Números, Horas e Dados Críticos na Fraseologia de Rádio

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que números e dados críticos exigem padronização

Em comunicações por rádio, números, horas e parâmetros operacionais (altitude/nível, rumo, velocidade, distância, frequência/canal, coordenadas) são os itens com maior impacto em segurança e navegação. A padronização reduz ambiguidades causadas por ruído, sotaque, interferência e semelhança sonora entre palavras. A regra prática é: fale de forma previsível, com ritmo constante, pausas curtas e confirmação explícita quando houver risco de erro.

Regras de pronúncia e transmissão de números

Dígitos: quando falar “um a um”

Para dados críticos, a leitura por dígitos (cada algarismo separado) é a forma mais robusta. Use-a especialmente em: frequências, códigos, transponder/identificadores, coordenadas, rumos, níveis/altitudes quando solicitado e números longos.

  • Formato recomendado: separar dígitos e agrupar apenas quando for padrão do serviço (ex.: “um dois zero” para 120).
  • Evite: “cento e vinte” se o contexto exigir leitura por dígitos.

Dezena/centena/milhar: quando agrupar

Alguns valores são transmitidos com agrupamento por centenas/milhares quando isso é padrão operacional e reduz tempo sem perder clareza (ex.: altitudes em milhares e centenas). Quando houver qualquer dúvida, volte ao modo por dígitos.

ItemPreferívelEvitar
Número de voo/embarcação (quando curto)“um dois três”“cento e vinte e três”
Valor crítico sob ruído“um zero zero”“cem”
Rumo 090“zero nove zero”“noventa”

Zero, casas repetidas e clareza

  • Zero: pronuncie como “zero”.
  • Repetição: em números com dígitos repetidos, mantenha cadência (ex.: “um um zero” sem acelerar).
  • Pausas: use micro-pausas entre grupos (ex.: “dois sete… cinco” para 275, se necessário).

Decimais e separadores

Como falar decimais

Decimais devem ser transmitidos com a palavra “decimal” (ou equivalente padronizado do serviço) para evitar confusão com números inteiros.

  • Exemplo (correto): “dois decimal cinco” (2.5)
  • Exemplo (incorreto): “dois ponto cinco” (pode ser entendido de forma inconsistente em alguns contextos)

Decimais em frequência/canal

Em frequências, a leitura por dígitos com “decimal” é a mais segura.

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InformaçãoCorretoIncorreto
118.300“um um oito decimal três zero zero”“cento e dezoito vírgula trezentos”
121.5“um dois um decimal cinco”“cento e vinte e um e meio”

Altitudes, níveis e referências verticais

Unidades: pés e metros (quando aplicável)

Transmita sempre a unidade quando houver possibilidade de ambiguidade operacional. Em muitos cenários aeronáuticos, a referência é em pés e níveis de voo; em alguns ambientes e operações específicas pode haver uso de metros. No mar, referências verticais podem aparecer em contexto de altura de antena, altura de onda, calado/altura livre, dependendo do serviço.

  • Regra: diga o valor + unidade (ex.: “cinco mil pés”).
  • Se houver transição para outra unidade: explicite (ex.: “um cinco zero zero metros”).

Altitude (exemplos de leitura)

ValorCorretoIncorreto
5 000 ft“cinco mil pés” ou “cinco zero zero zero pés” (se exigido)“cinco mil” (sem unidade em contexto ambíguo)
12 500 ft“um dois mil e quinhentos pés” ou “um dois cinco zero zero pés” (conforme procedimento)“doze e meio”
FL 180“nível de voo um oito zero”“nível cento e oitenta”

Passo a passo: como transmitir uma instrução vertical com segurança

  1. Declare a ação: subir/descer/manter.
  2. Informe o valor no formato esperado (altitude ou nível).
  3. Inclua unidade/referência quando aplicável (pés/metros/nível de voo).
  4. Se houver restrição (até, acima de, abaixo de), fale explicitamente.
  5. Peça confirmação se a mensagem for crítica e o canal estiver degradado.
Exemplo: “Suba para nível de voo um oito zero.”  “Mantenha cinco mil pés.”  “Desça para três mil pés, restrição: não abaixo de dois mil até o ponto X.”

Rumos e direções

Leitura de rumo em três dígitos

Rumos devem ser transmitidos com três dígitos, incluindo zeros à esquerda, para evitar confusão (ex.: 090 ≠ 90 em alguns contextos de escuta rápida).

  • Correto: “rumo zero nove zero”
  • Incorreto: “rumo noventa”

Passo a passo: transmissão de rumo

  1. Fale “rumo”.
  2. Leia os três dígitos separadamente.
  3. Se necessário, complemente com referência (magnético/verdadeiro) conforme o serviço.
“Rumo dois sete zero.”  “Rumo zero quatro cinco.”

Distâncias e referências: milhas náuticas, quilômetros e metros

Milhas náuticas (NM) como padrão de navegação

Quando a referência for marítima ou aeronáutica em rota, a distância é frequentemente expressa em milhas náuticas. Diga o número e a unidade.

CorretoIncorreto
“distância um cinco milhas náuticas”“distância quinze” (sem unidade)
“a dois decimal cinco milhas náuticas do ponto”“a dois e meio do ponto”

Metros e quilômetros (quando aplicável)

Em manobras próximas, medições locais ou serviços específicos, pode-se usar metros ou quilômetros. A regra é a mesma: valor + unidade, evitando abreviações faladas que soem parecidas.

“aproxime a duzentos metros da bóia.”  “alvo a três quilômetros.”

Velocidades

Formato e unidade

Velocidade deve ser transmitida com unidade clara: nós (kt) no mar e frequentemente na aviação; ou outras unidades conforme o serviço. Em aviação, pode haver referência a IAS/Mach conforme o contexto; no mar, “nós” é o padrão.

CorretoIncorreto
“velocidade um cinco nós”“velocidade quinze”
“reduza para um dois zero nós”“reduza para cento e vinte” (sem unidade)

Passo a passo: instrução de velocidade

  1. Diga a ação (aumentar/reduzir/manter).
  2. Leia o valor (preferencialmente por dígitos se for crítico).
  3. Declare a unidade.
“Reduza para um zero zero nós.”  “Mantenha um cinco nós.”

Horários e tempo

Formato de hora e minuto

Transmita horários de forma inequívoca, informando hora e minuto e, quando necessário, a referência (ex.: UTC/local) conforme o serviço. Evite expressões coloquiais (“meio-dia”, “duas e meia”).

InformaçãoCorretoIncorreto
14:05“um quatro zero cinco”“duas e cinco”
09:30“zero nove três zero”“nove e meia”

Duração e estimativas

Para durações, use minutos/horas explicitamente.

“tempo estimado: um cinco minutos.”  “atraso: duas horas.”

Frequências e canais

Como transmitir frequências

Frequências devem ser lidas por dígitos, usando “decimal” e mantendo ritmo constante. Se houver risco de confusão, repita a frequência uma segunda vez.

Correto: “mude para um dois três decimal quatro cinco.”  “repito: um dois três decimal quatro cinco.”

Como transmitir canais (marítimo)

Para canais, diga “canal” + número. Em canais com sufixos (quando aplicável), explicite o sufixo conforme o padrão local.

CorretoIncorreto
“canal um seis”“dezesseis” (sem a palavra canal em contexto ambíguo)
“canal dois dois”“vinte e dois”

Coordenadas e referências geográficas

Princípios para coordenadas

Coordenadas exigem máxima disciplina: identifique o sistema (latitude/longitude), declare hemisfério (N/S, E/W), separe graus e minutos e leia dígitos com pausas curtas entre blocos. Se o serviço utilizar graus-minutos-segundos ou graus e minutos decimais, mantenha o formato consistente do início ao fim.

Exemplo de leitura estruturada (graus e minutos)

“Latitude dois três graus, quatro cinco minutos Sul; longitude zero quatro seis graus, um dois minutos Oeste.”

Comparação: correto vs. arriscado

CorretoArriscadoProblema
“latitude dois três graus quatro cinco minutos Sul”“vinte e três quarenta e cinco sul”Perde separação entre graus/minutos
“longitude zero quatro seis graus um dois minutos Oeste”“quatrocentos e sessenta e um dois oeste”Ambiguidade e compressão de dígitos

Passo a passo: como transmitir coordenadas com baixa chance de erro

  1. Prepare a fala: confira o formato (graus/minutos/segundos ou minutos decimais) antes de transmitir.
  2. Declare latitude: número + unidade (graus/minutos) + hemisfério.
  3. Faça uma pausa curta.
  4. Declare longitude: número + unidade + hemisfério.
  5. Se for crítico: repita toda a coordenada uma vez, no mesmo formato.
  6. Peça readback quando a coordenada orientar busca, desvio, encontro ou segurança.

Dados críticos: como comparar formatos corretos e incorretos

Checklist de “armadilhas” comuns

  • Omissão de unidade: “dez” (dez o quê?)
  • Omissão de zeros: “rumo noventa” em vez de “zero nove zero”
  • Troca de decimal: “dois cinco” pode soar como 25 em vez de 2.5
  • Compressão de números longos: falar rápido demais e “colar” dígitos
  • Confusão de hora: “duas e cinco” sem referência e sem formato

Exercício rápido de correção (leitura)

Reescreva mentalmente para o formato padronizado e depois leia em voz alta:

  • “cento e dezoito vírgula três” → “um um oito decimal três zero zero”
  • “rumo noventa” → “rumo zero nove zero”
  • “quinze mil” → “um cinco mil pés” (se altitude) ou “um cinco mil” (se outro contexto claramente definido)
  • “nove e meia” → “zero nove três zero”

Práticas de leitura e escuta para reduzir erros

Técnica de “blocos curtos”

Divida informações longas em blocos naturais e use pausas curtas: frequência (três dígitos + decimal + três dígitos), rumo (três dígitos), coordenadas (latitude completa, pausa, longitude completa).

“um um oito… decimal… três zero zero”  “zero nove zero”  “latitude… [bloco]… pausa… longitude… [bloco]”

Técnica de “ritmo constante”

Mantenha a mesma velocidade ao falar dígitos. Acelerar no final é uma causa comum de erro (“engolir” zero, inverter dígitos).

Técnica de “uma informação crítica por transmissão” (quando possível)

Se o canal estiver congestionado ou com ruído, priorize: primeiro a frequência/canal, depois rumo, depois altitude/nível, depois coordenadas. Separar reduz a chance de perder um item no meio.

Técnicas de confirmação: readback, checagem cruzada e repetição segmentada

Readback (repetição de volta)

Readback é a confirmação em que o receptor repete os dados críticos exatamente como entendeu. Use especialmente para: rumo, altitude/nível, velocidade, frequência/canal, coordenadas, restrições e horários.

Transmissão: “Rumo zero nove zero, mantenha cinco mil pés.”  Readback: “Rumo zero nove zero, mantendo cinco mil pés.”

Checagem cruzada (cross-check)

Checagem cruzada é validar o dado recebido com outra fonte antes de executar, quando aplicável: instrumentos, carta, GPS, plotagem, indicação do rádio, ou confirmação com outro membro da equipe. Se houver discrepância, não “assuma”: solicite esclarecimento.

  • Exemplo prático: após receber uma frequência, confirme visualmente no equipamento antes de trocar; se o display não corresponder ao que foi ouvido, peça repetição.
  • Exemplo prático: após receber coordenadas, compare com a plotagem; se o ponto cair em local improvável, peça confirmação por blocos.

Pedido de repetição segmentada

Quando a mensagem for longa ou houver dúvida em apenas uma parte, peça repetição do segmento específico. Isso reduz tempo de rádio e evita repetir tudo com risco de novo erro.

NecessidadePedido recomendado
Dúvida na frequência“Confirme a frequência, por favor.”
Dúvida em um bloco de coordenadas“Repita apenas a latitude.” / “Repita apenas a longitude.”
Dúvida no rumo“Confirme o rumo em três dígitos.”
Dúvida no decimal“Confirme com ‘decimal’, por favor.”

Passo a passo: protocolo de confirmação quando houver ruído ou incerteza

  1. Pare a execução do comando se ele for crítico e você não tiver certeza.
  2. Identifique o item que está incerto (frequência, rumo, altitude, etc.).
  3. Peça repetição segmentada do item.
  4. Faça readback completo do item confirmado.
  5. Faça checagem cruzada no equipamento/carta.
“Confirme: rumo zero nove zero?”  “Recebido: rumo zero nove zero.”  “Checado no compasso/plotagem.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma comunicação por rádio com ruído, qual prática reduz mais o risco de erro ao transmitir uma frequência?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Frequências são dados críticos. A leitura por dígitos com o termo decimal, em ritmo constante, reduz ambiguidades; quando houver risco de confusão, repetir a frequência aumenta a confiabilidade.

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Operação do Rádio VHF: Procedimentos de Chamada e Teste de Comunicações

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