Objetivo editorial e foco da entrevista jornalística

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é “objetivo editorial” e por que ele manda na entrevista

Objetivo editorial é a formulação explícita do que a entrevista precisa entregar para cumprir a pauta: quais fatos devem ser confirmados, quais pontos precisam ser explicados e quais versões devem ser confrontadas. Ele funciona como um “contrato” entre pauta, repórter e material final: se a entrevista não produz insumos para esse objetivo, ela vira um conjunto de perguntas soltas, sem direção narrativa.

Um bom objetivo editorial é específico, verificável e orientado ao interesse público. Em vez de “entrevistar o secretário sobre saúde”, ele descreve a entrega: “confirmar números de filas e prazos, explicar critérios de regulação e confrontar divergências entre dados oficiais e relatos de usuários”.

Três verbos que ajudam a escrever o objetivo

  • Confirmar: checar fatos, dados, cronologia, autoria, documentos, responsabilidades.
  • Explicar: entender mecanismos, critérios, processos, causas e consequências.
  • Confrontar: colocar lado a lado versões conflitantes, inconsistências, promessas versus execução, discurso versus evidência.

Da pauta ao objetivo claro: passo a passo prático

1) Escreva a pauta em uma frase operacional

Transforme o tema amplo em uma frase que já indique “o que está em jogo”.

  • Amplo: “Obras paradas na cidade.”
  • Operacional: “Obras paradas: prazos estourados, aditivos e impacto em serviços; quem responde e o que será feito.”

2) Defina o recorte (tema, tempo, personagem, contexto)

Recorte é o que impede a entrevista de virar inventário de assuntos. Use quatro dimensões:

  • Tema: qual aspecto específico? (ex.: “aditivos e fiscalização”, não “obras” em geral)
  • Tempo: qual período? (ex.: “últimos 18 meses”)
  • Personagem: quem tem responsabilidade/competência para responder? (ex.: gestor do contrato, não apenas porta-voz)
  • Contexto: qual cenário mínimo para o público entender? (ex.: orçamento, metas, legislação aplicável)

Exemplo de recorte pronto: “Focar nos contratos X e Y, assinados em 2024, com aditivos em 2025, entrevistando o secretário e o fiscal do contrato, para explicar por que parou e quando retoma.”

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3) Liste o que precisa ser verificável (e o que é opinião)

Antes de escrever perguntas, separe o que pode ser checado do que é interpretação. Isso evita gastar tempo com respostas opinativas quando você precisa de fatos.

TipoComo apareceComo tratar na entrevista
Informação verificávelnúmero, data, documento, ato, responsável, valor, prazo, critério formalpedir fonte, documento, método de cálculo, série histórica, responsável pela assinatura
Opinião/avaliação“foi um sucesso”, “é injusto”, “estamos melhorando”, “é perseguição”pedir evidência, comparação, indicador, exemplo concreto, contraponto
Promessa/compromisso“vamos entregar”, “vamos apurar”, “vamos corrigir”pedir prazo, marco intermediário, responsável, como será medido, o que acontece se não cumprir

4) Formule hipóteses de trabalho (não para “provar”, mas para testar)

Hipóteses organizam a investigação e orientam o confronto. Escreva de 2 a 5 hipóteses testáveis, cada uma com sinais de confirmação e de refutação.

  • Hipótese A: “A obra parou por falha de projeto.” (testar: laudos, revisões, aditivos por readequação)
  • Hipótese B: “A obra parou por atraso de repasse.” (testar: cronograma de pagamentos, empenhos, restos a pagar)
  • Hipótese C: “A obra parou por irregularidade apontada por órgão de controle.” (testar: notificações, recomendações, suspensão formal)

Dica prática: se a hipótese não indica que evidência você espera encontrar, ela ainda está vaga.

5) Converta hipóteses em perguntas-guia (as 5–8 que seguram o foco)

Perguntas-guia são poucas, amplas o suficiente para estruturar a entrevista, mas específicas para gerar respostas úteis. Elas viram “capítulos” do seu roteiro.

  • O que aconteceu? (cronologia objetiva)
  • Por que aconteceu? (causa principal e causas secundárias)
  • Quem decidiu? (cadeia de responsabilidade)
  • Com base em quê? (critérios, documentos, dados)
  • Quem foi afetado e como? (impacto mensurável)
  • O que será feito e quando? (plano, prazos, métricas)
  • O que não está sendo dito? (lacunas: “o que ficou de fora do relatório?”)
  • Qual é a divergência central? (confronto com evidências/versões)

6) Escreva o objetivo editorial em formato de entrega

Use um modelo simples e preenchível:

Objetivo editorial da entrevista: (confirmar/explicar/confrontar) [X] sobre [tema recortado], no período [tempo], com foco em [ponto central], para esclarecer ao público [impacto/relevância], verificando [itens checáveis] e confrontando [divergências].

Exemplo preenchido:

Objetivo editorial da entrevista: confirmar e explicar as razões da paralisação das obras X e Y (2024–2025), com foco em aditivos e fiscalização, para esclarecer impacto em mobilidade e gasto público, verificando valores, prazos, responsáveis e documentos, e confrontando divergências entre cronogramas oficiais e registros de execução.

Checklist de delimitação de escopo (antes de entrevistar)

  • Consigo resumir o objetivo editorial em uma frase?
  • O recorte de tema está definido (qual aspecto, não o assunto inteiro)?
  • O recorte de tempo está definido (de–até)?
  • O recorte de personagem está correto (quem decide/assina/implementa)?
  • O contexto mínimo está claro (o que o público precisa saber para entender)?
  • Listei 5–10 itens verificáveis que preciso obter (números, datas, documentos, critérios)?
  • Listei 2–5 hipóteses testáveis?
  • Tenho 5–8 perguntas-guia que cobrem o objetivo?
  • Se eu tivesse só 10 minutos, sei quais são as 3 perguntas essenciais?

Critérios de relevância pública (para manter a entrevista “editorialmente necessária”)

Use estes critérios para decidir o que entra e o que fica fora do roteiro:

  • Impacto: quantas pessoas são afetadas e de que forma (tempo, dinheiro, acesso, risco)?
  • Responsabilidade: há decisão pública, uso de recurso público ou dever institucional?
  • Novidade: a resposta traz informação nova ou apenas reafirma discurso?
  • Verificabilidade: dá para checar com documentos, dados, registros, testemunhos?
  • Proporcionalidade: o tempo gasto no tema é proporcional ao impacto?
  • Clareza: o público consegue entender a explicação sem jargão ou com tradução?
  • Conflito de versões: existe divergência relevante que precisa ser esclarecida?

Como evitar entrevistas sem propósito: sinais de alerta e correções

Sinais de alerta (você está “colecionando perguntas”)

  • O roteiro parece uma lista de curiosidades (“e sobre isso?”, “e aquilo?”) sem hierarquia.
  • Você não sabe dizer o que seria uma “boa resposta” para cada pergunta.
  • As perguntas não pedem evidência (ficam no “o que você acha?”).
  • O entrevistado pode responder tudo com frases genéricas (“estamos trabalhando”).
  • Você não tem plano para lidar com contradições (não há confronto preparado).

Correções rápidas (em 10 minutos)

  • Reescreva o objetivo usando os verbos confirmar/explicar/confrontar.
  • Eleja 1 conflito central: qual divergência precisa ser resolvida?
  • Promova 3 perguntas a “essenciais” e rebaixe o resto a “se houver tempo”.
  • Troque opinião por evidência: para cada “por quê?”, adicione “com base em que documento/dado?”
  • Crie um “trilho”: cronologia → decisão → critério → impacto → plano → confronto.

Roteiro enxuto com foco narrativo (modelo reutilizável)

Estruture a entrevista como uma sequência que produz material narrativo e verificável:

  1. Abertura factual: “Qual é a situação hoje (número, status, prazo)?”

  2. Cronologia: “Quando começou o problema e quais foram os marcos?”

  3. Causa e evidência: “Qual foi a causa principal e que documento sustenta isso?”

  4. Responsabilidade: “Quem assinou/decidiu e qual foi o critério?”

  5. Impacto: “Quantas pessoas/serviços foram afetados e como vocês medem isso?”

  6. Plano e prazos: “Qual o plano, etapas, prazos e indicadores de entrega?”

  7. Confronto: “Dados X indicam Y; como você explica a diferença?”

  8. Transparência: “O que pode ser publicado (documentos/dados) para o público verificar?”

Exemplos de transformação: de pergunta solta para pergunta com objetivo

Pergunta soltaProblemaVersão com foco editorial
“Como está a saúde na cidade?”ampla, opinativa“Qual o tempo médio de espera para consulta em 2024 e 2025, por especialidade, e qual a fonte desses números?”
“O senhor acha que a obra vai sair?”promessa sem compromisso“Qual a data de retomada, quais etapas até a entrega e qual o marco de verificação público (boletim, medição, ordem de serviço)?”
“Por que houve polêmica?”vaga, narrativa sem evidência“Quais são as três divergências objetivas apontadas (valores, prazos, critérios) e como cada uma é respondida com documentos?”
“O que você tem a dizer sobre as críticas?”abre espaço para discurso“Críticos afirmam X; os registros mostram Y. Qual ponto está incorreto e qual evidência sustenta sua versão?”

Mini-checklist de perguntas que geram material verificável

  • Qual é o número exato? (e a fonte)
  • Qual é a data e a ordem dos eventos?
  • Quem é o responsável nominal (cargo e atribuição)?
  • Qual documento comprova? (ato, relatório, contrato, nota técnica)
  • Qual critério foi usado? (regra, norma, parâmetro)
  • Qual métrica define sucesso/fracasso?
  • Qual prazo e qual marco intermediário?
  • O que mudaria sua resposta se um dado contrário aparecer?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual formulação representa melhor um objetivo editorial bem definido para uma entrevista jornalística?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um bom objetivo editorial funciona como um “contrato” da entrevista: explicita entregas (confirmar, explicar e confrontar), define recorte e prioriza respostas verificáveis. Sem isso, o roteiro tende a virar perguntas soltas e genéricas.

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