Rotina financeira simples (e que funciona) para marca de moda
Operação e finanças não são “um setor”: são uma rotina. O objetivo é ter previsibilidade de caixa, clareza do que entra e sai, e números confiáveis para decidir compras, produção e marketing sem “achismo”.
Princípios que evitam caos financeiro
- Caixa manda: lucro no papel não paga boleto. A gestão começa pelo fluxo de caixa.
- Separação total: finanças pessoais e da marca não se misturam (nem “só esse mês”).
- Regra do registro: toda venda, taxa, frete, devolução e pagamento precisa ser registrado no mesmo dia.
- Conciliação: o que você “vendeu” precisa bater com o que você “recebeu” (por canal e por meio de pagamento).
Fluxo de caixa diário e semanal (passo a passo)
Fluxo de caixa é o controle do dinheiro que entra e sai por data. Ele responde: “vou conseguir pagar tudo nas próximas semanas?” e “quanto posso comprar/produzir sem sufocar o caixa?”.
1) Monte um fluxo de caixa com colunas mínimas
Você pode fazer em planilha. O importante é a estrutura:
| Data | Tipo | Categoria | Canal | Descrição | Valor (R$) | Status | Saldo do dia |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 05/02 | Entrada | Vendas | Site | Pedido #1042 | +320 | Previsto/Recebido | ... |
| 05/02 | Saída | Fornecedor | - | Tecido lote A | -900 | Pago | ... |
Categorias recomendadas (poucas e úteis): Vendas, Frete cobrado, Outras receitas; Fornecedores/Matéria-prima, Produção/Facção, Embalagem, Logística/Fretes, Marketing, Plataforma/Taxas, Impostos, Pró-labore, Despesas administrativas.
2) Rotina diária (10–20 minutos)
- Registrar entradas do dia: vendas por canal e forma de pagamento (cartão, pix, boleto, dinheiro).
- Registrar saídas do dia: pagamentos feitos e despesas operacionais (inclusive pequenas).
- Atualizar “a receber”: datas previstas de repasse de cartão/marketplace.
- Atualizar “a pagar”: boletos, fornecedores, impostos, folha/facção, fretes.
- Checar saldo projetado para 7 e 14 dias: se ficar negativo, agir antes (renegociar prazos, segurar compras, ajustar campanhas, antecipar recebíveis com cautela).
3) Rotina semanal (60–90 minutos)
- Fechar a semana por canal: total vendido, total recebido, taxas, estornos/devoluções.
- Revisar contas a pagar da semana seguinte e confirmar se há caixa.
- Separar verba de reposição/produção (com base em giro e margem, não em “vontade de lançar”).
- Atualizar indicadores essenciais (ver seção abaixo).
Controle de contas a pagar e a receber
Contas a pagar é seu “calendário de obrigações”. Contas a receber é seu “calendário de entradas”. Os dois precisam conversar com o fluxo de caixa.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Como estruturar contas a pagar
- Campos mínimos: Fornecedor, categoria, valor, vencimento, status (previsto/pago), forma de pagamento.
- Classifique por: fixas (recorrentes) e variáveis (dependem do volume).
- Use uma regra: pagar no dia certo e registrar no mesmo dia.
Como estruturar contas a receber
- Campos mínimos: canal, pedido, valor bruto, taxas, frete, valor líquido, data prevista de recebimento, status (previsto/recebido).
- Separar por meio: pix (D+0), cartão (D+X), marketplace (regras próprias).
Conciliação de vendas (para confiar nos números)
Conciliação é comparar o que foi vendido vs. o que entrou no banco/repasse, identificando diferenças (taxas, parcelamento, chargeback, estorno, devolução, frete, cupons).
Passo a passo de conciliação semanal
- 1) Exportar/registrar vendas por canal (quantidade de pedidos, itens, valor bruto).
- 2) Levantar recebimentos no extrato bancário e relatórios de repasse.
- 3) Conferir taxas: gateway, cartão, marketplace, antecipação, tarifas.
- 4) Conferir devoluções/estornos: pedidos cancelados, trocas, chargebacks.
- 5) Ajustar o “valor líquido” no contas a receber e no fluxo de caixa.
- 6) Registrar divergências e resolver (ex.: repasse faltando, taxa indevida, pedido não faturado).
Regra prática: se você não concilia, você não sabe seu caixa real por canal.
Separação de finanças pessoais (sem travar a operação)
Separar finanças não é só “ter outra conta”: é criar um método para remunerar você sem bagunçar o caixa.
Estrutura mínima recomendada
- Conta bancária PJ exclusiva da marca.
- Cartão PJ para despesas da operação (evita “mistura” no extrato).
- Pró-labore fixo mensal (mesmo que baixo no início).
- Retirada variável só quando metas de caixa forem cumpridas (ex.: manter reserva mínima).
Regra de bolso para começar
Defina um pró-labore que caiba no pior mês. Se sobrar caixa, crie uma “fila de prioridades”: 1) impostos e obrigações, 2) reposição/produção, 3) marketing, 4) reserva, 5) retirada extra.
Indicadores essenciais (o painel de controle da marca)
Indicadores são números que ajudam a decidir. O segredo é usar poucos, mas com definição clara, fórmula e frequência de acompanhamento.
Ticket médio
O que é: valor médio por pedido. Para que serve: avaliar mix, kits, upsell e impacto de frete/cupom.
Ticket médio = Receita bruta de vendas / Número de pedidosExemplo: R$ 48.000 no mês / 240 pedidos = R$ 200.
Taxa de conversão
O que é: percentual de visitantes que compram. Para que serve: medir eficiência do site/loja e qualidade do tráfego.
Taxa de conversão (%) = (Pedidos / Sessões ou visitantes) * 100Leitura prática: se o tráfego sobe e a conversão cai, pode ser público errado, página lenta, preço/parcelamento, falta de estoque ou oferta fraca.
Margem de contribuição
O que é: quanto sobra da venda após custos variáveis para pagar despesas fixas e gerar lucro. Para que serve: decidir quais produtos e canais “pagam a conta”.
Margem de contribuição (R$) = Preço de venda - Custos variáveis do item/canalCustos variáveis típicos: matéria-prima por peça, facção por peça, embalagem, taxas do meio de pagamento, comissão de marketplace, frete subsidiado, impostos sobre venda (quando aplicável).
Exemplo: preço R$ 220; custos variáveis R$ 120 → margem de contribuição R$ 100 (45,5%).
Giro de estoque
O que é: velocidade com que o estoque se transforma em vendas. Para que serve: ajustar compras, reposição e evitar capital parado.
Giro de estoque = Custo das mercadorias vendidas (CMV) / Estoque médio (a custo)Leitura prática: giro baixo indica excesso de estoque, mix errado, preço desalinhado ou marketing insuficiente; giro alto demais pode indicar ruptura (perda de venda por falta de peça).
Taxa de devolução
O que é: percentual de pedidos/itens devolvidos. Para que serve: identificar problemas de modelagem, tabela de medidas, qualidade, descrição/fotos e logística.
Taxa de devolução (%) = (Itens devolvidos / Itens vendidos) * 100Leitura prática: aumentou em uma peça específica? Investigue medidas, caimento, tecido, transparência, cor diferente da foto, ou expectativa criada pela comunicação.
Tempo de produção
O que é: tempo efetivo para produzir (do corte ao acabamento pronto). Para que serve: planejar capacidade, promessas de entrega e custo de urgência.
Tempo de produção = Data de início da produção - Data de peça prontaDica: meça por modelo e por lote (não só “média geral”).
Lead time
O que é: tempo total do pedido ao cliente (ou do pedido ao fornecedor até a peça pronta, dependendo do ponto de controle). Para que serve: reduzir atrasos, melhorar experiência e planejar lançamentos.
Lead time total = Data do pedido do cliente - Data de entregaLeitura prática: se o lead time cresce, verifique gargalos: compra de insumo, fila na facção, revisão/qualidade, expedição, transportadora.
LTV (Lifetime Value)
O que é: valor que um cliente gera ao longo do relacionamento. Para que serve: definir quanto vale investir para adquirir e reter clientes.
LTV (simples) = Ticket médio * Frequência de compra (em um período) * Margem de contribuição (% ou R$)Exemplo: ticket R$ 200; 3 compras/ano; margem de contribuição 45% → LTV ≈ R$ 270 de contribuição/ano por cliente.
Metas mensais por canal e por produto (como criar e acompanhar)
Meta boa é específica, mensurável e conectada ao caixa. Em moda, faz sentido desdobrar por canal (onde vende) e por produto (o que vende), porque cada combinação tem margem, taxa e giro diferentes.
1) Defina o objetivo do mês (em dinheiro e em contribuição)
- Meta de receita (R$).
- Meta de margem de contribuição total (R$) para cobrir despesas fixas e gerar sobra.
- Meta de caixa: saldo mínimo e reserva (ex.: “terminar o mês com R$ X em caixa”).
2) Quebre a meta por canal
Crie uma tabela simples com: meta de pedidos, ticket médio alvo, receita e margem por canal.
| Canal | Pedidos | Ticket médio (R$) | Receita (R$) | Margem contrib. (%) | Contribuição (R$) |
|---|---|---|---|---|---|
| Site | 120 | 210 | 25.200 | 50% | 12.600 |
| Loja física | 80 | 190 | 15.200 | 55% | 8.360 |
| Marketplace | 70 | 180 | 12.600 | 35% | 4.410 |
Leitura prática: um canal pode ter receita alta e contribuição baixa (por taxas/comissões). A meta deve considerar contribuição, não só faturamento.
3) Quebre a meta por produto (ou família de produto)
Escolha 5–10 grupos (ex.: camiseta, calça, vestido, outerwear, acessórios) e defina:
- Unidades a vender.
- Preço médio esperado.
- Margem de contribuição por grupo.
- Estoque disponível e estoque mínimo (para não romper).
Exemplo prático: se “vestido” tem alta margem e baixa devolução, ele pode puxar a contribuição do mês; se “calça” tem devolução alta, a meta pode exigir ajustes (tabela de medidas, prova, descrição) antes de escalar tráfego.
4) Transforme metas em metas semanais
Divida o mês em 4 semanas e acompanhe ritmo:
- Receita e contribuição acumuladas vs. esperado.
- Pedidos por canal vs. esperado.
- Conversão e ticket médio vs. esperado.
- Rupturas (itens sem estoque) e excesso (itens parados).
Como interpretar os números para ajustar compras, produção e marketing
Ajustes de compras e reposição
- Giro alto + ruptura: priorize reposição do SKU (cor/tamanho) que vende, negociando prazo e lote com fornecedor; evite “comprar variedade” antes de garantir profundidade do que gira.
- Giro baixo + caixa apertado: congele compras de itens lentos, reduza variedade, crie ações para desovar (kits, desconto controlado, destaque em vitrine), e realoque orçamento para best-sellers.
- Devolução alta em um produto: não reponha no automático; investigue causa (medidas, tecido, transparência, acabamento) e corrija antes de escalar.
Ajustes de produção e capacidade
- Tempo de produção aumentando: revise gargalos (insumo atrasado, fila na facção, retrabalho). Ajuste cronograma e promessa de entrega.
- Lead time alto: priorize reduzir etapas e esperas (ex.: padronizar aviamentos, simplificar acabamentos, organizar expedição). Lead time menor melhora conversão e reduz cancelamentos.
- Retrabalho e devolução: conecte qualidade à operação: defeitos viram custo e travam caixa (estorno + frete + tempo).
Ajustes de marketing e canal
- Conversão baixa: antes de aumentar tráfego, corrija oferta e página (fotos, descrição, medidas, prova social, prazo, política de troca). Tráfego sem conversão só aumenta custo.
- Ticket médio abaixo da meta: crie combinações (look completo), desconto progressivo, frete grátis acima de X, sugestões de complementos.
- Margem por canal: se marketplace tem contribuição muito menor, use-o para giro de itens específicos ou aquisição, mas proteja o mix de alta margem em canais mais saudáveis.
- LTV baixo: foque retenção (pós-compra, reposição de básicos, lançamentos para clientes, incentivo à segunda compra). Melhorar LTV permite investir mais em aquisição sem sufocar caixa.
Checklist de fechamento mensal e tomada de decisão
Fechamento financeiro (mês)
- Conferir se todas as vendas do mês foram registradas por canal.
- Conferir se todos os recebimentos bateram com extratos e relatórios (conciliação final).
- Registrar taxas, estornos, devoluções e fretes corretamente.
- Fechar contas a pagar (o que foi pago e o que ficou para o mês seguinte).
- Fechar contas a receber (o que ficou pendente e datas previstas).
- Atualizar saldo de caixa e projeção para 30 dias.
- Separar pró-labore e validar se houve mistura com gastos pessoais (corrigir imediatamente).
Fechamento operacional (mês)
- Atualizar estoque: entradas (produção/compras), saídas (vendas), perdas/defeitos, devoluções reintegradas.
- Listar rupturas (itens que perderam venda por falta) e encalhes (itens com baixa saída).
- Medir tempo de produção e lead time por produto-chave.
- Mapear motivos de devolução por SKU (tamanho, qualidade, expectativa, atraso).
Painel de indicadores (mês) — preencher e comparar
- Ticket médio (por canal e geral)
- Taxa de conversão (por canal)
- Margem de contribuição (por produto e por canal)
- Giro de estoque (por categoria)
- Taxa de devolução (por produto)
- Tempo de produção (por modelo/lote)
- Lead time (por canal/transportadora quando aplicável)
- LTV (estimativa simples e evolução)
Tomada de decisão (com base no fechamento)
- Compras: quais SKUs repor (profundidade), quais pausar, quais liquidar com estratégia.
- Produção: quais modelos priorizar, qual capacidade semanal necessária, quais gargalos atacar.
- Marketing: quais canais escalar/reduzir, quais produtos empurrar (alta contribuição e baixo risco de devolução), quais páginas corrigir antes de investir.
- Metas do próximo mês: ajustar por canal e por produto com base em conversão, ticket, margem e capacidade real.