O que é mapear o fluxo de materiais (do recebimento ao envio)
Mapear o fluxo de materiais é descrever, com evidências, o caminho real que um material percorre dentro da fábrica: onde ele entra, por quais pontos passa, onde espera, como é transportado, onde é transformado e onde sai. O foco é o “como acontece de verdade” (fluxo real), e não o fluxo “como deveria ser” em procedimentos.
Um bom mapeamento responde perguntas objetivas: de onde para onde o material vai, por qual rota, com que frequência, em que quantidade, com qual meio de transporte, quanto tempo leva (movimentação e espera) e quais desvios ocorrem (retornos, reprocessos, falta de material, bloqueios de segurança).
Escopo típico do fluxo
- Recebimento (doca, conferência, identificação)
- Inspeção/qualidade (amostragem, quarentena, liberação)
- Armazenagem (endereçamento, picking, reposição)
- Abastecimento de linha (supermercado, kitting, milk run, entrega direta)
- Processos produtivos (operações, transferências entre células/linhas)
- WIP (estoque em processo: buffers, filas, pulmões)
- Embalagem e expedição (consolidação, staging, carregamento)
Dados mínimos para levantar (checklist prático)
Antes de desenhar, levante um conjunto mínimo de dados. Isso evita mapas bonitos, porém inúteis para decisão.
1) Produtos e famílias
- Liste as famílias (itens com rota e características logísticas semelhantes).
- Para cada família, selecione 1 a 3 SKUs representativos (maior volume, maior criticidade, maior complexidade).
- Registre: unidade logística (caixa, pallet, contêiner), dimensões aproximadas e restrições (fragilidade, ESD, temperatura, perigosos).
2) Volumes e frequência
- Volume por período: dia/turno (ex.: 120 caixas/dia; 18 pallets/turno).
- Frequência de movimentação: viagens/hora ou entregas/turno.
- Tamanho de lote típico: por entrega, por ordem, por pallet.
3) Rotas e pontos de parada
- Origem e destino de cada etapa (ex.: Doca 2 → Inspeção → Quarentena → Almoxarifado A → Supermercado → Linha 3).
- Pontos de espera: filas, staging, áreas de “encosto”, buffers.
- Identifique retornos (volta ao almoxarifado, volta à inspeção, reprocesso).
4) Meios de transporte e recursos
- Tipo: empilhadeira, transpaleteira, carrinho, AGV, esteira, manual.
- Capacidade: caixas/viagem, pallets/viagem, limite de peso.
- Recursos: número de operadores, turnos, disponibilidade, compartilhamento com outras áreas.
5) Tempos e horários de pico
- Tempo de deslocamento (min) e tempo de espera (min) por etapa.
- Horários de pico: recebimento concentrado, janelas de expedição, troca de turno, horários de refeição.
- Eventos que geram pico: fechamento de carga, inventário cíclico, inspeção concentrada.
6) Restrições de segurança e operação
- Corredores segregados (pedestres x veículos), áreas com velocidade limitada.
- Portas, docas, elevadores, rampas, cruzamentos críticos.
- Áreas com acesso controlado (quarentena, químicos, ESD).
- Regras de empilhamento, altura, amarração, estabilidade.
Modelo simples de coleta (tabela)
| Campo | Exemplo (preencher em campo) |
|---|---|
| Família/SKU | Família A / SKU A1 |
| Unidade logística | Caixa (12 kg) / Pallet (48 caixas) |
| Volume | 240 caixas/dia |
| Etapas (origem→destino) | Doca→Inspeção→Almox→Supermercado→Linha→WIP→Embalagem→Expedição |
| Transporte | Transpaleteira + carrinho |
| Frequência | Entrega na linha a cada 60 min |
| Tempos | Desloc.: 4 min; Espera: 15 min (inspeção) |
| Restrições | Cruzamento com pedestres; porta estreita |
| Desvios | Retorno para reetiquetar 1x/dia |
Como observar o fluxo real (gemba) sem “contaminar” o processo
Para capturar o fluxo real, observe em diferentes momentos (pico e vale) e siga um lote físico (uma caixa/pallet) do início ao fim. Evite depender apenas de entrevistas: elas ajudam, mas tendem a descrever o processo “ideal”.
- Siga o material: acompanhe uma unidade logística e registre cada parada.
- Marque tempos: use cronômetro simples (celular) para deslocamento e espera.
- Registre evidências: foto do local (quando permitido), número do endereço, etiqueta, placa de área.
- Capture exceções: “hoje foi diferente” é justamente o que revela gargalos e riscos.
Passo a passo: desenhar um fluxograma simples do fluxo de materiais
O fluxograma organiza a sequência lógica das etapas e decisões (inspeção aprovada? vai para quarentena? precisa reembalar?). Ele é útil para alinhar entendimento e identificar retornos e loops.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Passo 1 — Defina o objeto do mapa
- Escolha uma família e um SKU representativo.
- Defina o ponto inicial e final: da doca de recebimento até a doca de expedição (ou até o cliente interno, se aplicável).
Passo 2 — Liste as etapas reais (sem julgar)
- Escreva cada etapa como um verbo + local: “Conferir na Doca 1”, “Inspecionar no CQ”, “Armazenar no Almox A”.
- Inclua etapas “invisíveis”: esperar, procurar, reetiquetar, reembalar, contar, separar.
Passo 3 — Insira decisões e exceções
- Decisões típicas: “Aprovado na inspeção?”, “Material completo?”, “Endereço disponível?”.
- Para cada “não”, desenhe o caminho alternativo (quarentena, devolução, reprocesso, área de pendência).
Passo 4 — Adicione dados mínimos em cada etapa
- Tempo de execução (se aplicável) e tempo de espera.
- Responsável (logística, qualidade, produção).
- Meio de transporte e unidade logística.
Passo 5 — Destaque loops (retornos) e pontos de espera
- Use marcação consistente: por exemplo, “R” para retorno e “E” para espera.
- Exemplos de loops: volta para reetiquetar; volta para inspeção; retorno ao almox por falta de espaço na linha.
Exemplo de fluxograma (texto estruturado)
Receber na doca → Conferir NF/etiqueta → (Decisão) Inspeção necessária? ──não→ Armazenar (endereço) → Separar (picking) → Abastecer linha → Processo 1 → WIP → Processo 2 → Embalar → Staging expedição → Carregar → Enviar cliente └─sim→ Inspecionar → (Decisão) Aprovado? ──sim→ Armazenar... └─não→ Quarentena → (Decisão) Reinspeção/Reprocesso? → Retornar para inspeção ou devoluçãoPasso a passo: desenhar o diagrama de fluxo na planta (espaguete)
O diagrama “espaguete” é o traçado do caminho físico sobre a planta, mostrando distâncias, cruzamentos e idas e voltas. Ele evidencia desperdícios de movimentação, rotas inseguras e pontos de conflito.
Preparação
- Tenha uma planta simplificada (pode ser impressão A3/A4): paredes, portas, docas, corredores, áreas (almox, CQ, linhas, expedição).
- Defina uma escala aproximada (mesmo que grosseira) para estimar distâncias.
- Escolha cores/linhas: uma cor para o fluxo principal e outra para desvios/retornos.
Passo 1 — Marque pontos fixos (nós)
- Numere os pontos por onde o material passa: 1) Doca, 2) Conferência, 3) Inspeção, 4) Quarentena, 5) Almox…
- Se houver múltiplas docas/almox, identifique qual é usado pela família escolhida.
Passo 2 — Trace o caminho real (não o “mais curto”)
- Siga a rota que o operador realmente usa (incluindo contornos por bloqueios, mão única, áreas proibidas).
- Desenhe setas indicando sentido.
- Se o material muda de meio de transporte (ex.: empilhadeira → carrinho), marque o ponto de transbordo.
Passo 3 — Registre distâncias e contagens
- Para cada trecho entre nós, anote: distância estimada (m) e frequência (viagens/dia).
- Se útil, calcule “metros por dia” do trecho:
distância × viagens.
Passo 4 — Marque esperas, filas e estacionamentos
- Use um símbolo consistente (ex.: um quadrado) para “ponto de espera”.
- Anote o tempo típico e o motivo: aguardando inspeção, aguardando empilhadeira, aguardando liberação de endereço, aguardando janela de expedição.
Passo 5 — Destaque desvios e retornos
- Desvio: rota alternativa por bloqueio, congestionamento ou regra de segurança.
- Retorno: o material volta para um ponto anterior (ex.: volta ao CQ, volta ao almox, volta para reembalar).
- Indique a causa ao lado da linha: “falta etiqueta”, “endereço cheio”, “fila CQ”, “porta travada”, “prioridade expedição”.
Passo 6 — Valide com quem executa
- Mostre o espaguete para logística, qualidade e produção e pergunte: “Em quais dias isso muda?” e “Qual exceção mais frequente?”.
- Atualize o mapa com as variações relevantes (por turno, por dia da semana, por janela de expedição).
Como registrar desvios, retornos e esperas (padrão simples)
Para que o mapeamento vire insumo de melhoria, registre exceções de forma padronizada. Um padrão simples é classificar cada ocorrência e anotar causa e impacto.
Classificação sugerida
- Desvio de rota: caminho alternativo sem voltar etapa (ex.: corredor bloqueado).
- Retorno (loop): volta para etapa anterior (ex.: retorna ao CQ).
- Espera: material parado aguardando recurso, liberação ou espaço.
- Transbordo: troca de meio de transporte/unidade logística (ex.: pallet → caixas).
Tabela de registro de ocorrências
| Tipo | Onde ocorre | Frequência | Causa provável | Impacto |
|---|---|---|---|---|
| Espera | Inspeção | Diária (pico 9–10h) | Chegadas concentradas + capacidade CQ | Fila 20–40 min |
| Retorno | Linha → Almox | 2x/turno | Entrega com item errado / picking | +600 m por ocorrência |
| Desvio | Corredor central | Semanal | Bloqueio por manutenção | Rota +150 m |
| Transbordo | Supermercado | Contínuo | Entrega em pallet, consumo em caixas | +manuseio e tempo |
Exercício guiado: mapear uma família de produto e validar o método
Objetivo: aplicar o método em uma família, gerar um fluxograma e um espaguete, e checar se os dados mínimos são suficientes para discutir melhorias de movimentação e espera.
Cenário do exercício (exemplo)
Família escolhida: Conjunto “A” (componentes metálicos). Unidade logística: caixa (10 kg) e pallet (40 caixas). Volume: 200 caixas/dia. Inspeção por amostragem. Abastecimento na linha a cada 60 minutos.
Passo a passo do exercício
- Defina o SKU representativo: escolha o item de maior volume da família “A”.
- Faça a caminhada do material: acompanhe 1 pallet desde a doca até a linha e depois até expedição do produto acabado (ou até o ponto final definido). Registre cada parada.
- Preencha o checklist de dados mínimos: volumes, frequência, transporte, horários de pico, restrições e exceções observadas.
- Desenhe o fluxograma em rascunho: inclua decisões (inspeção? aprovado?), quarentena, reetiquetagem, reembalagem se existirem.
- Desenhe o espaguete na planta: trace a rota real e marque nós (1,2,3…). Anote distâncias por trecho e frequência.
- Registre 5 ocorrências (no mínimo): pelo menos 2 esperas, 1 retorno e 1 desvio. Se não ocorrerem durante a observação, pergunte ao operador e registre como “relato” (identificando como tal).
- Valide com as áreas: mostre o mapa para logística, CQ e produção e peça para apontarem variações por turno e por dia.
Critérios de validação (o que conferir no seu resultado)
- Você consegue explicar o fluxo completo em menos de 3 minutos, sem lacunas entre etapas?
- O fluxograma mostra claramente decisões e loops (retornos)?
- O espaguete evidencia pelo menos: cruzamentos críticos, pontos de espera e transbordos?
- Há números mínimos para priorizar: distâncias, frequências e tempos de espera?
Entregáveis do exercício (para anexar ao projeto)
- 1 fluxograma simples (uma página) com tempos/esperas principais.
- 1 diagrama espaguete na planta com nós numerados, distâncias e frequências.
- 1 tabela de ocorrências (desvios/retornos/esperas) com causa provável.