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Papiloscopista da Polícia Federal: Identificação Humana e Ciências Forenses na Prática

Novo curso

15 páginas

Noções de Medicina Legal para Papiloscopista da Polícia Federal: Identificação e Tanatologia Aplicada

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Interface entre medicina legal e identificação humana

Para o papiloscopista, “noções de medicina legal” significam reconhecer condições do corpo e do ambiente que impactam a coleta de impressões, compreender sinais cadavéricos e fenômenos transformativos, e comunicar achados de forma objetiva ao médico-legista e à equipe pericial. O foco é operacional: avaliar viabilidade de coleta, selecionar técnica alternativa, reduzir risco biológico e documentar adequadamente o que foi observado e feito.

Limites de atuação e comunicação com o médico-legista

O papiloscopista não determina causa da morte, não descreve lesões como diagnóstico médico e não interfere em procedimentos médico-legais (ex.: necropsia) sem alinhamento. Sua atuação é: (1) identificar a pessoa por meios papiloscópicos/biométricos disponíveis, (2) registrar condições que afetam a coleta, (3) preservar vestígios e integridade do corpo, (4) reportar de forma padronizada ao médico-legista necessidades e restrições (ex.: “polpas digitais maceradas, necessidade de reidratação/luva de borracha para entintamento”).

  • Comunique em linguagem descritiva: “lesão perfurocortante em falange distal” é diferente de “ferimento por faca”; prefira “solução de continuidade linear, bordas regulares” sem atribuir instrumento.
  • Evite inferências temporais (“morte há X horas”) e etiológicas (“morte por asfixia”); reporte apenas sinais observáveis e limitações técnicas.
  • Alinhe com o médico-legista antes de manobras que possam alterar achados (lavagem extensa, remoção de tecidos, corte de dedos, reidratação agressiva).

Sinais cadavéricos relevantes para a coleta de impressões

Conceitos essenciais

Sinais cadavéricos são alterações pós-morte que ajudam a entender o estado do corpo e, para o papiloscopista, indicam o que pode comprometer a pele, a fricção e a qualidade do registro. Os principais, do ponto de vista prático, são: resfriamento, rigidez, livores e desidratação.

Rigidez cadavérica (rigor mortis) e manuseio

A rigidez pode dificultar posicionamento das mãos e abertura dos dedos para captura/entintamento. Forçar articulações pode causar fraturas, descolamentos de pele e artefatos.

  • Preferir ajustes graduais de posicionamento, com apoio de equipe e sem torções bruscas.
  • Se necessário, solicitar ao médico-legista orientação sobre manobras permitidas durante o exame.

Livores (hipóstase) e impacto na pele

Livores são acúmulos sanguíneos em áreas declivosas. Podem escurecer a pele e reduzir contraste em técnicas ópticas, além de indicar áreas mais úmidas/edemaciadas.

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  • Registrar presença e distribuição quando interferirem na leitura de cristas.
  • Preferir técnicas que enfatizem relevo (entintamento controlado, moldagem) quando o contraste visual estiver prejudicado.

Desidratação e “enrugamento”

A perda de água pode endurecer e fissurar a pele, reduzindo a definição das cristas. Em ambientes quentes/secos, isso pode ocorrer rapidamente.

  • Evitar fricção excessiva ao limpar; usar umedecimento mínimo e controlado quando indicado.
  • Considerar técnicas de reidratação sob protocolo e com registro detalhado do método.

Fenômenos transformativos e condições que afetam a obtenção de impressões

Putrefação: efeitos e alternativas

Na putrefação, há formação de gases, descolamento epidérmico, bolhas, exsudatos e fragilidade da pele. As cristas podem ficar distorcidas, e a manipulação pode causar “deslizamento” da epiderme (artefato que altera o desenho).

Impactos típicos na coleta: polpas digitais amolecidas, epiderme destacando como “luva”, presença de fluidos que impedem tinta/rolagem, odor e alto risco biológico.

Alternativas técnicas (visão prática):

  • Higienização mínima e secagem controlada: remover excesso de fluidos com compressas, sem esfregar; secar por toques para permitir registro.
  • Uso de “luva” epidérmica (quando há descolamento): a epiderme pode ser reposicionada sobre o dedo (com suporte) para registrar as cristas, evitando inversões e dobras. Deve ser feito com extremo cuidado e documentação fotográfica do estado antes/depois.
  • Moldagem/replicação: quando a pele está muito frágil, técnicas de moldagem podem capturar relevo sem rolagem agressiva (selecionar material compatível e registrar lote/tempo de cura).
  • Coleta segmentada: registrar dedo a dedo, com pausas para controle de umidade e troca de materiais, reduzindo borrões.

Maceração (imersão em água): efeitos e alternativas

Maceração ocorre por permanência em água, com pele esbranquiçada, inchada e frequentemente enrugada. As cristas podem “apagar” visualmente, mas o relevo pode permanecer.

Alternativas técnicas:

  • Secagem gradual: remover água superficial e aguardar curto período para reduzir brilho/escorregamento; evitar calor direto intenso que cause fissuras.
  • Entintamento com controle de carga: usar mínima tinta e pressão uniforme; excesso de tinta “preenche” sulcos e perde definição.
  • Registro por moldagem: útil quando a superfície está muito lisa/escorregadia para rolagem.

Carbonização/queimaduras: efeitos e alternativas

Em carbonização, há ressecamento extremo, fissuras, retração tecidual e possível perda da epiderme. A mão pode estar em posição fixa (contração térmica), dificultando acesso às polpas.

Cuidados e alternativas:

  • Não forçar abertura: risco de fratura e perda de fragmentos úteis; solicitar apoio do médico-legista para acesso controlado.
  • Limpeza a seco: remover fuligem com pincel/compresso sem umedecer excessivamente, pois pode formar lama e obscurecer cristas.
  • Busca por áreas preservadas: nem sempre as polpas são as melhores; avaliar laterais dos dedos e regiões menos expostas ao calor.
  • Replicação/moldagem: quando há relevo residual, pode ser mais eficaz do que tinta.

Mumificação: efeitos e alternativas

Na mumificação, há desidratação intensa, pele rígida e retraída. As cristas podem estar preservadas, porém com fissuras e pouca elasticidade, dificultando rolagem.

  • Umedecimento controlado: quando previsto em protocolo, pode melhorar elasticidade; registrar agente, tempo e resultado.
  • Registro por pressão plana (quando rolagem é inviável): capturar segmentos úteis, mesmo que não seja a impressão completa.
  • Moldagem: alternativa quando a pele não tolera tinta/pressão.

Passo a passo prático: avaliação e decisão de técnica de coleta em cadáver

1) Triagem inicial (antes de tocar)

  • Confirmar autorização/fluxo do exame e alinhar com médico-legista e equipe do local/IML.
  • Observar e registrar: presença de fluidos, insetos, queimaduras, imersão, descolamento epidérmico, rigidez, integridade das mãos.
  • Definir risco biológico (sangue, secreções, decomposição avançada) e nível de EPI.

2) Preparação do posto de coleta

  • Delimitar área limpa/suja e organizar materiais para evitar cruzamento.
  • Separar kits: limpeza (compressas, solução apropriada), secagem, registro (tinta/rolos/cartões ou dispositivo), moldagem (se aplicável), descarte (sacos infectantes/perfurocortantes).
  • Planejar sequência: começar por dedos com melhor preservação; registrar o que foi tentado em cada dedo.

3) Higienização e estabilização da pele (mínimo necessário)

  • Remover sujidade superficial por toques, sem fricção agressiva.
  • Controlar umidade: secar antes de entintar/capturar; se muito seco, considerar umedecimento mínimo conforme protocolo.
  • Se houver descolamento epidérmico, avaliar reposicionamento da “luva” com suporte e sem tração.

4) Escolha da técnica (regra prática)

  • Pele íntegra e elástica: registro padrão (rolagem/pressão) com controle de tinta/pressão.
  • Pele úmida/macerada: secagem gradual + baixa carga de tinta; se escorregar, migrar para moldagem.
  • Pele putrefeita com descolamento: reposicionamento epidérmico e registro cuidadoso; se instável, moldagem/segmentação.
  • Pele carbonizada/ressecada: limpeza a seco + busca de áreas preservadas; moldagem quando houver relevo.
  • Pele mumificada: umedecimento controlado (se permitido) + pressão plana/segmentos; moldagem se necessário.

5) Execução do registro (boas práticas para reduzir artefatos)

  • Aplicar pressão uniforme; evitar “arrasto” lateral que distorce cristas.
  • Registrar múltiplas tentativas apenas quando houver ganho real; excesso de manipulação degrada a pele.
  • Identificar cada registro com dedo/mão e método utilizado; manter rastreabilidade do material gerado.

6) Documentação técnica mínima compatível com exame de identificação

  • Fotografar (quando autorizado) o estado das mãos antes, durante (se houver intervenção relevante) e após, com escala quando pertinente.
  • Anotar: condição do tegumento (macerado, putrefeito, carbonizado, mumificado), presença de descolamento, nível de rigidez, interferentes (sujidade, fluidos), técnica escolhida e justificativa.
  • Registrar falhas e limitações: “cristas não recuperáveis no 3º quirodáctilo direito por perda tecidual”, evitando linguagem conclusiva sobre causa.

Noções de lesões: o que observar e como reportar sem extrapolar

Conceitos úteis (descrição, não diagnóstico)

Lesão é qualquer alteração tecidual. Para o papiloscopista, interessa principalmente quando: (1) destrói cristas papilares, (2) gera cicatrizes que alteram o padrão, (3) impede manuseio seguro, (4) exige preservação para outros exames.

Classificação descritiva básica (para comunicação)

  • Escoriação: perda superficial, aspecto “ralado”.
  • Equimose/hematoma: alteração de cor por extravasamento sanguíneo (sem afirmar tempo).
  • Laceração: ruptura irregular, bordas irregulares.
  • Incisão: corte com bordas regulares (sem atribuir instrumento).
  • Perfuração: orifício pequeno e profundo (sem inferir projétil).
  • Queimadura: área enegrecida/avermelhada, bolhas, carbonização.

Causa x mecanismo (noção para evitar erros de comunicação)

Mecanismo é o processo fisiopatológico (ex.: hemorragia, insuficiência respiratória). Causa é o evento/agente que levou ao mecanismo (ex.: trauma, intoxicação). O papiloscopista deve evitar atribuir causa/mecanismo; pode, no máximo, relatar “compatível com ação térmica” como hipótese operacional quando necessário para justificar técnica (ex.: carbonização exige limpeza a seco), deixando a determinação ao médico-legista.

Quando acionar o médico-legista antes de prosseguir

  • Lesões extensas em mãos/dedos com risco de perda de fragmentos ao manipular.
  • Suspeita de evidência relevante nas mãos (resíduos, material aderido, possíveis vestígios sob unhas) que demande coleta específica por outra disciplina.
  • Necessidade de intervenção invasiva (ex.: acesso a polpas em mão muito contraída, remoção de tecido) ou uso de agentes de reidratação fora do padrão.

Biossegurança aplicada à coleta em cadáver

Riscos principais

  • Biológicos: sangue, secreções, aerossóis em manipulação, decomposição avançada, perfurocortantes ocultos.
  • Químicos: produtos de conservação, desinfetantes, combustíveis/resíduos de incêndio.
  • Físicos: fragmentos ósseos, vidro, metal, risco de corte em pele carbonizada, postura e esforço.

EPI recomendado (ajustar ao risco)

  • Luvas nitrílicas (dupla luva em alto risco), com troca programada e imediata se rasgar.
  • Avental impermeável/mangotes; proteção ocular (óculos vedados) e facial (máscara adequada ao risco).
  • Proteção respiratória conforme avaliação (ex.: ambientes com odor intenso/aerossóis e procedimentos geradores).
  • Calçado fechado e proteção adicional quando houver fluidos no piso.

Passo a passo de biossegurança no procedimento

  • Antes: checar integridade do EPI, planejar descarte, preparar solução desinfetante e recipientes.
  • Durante: evitar tocar face/equipamentos pessoais; trocar luvas ao alternar entre área suja e limpa; reduzir geração de aerossóis (sem jatos pressurizados).
  • Depois: desparamentar seguindo ordem segura para evitar autocontaminação; higienizar mãos; descontaminar superfícies e materiais reutilizáveis conforme protocolo.
  • Exposição/Acidente: interromper, lavar/irrigar, comunicar imediatamente, registrar ocorrência e seguir fluxo institucional de atendimento.

Documentação e compatibilidade com exames de identificação

O que não pode faltar no registro técnico

  • Identificação do procedimento: data/hora, local, equipe, autorização/solicitação.
  • Condição do corpo relevante à coleta: fenômeno transformativo predominante e interferentes.
  • Método(s) aplicado(s) por dedo/mão e resultado (apto/inapto/partial), com justificativa objetiva.
  • Medidas de biossegurança adotadas e ocorrências (ex.: troca de EPI por contaminação).
  • Encaminhamentos e comunicações: quando e por que o médico-legista foi acionado; restrições impostas.

Exemplo de redação objetiva (modelo)

Observou-se maceração acentuada em ambas as mãos, com pele esbranquiçada e escorregadia, dificultando rolagem. Realizada secagem por compressas e registro com baixa carga de tinta, obtendo-se impressões parciais úteis nos 2º e 3º quirodáctilos direitos. Nos demais dedos, cristas não recuperáveis por perda de definição do relevo. Procedimento executado com dupla luva nitrílica, proteção ocular e avental impermeável. Médico-legista informado sobre descolamento epidérmico incipiente no 5º quirodáctilo esquerdo antes de qualquer manobra adicional.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao coletar impressões digitais em um cadáver com sinais de maceração por imersão em água (pele esbranquiçada, inchada e escorregadia), qual conduta é mais adequada para melhorar a qualidade do registro sem aumentar danos ao tegumento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na maceração, a pele fica escorregadia e pode perder contraste visual; por isso recomenda-se secagem gradual e entintamento com baixa carga e pressão uniforme. Se a rolagem continuar inviável, a moldagem pode capturar o relevo sem aumentar artefatos.

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Direito Penal Aplicado à Atuação do Papiloscopista da Polícia Federal

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