O exame pericial do INSS é um procedimento médico com finalidade administrativa, orientado a responder, com base técnica, se há incapacidade e qual o impacto funcional atual para o trabalho. A metodologia precisa ser reprodutível, objetiva e centrada em funcionalidade: o que a pessoa consegue ou não consegue fazer, por quanto tempo, com que intensidade, com quais adaptações e com qual previsibilidade. A entrevista, o exame físico direcionado e a análise de consistência com documentos formam um conjunto único, no qual cada etapa confirma, refuta ou qualifica hipóteses funcionais.
Princípios operacionais da perícia: objetividade, funcionalidade e consistência
Foco em capacidade funcional e demandas ocupacionais
Em vez de descrever apenas diagnósticos, descreva desempenho e tolerâncias: marcha, preensão, alcance, permanência em pé/sentado, atenção sustentada, interação social, tolerância a estresse, ritmo e produtividade. As demandas ocupacionais devem ser traduzidas em tarefas e exigências (peso, postura, repetição, precisão, turnos, metas, risco).
Triangulação de evidências
Trabalhe com três fontes: (1) relato do periciando, (2) achados do exame físico/funcional, (3) documentos (laudos, exames, atestados, relatórios). A conclusão deve ser compatível com o conjunto. Divergências não significam automaticamente má-fé; significam necessidade de esclarecer cronologia, gravidade, tratamento, variabilidade e contexto.
Abordagem biopsicossocial quando pertinente (sem perder objetividade)
Quando fatores psicossociais influenciam a funcionalidade (dor crônica, transtornos mentais, baixa adesão por barreiras sociais, conflitos ocupacionais), registre como moduladores do desempenho e do prognóstico, sem transformar a perícia em psicoterapia ou assistência social. O objetivo é qualificar limitações e previsibilidade funcional, não julgar valores ou intenções.
Roteiro técnico do exame pericial: passo a passo
1) Preparação rápida e definição de hipóteses
- Leia o motivo do requerimento e identifique: condição alegada, data de início referida, ocupação e documentos anexados.
- Liste 2–3 hipóteses funcionais iniciais (ex.: “limitação de elevação do ombro”, “intolerância a ortostatismo”, “déficit de atenção/ritmo”).
- Planeje um exame físico direcionado para testar essas hipóteses.
2) Entrevista pericial estruturada (anamnese pericial)
Use perguntas fechadas para delimitar e perguntas abertas para contextualizar. Mantenha cronologia e funcionalidade como eixo.
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2.1 Identificação funcional do trabalho (demanda ocupacional)
- Função e tarefas reais: “O que você faz em um dia típico de trabalho? Quais tarefas ocupam mais tempo?”
- Exigências físicas: peso levantado/transportado, repetição, postura (sentado/em pé/agachado), uso de escadas, direção, vibração, trabalho em altura.
- Exigências cognitivas/psíquicas: atenção sustentada, tomada de decisão, contato com público, metas, turnos noturnos, risco/segurança.
- Ambiente: calor/frio, ruído, poeira, agentes químicos, ritmo imposto por máquina/linha.
- Adaptações possíveis: pausas, alternância postural, redução de carga, mudança de tarefa, trabalho remoto (quando aplicável).
2.2 História da condição com foco em evolução e resposta terapêutica
- Início e curso: data, evento desencadeante, progressão, flutuação, crises.
- Sintomas-chave quantificados: intensidade (0–10), frequência, duração, gatilhos, fatores de alívio.
- Tratamentos realizados: medicações (dose/efeitos adversos), fisioterapia, psicoterapia, cirurgias, infiltrações, reabilitação; adesão e barreiras.
- Impacto funcional ao longo do tempo: “O que você conseguia fazer há 3 meses e hoje não consegue?”
- Eventos objetivos: internações, afastamentos anteriores, acidentes, exames com datas.
2.3 Funcionalidade atual (atividade e participação)
Transforme queixas em tarefas mensuráveis.
- Mobilidade: caminhar (distância/tempo), subir escadas (quantos lances), ficar em pé (minutos), sentar (minutos), levantar de cadeira, dirigir (tempo).
- Uso de membros superiores: elevar braços, carregar sacolas (kg), pinça fina (abotoar), digitar (tempo), preensão sustentada.
- Autocuidado e vida doméstica: banho, vestir, cozinhar, limpar, compras.
- Sono e fadiga: latência, despertares, sonolência diurna, necessidade de repouso.
- Cognição/afetividade: memória recente, concentração, irritabilidade, ansiedade, crises de pânico, retraimento social, anedonia.
2.4 Red flags e segurança
- Investigue sinais que exigem atenção imediata (ex.: déficit neurológico progressivo, febre persistente, perda ponderal importante, ideação suicida ativa). Registre objetivamente e oriente encaminhamento conforme fluxo local, quando aplicável.
3) Exame físico direcionado e exame funcional
O exame deve testar as hipóteses funcionais levantadas na entrevista. Evite “exame completo” indiscriminado; faça um exame dirigido, porém suficiente para sustentar a conclusão.
3.1 Técnica de registro: sinais positivos e negativos relevantes
- Descreva o que foi observado e medido: amplitude de movimento, força por grupos, sensibilidade, reflexos, marcha, testes provocativos.
- Registre negativos que mudam a interpretação: “Sem déficit motor focal”, “Sem sinais de radiculopatia”, “Sem instabilidade ligamentar”, “Sem sinais de insuficiência cardíaca”.
- Evite termos vagos: substitua “exame normal” por itens específicos avaliados.
- Inclua tolerância e comportamento funcional: necessidade de apoio, pausas, mudança de postura, coerência entre dor referida e desempenho observado.
3.2 Exame funcional: traduzindo achados em capacidade
Além de testes ortopédicos/neurológicos, descreva desempenho em tarefas simples e seguras, quando pertinentes ao caso.
- Exemplos de tarefas observacionais: sentar-levantar, agachar parcial, marcha em linha, subir um degrau (se disponível), alcançar acima do ombro, preensão de objeto, escrita curta.
- O que registrar: necessidade de apoio, tempo para executar, interrupções por dor/fadiga, assimetria, compensações.
- Cuidados: não induzir risco; interromper se houver dor intensa, instabilidade, dispneia importante, tontura.
4) Avaliação de limitações e restrições (linguagem funcional)
Limitação é o que a condição impõe ao desempenho; restrição é o que deve ser evitado por risco de agravamento/segurança. Ambas devem ser descritas em termos funcionais e, quando possível, com parâmetros.
4.1 Como escrever limitações de forma útil
- Estrutura recomendada: tarefa + parâmetro + consequência.
- Exemplos: “Limitação para elevar o membro superior direito acima de 90° de forma repetitiva; piora dolorosa e perda de força após 2–3 minutos de atividade sustentada.”
- “Intolerância a ortostatismo contínuo acima de 20 minutos, necessitando alternância postural e pausas.”
- “Redução de atenção sustentada em tarefas monótonas por mais de 30–40 minutos, com aumento de erros sob pressão de tempo.”
4.2 Como escrever restrições com racional
- Exemplos: “Restringir trabalho em altura e operação de máquinas de risco se houver crises de vertigem não controladas.”
- “Restringir levantamento de cargas acima de 10 kg e movimentos repetitivos de flexoextensão lombar, pelo risco de exacerbação de radiculalgia.”
5) Consistência: queixa × achados × documentos
Faça uma checagem explícita de coerência. Quando houver inconsistência, descreva como inconsistência técnica (não moral) e busque explicações plausíveis (variabilidade, tratamento recente, exame feito em fase diferente, comorbidades, limitações do método).
5.1 Matriz rápida de consistência
- Relato: quais limitações foram referidas?
- Exame: quais limitações foram observadas/medidas?
- Documentos: o que mostram (data, método, gravidade, evolução)?
- Conclusão funcional: qual nível de capacidade atual é sustentado pelo conjunto?
5.2 Exemplos práticos de consistência
Exemplo 1 (musculoesquelético): periciando refere incapacidade total por dor lombar. Exame mostra marcha preservada, Lasègue negativo, força e reflexos sem déficit, dor à palpação paravertebral e limitação moderada de flexão. Documentos: RM antiga com protrusão sem compressão. Registro funcional: limitação para flexão repetitiva e carga, com capacidade para atividades leves com alternância postural.
Exemplo 2 (transtorno mental): refere crises de pânico frequentes e dificuldade de sair de casa. Exame do estado mental: ansiedade evidente, mas orientado, sem psicose, atenção flutuante. Documentos: acompanhamento regular, ajustes recentes de medicação. Registro funcional: limitação para atividades com alta demanda social e pressão de tempo; avaliar previsibilidade e necessidade de tratamento estabilizador.
Como evitar vieses cognitivos na perícia
Viés de ancoragem
Risco: fixar-se no primeiro diagnóstico/relato/documento e interpretar o restante para confirmar. Estratégia: antes do exame, escreva 2 hipóteses alternativas e quais achados as sustentariam/refutariam.
Viés de confirmação
Risco: buscar apenas evidências que apoiem a impressão inicial. Estratégia: inclua no roteiro pelo menos 2 perguntas e 2 manobras que possam contradizer sua hipótese (por exemplo, investigar sinais neurológicos objetivos quando a queixa é dor intensa).
Viés de disponibilidade
Risco: superestimar condições vistas recentemente. Estratégia: use checklists por sistemas e baseie gravidade em parâmetros funcionais e cronologia documentada.
Viés de simpatia/antipatia
Risco: deixar a impressão subjetiva do comportamento influenciar a análise. Estratégia: registre comportamento apenas quando tiver relevância funcional (ex.: cooperação, variabilidade de desempenho) e sempre descrevendo observações, não julgamentos.
Checklists práticos para aplicação imediata
Checklist geral da entrevista pericial (10 itens)
- Função/ocupação e tarefas reais (não apenas cargo).
- Exigências físicas (carga, postura, repetição, deslocamento).
- Exigências cognitivas/psíquicas (atenção, metas, risco, público).
- Data de início e evolução temporal (linha do tempo).
- Sintomas quantificados (intensidade, frequência, duração).
- Tratamentos e resposta (incluindo efeitos adversos).
- Funcionalidade atual em tarefas (caminhar, sentar, levantar, carregar, digitar etc.).
- Variabilidade (dias bons/ruins) e gatilhos.
- Comorbidades relevantes e medicações em uso.
- Documentos: datas, autoria, método, achados e coerência com quadro atual.
Checklist do exame físico direcionado (estrutura)
- Inspeção: postura, trofismo, deformidades, marcha, uso de órteses.
- Palpação: pontos dolorosos, edema, temperatura, derrame articular.
- Amplitude de movimento: ativa e, quando pertinente, passiva (comparativa).
- Força: grupos relevantes (grau funcional, simetria).
- Neurológico: sensibilidade, reflexos, coordenação, sinais radiculares quando indicados.
- Testes especiais: apenas os pertinentes à hipótese (registrar positivos e negativos relevantes).
- Exame funcional observado: tarefas simples relacionadas ao trabalho alegado.
Checklists por sistemas e condições frequentes
Musculoesquelético: coluna lombar/cervical e dor crônica
- Entrevista: irradiação, parestesias, fraqueza, claudicação, piora com flexão/extensão, tolerância a sentar/ficar em pé, crises e intervalos.
- Exame: marcha (incluindo ponta/calcanhar se seguro), amplitude, Lasègue/Spurling quando indicado, força segmentar, reflexos, sensibilidade, sinais de alarme neurológico.
- Funcional: sentar-levantar, inclinar-se para pegar objeto leve, tolerância postural observada.
- Documentos: correlação entre imagem e clínica; datas e evolução; tratamentos realizados.
- Registro funcional: limites para carga, flexão repetitiva, vibração, postura estática prolongada; necessidade de alternância postural.
Ombro e membros superiores (tendinopatias, síndrome do manguito, túnel do carpo)
- Entrevista: dor noturna, arco doloroso, perda de força, parestesias, piora com elevação repetitiva, tarefas finas (pinça), tempo de digitação.
- Exame: amplitude (abdução/rotação), testes provocativos pertinentes, força de abdução/rotação, pinça e preensão, sensibilidade em territórios, Tinel/Phalen quando indicado.
- Funcional: alcançar acima do ombro, segurar objeto por tempo, simular tarefa de pinça (sem exagero).
- Registro funcional: restrição para trabalho acima do nível do ombro, repetição, força sustentada, vibração/ferramentas, pausas programadas.
Joelho/quadril/tornozelo (artrose, lesões meniscais/ligamentares)
- Entrevista: instabilidade, travamento, derrame, dor ao subir/descer escadas, distância de marcha, uso de bengala/órtese.
- Exame: derrame, amplitude, alinhamento, testes de estabilidade quando indicados, dor à palpação, marcha e apoio monopodal (se seguro).
- Funcional: subir degrau, agachamento parcial, sentar-levantar.
- Registro funcional: limitação para escadas, agachamento, carga e longas caminhadas; risco em terrenos irregulares se instabilidade.
Cardiorrespiratório (insuficiência cardíaca, DPOC/asma)
- Entrevista: dispneia aos esforços (atividades específicas), ortopneia, edema, exacerbações, internações, uso de oxigênio, adesão e técnica inalatória (quando aplicável).
- Exame: frequência respiratória, ausculta, sinais de congestão, cianose, edema, tolerância ao falar e ao deslocamento curto.
- Funcional: observar dispneia em marcha curta no consultório (se seguro), necessidade de pausas.
- Documentos: espirometria, ecocardiograma, BNP quando disponível, relatórios com classe funcional e datas.
- Registro funcional: limitação para esforços moderados/intensos, ambientes com poeira/fumaça, turnos extenuantes; necessidade de pausas e previsibilidade.
Neurológico (AVC prévio, epilepsia, neuropatias)
- Entrevista: déficits residuais, quedas, crises (frequência, gatilhos, adesão), efeitos colaterais de medicação, direção/risco ocupacional.
- Exame: pares cranianos quando indicado, força, tônus, coordenação, sensibilidade, marcha, equilíbrio, linguagem.
- Registro funcional: destreza manual, velocidade, risco em altura/máquinas, necessidade de supervisão em tarefas críticas, previsibilidade (crises controladas vs não controladas).
Transtornos mentais (depressão, ansiedade, bipolaridade, psicose)
- Entrevista: sintomas nucleares, duração, flutuação, crises, adesão, efeitos adversos, uso de substâncias, funcionamento social e ocupacional, rotinas.
- Exame do estado mental (essencial): aparência, psicomotricidade, humor/afeto, pensamento (curso/conteúdo), percepção, cognição (atenção/memória), juízo crítico, risco (auto/heteroagressão).
- Funcional: capacidade de manter rotina, cumprir horários, tolerar interação, lidar com pressão e multitarefa.
- Documentos: relatórios com evolução, intervenções, resposta, datas; coerência com exame atual.
- Registro funcional: limitações em ritmo, atenção, previsibilidade, interação social e tomada de decisão sob estresse; restrições de segurança quando houver risco.
Dor crônica e condições com componente psicossocial relevante
- Entrevista: impacto no sono, humor, medo de movimento, evitação, variabilidade, estratégias de enfrentamento, adesão a reabilitação.
- Exame: desempenho funcional observado, tolerância a movimentos, sinais objetivos associados quando presentes; registrar variabilidade sem julgamento.
- Registro funcional: capacidade com pausas, alternância postural, limites de repetição; fatores que pioram/melhoram; previsibilidade.
Modelos de frases para registro técnico (exemplos)
Registro de achados positivos/negativos
Marcha: sem claudicação; sem necessidade de apoio. Força: 5/5 em MMII proximal e distal. Sensibilidade: preservada em dermátomos L4-S1. Lasègue: negativo bilateral. Dor: à palpação paravertebral lombar, sem sinais de irritação radicular.Descrição funcional de limitação
Refere dor lombar com piora ao permanecer em pé. Observa-se necessidade de alternar postura durante a entrevista. Limitação para flexão lombar repetitiva e para levantamento/porte de cargas, com tolerância reduzida a ortostatismo contínuo (>20 min).Registro de consistência com documentos
Documentos apresentados: RM lombar (data X) com alterações degenerativas sem compressão significativa; relatório de fisioterapia (data Y) descreve melhora parcial. Achados atuais sem déficit neurológico focal. Conjunto sugere limitação funcional parcial para atividades com carga e flexão repetitiva.