O que é “objetivo editorial” e por que ele manda na entrevista
Objetivo editorial é a formulação explícita do que a entrevista precisa entregar para cumprir a pauta: quais fatos devem ser confirmados, quais pontos precisam ser explicados e quais versões devem ser confrontadas. Ele funciona como um “contrato” entre pauta, repórter e material final: se a entrevista não produz insumos para esse objetivo, ela vira um conjunto de perguntas soltas, sem direção narrativa.
Um bom objetivo editorial é específico, verificável e orientado ao interesse público. Em vez de “entrevistar o secretário sobre saúde”, ele descreve a entrega: “confirmar números de filas e prazos, explicar critérios de regulação e confrontar divergências entre dados oficiais e relatos de usuários”.
Três verbos que ajudam a escrever o objetivo
- Confirmar: checar fatos, dados, cronologia, autoria, documentos, responsabilidades.
- Explicar: entender mecanismos, critérios, processos, causas e consequências.
- Confrontar: colocar lado a lado versões conflitantes, inconsistências, promessas versus execução, discurso versus evidência.
Da pauta ao objetivo claro: passo a passo prático
1) Escreva a pauta em uma frase operacional
Transforme o tema amplo em uma frase que já indique “o que está em jogo”.
- Amplo: “Obras paradas na cidade.”
- Operacional: “Obras paradas: prazos estourados, aditivos e impacto em serviços; quem responde e o que será feito.”
2) Defina o recorte (tema, tempo, personagem, contexto)
Recorte é o que impede a entrevista de virar inventário de assuntos. Use quatro dimensões:
- Tema: qual aspecto específico? (ex.: “aditivos e fiscalização”, não “obras” em geral)
- Tempo: qual período? (ex.: “últimos 18 meses”)
- Personagem: quem tem responsabilidade/competência para responder? (ex.: gestor do contrato, não apenas porta-voz)
- Contexto: qual cenário mínimo para o público entender? (ex.: orçamento, metas, legislação aplicável)
Exemplo de recorte pronto: “Focar nos contratos X e Y, assinados em 2024, com aditivos em 2025, entrevistando o secretário e o fiscal do contrato, para explicar por que parou e quando retoma.”
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3) Liste o que precisa ser verificável (e o que é opinião)
Antes de escrever perguntas, separe o que pode ser checado do que é interpretação. Isso evita gastar tempo com respostas opinativas quando você precisa de fatos.
| Tipo | Como aparece | Como tratar na entrevista |
|---|---|---|
| Informação verificável | número, data, documento, ato, responsável, valor, prazo, critério formal | pedir fonte, documento, método de cálculo, série histórica, responsável pela assinatura |
| Opinião/avaliação | “foi um sucesso”, “é injusto”, “estamos melhorando”, “é perseguição” | pedir evidência, comparação, indicador, exemplo concreto, contraponto |
| Promessa/compromisso | “vamos entregar”, “vamos apurar”, “vamos corrigir” | pedir prazo, marco intermediário, responsável, como será medido, o que acontece se não cumprir |
4) Formule hipóteses de trabalho (não para “provar”, mas para testar)
Hipóteses organizam a investigação e orientam o confronto. Escreva de 2 a 5 hipóteses testáveis, cada uma com sinais de confirmação e de refutação.
- Hipótese A: “A obra parou por falha de projeto.” (testar: laudos, revisões, aditivos por readequação)
- Hipótese B: “A obra parou por atraso de repasse.” (testar: cronograma de pagamentos, empenhos, restos a pagar)
- Hipótese C: “A obra parou por irregularidade apontada por órgão de controle.” (testar: notificações, recomendações, suspensão formal)
Dica prática: se a hipótese não indica que evidência você espera encontrar, ela ainda está vaga.
5) Converta hipóteses em perguntas-guia (as 5–8 que seguram o foco)
Perguntas-guia são poucas, amplas o suficiente para estruturar a entrevista, mas específicas para gerar respostas úteis. Elas viram “capítulos” do seu roteiro.
- O que aconteceu? (cronologia objetiva)
- Por que aconteceu? (causa principal e causas secundárias)
- Quem decidiu? (cadeia de responsabilidade)
- Com base em quê? (critérios, documentos, dados)
- Quem foi afetado e como? (impacto mensurável)
- O que será feito e quando? (plano, prazos, métricas)
- O que não está sendo dito? (lacunas: “o que ficou de fora do relatório?”)
- Qual é a divergência central? (confronto com evidências/versões)
6) Escreva o objetivo editorial em formato de entrega
Use um modelo simples e preenchível:
Objetivo editorial da entrevista: (confirmar/explicar/confrontar) [X] sobre [tema recortado], no período [tempo], com foco em [ponto central], para esclarecer ao público [impacto/relevância], verificando [itens checáveis] e confrontando [divergências].Exemplo preenchido:
Objetivo editorial da entrevista: confirmar e explicar as razões da paralisação das obras X e Y (2024–2025), com foco em aditivos e fiscalização, para esclarecer impacto em mobilidade e gasto público, verificando valores, prazos, responsáveis e documentos, e confrontando divergências entre cronogramas oficiais e registros de execução.Checklist de delimitação de escopo (antes de entrevistar)
- Consigo resumir o objetivo editorial em uma frase?
- O recorte de tema está definido (qual aspecto, não o assunto inteiro)?
- O recorte de tempo está definido (de–até)?
- O recorte de personagem está correto (quem decide/assina/implementa)?
- O contexto mínimo está claro (o que o público precisa saber para entender)?
- Listei 5–10 itens verificáveis que preciso obter (números, datas, documentos, critérios)?
- Listei 2–5 hipóteses testáveis?
- Tenho 5–8 perguntas-guia que cobrem o objetivo?
- Se eu tivesse só 10 minutos, sei quais são as 3 perguntas essenciais?
Critérios de relevância pública (para manter a entrevista “editorialmente necessária”)
Use estes critérios para decidir o que entra e o que fica fora do roteiro:
- Impacto: quantas pessoas são afetadas e de que forma (tempo, dinheiro, acesso, risco)?
- Responsabilidade: há decisão pública, uso de recurso público ou dever institucional?
- Novidade: a resposta traz informação nova ou apenas reafirma discurso?
- Verificabilidade: dá para checar com documentos, dados, registros, testemunhos?
- Proporcionalidade: o tempo gasto no tema é proporcional ao impacto?
- Clareza: o público consegue entender a explicação sem jargão ou com tradução?
- Conflito de versões: existe divergência relevante que precisa ser esclarecida?
Como evitar entrevistas sem propósito: sinais de alerta e correções
Sinais de alerta (você está “colecionando perguntas”)
- O roteiro parece uma lista de curiosidades (“e sobre isso?”, “e aquilo?”) sem hierarquia.
- Você não sabe dizer o que seria uma “boa resposta” para cada pergunta.
- As perguntas não pedem evidência (ficam no “o que você acha?”).
- O entrevistado pode responder tudo com frases genéricas (“estamos trabalhando”).
- Você não tem plano para lidar com contradições (não há confronto preparado).
Correções rápidas (em 10 minutos)
- Reescreva o objetivo usando os verbos confirmar/explicar/confrontar.
- Eleja 1 conflito central: qual divergência precisa ser resolvida?
- Promova 3 perguntas a “essenciais” e rebaixe o resto a “se houver tempo”.
- Troque opinião por evidência: para cada “por quê?”, adicione “com base em que documento/dado?”
- Crie um “trilho”: cronologia → decisão → critério → impacto → plano → confronto.
Roteiro enxuto com foco narrativo (modelo reutilizável)
Estruture a entrevista como uma sequência que produz material narrativo e verificável:
Abertura factual: “Qual é a situação hoje (número, status, prazo)?”
Cronologia: “Quando começou o problema e quais foram os marcos?”
Causa e evidência: “Qual foi a causa principal e que documento sustenta isso?”
Responsabilidade: “Quem assinou/decidiu e qual foi o critério?”
Impacto: “Quantas pessoas/serviços foram afetados e como vocês medem isso?”
Plano e prazos: “Qual o plano, etapas, prazos e indicadores de entrega?”
Confronto: “Dados X indicam Y; como você explica a diferença?”
Transparência: “O que pode ser publicado (documentos/dados) para o público verificar?”
Exemplos de transformação: de pergunta solta para pergunta com objetivo
| Pergunta solta | Problema | Versão com foco editorial |
|---|---|---|
| “Como está a saúde na cidade?” | ampla, opinativa | “Qual o tempo médio de espera para consulta em 2024 e 2025, por especialidade, e qual a fonte desses números?” |
| “O senhor acha que a obra vai sair?” | promessa sem compromisso | “Qual a data de retomada, quais etapas até a entrega e qual o marco de verificação público (boletim, medição, ordem de serviço)?” |
| “Por que houve polêmica?” | vaga, narrativa sem evidência | “Quais são as três divergências objetivas apontadas (valores, prazos, critérios) e como cada uma é respondida com documentos?” |
| “O que você tem a dizer sobre as críticas?” | abre espaço para discurso | “Críticos afirmam X; os registros mostram Y. Qual ponto está incorreto e qual evidência sustenta sua versão?” |
Mini-checklist de perguntas que geram material verificável
- Qual é o número exato? (e a fonte)
- Qual é a data e a ordem dos eventos?
- Quem é o responsável nominal (cargo e atribuição)?
- Qual documento comprova? (ato, relatório, contrato, nota técnica)
- Qual critério foi usado? (regra, norma, parâmetro)
- Qual métrica define sucesso/fracasso?
- Qual prazo e qual marco intermediário?
- O que mudaria sua resposta se um dado contrário aparecer?