Neste capítulo, o foco é oferecer modelos práticos (estruturas prontas e adaptáveis) para você montar introdução, desenvolvimento e conclusão com rapidez, mantendo clareza e formalidade. A ideia não é decorar frases “bonitas”, e sim dominar molduras que funcionam com temas variados, preenchendo-as com o recorte do problema, a tese e os argumentos que você já definiu no planejamento.
1) Como usar modelos sem engessar o texto
Modelos funcionam como um “esqueleto” de organização. Para não soar artificial, siga três regras:
- Regra 1 — Troque o genérico pelo específico: onde o modelo diz “o problema”, substitua por um sintagma preciso (ex.: “a baixa adesão vacinal em áreas periféricas”).
- Regra 2 — Evite clichês e frases vazias: expressões como “desde os primórdios” e “é de suma importância” não agregam informação.
- Regra 3 — Mantenha consistência: a tese anunciada na introdução precisa ser a mesma defendida nos desenvolvimentos e retomada na conclusão.
Para facilitar, pense em cada parágrafo como resposta a uma pergunta:
- Introdução: “Qual é o problema e qual posição/linha de defesa eu assumo?”
- Desenvolvimento 1: “Por que isso acontece? (causa/diagnóstico/estrutura)”
- Desenvolvimento 2: “O que isso gera? (efeitos/impactos/agravantes) ou qual outro eixo explica?”
- Conclusão: “O que fazer, por quem, como, com que finalidade?”
2) Modelos práticos de introdução (com variações)
A seguir, modelos de introdução com diferentes “portas de entrada”. Em todos, você deve inserir: tema recortado + tese + prévia dos eixos (quando couber).
Modelo A — Contexto direto + problema + tese
Estrutura: contextualização objetiva (1 frase) → apresentação do problema (1 frase) → tese com dois eixos (1 frase).
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Em [contexto atual], observa-se que [problema recortado] persiste no Brasil. Isso ocorre porque [tese/posição], sustentada por [eixo 1] e por [eixo 2].Exemplo (tema: evasão escolar no ensino médio):
Em um cenário de transformações no mundo do trabalho, observa-se que a evasão escolar no ensino médio persiste no Brasil. Isso ocorre porque a permanência do estudante é fragilizada por vulnerabilidades socioeconômicas e por falhas de acolhimento pedagógico. Como adaptar (passo a passo):
- Defina um contexto atual em até 8–12 palavras (ex.: “com a expansão do ensino remoto”, “em meio à urbanização acelerada”).
- Nomeie o problema com recorte (quem? onde? em que dimensão?).
- Escreva a tese como relação de causa/explicação com dois eixos.
Modelo B — Contraste (ideal x real) + tese
Estrutura: ideal normativo/expectativa (1 frase) → contraste com a realidade (1 frase) → tese (1 frase).
Embora [ideal/expectativa], na prática [realidade problemática]. Nesse sentido, [tese], sobretudo em razão de [eixo 1] e de [eixo 2].Exemplo (tema: acessibilidade urbana):
Embora a cidade deva garantir circulação autônoma a todos, na prática a acessibilidade urbana ainda é limitada para pessoas com deficiência. Nesse sentido, o problema se mantém devido à insuficiência de fiscalização de normas e à baixa prioridade orçamentária em mobilidade inclusiva.Como adaptar (passo a passo):
- Escolha um ideal verificável (direito, política pública, expectativa social) sem citar artigos ou leis se não for necessário.
- Faça o contraste com um dado observável (sem inventar números).
- Feche com tese e dois eixos “explicadores”.
Modelo C — Definição funcional + recorte + tese
Estrutura: definição curta do fenômeno (1 frase) → recorte no Brasil (1 frase) → tese (1 frase).
Entende-se por [fenômeno] o(a) [definição objetiva]. No Brasil, [recorte do problema]. Assim, [tese], associada a [eixo 1] e a [eixo 2].Exemplo (tema: desinformação):
Entende-se por desinformação a circulação de conteúdos falsos ou distorcidos que influenciam decisões coletivas. No Brasil, o fenômeno tem afetado debates públicos e escolhas individuais. Assim, sua disseminação é impulsionada por baixa educação midiática e por incentivos econômicos em ambientes digitais.Como adaptar (passo a passo):
- Defina sem “dicionário”: uma frase funcional, ligada ao efeito social.
- Recorte a incidência (onde aparece, quem atinge, qual esfera).
- Declare a tese com dois eixos.
Modelo D — Pergunta retórica controlada + resposta-tese
Estrutura: pergunta (1 frase) → resposta com tese (1–2 frases). Use com moderação e sem dramatização.
Como explicar [problema recortado] em um país que [expectativa]? A resposta passa por [tese], especialmente devido a [eixo 1] e a [eixo 2].Exemplo (tema: violência contra a mulher):
Como explicar a persistência da violência contra a mulher em um país que afirma combater desigualdades? A resposta passa pela naturalização cultural de práticas abusivas e por falhas na rede de proteção e responsabilização.Como adaptar (passo a passo):
- Faça pergunta específica (evite “por que o mundo é assim?”).
- Responda com tese objetiva e dois eixos.
- Não use mais de uma pergunta na introdução.
3) Modelos práticos de desenvolvimento (parágrafos “encaixáveis”)
Agora, modelos de parágrafo de desenvolvimento. A lógica é: afirmação principal → explicação → exemplo → fecho que amarra à tese. Você pode usar repertório (fato, estudo, referência histórica pontual, obra, conceito) desde que ele sirva ao argumento e não vire enfeite.
Modelo D1 — Causa estrutural (institucional/política pública)
Em primeiro lugar, [eixo 1] contribui para [problema] porque [mecanismo de causa]. Isso se evidencia quando [exemplo concreto/observável], o que resulta em [consequência direta]. Desse modo, [retomada do eixo] sustenta a permanência do quadro.Exemplo (tema: filas no SUS):
Em primeiro lugar, a gestão ineficiente de recursos contribui para a manutenção de filas no SUS porque compromete a distribuição de profissionais e a organização de agendas. Isso se evidencia quando unidades básicas operam com equipes incompletas e encaminham demandas simples para níveis mais complexos, o que resulta em sobrecarga e demora no atendimento especializado. Desse modo, a fragilidade administrativa sustenta a permanência do quadro.Passo a passo para preencher:
- Nomeie o eixo 1 como substantivo claro (ex.: “gestão ineficiente”, “fiscalização insuficiente”).
- Explique o mecanismo com “porque” (como isso vira problema?).
- Dê um exemplo plausível (situação típica, sem números inventados).
- Feche com uma frase que reconecte ao problema.
Modelo D2 — Causa sociocultural (valores, hábitos, estigmas)
Além disso, [eixo 2] atua como fator de agravamento, uma vez que [explicação do comportamento social]. Nessa perspectiva, [exemplo de prática/atitude recorrente] reforça [efeito]. Consequentemente, [impacto no problema] se intensifica.Exemplo (tema: preconceito linguístico):
Além disso, o preconceito linguístico atua como fator de agravamento, uma vez que associa variedades populares da língua à ideia de incompetência. Nessa perspectiva, a ridicularização de sotaques e construções regionais em ambientes escolares e profissionais reforça a exclusão simbólica. Consequentemente, barreiras de acesso e permanência em espaços de prestígio se intensificam.Passo a passo para preencher:
- Escolha um eixo sociocultural (estigma, normalização, cultura de consumo etc.).
- Explique o “como” (qual crença/valor gera qual ação?).
- Traga um exemplo de prática social recorrente.
- Mostre o impacto direto no problema.
Modelo D3 — Efeito/impacto (quando o eixo é consequência)
Outro ponto relevante é que [problema] gera [impacto principal], pois [explicação do encadeamento]. Como resultado, [impacto secundário] tende a ocorrer, especialmente entre [grupo/recorte]. Logo, enfrentar [problema] é necessário para reduzir [efeitos].Exemplo (tema: insegurança alimentar):
Outro ponto relevante é que a insegurança alimentar gera prejuízos ao desenvolvimento físico e cognitivo, pois a alimentação inadequada compromete a aprendizagem e a saúde. Como resultado, a evasão escolar e a vulnerabilidade a doenças tendem a ocorrer, especialmente entre crianças em famílias de baixa renda. Logo, enfrentar o problema é necessário para reduzir efeitos sociais de longo prazo.Passo a passo para preencher:
- Declare um impacto principal mensurável (saúde, renda, aprendizagem, violência).
- Explique o encadeamento causal em uma frase.
- Adicione impacto secundário e recorte de grupo.
- Feche reforçando a necessidade de enfrentamento (sem “concluir o texto”).
Modelo D4 — Argumento com contraponto controlado (refutação curta)
Use quando houver uma objeção comum que você pode neutralizar rapidamente, sem abrir “debate” longo.
É comum afirmar que [objeção]. Contudo, tal leitura é limitada, visto que [refutação baseada em mecanismo]. Basta notar que [exemplo/explicação], o que confirma [tese/eixo].Exemplo (tema: uso de celular na escola):
É comum afirmar que proibir o celular em sala resolve a dispersão dos alunos. Contudo, tal leitura é limitada, visto que a desatenção também decorre de metodologias pouco participativas e de ausência de mediação pedagógica. Basta notar que, mesmo sem aparelhos, aulas exclusivamente expositivas tendem a reduzir o engajamento, o que confirma a necessidade de estratégias didáticas e regras de uso equilibradas.Passo a passo para preencher:
- Escolha uma objeção popular e simples.
- Refute com mecanismo (não com opinião).
- Traga um exemplo lógico/observável.
- Feche reconectando ao seu eixo/tese.
4) Modelos práticos de conclusão (intervenção e fechamento técnico)
Aqui, a proposta é oferecer modelos de conclusão com intervenção clara. Para manter objetividade, pense em um “checklist” de elementos:
- Agente: quem executa (governo, escola, mídia, empresas, famílias, ONGs).
- Ação: o que será feito (implementar, fiscalizar, ampliar, capacitar, regulamentar).
- Meio/modo: como (campanhas, investimentos, parcerias, tecnologia, formação).
- Finalidade: para quê (reduzir X, ampliar Y, garantir Z).
- Detalhe operacional: um componente concreto (canal, programa, rotina, indicador, cronograma).
Modelo C1 — Duas frentes (uma estrutural e uma educativa)
Portanto, para mitigar [problema], cabe a [agente 1] [ação 1] por meio de [meio 1], com [detalhe operacional], a fim de [finalidade 1]. Ademais, [agente 2] deve [ação 2] mediante [meio 2], visando [finalidade 2].Exemplo (tema: descarte irregular de lixo):
Portanto, para mitigar o descarte irregular de lixo, cabe às prefeituras ampliar a fiscalização e a oferta de pontos de coleta por meio de convênios com cooperativas e empresas de limpeza urbana, com monitoramento de áreas críticas e aplicação de sanções, a fim de reduzir focos de poluição. Ademais, escolas e meios de comunicação locais devem promover educação ambiental mediante campanhas contínuas e projetos comunitários, visando consolidar hábitos de separação e descarte correto.Passo a passo para montar:
- Escolha dois agentes que realmente tenham poder de ação.
- Escreva ações diferentes (não repetir “conscientizar” duas vezes).
- Inclua um detalhe operacional em pelo menos uma ação.
- Finalize com finalidade mensurável (reduzir, ampliar, garantir).
Modelo C2 — Três medidas curtas (formato “lista” em frase)
Útil quando o tema pede respostas múltiplas e você quer manter ritmo.
Assim, é necessário: (i) [medida 1: agente + ação + meio], para [finalidade]; (ii) [medida 2], a fim de [finalidade]; e (iii) [medida 3], com o objetivo de [finalidade].Exemplo (tema: cyberbullying):
Assim, é necessário: (i) que escolas implementem protocolos de acolhimento e denúncia por meio de canais sigilosos e mediação orientada, para proteger vítimas; (ii) que plataformas digitais aprimorem mecanismos de moderação e rastreio de reincidência, a fim de reduzir a circulação de ataques; e (iii) que famílias e responsáveis recebam orientação em campanhas comunitárias, com o objetivo de fortalecer supervisão e diálogo.Passo a passo para montar:
- Garanta que cada item tenha agente + ação + meio.
- Evite medidas incompatíveis com o agente (ex.: “famílias devem legislar”).
- Use finalidades diferentes para não repetir a mesma ideia.
Modelo C3 — Intervenção com foco em política pública (programa + avaliação)
Bom para temas sociais em que cabe propor programa e monitoramento.
Diante disso, [agente público] deve instituir/aperfeiçoar [programa/medida] por meio de [meio], com [detalhe: metas/indicadores/capacitação], a fim de [finalidade]. Paralelamente, [órgão/controle social] precisa [ação de monitoramento], garantindo [efeito de transparência/eficácia].Exemplo (tema: mortalidade no trânsito):
Diante disso, governos estaduais e municipais devem aperfeiçoar políticas de segurança viária por meio de reengenharia de vias, fiscalização inteligente e educação para condutores, com metas de redução de acidentes e indicadores públicos por região, a fim de diminuir mortes e sequelas. Paralelamente, conselhos de trânsito e ministérios públicos precisam monitorar a execução e a transparência dos dados, garantindo correções rápidas e maior eficácia das ações.Passo a passo para montar:
- Nomeie a medida como política (não como desejo): “plano”, “programa”, “protocolo”.
- Inclua um mecanismo de avaliação (metas/indicadores/relatórios).
- Adicione um segundo agente de controle/monitoramento.
5) Combinações prontas (introdução + D1 + D2 + conclusão) para treinar
Abaixo, quatro “combos” de estrutura. Você pode usar como treino: substitua os colchetes pelo seu tema e reescreva com suas palavras.
Combo 1 — Direto e clássico (3 frases na introdução)
Introdução (Modelo A): Em [contexto], [problema] persiste. Isso ocorre porque [tese], sustentada por [eixo 1] e [eixo 2].Desenvolvimento 1 (Modelo D1): Em primeiro lugar, [eixo 1] contribui para [problema] porque [...]. Isso se evidencia quando [...]. Desse modo, [...].Desenvolvimento 2 (Modelo D2): Além disso, [eixo 2] atua como fator de agravamento, uma vez que [...]. Nessa perspectiva, [...]. Consequentemente, [...].Conclusão (Modelo C1): Portanto, para mitigar [problema], cabe a [agente 1] [...]. Ademais, [agente 2] [...].Combo 2 — Contraste + impactos
Introdução (Modelo B): Embora [ideal], na prática [problema]. Nesse sentido, [tese] por [eixo 1] e [eixo 2].D1 (causa institucional): Em primeiro lugar, [eixo 1] [...].D2 (impacto): Outro ponto relevante é que [problema] gera [impacto] [...].Conclusão (Modelo C2): Assim, é necessário: (i) [...]; (ii) [...]; e (iii) [...].Combo 3 — Definição + refutação
Introdução (Modelo C): Entende-se por [fenômeno] [...]. No Brasil, [recorte]. Assim, [tese] por [eixo 1] e [eixo 2].D1 (refutação): É comum afirmar que [...]. Contudo, [...]. Basta notar que [...].D2 (causa sociocultural): Além disso, [eixo 2] [...].Conclusão (Modelo C3): Diante disso, [agente público] [...]. Paralelamente, [controle] [...].Combo 4 — Pergunta controlada + duas frentes de solução
Introdução (Modelo D): Como explicar [problema] em um país que [expectativa]? A resposta passa por [tese] devido a [eixo 1] e [eixo 2].D1 (causa estrutural): Em primeiro lugar, [eixo 1] [...].D2 (causa sociocultural): Além disso, [eixo 2] [...].Conclusão (Modelo C1): Portanto, para mitigar [problema], cabe a [agente 1] [...]. Ademais, [agente 2] [...].6) Exercícios guiados (para transformar modelo em texto autoral)
Use os exercícios abaixo para treinar sem depender de “frases prontas”.
Exercício 1 — Reescrita de tese em 3 formatos
Escreva a mesma tese em três versões, mantendo o sentido:
- Versão 1 (porque): “[Problema] ocorre porque [eixo 1] e [eixo 2].”
- Versão 2 (devido a): “[Problema] se mantém devido a [eixo 1] e a [eixo 2].”
- Versão 3 (na medida em que): “[Problema] se agrava na medida em que [eixo 1] e [eixo 2].”
Depois, escolha a mais natural e use na introdução.
Exercício 2 — Parágrafo de desenvolvimento com “mecanismo” obrigatório
Escolha um eixo e complete as lacunas:
[Eixo] contribui para [problema] porque (mecanismo em 12 a 20 palavras). Isso aparece quando (exemplo em 12 a 20 palavras). Assim, (efeito em 10 a 16 palavras).Meta: se você tirar o exemplo, o parágrafo ainda deve fazer sentido; se tirar o mecanismo, o parágrafo fica fraco. Isso ajuda a evitar parágrafos só descritivos.
Exercício 3 — Conclusão com “checagem de agente”
Antes de finalizar a conclusão, responda:
- O agente escolhido tem competência para executar a ação?
- A ação é executável em termos práticos (não é só “conscientizar”)?
- O meio está claro (campanha, formação, fiscalização, investimento, tecnologia)?
- A finalidade está ligada ao problema (reduzir, ampliar, garantir)?
Se alguma resposta for “não”, ajuste o modelo: troque agente, detalhe o meio ou torne a ação mais concreta.