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Perito Criminal da Polícia Civil: Fundamentos Técnicos e Científicos para Concursos

Novo curso

16 páginas

Método científico aplicado à Perícia Criminal: observação, hipóteses, testes e inferência

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Sequência didática do método científico na rotina pericial

Na Perícia Criminal, o método científico é um roteiro de tomada de decisão para transformar vestígios em inferências tecnicamente justificadas. Ele organiza a atuação pericial em etapas: observar e registrar, formular o problema pericial, levantar hipóteses alternativas, planejar e executar testes, avaliar qualidade e limitações dos resultados, e redigir conclusões baseadas em evidência, com controle de vieses.

1) Observação e registro: o que é dado e o que é interpretação

Observação pericial é a coleta e o registro sistemático do que pode ser constatado diretamente (ou por instrumentos) no local, em objetos e em amostras. O objetivo é produzir dados rastreáveis: o que foi visto, medido, fotografado, coletado e como foi preservado.

  • Fato observado: descrição objetiva, mensurável ou verificável por terceiros (ex.: medidas, localização, aspecto, resultados instrumentais).

  • Interpretação: explicação plausível para o fato observado, baseada em conhecimento técnico e contexto (ex.: mecanismo provável, compatibilidade, origem possível).

  • Opinião técnica: juízo especializado que integra evidências e limitações, explicitando grau de suporte e incerteza (ex.: “os achados são mais compatíveis com...”).

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Exemplo: “Há uma mancha marrom-avermelhada no piso” (fato observado) é diferente de “trata-se de sangue” (interpretação), que por sua vez depende de testes confirmatórios.

2) Formular o problema pericial (pergunta respondível)

O problema pericial deve ser formulado como uma pergunta específica, testável e vinculada aos vestígios disponíveis. Uma boa formulação evita perguntas vagas (“o que aconteceu?”) e foca no que pode ser respondido tecnicamente.

Passo a passo prático:

  • Delimite o objeto: qual vestígio/elemento será analisado (ex.: mancha, projétil, documento, dispositivo).

  • Defina a propriedade de interesse: o que será verificado (ex.: presença de sangue humano, correspondência balística, autenticidade, origem).

  • Converta em pergunta testável: “A amostra X contém sangue humano?”; “O projétil Y é compatível com o cano da arma Z?”; “O arquivo A apresenta sinais de edição?”

  • Liste restrições: quantidade de amostra, degradação, contaminação, tempo, cadeia de custódia, limitações instrumentais.

Exemplos de formulação:

  • Adequado: “Os fragmentos coletados no ponto P são compatíveis com vidro do veículo V?”

  • Inadequado: “O suspeito quebrou o vidro?” (atribui autoria e intenção; pode ser reformulado para compatibilidade de vestígios).

3) Levantar hipóteses alternativas (H1, H2, H3…)

Hipóteses são explicações concorrentes para os vestígios. Em perícia, é essencial considerar alternativas para reduzir o risco de confirmação indevida (confirmation bias). Em vez de buscar “provar” uma narrativa, busca-se testar o quanto os achados são compatíveis com diferentes cenários.

Passo a passo prático:

  • Liste hipóteses mutuamente distinguíveis (quando possível) e relacionadas ao vestígio.

  • Inclua hipóteses não incriminatórias e hipóteses de erro (contaminação, transferência secundária, degradação, interferentes).

  • Antecipe predições observáveis: “Se H1 for verdadeira, espero observar X; se H2, espero Y”.

Exemplo (mancha suspeita):

  • H1: a mancha é sangue humano.

  • H2: a mancha é sangue animal.

  • H3: a mancha não é sangue (tinta/ferrugem/solo).

  • H4 (erro): a amostra foi contaminada ou degradada, alterando resultados.

4) Planejar testes conforme disponibilidade e qualidade dos vestígios

O planejamento de testes deve equilibrar: (a) poder discriminatório do método, (b) consumo de amostra, (c) tempo e recursos, (d) risco de contaminação, (e) necessidade de confirmação. A lógica comum é: triagem (mais sensível, menos específica) seguida de confirmação (mais específica).

Passo a passo prático:

  • Inventarie vestígios e quantidade: volume, massa, número de fragmentos, estado (úmido/seco), integridade.

  • Defina ordem de exames para minimizar consumo e perda de informação (ex.: documentação e coleta antes de testes destrutivos).

  • Escolha métodos por objetivo: identificação, comparação, quantificação, estimativa temporal, detecção de adulteração.

  • Inclua controles: branco (contaminação), positivo (funcionamento do teste), duplicatas/replicatas (reprodutibilidade).

  • Registre critérios de decisão antes do teste (ex.: limiar de aceitação, critérios de qualidade, quando repetir).

Exemplo de estratégia (vestígio biológico limitado):

  • Priorizar documentação e coleta com técnica que preserve material.

  • Aplicar triagem com mínimo consumo.

  • Se triagem positiva, seguir para confirmação e, se necessário, exames comparativos, sempre registrando consumo e remanescentes.

5) Controle de vieses na tomada de decisão pericial

Vieses são tendências sistemáticas que podem distorcer observação, interpretação e decisão. Na prática pericial, o risco aumenta quando há informação contextual irrelevante (ex.: confissão, antecedentes, pressão por resultado) ou quando o perito já tem uma hipótese preferida.

Estratégias aplicáveis:

  • Separar dado de contexto: analisar primeiro o vestígio e seus resultados; acessar contexto apenas quando necessário para responder ao problema pericial.

  • Checklist de hipóteses: obrigar-se a listar alternativas e hipóteses de erro antes de concluir.

  • Revisão por pares: revisão técnica independente, com foco em coerência entre dados, método e inferência.

  • Procedimentos padronizados: uso de POPs, critérios de aceitação e registros completos para reduzir variação subjetiva.

  • “Blinding” quando possível: ocultar informações irrelevantes (ex.: identidade do suspeito) durante comparação/avaliação.

Conceitos essenciais para concursos e para a prática pericial

Reprodutibilidade e repetibilidade

  • Repetibilidade: consistência de resultados quando o mesmo operador, mesmo equipamento e mesmas condições repetem o teste em curto intervalo.

  • Reprodutibilidade: consistência quando variam operador, laboratório, equipamento ou tempo, mantendo o método.

Aplicação: se um resultado só aparece em uma execução e não se repete, a confiança na inferência diminui; pode indicar erro aleatório, contaminação ou instabilidade do método.

Validação (do método) e verificação (no laboratório)

  • Validação: demonstração de que um método é adequado ao propósito (fit for purpose), com desempenho conhecido (limites, taxa de erro, interferentes).

  • Verificação: confirmação de que o laboratório consegue executar o método validado com desempenho aceitável em suas condições (equipamentos, equipe, rotina).

Exemplo: um método pode ser validado na literatura, mas o laboratório precisa verificar se, com seus reagentes e instrumentos, atinge os mesmos critérios de qualidade.

Sensibilidade e especificidade

  • Sensibilidade: capacidade de detectar o alvo quando ele está presente (reduz falsos negativos).

  • Especificidade: capacidade de indicar negativo quando o alvo está ausente (reduz falsos positivos).

Exemplo prático: testes de triagem tendem a ser mais sensíveis (capturam mais casos), porém menos específicos (mais suscetíveis a interferentes). Por isso, resultados de triagem geralmente exigem confirmação.

Falsos positivos e falsos negativos

  • Falso positivo: o teste indica presença do alvo, mas o alvo não está presente.

  • Falso negativo: o teste indica ausência do alvo, mas o alvo está presente.

Implicação pericial: o laudo deve reconhecer a possibilidade desses erros, especialmente quando o método é de triagem, quando a amostra está degradada ou quando há interferentes conhecidos.

Incerteza de medição

Incerteza de medição é um parâmetro que caracteriza a dispersão dos valores que podem ser atribuídos a um mensurando. Em termos simples: toda medida tem uma margem de dúvida, mesmo com instrumentos calibrados.

Passo a passo prático:

  • Identifique a grandeza medida (ex.: massa, comprimento, concentração, tempo).

  • Registre condições (instrumento, resolução, calibração, ambiente).

  • Informe resultado com unidade e, quando aplicável, com incerteza/intervalo (conforme procedimento do laboratório).

  • Evite falsa precisão: não reportar mais casas decimais do que o método suporta.

Exemplo de escrita: em vez de “a distância é 10,000 cm” (precisão irreal), preferir “a distância medida foi de 10,0 cm” ou “10,0 cm (conforme resolução do instrumento)”.

Robustez

Robustez é a capacidade do método manter desempenho aceitável mesmo com pequenas variações inevitáveis (temperatura, lote de reagente, operador, tempo de incubação dentro de tolerâncias).

Aplicação: métodos robustos são preferíveis em rotina, pois reduzem a chance de resultados instáveis e aumentam a confiabilidade do laudo.

Inferência: do resultado ao significado pericial

Resultado analítico vs. inferência

Resultado é o que o método produziu (ex.: leitura instrumental, perfil obtido, correspondência observada). Inferência é a interpretação do que esse resultado sugere sobre as hipóteses, considerando limitações, taxa de erro, qualidade da amostra e controles.

Boa prática: explicitar o encadeamento lógico: vestígio → método → resultado → limitações → inferência.

Força da evidência e linguagem cautelosa

Quando o exame envolve comparação e avaliação de compatibilidade, a redação deve evitar absolutismos sem suporte. Em muitos contextos, é mais adequado expressar suporte relativo (“mais compatível com”, “não se pode excluir”, “há suporte para”) do que afirmar certeza total.

  • Evitar: termos que impliquem certeza sem base (“comprovado”, “inequivocamente”, “sem qualquer dúvida”) se o método não sustenta tal grau.

  • Preferir: termos que reflitam o alcance do método e a qualidade do vestígio (“os resultados são compatíveis com...”, “os achados fornecem suporte para...”, “não foi possível concluir devido a...”)

Diretrizes de redação de conclusões baseadas em evidência

Estrutura recomendada: três camadas (observação → interpretação → opinião técnica)

1) Fato observado (dados): descreva o que foi encontrado/medido e os resultados dos testes, com controles e condições relevantes.

2) Interpretação (significado técnico): explique o que os resultados indicam e quais hipóteses são favorecidas ou enfraquecidas.

3) Opinião técnica (inferência final dentro do escopo): responda ao problema pericial com linguagem proporcional à força da evidência e declare limitações.

Exemplos de frases adequadas e inadequadas em laudos

Caso 1: mancha suspeita

  • Adequado (fato observado): “Foi coletada amostra da mancha localizada a 1,2 m da porta, no piso da sala. O teste de triagem apresentou resultado positivo para presença de substância com características compatíveis com sangue. O teste confirmatório realizado conforme procedimento do laboratório indicou presença de sangue.”

  • Inadequado: “Havia sangue no local e isso prova que houve agressão.”

  • Adequado (interpretação/opinião técnica): “Os resultados confirmam a presença de sangue na amostra analisada. Não é possível, a partir deste exame isolado, inferir a dinâmica do evento.”

Caso 2: comparação de vestígios (compatibilidade)

  • Adequado: “As características observadas nos fragmentos (cor, espessura e padrão de fratura) são compatíveis com o vidro do veículo V, não sendo possível excluir essa origem com base nos exames realizados.”

  • Inadequado: “Os fragmentos são do veículo V com certeza.”

Caso 3: resultado negativo

  • Adequado: “Não foram detectados vestígios do alvo pesquisado nas condições e limites do método empregado. Ressalta-se que resultado negativo não exclui a possibilidade de presença em níveis abaixo do limite de detecção, degradação da amostra ou interferência.”

  • Inadequado: “Não existe o alvo na amostra.”

Caso 4: limitação por amostra insuficiente

  • Adequado: “A quantidade de material disponível foi insuficiente para realização de teste confirmatório, razão pela qual o resultado permanece restrito à triagem, com as limitações inerentes ao método.”

  • Inadequado: “Não deu para fazer, então não há como saber nada.”

Checklist rápido para evitar erros comuns na conclusão

  • Responder exatamente ao problema pericial formulado (nem menos, nem mais).

  • Separar claramente: o que foi observado, o que foi interpretado e o que é inferência final.

  • Indicar método e limites relevantes (triagem vs. confirmação; limites de detecção; interferentes).

  • Evitar linguagem de certeza absoluta sem suporte metrológico/metodológico.

  • Explicitar limitações materiais (degradação, quantidade, contaminação, ausência de controles, restrições do vestígio).

  • Manter rastreabilidade: resultados vinculados às amostras e às condições de exame.

Exemplo integrado: do problema ao laudo (roteiro operacional)

Passo a passo prático:

  • 1. Problema pericial: “A amostra A contém sangue?”

  • 2. Hipóteses: H1 (sangue), H2 (não sangue), H3 (interferente/contaminação).

  • 3. Plano de testes: triagem sensível + confirmação específica; incluir controles; preservar remanescente.

  • 4. Execução e qualidade: registrar lote de reagentes, condições, controles e eventuais não conformidades.

  • 5. Avaliação: considerar sensibilidade/especificidade, risco de falso positivo/negativo, robustez e incerteza (quando aplicável).

  • 6. Redação: (a) descrever resultados; (b) interpretar; (c) concluir com linguagem proporcional e limitações.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao redigir a conclusão de um laudo pericial a partir de um resultado de triagem positivo para uma substância com características compatíveis com sangue, qual conduta está mais alinhada ao método científico na perícia?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na rotina pericial, triagem tende a ser sensível e menos específica, exigindo confirmação. A conclusão deve separar dados de interpretação, manter rastreabilidade e usar linguagem cautelosa, declarando limitações, controles e incertezas.

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