 horas úteis (ou SLA equivalente).
- NPS do onboarding: estabelecer baseline no primeiro mês; meta de +10 pontos em 2–3 meses com base em melhorias específicas.
- Satisfação com liderança (1–5): baseline; meta de +0,3 a +0,5 em 2 ciclos (ex.: de 3,8 para 4,2).
- Tempo até produtividade: definir por função; meta inicial pode ser reduzir P75 em 10–15% (melhora consistência sem pressionar outliers).
- Turnover 90 dias: baseline por área; meta de redução gradual (ex.: -1 a -2 p.p. por trimestre) onde houver volume suficiente para leitura.
- Absenteísmo: monitorar desvios vs baseline da área; meta inicial: reduzir picos associados a problemas operacionais (ex.: deslocamento/escala mal definida) em vez de “zerar faltas”.
Cuidados: metas agressivas demais podem incentivar “marcar checklist sem qualidade” ou subnotificar problemas. Prefira metas que incentivem resolução (ex.: MTTR) e aprendizado (ex.: itens mais citados nas respostas abertas).
Passo a passo: implementar indicadores de onboarding em 10 dias
Dia 1–2: Definir o que é “produtividade inicial” por função
- Escolha 1–3 critérios objetivos por função.
- Defina quem valida (gestor, líder técnico, etc.).
- Registre o critério em um documento simples para padronização.
Dia 3: Padronizar checklists e SLAs
- Marque itens “críticos” (impedem trabalhar) e “não críticos”.
- Defina prazo por etapa (Dia 1, Semana 1, 30 dias).
- Defina dono por item (RH, TI, gestor, área de apoio).
Dia 4–5: Criar pesquisas rápidas (Dia 7 e Dia 30)
- Monte formulário com NPS + 2–4 itens + 1 pergunta aberta.
- Defina disparo automático (ou agenda fixa) e responsável por acompanhar respostas.
- Defina regra de ação: ex.: nota 0–6 gera contato em até 48h para entender causa.
Dia 6–7: Conectar dados operacionais (tickets e prazos)
- Defina categorias padrão de tickets.
- Crie um relatório simples: volume, MTTR, reabertura, itens críticos.
- Combine com dados do checklist (atrasos e pendências).
Dia 8: Montar o painel mínimo (1 página)
- Escolha 7 indicadores (os do painel mínimo recomendado).
- Defina periodicidade e responsáveis por atualizar.
- Inclua campo “Top 3 problemas do mês” e “Ações em andamento”.
Dia 9–10: Fazer a primeira leitura e criar backlog de melhorias
- Faça uma reunião curta (30–45 min) com RH + TI + líderes envolvidos.
- Liste problemas recorrentes (baseado em dados e respostas abertas).
- Priorize 3 melhorias com maior impacto e menor esforço.
Transformando achados em melhorias (do dado à mudança de processo)
1) Converter sinais em hipóteses
Exemplo: “MTTR de acesso alto” é um sinal. Hipóteses possíveis:
- Solicitações chegam incompletas (falta informação para TI).
- Permissões dependem de aprovações lentas.
- Há gargalo em um sistema específico (ex.: VPN, e-mail, ERP).
2) Validar com evidências rápidas
- Leia 10 tickets críticos e identifique padrões (campos faltantes, etapas repetidas, dependências).
- Entrevista curta com 3 pessoas recém-admitidas para confirmar impacto.
- Verifique prazos reais vs SLA do checklist.
3) Definir ação corretiva com dono, prazo e métrica de sucesso
Estruture cada melhoria como um mini-experimento:
Problema: 40% dos novos colaboradores abrem ticket de acesso ao sistema X na 1ª semana; MTTR mediano 2 dias úteis.Impacto: atraso no início das entregas e queda no NPS (comentários citam “não consigo trabalhar”).Hipótese: solicitação de acesso não é aberta automaticamente e depende do gestor lembrar.Ação: criar etapa obrigatória no checklist com abertura automática do acesso X no D-2 (antes do início).Dono: TI (execução) + RH (governança do checklist).Prazo: 2 semanas.Métrica de sucesso: reduzir tickets de acesso X em 60% e MTTR para < 4h úteis em 30 dias.4) Atualizar padrões e evitar regressão
- Se a melhoria funcionou, transforme em padrão: ajuste checklist, templates de solicitação, SLAs e comunicação.
- Crie um “controle de qualidade” mensal: amostra de 5 onboardings para checar se o padrão está sendo seguido.
- Documente decisões: o que mudou, por quê, e qual indicador deve melhorar.
5) Fechar o ciclo com transparência
Quando você coleta feedback (NPS e perguntas abertas), devolva a mudança: “Vocês apontaram X; ajustamos Y; esperamos reduzir Z”. Isso aumenta taxa de resposta e qualidade dos feedbacks, além de reforçar confiança no processo.