Leitura de previsões e boletins na Meteorologia para Aviação e Navegação: METAR, TAF e avisos meteorológicos

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que são METAR, TAF e avisos: para que servem na decisão

METAR é um boletim de observação do tempo em um aeródromo (o que está acontecendo “agora” ou muito recentemente). É a base para avaliar condições reais: teto, visibilidade, vento, fenômenos e pressão.

TAF é uma previsão para o aeródromo, válida por um período (ex.: 24 ou 30 horas, conforme o país), descrevendo a evolução esperada do vento, visibilidade, fenômenos e nuvens. É a base para planejar janela operacional, alternados e combustível/tempo de espera.

Avisos meteorológicos (ex.: SIGMET/AIRMET) destacam fenômenos significativos para a segurança (tempestades severas, turbulência forte, gelo severo, cinzas vulcânicas etc.). Eles não substituem METAR/TAF: complementam com foco em risco.

Na navegação marítima, boletins e avisos (costeiros e de alto-mar) trazem vento, estado do mar (ondas), visibilidade e avisos de mau tempo. A leitura é semelhante: identificar intensidade, tendência e janela de risco.

Como decodificar um METAR: roteiro prático campo a campo

Um METAR é uma sequência padronizada. A forma mais segura de ler é sempre na mesma ordem, evitando “pular” campos e interpretar fora de contexto.

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Estrutura típica

METAR ICAO DDHHMMZ VENTO VIS FENÔMENOS NUVENS TEMP/DEW QNH TENDÊNCIA/REMARKS

1) Identificação e horário

  • ICAO: código do aeródromo (ex.: SBGR).
  • DDHHMMZ: dia do mês e hora/minuto em UTC (Z).

Armadilha comum: confundir o dia do mês com o dia da semana ou com horário local. Em operação, sempre converta para o seu fuso e confirme se o boletim é recente.

2) Vento (direção, intensidade, rajadas e variação)

Formato comum: dddffGggKT (graus verdadeiros e nós). Exemplos:

  • 18012KT: vento de 180° com 12 kt.
  • 18012G22KT: 12 kt com rajadas até 22 kt.
  • VRB03KT: direção variável, 3 kt (típico de vento fraco).
  • 00000KT: calmaria.
  • 140V220: variação direcional entre 140° e 220° (importante para escolha de pista e estabilidade na aproximação).

Armadilhas comuns:

  • Rajada não é média: o valor antes do “G” é o vento sustentado; o após “G” é pico. Para decolagem/pouso, a rajada pode ser o limitante operacional.
  • Variação ampla (ex.: 140V220) pode indicar instabilidade/efeitos locais; não trate como “vento de través constante”.

3) Visibilidade e alcance visual de pista (RVR)

  • Visibilidade em metros (muitos países): 9999 significa 10 km ou mais.
  • Em alguns formatos, pode aparecer em milhas (ex.: 1/2SM).
  • RVR: R27/0600 (pista 27 com RVR 600 m). Pode ter tendência: R27/0600V0800U (variando 600–800 m, tendência de aumento “U”).

Armadilhas comuns:

  • 9999 não é “ilimitada”: é “≥10 km”. Em navegação visual, ainda pode haver camadas de fumaça/bruma acima de 10 km que afetam contraste.
  • RVR pode ser mais restritivo que a visibilidade geral: para operação em pista, o RVR é decisivo quando reportado.

4) Fenômenos presentes (tempo significativo)

Os códigos combinam intensidade e tipo. Exemplos frequentes:

  • -RA: chuva fraca; RA: chuva; +RA: chuva forte.
  • BR: névoa úmida (reduz visibilidade); FG: nevoeiro.
  • TS: trovoada; TSRA: trovoada com chuva.
  • SQ: rajada de vento (squall).
  • HZ: névoa seca/poeira (haze).

Armadilha comum: interpretar BR como “sem impacto”. Na prática, BR pode degradar referências visuais, especialmente ao amanhecer/anoitecer e sobre água.

5) Nuvens e teto

Camadas: FEW (1–2/8), SCT (3–4/8), BKN (5–7/8), OVC (8/8). A altura vem em centenas de pés AGL: BKN015 = base a 1500 ft.

  • NSC: sem nuvens significativas.
  • VV002: visibilidade vertical 200 ft (céu encoberto por fenômeno, sem base definida).
  • CB ou TCU podem aparecer após a camada (ex.: SCT030CB).

Regra operacional importante: o teto é normalmente a camada BKN ou OVC mais baixa (ou VV). Camadas FEW/SCT não definem teto, mas podem esconder células/chuva local.

Armadilha comum: ler SCT008 BKN020 e assumir “teto 800 ft”. O teto é 2000 ft (BKN020), mas a camada SCT a 800 ft pode afetar VFR e percepção de “buracos” na camada.

6) Temperatura e ponto de orvalho

Formato: TT/DD. Valores negativos usam M (minus): M02/M05 = -2°C / -5°C.

Armadilha comum: confundir M com “médio”. É “menos”.

7) QNH (pressão ao nível do mar para altímetro)

Formato comum: Q1013 (hPa). Em alguns boletins: A2992 (polegadas de mercúrio).

Armadilha comum: misturar unidades. Se o seu procedimento usa hPa, não converta “no olho”; use conversão padronizada ou ajuste conforme o padrão local.

8) Tendência (quando presente)

Alguns METAR trazem tendência curta, como NOSIG (sem mudança significativa), ou grupos como TEMPO e BECMG (dependendo do padrão local).

Armadilha comum: tratar NOSIG como “garantia”. É apenas ausência de mudança significativa prevista no curto prazo definido pelo serviço meteorológico; fenômenos convectivos podem surgir fora do esperado.

Exemplos comentados de METAR (decodificação completa)

Exemplo 1: condições boas com vento moderado

METAR SBGR 121500Z 09012KT 9999 FEW020 SCT040 25/18 Q1016 NOSIG
  • SBGR, dia 12 às 15:00Z.
  • Vento 090°/12 kt (atenção a componente de través conforme pista em uso).
  • Visibilidade ≥10 km.
  • Nuvens: poucas a 2000 ft e espalhadas a 4000 ft (sem teto definido por BKN/OVC).
  • Temperatura/ponto de orvalho 25/18 (umidade moderada; observar possibilidade de redução noturna se houver resfriamento).
  • QNH 1016 hPa.
  • NOSIG: sem mudança significativa no curto prazo.

Exemplo 2: baixa visibilidade com fenômeno e teto baixo

METAR SBRJ 120600Z 20005KT 1200 BR BKN004 OVC010 19/18 Q1012
  • Vento fraco 200°/5 kt (pouca mistura; favorece manutenção de baixa visibilidade).
  • Visibilidade 1200 m.
  • Fenômeno BR (névoa úmida), coerente com visibilidade reduzida.
  • Teto: BKN004 = 400 ft (teto operacionalmente crítico), com OVC a 1000 ft.
  • 19/18: pequena diferença T–Td, compatível com saturação.

Como evitar erro: não olhar apenas a visibilidade (1200 m) e ignorar o teto (400 ft). Para muitos perfis, o teto é o fator limitante.

Exemplo 3: rajadas e trovoada nas proximidades

METAR SBCF 121900Z 33018G30KT 6000 TSRA SCT020CB BKN040 22/20 Q1010
  • Vento 330°/18 kt com rajadas 30 kt (impacto em controle direcional e performance).
  • Visibilidade 6000 m, com TSRA (trovoada com chuva).
  • Nuvens: SCT020CB indica cumulonimbus com base em 2000 ft (mesmo SCT, a presença de CB é um alerta de risco).
  • BKN040 (teto 4000 ft, mas o risco principal é convectivo).

Como evitar erro: não “normalizar” CB por estar em SCT. CB é um marcador qualitativo de perigo, não apenas de cobertura.

Como decodificar um TAF: entendendo janelas e mudanças

O TAF descreve condições previstas e mudanças ao longo do tempo. A leitura correta depende de identificar: período de validade, condição predominante e grupos de mudança.

Estrutura típica

TAF ICAO DDHHMMZ DDHH/DDHH VENTO VIS FENÔMENOS NUVENS  (GRUPOS: BECMG / TEMPO / FM / PROB)

Grupos de mudança mais comuns

  • FM (From): mudança “a partir de” um horário, geralmente mais abrupta.
  • BECMG (Becoming): mudança gradual dentro de uma janela.
  • TEMPO: flutuações temporárias (intermitentes) dentro de um período.
  • PROB30/PROB40: probabilidade de ocorrer um cenário (geralmente combinado com TEMPO em alguns padrões).

Armadilhas comuns:

  • Confundir TEMPO com “vai acontecer”: TEMPO indica ocorrência intermitente; operacionalmente, pode ser suficiente para inviabilizar uma janela se coincidir com seu horário crítico.
  • Ignorar a linha base: a condição predominante é o “piso” do planejamento; TEMPO/PROB são “degraus de risco”.

Exemplos comentados de TAF (com leitura por janelas)

Exemplo 1: deterioração gradual com TEMPO de chuva

TAF SBGR 121700Z 1218/1324 09010KT 9999 SCT020 BKN040 TEMPO 1220/1223 4000 -RA BKN015 BECMG 1302/1304 18012KT
  • Validade: do dia 12 às 18Z até dia 13 às 24Z.
  • Condição predominante inicial: vento 090/10, vis ≥10 km, SCT020 BKN040 (teto 4000 ft).
  • TEMPO 1220/1223: entre 20Z e 23Z, pode ocorrer vis 4000 m, chuva fraca e BKN015 (teto 1500 ft). Para uma chegada nesse intervalo, planeje como se o pior do TEMPO pudesse coincidir com a aproximação.
  • BECMG 1302/1304: entre 02Z e 04Z do dia 13, vento muda gradualmente para 180/12.

Exemplo 2: mudança abrupta (FM) e probabilidade de trovoada

TAF SBRJ 120900Z 1210/1316 22008KT 8000 SCT020 BKN030 PROB30 TEMPO 1214/1218 3000 TSRA BKN012CB FM122000 18015G25KT 5000 RA BKN015
  • Base: 220/08, 8 km, SCT020 BKN030 (teto 3000 ft).
  • PROB30 TEMPO 1214/1218: 30% de chance de, temporariamente, entre 14Z e 18Z, cair para 3000 m com TSRA e BKN012CB. Mesmo com 30%, o impacto é alto; avalie alternado/atraso tático.
  • FM122000: a partir de 20Z, muda para vento 180/15G25, vis 5000, chuva e teto 1500 ft. Aqui, a condição predominante após 20Z já é mais restritiva.

Variações comuns e como não cair em interpretações equivocadas

Unidades e formatos

  • Vento: normalmente em nós (KT). Em alguns boletins pode aparecer em m/s (menos comum em aviação internacional, mas possível em contextos locais).
  • Visibilidade: metros (ex.: 4000) ou milhas estatutas (SM). Treine reconhecer o sufixo SM.
  • Pressão: Q (hPa) vs A (inHg). Não misture.

“CAVOK”, “NSC”, “SKC”

  • CAVOK: visibilidade ≥10 km, sem nuvens abaixo de um limite relevante e sem fenômenos significativos. Ainda assim, não significa ausência de turbulência/ondas (para navegação) ou ausência de risco convectivo distante.
  • NSC/SKC: sem nuvens significativas/sem nuvens. Atenção: pode haver bruma seca (HZ) ou fumaça (FU) reduzindo contraste sem nuvens.

Camadas e teto: o erro mais frequente

O teto é definido por BKN/OVC (ou VV). Camadas FEW/SCT podem ser relevantes para VFR, mas não são teto. Ao planejar mínimos, sempre identifique a primeira BKN/OVC/VV.

“NOSIG” e “TEMPO”: leitura conservadora

  • NOSIG não elimina risco de mudanças rápidas fora do critério de “significativo” do boletim.
  • TEMPO pode ser decisivo: se o seu ponto crítico (decolagem, aproximação, passagem de barra/canal) cair dentro da janela TEMPO, trate como cenário plausível.

Noções de SIGMET e AIRMET (conceitual e uso prático)

SIGMET é um aviso para fenômenos meteorológicos significativos que podem afetar a segurança de aeronaves em rota ou em áreas amplas (ex.: turbulência severa, gelo severo, tempestades severas, cinzas vulcânicas, ciclones tropicais). Ele descreve área, níveis/altitudes e movimento/intensidade.

AIRMET (onde aplicável) cobre fenômenos de menor severidade que ainda exigem atenção operacional (ex.: turbulência moderada, gelo moderado, montanhas obscurecidas), frequentemente para aviação geral.

Como usar sem “superestimar” ou “subestimar”:

  • Use SIGMET/AIRMET para consciência situacional e evitar áreas, não como substituto do METAR/TAF do destino.
  • Se o aviso cita movimento e tendência (intensificando/enfraquecendo), compare com seu horário de passagem e com imagens/relatos disponíveis no briefing operacional.

Boletins marítimos e avisos de mau tempo: leitura operacional (vento, ondas e alertas)

Boletins marítimos variam por serviço meteorológico, mas geralmente incluem:

  • Vento: direção e intensidade média, às vezes rajadas. Em navegação, rajadas e mudanças rápidas podem ser mais críticas que a média.
  • Ondas: altura significativa (Hs) e período; às vezes direção da ondulação (swell) separada do mar de vento.
  • Avisos: vendaval, tempestade, ressaca, mar grosso, visibilidade reduzida, trovoadas.

Erros comuns na interpretação marítima:

  • Confundir altura significativa com “altura máxima”: Hs representa uma média das maiores ondas; ondas máximas podem ser consideravelmente maiores. Planeje margem.
  • Ignorar período: mesma altura com período maior pode gerar movimento mais amplo e risco diferente (embarque de água, esforço estrutural, conforto e segurança de manobra).
  • Somar swell e mar de vento como se fossem uma única onda: quando vêm de direções diferentes, a condição pode ficar cruzada e mais difícil, mesmo sem “altura extrema”.

Exemplo comentado (formato genérico)

BOLETIM MARÍTIMO (24h): Vento NE 15-20 kt, rajadas 25 kt. Ondas 2.0-2.5 m, período 8 s, swell de SE 1.5 m/12 s. Aviso: trovoadas isoladas e pancadas.
  • Vento com rajadas 25 kt: risco para manobra em baixa velocidade, atracação e navegação costeira exposta.
  • Ondas 2.0–2.5 m com período 8 s: mar de vento relativamente “curto” (batida mais frequente).
  • Swell SE 1.5 m/12 s: ondulação mais longa e energética; se cruzada com o mar de vento, pode gerar balanço irregular.
  • Trovoadas isoladas: janela de rajadas, chuva intensa localizada e redução súbita de visibilidade.

Rotina de verificação antes e durante a atividade (aviação e navegação)

Antes (planejamento)

  • 1) Colete a “tríade”: METAR atual + TAF válido + avisos (SIGMET/AIRMET; no mar, avisos costeiros/alto-mar).
  • 2) Leia em ordem fixa: vento → vis/RVR → fenômenos → nuvens/teto → temp/dew → QNH → tendências.
  • 3) Identifique limitantes: o que primeiro viola seus mínimos/limites (teto, vis, vento/rajada, fenômeno significativo, ondas).
  • 4) Procure janelas no TAF: marque períodos TEMPO, PROB, FM, BECMG e compare com seu horário crítico.
  • 5) Faça “checagem de coerência”: METAR e TAF contam a mesma história? Se divergem, aumente conservadorismo e busque atualização/boletins adicionais.
  • 6) Defina gatilhos de decisão: valores que acionam alternativa (ex.: teto abaixo de X, rajada acima de Y, RVR abaixo de Z; no mar, ondas acima de Hs ou aviso de vendaval).

Durante (monitoramento)

  • 1) Atualize em ciclos: rechecagem periódica (ex.: a cada hora ou antes de fases críticas) e sempre após perceber mudança (aumento de rajadas, escurecimento convectivo, queda de vis).
  • 2) Compare tendência: novo METAR vs anterior (vento girando/fortalecendo, vis caindo, teto baixando, QNH mudando).
  • 3) Trate “piora rápida” como real: se sinais operacionais indicam deterioração mais rápida que o previsto, priorize segurança (espera, desvio, retorno, abrigo).
  • 4) Registre e comunique: em equipe, padronize a leitura em voz alta (campo a campo) para reduzir erro humano.

Checklist de decodificação rápida (para treino)

ItemO que procurarErro típico
Hora (Z)Recência e conversão para localUsar boletim antigo
VentoDireção, intensidade, rajadas, variaçãoIgnorar rajadas/variação
Vis/RVRValor e tendência (U/D)Olhar só vis geral e esquecer RVR
FenômenosTS, RA, BR/FG, SQ, HZMinimizar BR/TS
Nuvens/tetoPrimeira BKN/OVC/VV e alturaTratar SCT como teto
Temp/DewNegativos (M), proximidade T–TdConfundir “M”
QNHQ vs A (unidade)Misturar hPa e inHg
TAF mudançasFM/BECMG/TEMPO/PROBIgnorar TEMPO/PROB em horário crítico

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao interpretar a seção de nuvens em um METAR, qual critério é usado para determinar o teto operacional?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O teto é normalmente definido pela camada mais baixa com cobertura BKN ou OVC, ou pela VV. Camadas FEW/SCT não definem teto, embora possam ser relevantes para operação visual.

Próximo capitúlo

Tomada de decisão meteorológica na Aviação e Navegação: limites pessoais, sinais de mudança e planos alternativos

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