Montagem do Fluxo de Caixa na Prática: campos obrigatórios, regras e rotina de lançamentos

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Estrutura mínima do fluxo de caixa (planilha ou sistema)

Para o fluxo de caixa funcionar no dia a dia, ele precisa registrar cada movimentação com campos suficientes para: (1) identificar o que aconteceu, (2) localizar onde aconteceu (qual conta/caixa), (3) saber quando afeta o saldo, e (4) permitir conferência e auditoria. A estrutura abaixo é o “mínimo viável” para pequenas empresas, mas já cobre cartão, taxas, estornos e responsabilidades.

Campos obrigatórios (colunas) e para que servem

  • Data do movimento: dia em que o dinheiro entra/sai (ou é bloqueado/desbloqueado) na conta/caixa. É a data que afeta o saldo.
  • Descrição: texto curto e objetivo (ex.: “Venda balcão #584”, “Aluguel jan/2026”, “Taxa cartão Cielo lote 123”).
  • Categoria: classifica a movimentação (ex.: Vendas, Fornecedores, Impostos, Taxas financeiras). Use sempre uma categoria por linha para facilitar filtros e relatórios.
  • Conta bancária/caixa: onde o dinheiro realmente movimentou (Conta Banco X, Conta Banco Y, Caixa físico, Conta digital).
  • Forma de pagamento: dinheiro, PIX, boleto, cartão crédito, cartão débito, transferência, etc. Ajuda a conciliar e a entender prazos.
  • Valor: valor numérico da movimentação (com regra de sinal, explicada adiante).
  • Status: Previsto (ainda não aconteceu) ou Realizado (já aconteceu). Esse campo é o que permite ter “agenda” e “realidade” no mesmo lugar.
  • Documento/ID: número da nota, do pedido, do boleto, do comprovante, ID do extrato, NSU do cartão, ID da transação PIX. Serve para rastrear e evitar duplicidade.
  • Responsável: quem lançou ou quem originou a despesa/receita (nome/área). Ajuda a corrigir falhas de processo.
  • Observações: detalhes úteis (ex.: “parcial”, “ref. parcela 2/3”, “taxa descontada no repasse”, “cliente solicitou devolução”).

Modelo de tabela (exemplo)

Data mov.DescriçãoCategoriaContaFormaValorStatusDoc/IDResp.Obs.
05/01/2026Venda #584VendasBanco APIX+250,00RealizadoPIX-9F3ACaixa
06/01/2026Fornecedor EmbalagensFornecedoresBanco ABoleto-180,00PrevistoBOL-7712ComprasVenc. 06/01

Regras de lançamento: consistência antes de velocidade

As regras abaixo evitam os erros mais comuns: saldo “bonito” que não bate com banco, receitas infladas por não considerar taxas, e confusão entre datas.

1) Data do movimento vs. data de competência (regra prática)

Regra do fluxo de caixa: o que manda é a data do movimento (quando o dinheiro efetivamente entra/sai). Isso é o que altera o saldo e a capacidade de pagar contas.

Quando usar competência? Se você quiser análises gerenciais (por exemplo, “quanto vendi no mês” independentemente de quando recebi), crie um campo adicional opcional chamado Data de competência ou Mês de referência. Mas não substitua a data do movimento.

Exemplo (cartão de crédito): venda em 10/01 (competência), repasse em 12/02 (movimento). No fluxo de caixa, registre a entrada em 12/02. Se quiser, guarde 10/01 em competência para relatórios.

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2) Sinalização de entradas e saídas (uma regra única)

Defina e mantenha uma convenção:

  • Entradas sempre com sinal positivo (ex.: +250,00).
  • Saídas sempre com sinal negativo (ex.: -180,00).

Isso permite somar e chegar ao saldo sem “gambiarras”. Se preferir, pode usar duas colunas (Entrada e Saída), mas a regra de sinal em uma coluna costuma ser mais simples para filtros e importações.

3) Valores brutos, líquidos e taxas (como não distorcer o caixa)

Escolha uma regra e aplique sempre. A mais auditável é:

  • Registrar a entrada pelo valor líquido que caiu na conta (o que realmente entrou).
  • Registrar as taxas como saídas separadas quando elas forem debitadas de forma identificável (ou quando você tiver o relatório do adquirente).

Alternativa aceitável (quando o adquirente já repassa líquido e não detalha bem): registrar apenas o líquido e guardar o detalhamento das taxas no Documento/ID/Observações. Porém, isso reduz a visibilidade de custo financeiro.

Regra recomendada para cartão: sempre que possível, registre bruto (receita) e taxa (despesa) em linhas separadas, amarradas pelo mesmo Documento/ID (lote/NSU). Assim você enxerga margem e custo de recebimento.

Como registrar situações comuns (cartão, taxas, antecipação, estorno, devolução, chargeback)

A) Taxas de cartão (débito/crédito)

Existem dois jeitos comuns de a taxa aparecer: (1) descontada no repasse (você recebe líquido), ou (2) debitada separadamente. O objetivo é que o fluxo de caixa reflita o que entrou e o custo.

Passo a passo (método completo: bruto + taxa):

  • 1) No dia do repasse, lance a entrada do valor bruto (ou do conjunto de vendas do lote) como +X, status Realizado, com Documento/ID do lote.
  • 2) No mesmo dia, lance a saída da taxa como -Y, categoria “Taxas de cartão/adquirência”, com o mesmo Documento/ID.
  • 3) O líquido que caiu na conta será X - Y, e a soma das duas linhas baterá com o extrato.

Exemplo:

Data mov.DescriçãoCategoriaContaFormaValorStatusDoc/IDObs.
15/01/2026Repasse cartão lote 123VendasBanco ACartão+1.000,00RealizadoLOTE-123Bruto
15/01/2026Taxa adquirência lote 123Taxas financeirasBanco ACartão-35,00RealizadoLOTE-123Desconto no repasse

B) Antecipação de recebíveis (quando você “traz” o dinheiro para hoje)

Antecipação costuma gerar: (1) entrada do valor antecipado, (2) custo/taxa de antecipação, e (3) ajuste nos repasses futuros (que virão menores ou não virão).

Passo a passo (forma prática e conciliável):

  • 1) Na data em que o dinheiro da antecipação cair na conta, lance uma entrada “Antecipação de recebíveis” (categoria específica) com o valor recebido.
  • 2) Lance a saída da “Taxa de antecipação” (categoria de taxas financeiras) no mesmo dia, se ela vier destacada; se vier embutida, registre mesmo assim com base no relatório.
  • 3) Nos repasses futuros, registre apenas o que efetivamente entrar (provavelmente menor). Evite duplicar a receita: a receita já foi reconhecida quando o repasse ocorrer; se você controla por repasse, a antecipação é um evento financeiro que altera o calendário de entradas.

Dica de consistência: use Documento/ID para amarrar a antecipação ao relatório do adquirente (ex.: “ANT-2026-01-07”).

C) Estorno e devolução (quando você devolve ao cliente)

Trate estorno/devolução como saída no dia em que o dinheiro sai (ou no dia em que o adquirente desconta do seu repasse). O ponto crítico é não “apagar” a venda antiga: registre um lançamento novo, rastreável.

Passo a passo:

  • 1) Identifique a venda original pelo Documento/ID (pedido, NSU, comprovante).
  • 2) Lance uma linha de saída com descrição “Estorno venda #...” ou “Devolução pedido #...”, categoria “Estornos/Devoluções”, com Documento/ID referenciando a venda original.
  • 3) Se houver taxa não devolvida pela adquirente, registre também a taxa como despesa (ou mantenha a taxa original, dependendo de como o adquirente trata).

Exemplo (desconto no repasse):

Data mov.DescriçãoCategoriaContaFormaValorStatusDoc/IDObs.
20/01/2026Estorno venda #584Estornos/DevoluçõesBanco ACartão-250,00RealizadoEST-584Ref. venda PIX-9F3A/NSU...

D) Chargeback (contestação no cartão)

Chargeback geralmente aparece como retirada do valor do seu saldo/repasse e, às vezes, uma taxa adicional. O risco aqui é perceber tarde, porque pode vir dias/semanas depois.

Passo a passo:

  • 1) Quando aparecer no extrato/relatório, lance uma saída “Chargeback pedido X”, categoria “Chargebacks”, com Documento/ID do caso.
  • 2) Se houver “taxa de chargeback”, lance outra saída em “Taxas financeiras”.
  • 3) Em Observações, registre prazo de contestação e status do processo (ex.: “em disputa até 05/02”).

Regra de ouro: chargeback é sempre movimento de caixa quando afeta o saldo. Não espere “fechar o mês” para lançar.

Rotina de lançamentos: como capturar tudo sem esquecer

Rotina é o que transforma o fluxo de caixa em ferramenta confiável. O objetivo é reduzir lançamentos “de memória” e aumentar lançamentos “por evidência” (extrato, comprovante, relatório).

Rotina diária (10 a 20 minutos)

  • 1) Capturar entradas do dia: conferir PIX/transferências e dinheiro do caixa. Lançar com Documento/ID (ID do PIX, número do comprovante, fechamento do caixa).
  • 2) Capturar saídas do dia: pagamentos feitos (boletos, transferências, cartões corporativos). Lançar com comprovante/ID.
  • 3) Atualizar status: tudo que aconteceu vira Realizado; o que ficou para depois permanece Previsto com nova data (se reagendado).
  • 4) Checagem rápida de saldo: o saldo do fluxo (por conta) deve bater com o saldo do banco/caixa, ou a diferença precisa estar explicada (ex.: “depósito em trânsito”, “TED agendada”).

Rotina semanal (30 a 60 minutos)

  • 1) Conciliação de cartão: baixar relatório da adquirente (lotes, taxas, antecipações, estornos, chargebacks) e conferir se cada item tem lançamento. Ajustar diferenças.
  • 2) Revisão de previstos: olhar próximos 7 a 14 dias e garantir que contas recorrentes e compromissos estejam lançados com data correta.
  • 3) Padronização: revisar descrições e categorias inconsistentes (ex.: “taxa maquininha”, “tarifa cartão”, “cielo taxa”) e padronizar para facilitar filtros.
  • 4) Auditoria de duplicidade: filtrar por Documento/ID repetido e por valores iguais no mesmo dia para evitar lançamento em dobro.

Checklist de consistência (use como regra interna)

  • Todo lançamento Realizado tem Documento/ID (ou justificativa em Observações quando não houver).
  • Não existe lançamento sem Conta bancária/caixa.
  • Cartão: repasses e taxas sempre conciliados por lote/ID.
  • Estornos/chargebacks nunca “apagam” vendas: entram como nova linha (saída) com referência.
  • Data do movimento é a que altera o saldo; competência é opcional e separada.

Exemplo completo: do previsto ao realizado (conta a pagar)

Um uso prático do status é lançar compromissos assim que você souber deles, e só depois marcar como realizado quando pagar.

Passo a passo:

  • 1) Ao receber o boleto do fornecedor, lance como Previsto na data de vencimento, com Doc/ID do boleto.
  • 2) No dia do pagamento, ajuste a data para a data efetiva (se mudou) e altere o status para Realizado.
  • 3) Se o pagamento saiu de outra conta, corrija a coluna Conta para refletir a realidade (isso evita saldo “errado” por conta).
Data mov.DescriçãoCategoriaContaFormaValorStatusDoc/IDObs.
06/01/2026Fornecedor EmbalagensFornecedoresBanco ABoleto-180,00PrevistoBOL-7712Venc. 06/01
06/01/2026Fornecedor EmbalagensFornecedoresBanco ABoleto-180,00RealizadoBOL-7712Pago no internet banking

Se você prefere não duplicar linha, pode manter uma única linha e apenas mudar o status para Realizado e anexar o comprovante/ID do pagamento. O importante é que o registro final reflita a data e a conta corretas do movimento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao registrar uma venda no cartão feita em 10/01 e repassada pelo adquirente em 12/02, qual prática mantém o fluxo de caixa correto e conciliável?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No fluxo de caixa, a data que altera o saldo é a data do movimento, quando o dinheiro entra/sai. A data de competência pode existir como campo separado para análise, mas não substitui a data do movimento.

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Fluxo de Caixa Realizado na Prática: registro fiel do que aconteceu

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