O que são METAR, TAF e avisos: para que servem na decisão
METAR é um boletim de observação do tempo em um aeródromo (o que está acontecendo “agora” ou muito recentemente). É a base para avaliar condições reais: teto, visibilidade, vento, fenômenos e pressão.
TAF é uma previsão para o aeródromo, válida por um período (ex.: 24 ou 30 horas, conforme o país), descrevendo a evolução esperada do vento, visibilidade, fenômenos e nuvens. É a base para planejar janela operacional, alternados e combustível/tempo de espera.
Avisos meteorológicos (ex.: SIGMET/AIRMET) destacam fenômenos significativos para a segurança (tempestades severas, turbulência forte, gelo severo, cinzas vulcânicas etc.). Eles não substituem METAR/TAF: complementam com foco em risco.
Na navegação marítima, boletins e avisos (costeiros e de alto-mar) trazem vento, estado do mar (ondas), visibilidade e avisos de mau tempo. A leitura é semelhante: identificar intensidade, tendência e janela de risco.
Como decodificar um METAR: roteiro prático campo a campo
Um METAR é uma sequência padronizada. A forma mais segura de ler é sempre na mesma ordem, evitando “pular” campos e interpretar fora de contexto.
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Estrutura típica
METAR ICAO DDHHMMZ VENTO VIS FENÔMENOS NUVENS TEMP/DEW QNH TENDÊNCIA/REMARKS1) Identificação e horário
- ICAO: código do aeródromo (ex.: SBGR).
- DDHHMMZ: dia do mês e hora/minuto em UTC (Z).
Armadilha comum: confundir o dia do mês com o dia da semana ou com horário local. Em operação, sempre converta para o seu fuso e confirme se o boletim é recente.
2) Vento (direção, intensidade, rajadas e variação)
Formato comum: dddffGggKT (graus verdadeiros e nós). Exemplos:
18012KT: vento de 180° com 12 kt.18012G22KT: 12 kt com rajadas até 22 kt.VRB03KT: direção variável, 3 kt (típico de vento fraco).00000KT: calmaria.140V220: variação direcional entre 140° e 220° (importante para escolha de pista e estabilidade na aproximação).
Armadilhas comuns:
- Rajada não é média: o valor antes do “G” é o vento sustentado; o após “G” é pico. Para decolagem/pouso, a rajada pode ser o limitante operacional.
- Variação ampla (ex.: 140V220) pode indicar instabilidade/efeitos locais; não trate como “vento de través constante”.
3) Visibilidade e alcance visual de pista (RVR)
- Visibilidade em metros (muitos países):
9999significa 10 km ou mais. - Em alguns formatos, pode aparecer em milhas (ex.:
1/2SM). - RVR:
R27/0600(pista 27 com RVR 600 m). Pode ter tendência:R27/0600V0800U(variando 600–800 m, tendência de aumento “U”).
Armadilhas comuns:
- 9999 não é “ilimitada”: é “≥10 km”. Em navegação visual, ainda pode haver camadas de fumaça/bruma acima de 10 km que afetam contraste.
- RVR pode ser mais restritivo que a visibilidade geral: para operação em pista, o RVR é decisivo quando reportado.
4) Fenômenos presentes (tempo significativo)
Os códigos combinam intensidade e tipo. Exemplos frequentes:
-RA: chuva fraca;RA: chuva;+RA: chuva forte.BR: névoa úmida (reduz visibilidade);FG: nevoeiro.TS: trovoada;TSRA: trovoada com chuva.SQ: rajada de vento (squall).HZ: névoa seca/poeira (haze).
Armadilha comum: interpretar BR como “sem impacto”. Na prática, BR pode degradar referências visuais, especialmente ao amanhecer/anoitecer e sobre água.
5) Nuvens e teto
Camadas: FEW (1–2/8), SCT (3–4/8), BKN (5–7/8), OVC (8/8). A altura vem em centenas de pés AGL: BKN015 = base a 1500 ft.
NSC: sem nuvens significativas.VV002: visibilidade vertical 200 ft (céu encoberto por fenômeno, sem base definida).CBouTCUpodem aparecer após a camada (ex.:SCT030CB).
Regra operacional importante: o teto é normalmente a camada BKN ou OVC mais baixa (ou VV). Camadas FEW/SCT não definem teto, mas podem esconder células/chuva local.
Armadilha comum: ler SCT008 BKN020 e assumir “teto 800 ft”. O teto é 2000 ft (BKN020), mas a camada SCT a 800 ft pode afetar VFR e percepção de “buracos” na camada.
6) Temperatura e ponto de orvalho
Formato: TT/DD. Valores negativos usam M (minus): M02/M05 = -2°C / -5°C.
Armadilha comum: confundir M com “médio”. É “menos”.
7) QNH (pressão ao nível do mar para altímetro)
Formato comum: Q1013 (hPa). Em alguns boletins: A2992 (polegadas de mercúrio).
Armadilha comum: misturar unidades. Se o seu procedimento usa hPa, não converta “no olho”; use conversão padronizada ou ajuste conforme o padrão local.
8) Tendência (quando presente)
Alguns METAR trazem tendência curta, como NOSIG (sem mudança significativa), ou grupos como TEMPO e BECMG (dependendo do padrão local).
Armadilha comum: tratar NOSIG como “garantia”. É apenas ausência de mudança significativa prevista no curto prazo definido pelo serviço meteorológico; fenômenos convectivos podem surgir fora do esperado.
Exemplos comentados de METAR (decodificação completa)
Exemplo 1: condições boas com vento moderado
METAR SBGR 121500Z 09012KT 9999 FEW020 SCT040 25/18 Q1016 NOSIG- SBGR, dia 12 às 15:00Z.
- Vento 090°/12 kt (atenção a componente de través conforme pista em uso).
- Visibilidade ≥10 km.
- Nuvens: poucas a 2000 ft e espalhadas a 4000 ft (sem teto definido por BKN/OVC).
- Temperatura/ponto de orvalho 25/18 (umidade moderada; observar possibilidade de redução noturna se houver resfriamento).
- QNH 1016 hPa.
- NOSIG: sem mudança significativa no curto prazo.
Exemplo 2: baixa visibilidade com fenômeno e teto baixo
METAR SBRJ 120600Z 20005KT 1200 BR BKN004 OVC010 19/18 Q1012- Vento fraco 200°/5 kt (pouca mistura; favorece manutenção de baixa visibilidade).
- Visibilidade 1200 m.
- Fenômeno
BR(névoa úmida), coerente com visibilidade reduzida. - Teto:
BKN004= 400 ft (teto operacionalmente crítico), com OVC a 1000 ft. - 19/18: pequena diferença T–Td, compatível com saturação.
Como evitar erro: não olhar apenas a visibilidade (1200 m) e ignorar o teto (400 ft). Para muitos perfis, o teto é o fator limitante.
Exemplo 3: rajadas e trovoada nas proximidades
METAR SBCF 121900Z 33018G30KT 6000 TSRA SCT020CB BKN040 22/20 Q1010- Vento 330°/18 kt com rajadas 30 kt (impacto em controle direcional e performance).
- Visibilidade 6000 m, com
TSRA(trovoada com chuva). - Nuvens:
SCT020CBindica cumulonimbus com base em 2000 ft (mesmo SCT, a presença de CB é um alerta de risco). - BKN040 (teto 4000 ft, mas o risco principal é convectivo).
Como evitar erro: não “normalizar” CB por estar em SCT. CB é um marcador qualitativo de perigo, não apenas de cobertura.
Como decodificar um TAF: entendendo janelas e mudanças
O TAF descreve condições previstas e mudanças ao longo do tempo. A leitura correta depende de identificar: período de validade, condição predominante e grupos de mudança.
Estrutura típica
TAF ICAO DDHHMMZ DDHH/DDHH VENTO VIS FENÔMENOS NUVENS (GRUPOS: BECMG / TEMPO / FM / PROB)Grupos de mudança mais comuns
- FM (From): mudança “a partir de” um horário, geralmente mais abrupta.
- BECMG (Becoming): mudança gradual dentro de uma janela.
- TEMPO: flutuações temporárias (intermitentes) dentro de um período.
- PROB30/PROB40: probabilidade de ocorrer um cenário (geralmente combinado com TEMPO em alguns padrões).
Armadilhas comuns:
- Confundir TEMPO com “vai acontecer”: TEMPO indica ocorrência intermitente; operacionalmente, pode ser suficiente para inviabilizar uma janela se coincidir com seu horário crítico.
- Ignorar a linha base: a condição predominante é o “piso” do planejamento; TEMPO/PROB são “degraus de risco”.
Exemplos comentados de TAF (com leitura por janelas)
Exemplo 1: deterioração gradual com TEMPO de chuva
TAF SBGR 121700Z 1218/1324 09010KT 9999 SCT020 BKN040 TEMPO 1220/1223 4000 -RA BKN015 BECMG 1302/1304 18012KT- Validade: do dia 12 às 18Z até dia 13 às 24Z.
- Condição predominante inicial: vento 090/10, vis ≥10 km, SCT020 BKN040 (teto 4000 ft).
- TEMPO 1220/1223: entre 20Z e 23Z, pode ocorrer vis 4000 m, chuva fraca e BKN015 (teto 1500 ft). Para uma chegada nesse intervalo, planeje como se o pior do TEMPO pudesse coincidir com a aproximação.
- BECMG 1302/1304: entre 02Z e 04Z do dia 13, vento muda gradualmente para 180/12.
Exemplo 2: mudança abrupta (FM) e probabilidade de trovoada
TAF SBRJ 120900Z 1210/1316 22008KT 8000 SCT020 BKN030 PROB30 TEMPO 1214/1218 3000 TSRA BKN012CB FM122000 18015G25KT 5000 RA BKN015- Base: 220/08, 8 km, SCT020 BKN030 (teto 3000 ft).
- PROB30 TEMPO 1214/1218: 30% de chance de, temporariamente, entre 14Z e 18Z, cair para 3000 m com TSRA e BKN012CB. Mesmo com 30%, o impacto é alto; avalie alternado/atraso tático.
- FM122000: a partir de 20Z, muda para vento 180/15G25, vis 5000, chuva e teto 1500 ft. Aqui, a condição predominante após 20Z já é mais restritiva.
Variações comuns e como não cair em interpretações equivocadas
Unidades e formatos
- Vento: normalmente em nós (KT). Em alguns boletins pode aparecer em m/s (menos comum em aviação internacional, mas possível em contextos locais).
- Visibilidade: metros (ex.: 4000) ou milhas estatutas (SM). Treine reconhecer o sufixo
SM. - Pressão:
Q(hPa) vsA(inHg). Não misture.
“CAVOK”, “NSC”, “SKC”
- CAVOK: visibilidade ≥10 km, sem nuvens abaixo de um limite relevante e sem fenômenos significativos. Ainda assim, não significa ausência de turbulência/ondas (para navegação) ou ausência de risco convectivo distante.
- NSC/SKC: sem nuvens significativas/sem nuvens. Atenção: pode haver bruma seca (HZ) ou fumaça (FU) reduzindo contraste sem nuvens.
Camadas e teto: o erro mais frequente
O teto é definido por BKN/OVC (ou VV). Camadas FEW/SCT podem ser relevantes para VFR, mas não são teto. Ao planejar mínimos, sempre identifique a primeira BKN/OVC/VV.
“NOSIG” e “TEMPO”: leitura conservadora
- NOSIG não elimina risco de mudanças rápidas fora do critério de “significativo” do boletim.
- TEMPO pode ser decisivo: se o seu ponto crítico (decolagem, aproximação, passagem de barra/canal) cair dentro da janela TEMPO, trate como cenário plausível.
Noções de SIGMET e AIRMET (conceitual e uso prático)
SIGMET é um aviso para fenômenos meteorológicos significativos que podem afetar a segurança de aeronaves em rota ou em áreas amplas (ex.: turbulência severa, gelo severo, tempestades severas, cinzas vulcânicas, ciclones tropicais). Ele descreve área, níveis/altitudes e movimento/intensidade.
AIRMET (onde aplicável) cobre fenômenos de menor severidade que ainda exigem atenção operacional (ex.: turbulência moderada, gelo moderado, montanhas obscurecidas), frequentemente para aviação geral.
Como usar sem “superestimar” ou “subestimar”:
- Use SIGMET/AIRMET para consciência situacional e evitar áreas, não como substituto do METAR/TAF do destino.
- Se o aviso cita movimento e tendência (intensificando/enfraquecendo), compare com seu horário de passagem e com imagens/relatos disponíveis no briefing operacional.
Boletins marítimos e avisos de mau tempo: leitura operacional (vento, ondas e alertas)
Boletins marítimos variam por serviço meteorológico, mas geralmente incluem:
- Vento: direção e intensidade média, às vezes rajadas. Em navegação, rajadas e mudanças rápidas podem ser mais críticas que a média.
- Ondas: altura significativa (Hs) e período; às vezes direção da ondulação (swell) separada do mar de vento.
- Avisos: vendaval, tempestade, ressaca, mar grosso, visibilidade reduzida, trovoadas.
Erros comuns na interpretação marítima:
- Confundir altura significativa com “altura máxima”: Hs representa uma média das maiores ondas; ondas máximas podem ser consideravelmente maiores. Planeje margem.
- Ignorar período: mesma altura com período maior pode gerar movimento mais amplo e risco diferente (embarque de água, esforço estrutural, conforto e segurança de manobra).
- Somar swell e mar de vento como se fossem uma única onda: quando vêm de direções diferentes, a condição pode ficar cruzada e mais difícil, mesmo sem “altura extrema”.
Exemplo comentado (formato genérico)
BOLETIM MARÍTIMO (24h): Vento NE 15-20 kt, rajadas 25 kt. Ondas 2.0-2.5 m, período 8 s, swell de SE 1.5 m/12 s. Aviso: trovoadas isoladas e pancadas.- Vento com rajadas 25 kt: risco para manobra em baixa velocidade, atracação e navegação costeira exposta.
- Ondas 2.0–2.5 m com período 8 s: mar de vento relativamente “curto” (batida mais frequente).
- Swell SE 1.5 m/12 s: ondulação mais longa e energética; se cruzada com o mar de vento, pode gerar balanço irregular.
- Trovoadas isoladas: janela de rajadas, chuva intensa localizada e redução súbita de visibilidade.
Rotina de verificação antes e durante a atividade (aviação e navegação)
Antes (planejamento)
- 1) Colete a “tríade”: METAR atual + TAF válido + avisos (SIGMET/AIRMET; no mar, avisos costeiros/alto-mar).
- 2) Leia em ordem fixa: vento → vis/RVR → fenômenos → nuvens/teto → temp/dew → QNH → tendências.
- 3) Identifique limitantes: o que primeiro viola seus mínimos/limites (teto, vis, vento/rajada, fenômeno significativo, ondas).
- 4) Procure janelas no TAF: marque períodos
TEMPO,PROB,FM,BECMGe compare com seu horário crítico. - 5) Faça “checagem de coerência”: METAR e TAF contam a mesma história? Se divergem, aumente conservadorismo e busque atualização/boletins adicionais.
- 6) Defina gatilhos de decisão: valores que acionam alternativa (ex.: teto abaixo de X, rajada acima de Y, RVR abaixo de Z; no mar, ondas acima de Hs ou aviso de vendaval).
Durante (monitoramento)
- 1) Atualize em ciclos: rechecagem periódica (ex.: a cada hora ou antes de fases críticas) e sempre após perceber mudança (aumento de rajadas, escurecimento convectivo, queda de vis).
- 2) Compare tendência: novo METAR vs anterior (vento girando/fortalecendo, vis caindo, teto baixando, QNH mudando).
- 3) Trate “piora rápida” como real: se sinais operacionais indicam deterioração mais rápida que o previsto, priorize segurança (espera, desvio, retorno, abrigo).
- 4) Registre e comunique: em equipe, padronize a leitura em voz alta (campo a campo) para reduzir erro humano.
Checklist de decodificação rápida (para treino)
| Item | O que procurar | Erro típico |
|---|---|---|
| Hora (Z) | Recência e conversão para local | Usar boletim antigo |
| Vento | Direção, intensidade, rajadas, variação | Ignorar rajadas/variação |
| Vis/RVR | Valor e tendência (U/D) | Olhar só vis geral e esquecer RVR |
| Fenômenos | TS, RA, BR/FG, SQ, HZ | Minimizar BR/TS |
| Nuvens/teto | Primeira BKN/OVC/VV e altura | Tratar SCT como teto |
| Temp/Dew | Negativos (M), proximidade T–Td | Confundir “M” |
| QNH | Q vs A (unidade) | Misturar hPa e inHg |
| TAF mudanças | FM/BECMG/TEMPO/PROB | Ignorar TEMPO/PROB em horário crítico |