Marés, ondas e meteorologia costeira na Meteorologia para Navegação e apoio à Aviação em áreas litorâneas

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que marés e ondas entram na decisão operacional

Em áreas litorâneas, a segurança de navegação e o apoio à aviação (especialmente operações costeiras, helipontos, aeródromos próximos ao mar e missões SAR) dependem de prever nível do mar, correntes e estado do mar. A mesma saída pode ser segura em um horário e crítica poucas horas depois por causa de:

  • maré (altura d’água disponível em barras, canais e fundeios);
  • corrente de maré (set e deriva, manobrabilidade, abatimento em canais);
  • vento e pressão alterando o nível do mar (ressaca/elevação) e gerando ondas;
  • mar cruzado (ondas de direções diferentes), que aumenta o risco de embarque de água, perda de controle e desconforto severo.

Marés: conceito e o que realmente importa na prática

O que é maré (sem complicar)

Maré é a variação periódica do nível do mar ao longo do dia. Para a operação, o que interessa é: quanto de água haverá (altura) e quando ocorrerão os extremos (preamar e baixamar), porque isso define calado disponível, risco de tocar o fundo, e intensidade/direção de correntes em passagens estreitas.

Preamar, baixamar e amplitude

  • Preamar (PM): nível máximo.
  • Baixamar (BM): nível mínimo.
  • Amplitude: diferença entre PM e BM. Amplitude grande tende a produzir correntes mais fortes em canais e barras.

Maré de sizígia e de quadratura

Esses termos aparecem em tábuas e boletins e ajudam a antecipar “dias de maré grande” e “dias de maré pequena”.

  • Sizígia: quando Sol e Lua “puxam” mais alinhados. Em geral, resulta em maiores amplitudes (marés mais altas e mais baixas). Consequência operacional: mais corrente em barras/canais e maior variação de profundidade ao longo do dia.
  • Quadratura: quando as influências ficam mais “cruzadas”. Em geral, resulta em menores amplitudes. Consequência operacional: correntes mais fracas e menor variação de profundidade (bom para algumas manobras), porém pode reduzir a “janela” de profundidade máxima em locais rasos.

Correntes de maré e impacto em barras, canais e fundeios

O que é corrente de maré

É o movimento horizontal da água associado à enchente (subida) e vazante (descida). Em áreas abertas pode ser moderada, mas em estreitamentos (canais, bocas de barra, passagens entre ilhas) pode acelerar muito.

Enchente e vazante: direção e efeitos

  • Enchente: corrente associada à subida do nível. Pode ajudar a entrar em canais (mais profundidade), mas pode atrapalhar manobras se estiver forte e atravessada.
  • Vazante: corrente associada à descida. Pode “puxar” para fora de canais e intensificar turbulência de água em barras.

Barras (boca de rio/estuário) e o risco clássico

Em barras, o perigo aumenta quando corrente de vazante encontra ondas de mar entrando (vento e swell). Esse encontro encurta o comprimento de onda e deixa a onda mais íngreme e quebrando. Na prática: uma condição que “parece aceitável” fora da barra pode ficar crítica exatamente na arrebentação.

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Regra operacional útil: se houver previsão de ondas moderadas/altas e a barra tiver vazante forte, trate como cenário de alto risco e procure janela com corrente fraca (próximo à virada de maré) e/ou menor energia de onda.

Canais e passagens estreitas

Em canais, a corrente pode gerar:

  • abatimento lateral (set) exigindo correção de rumo;
  • perda de velocidade efetiva contra a corrente (aumenta tempo exposto);
  • turbulência e redemoinhos perto de estruturas, pontes, pilares e curvas.

Fundeios: por que a maré muda tudo

Em fundeios, a maré altera:

  • profundidade (risco de encalhe na BM);
  • raio de giro (a embarcação pode girar com a corrente/vento);
  • carga no ferro e na amarra (corrente forte aumenta esforço).

Planeje o fundeio considerando a pior condição durante a permanência: normalmente BM (menos água) combinada com vento/corrente mais fortes.

Vento e pressão influenciando o nível do mar: ressaca e elevação

Elevação do nível do mar por vento (setup)

Ventos persistentes empurram água para a costa, elevando o nível junto ao litoral. Isso pode:

  • aumentar o nível em marinas e canais (bom para profundidade, mas pode causar corrente e transbordo);
  • piorar a arrebentação em praias e barras;
  • alterar a referência prática entre “altura prevista de maré” e o nível real observado.

Pressão atmosférica e nível do mar (efeito barométrico)

Quedas de pressão associadas a sistemas meteorológicos podem elevar o nível do mar; pressões mais altas tendem a reduzir. Operacionalmente, isso significa que a tábua de marés (astronômica) pode não bater com o nível real quando há evento meteorológico relevante. Em ressacas, a combinação de vento + baixa pressão + swell é a que mais surpreende.

Ondas: altura, período, direção e o que cada uma “diz”

Componentes principais

  • Altura significativa (Hs): medida representativa do “tamanho” das ondas. Quanto maior, maior energia e maior risco em aproximações costeiras.
  • Período (Tp ou Tm): tempo entre cristas. Períodos maiores indicam ondas mais “longas” e energéticas (swell), que podem quebrar forte em fundos rasos e gerar ressaca mesmo com vento local fraco.
  • Direção: de onde as ondas vêm. Direção determina exposição de uma enseada, a segurança de uma barra e a condição em um fundeio.

Vento local x swell

Ondas de vento (geradas localmente) tendem a ter período menor e variar rápido com a mudança de vento. Swell (gerado longe) pode chegar com céu bom e vento fraco, mas com grande energia. Para planejamento de janela, não basta olhar “vento fraco”; é necessário olhar ondas e período.

Mar cruzado (cross sea): como reconhecer e por que é perigoso

Mar cruzado ocorre quando há duas (ou mais) ondulações de direções diferentes, por exemplo: swell de sul e onda de vento de leste. Sinais em boletins: duas direções ou observações do tipo “swell + wind sea”. Efeitos:

  • movimento irregular (rolamento + cabeceio alternados);
  • maior chance de embarque de água em embarcações pequenas;
  • dificulta manter proa “confortável” e complica aproximações em barras.

Leitura prática de tábua de marés (passo a passo)

O que você encontra em uma tábua

Em geral, a tábua traz, para um porto de referência:

  • horários de PM e BM;
  • altura prevista em cada extremo (em metros);
  • às vezes, indicação de sizígia/quadratura ou fase lunar.

Passo a passo: escolhendo janela para atravessar uma barra rasa

  1. Defina o requisito de profundidade: calado + margem de segurança (ex.: calado 1,2 m + margem 0,5 m = 1,7 m mínimos).
  2. Identifique o “gargalo”: profundidade mínima da barra/canal na carta náutica (referida ao datum da carta). Ex.: profundidade cartografada 1,0 m no ponto crítico.
  3. Calcule a água disponível pela maré: some a altura de maré prevista ao valor cartografado (ajustando ao datum correto). Ex.: maré 0,9 m → profundidade estimada 1,9 m.
  4. Inclua correções conservadoras: se há previsão de ressaca/baixa pressão/vento empilhando água, o nível pode subir; se há vento afastando água da costa, pode baixar. Como regra de segurança, não conte com “ganhos” meteorológicos para passar raspando; use-os apenas como alerta de que a realidade pode diferir.
  5. Evite corrente máxima: em barras e canais, a corrente costuma ser mais forte entre os extremos. Para reduzir risco, procure janela próxima à virada (slack water) ou com corrente favorável moderada, conforme o local.
  6. Verifique o estado do mar no horário: se ondas aumentam no período da travessia, a barra pode ficar intransponível mesmo com profundidade suficiente.

Exemplo numérico (simplificado):

ItemValor
Calado1,2 m
Margem0,5 m
Mínimo necessário1,7 m
Profundidade na carta (ponto crítico)1,0 m
Altura de maré prevista no horário0,8 m
Profundidade estimada1,8 m

Nesse cenário, a profundidade “fecha” por pouco. Se houver ondas quebrando na barra, erro de datum, assoreamento ou abatimento por corrente, a margem desaparece. A decisão conservadora seria buscar horário com maré maior (ex.: 1,0 m) ou reduzir risco com outra rota/porto.

Passo a passo: planejando fundeio com maré

  1. Veja a BM durante sua permanência e estime a menor profundidade no local.
  2. Confirme o tipo de fundo e abrigo (carta e piloto).
  3. Considere a rotação: com maré/corrente, a embarcação pode girar 180°; garanta que o raio de giro não encoste em baixios, pedras, outras embarcações ou estruturas.
  4. Planeje a saída: se você precisar sair em emergência, verifique se a BM não deixará o canal raso demais.

Leitura prática de boletins de vento e ondas (passo a passo)

Campos que você deve procurar

  • Vento: direção e intensidade (e rajadas, se houver).
  • Ondas: altura significativa, período e direção; às vezes separado em wind sea e swell.
  • Tendência: aumentando/diminuindo e em que horário.

Passo a passo: transformando boletim em decisão de janela

  1. Marque o horário crítico: saída, passagem pela barra/canal, e retorno (não planeje só a ida).
  2. Compare direção de onda com a orientação da costa/barra: ondas entrando “de frente” na barra tendem a quebrar mais; ondas de través aumentam rolamento e dificultam governo.
  3. Use o período como indicador de energia: períodos maiores exigem mais respeito em fundos rasos e arrebentação.
  4. Procure sinais de mar cruzado: duas direções distintas (ex.: swell S e wind sea E). Se houver, aumente margens e evite barras expostas.
  5. Combine com a maré: evite atravessar barra com vazante forte + ondas. Se inevitável, reduza exposição escolhendo momento com corrente menor e ondas em queda.
  6. Defina gatilhos: valores máximos aceitáveis (ex.: Hs, rajadas, período) e um ponto de retorno/aborto antes de entrar na zona crítica.

Janelas de segurança para saída e retorno: como montar um “quadro de decisão”

Checklist operacional (navegação costeira e apoio à aviação)

  • Janela de maré: há profundidade suficiente no pior ponto (barra/canal/área de aproximação) com margem?
  • Janela de corrente: a corrente estará fraca ou favorável no trecho crítico? Há risco de corrente atravessada na manobra?
  • Janela de ondas: altura e período estão dentro do limite da embarcação/operador? A direção expõe a barra/fundeio?
  • Ressaca/elevação: há aviso de ressaca ou tendência de elevação do nível do mar que altere a dinâmica de arrebentação e correntes?
  • Retorno garantido: no horário previsto de volta, a maré não estará baixa demais e o mar não estará pior?

Exemplo de quadro simples (preenchimento rápido)

FatorSaídaRetornoObservação
Altura de maré no ponto críticoOK / Marginal / NãoOK / Marginal / NãoConsiderar BM durante a operação
Corrente (enchente/vazante)Favorável / Neutra / ContraFavorável / Neutra / ContraEvitar vazante forte na barra
Ondas (Hs/T/direção)OK / Marginal / NãoOK / Marginal / NãoPeríodo alto aumenta ressaca
Mar cruzadoSim / NãoSim / NãoSe sim, aumentar limites e cautela

Erros comuns que levam a surpresas

  • Planejar só pela maré e ignorar ondas: profundidade suficiente não garante barra segura.
  • Olhar só a altura de onda e ignorar período/direção: swell longo pode ser mais perigoso que onda mais alta e curta.
  • Desconsiderar o retorno: voltar na BM com mar pior é um padrão recorrente de incidentes.
  • Não prever maré/corrente no fundeio: encalhe na BM e garra com corrente forte.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar a travessia de uma barra rasa com ondas previstas, qual decisão reduz mais o risco operacional segundo a relação entre maré, corrente e estado do mar?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O risco na barra aumenta quando a vazante encontra ondas, deixando-as mais íngremes e quebrando. Por isso, a melhor prática é buscar corrente fraca (perto da virada) e checar ondas (altura, período e direção) no horário, não apenas a maré ou o vento.

Próximo capitúlo

Leitura de previsões e boletins na Meteorologia para Aviação e Navegação: METAR, TAF e avisos meteorológicos

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