Mapa de Riscos no Ambiente de Trabalho: objetivos, limites e entregáveis

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que o Mapa de Riscos deve comunicar (e o que ele não é)

O Mapa de Riscos é uma forma de comunicação visual dos perigos presentes em um ambiente de trabalho, organizada por áreas e com indicação de tipo de risco e intensidade. Ele serve para que qualquer pessoa que circule no local (trabalhadores, liderança, manutenção, terceiros) entenda rapidamente onde estão os principais pontos de atenção e quais cuidados precisam ser priorizados.

Na prática, o mapa deve responder a perguntas simples e operacionais: quais riscos existem, em que locais, com que intensidade relativa e quais fontes de perigo estão associadas a esses riscos.

Decisões que o Mapa de Riscos apoia

  • Priorização de controles: ajuda a decidir por onde começar (ex.: áreas com maior intensidade e maior número de pessoas expostas).
  • Comunicação visual no local: orienta onde reforçar sinalização, demarcações, avisos e instruções de segurança.
  • Planejamento de inspeções e rondas: define roteiros e frequência (ex.: inspeções mais frequentes em áreas com riscos mais intensos).
  • Gestão de mudanças: quando há alteração de layout, processo, produto ou equipamento, o mapa indica rapidamente o que precisa ser reavaliado.
  • Integração de novos trabalhadores e terceiros: permite explicar riscos por setor de forma objetiva, conectando com regras locais.

Limites do Mapa de Riscos (para evitar uso indevido)

O Mapa de Riscos é qualitativo ou semiquantitativo (por critérios simples de intensidade) e não substitui avaliações técnicas quando elas são necessárias por norma, por complexidade do processo ou por decisão de gestão.

  • Não substitui análises quantitativas (ex.: dosimetria de ruído, avaliação de calor, amostragem de agentes químicos, medições de iluminância, vibração, aerodispersoides).
  • Não é um inventário completo de requisitos legais: ele é um instrumento de comunicação e priorização, não uma matriz de conformidade.
  • Não descreve controles em detalhe: pode indicar necessidade de controle, mas os detalhes devem ficar em procedimentos, APR, PT, laudos, planos de ação e registros de manutenção.
  • Não “zera” risco: mesmo com controles, o mapa pode manter a indicação de risco residual, se aplicável.

Definindo escopo: por área/setor e com limites claros

Para o mapa ser útil, ele precisa ter um escopo definido. O erro mais comum é tentar mapear “a empresa inteira” em uma única folha, perdendo legibilidade e precisão. O recomendado é trabalhar por área/setor, com mapas separados quando necessário.

Como definir o escopo por área

  • Critério físico: layout e barreiras (salas, galpões, linhas, docas, corredores, mezaninos).
  • Critério de processo: atividades com perigos distintos (ex.: solda vs. pintura; envase vs. manutenção).
  • Critério de exposição: grupos expostos diferentes (ex.: área administrativa vs. produção; laboratório vs. almoxarifado).
  • Critério de gestão: responsáveis e rotinas de inspeção (ex.: setor com liderança própria e checklists específicos).

Regras práticas de limite do mapa

  • Um mapa deve caber em uma visualização rápida: se ficou “poluído”, divida por subáreas.
  • O mapa representa o ambiente em condições típicas: se há variações relevantes (turnos, sazonalidade, paradas), registre isso na revisão e, se necessário, crie versões por cenário.
  • Inclua interfaces: portas, passagens, áreas de carga/descarga e pontos de manutenção onde pessoas de outros setores entram.
  • Defina o que fica fora: por exemplo, “área externa não incluída”, “canteiro temporário mapeado em documento separado”.

Entregáveis do capítulo (o que será usado ao longo do ebook)

Para padronizar e permitir atualização, o Mapa de Riscos será composto por um conjunto de entregáveis simples. Eles funcionam como um “kit” que pode ser mantido e revisado.

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1) Croqui/planta simplificada

É o desenho base do setor, com elementos suficientes para orientar a leitura. Não precisa ser planta técnica, mas deve ser fiel ao layout.

  • Incluir: paredes/limites, entradas/saídas, circulação principal, postos de trabalho, máquinas principais, áreas de armazenamento, pontos de apoio (painéis elétricos, compressores, caldeira, laboratório, etc.).
  • Boa prática: usar formas simples e manter escala aproximada; priorizar legibilidade.

2) Legenda de tipos de risco

A legenda é a “linguagem” do mapa. Ela padroniza como os riscos aparecem visualmente. Exemplo de estrutura de legenda (ajuste conforme sua política interna):

Tipo de riscoComo identificar no mapaExemplos de fontes de perigo
FísicoSímbolo/cor do tipo físicoRuído, calor, frio, vibração, radiação, pressão
QuímicoSímbolo/cor do tipo químicoSolventes, poeiras, fumos metálicos, gases, névoas
BiológicoSímbolo/cor do tipo biológicoFungos, bactérias, material contaminado, resíduos
ErgonômicoSímbolo/cor do tipo ergonômicoPosturas, repetitividade, levantamento de cargas, ritmo
AcidenteSímbolo/cor do tipo acidenteQuedas, aprisionamento, choque elétrico, atropelamento

Se o ebook adotar um padrão de cores, mantenha-o consistente em todos os mapas e materiais de sinalização associados.

3) Critérios de intensidade (semiquantitativos)

Para o mapa apoiar priorização, é necessário um critério simples e repetível para classificar intensidade. Uma forma prática é usar três níveis (baixo, médio, alto) com base em evidências disponíveis (observação, registros, queixas, incidentes, medições existentes).

NívelCritério prático (exemplo)Indicação no mapa
BaixoExposição eventual; controles presentes e eficazes; sem histórico relevanteMarcador pequeno
MédioExposição frequente; controles parciais; desvios recorrentes ou desconforto relatadoMarcador médio
AltoExposição intensa ou contínua; controle insuficiente; incidentes, quase-acidentes, ou evidência de risco elevadoMarcador grande

Importante: quando houver necessidade de comprovação técnica (por exemplo, ruído possivelmente acima de limites), o mapa deve apontar a necessidade de avaliação quantitativa como ação associada, e não “resolver” o tema apenas com a intensidade visual.

4) Lista de fontes de perigo por área (inventário local)

Além do desenho, mantenha uma lista estruturada por área. Isso evita que o mapa vire apenas “bolinhas no papel” sem rastreabilidade do que motivou cada marcação.

Modelo prático (por setor):

Área/Setor: ______________________  Data: ___/___/____  Responsável: ______________________

Ponto/Local: ______________________
Atividade típica: __________________
Tipo(s) de risco: __________________
Fonte(s) de perigo (o que gera o risco): ______________________________
Quem se expõe: _____________________
Intensidade (baixo/médio/alto): _____
Evidência usada (observação, registro, medição existente): _____________
Controles existentes (EPC/EPI/procedimento): __________________________
Necessita avaliação quantitativa? (sim/não) Qual? ______________________
Ação recomendada (prioridade/prazo): __________________________________

Essa lista também facilita auditorias internas, inspeções e atualização após mudanças.

5) Registro de revisão (controle de versão)

O mapa precisa ser “vivo”. Um registro de revisão garante que todos saibam qual versão está válida, o que mudou e por quê.

VersãoDataÁreaMotivo da revisãoPrincipais alteraçõesResponsável
v1.0__/__/____Setor XCriação inicialMapa base + legenda + intensidades__________
v1.1__/__/____Setor XMudança de layoutReposicionamento de máquina; novo fluxo__________

Gatilhos comuns para revisão: mudança de processo/produto, instalação de equipamento, alteração de layout, ocorrência de incidente, resultados de medições, mudanças de equipe/turno, obras temporárias.

Passo a passo prático para construir o Mapa de Riscos com foco em decisões

Passo 1 — Defina a área e o objetivo operacional

  • Escolha o setor (ex.: “Usinagem”, “Expedição”, “Laboratório”).
  • Defina para que o mapa será usado nos próximos 30–90 dias: priorizar ações? reforçar sinalização? orientar inspeções?
  • Delimite fronteiras: o que entra e o que fica fora do mapa.

Passo 2 — Prepare o croqui/planta simplificada

  • Desenhe o layout com os elementos essenciais.
  • Marque fluxos de pessoas e materiais (setas simples), pois isso influencia exposição e risco de acidentes.
  • Identifique pontos críticos fixos: painéis elétricos, áreas de armazenamento, máquinas de maior energia.

Passo 3 — Levante fontes de perigo por ponto (com evidências)

  • Faça uma caminhada no setor (observação estruturada) e registre por ponto/local.
  • Converse com quem executa a tarefa: pergunte onde “quase deu problema”, onde há desconforto, onde controles falham.
  • Use registros existentes (incidentes, manutenção, queixas, inspeções) como evidência.

Passo 4 — Classifique tipo de risco e intensidade

  • Para cada ponto, selecione o(s) tipo(s) de risco conforme a legenda.
  • Aplique o critério de intensidade (baixo/médio/alto) de forma consistente.
  • Se houver dúvida técnica relevante, registre como necessidade de avaliação quantitativa (entregável 4).

Passo 5 — Transfira para o mapa (com legibilidade)

  • Posicione os marcadores no croqui exatamente onde a exposição ocorre.
  • Evite excesso de símbolos sobrepostos: quando necessário, numere pontos e detalhe na lista de fontes de perigo.
  • Mantenha a legenda visível no próprio documento do mapa.

Passo 6 — Use o mapa para priorizar controles e planejar inspeções

  • Liste os pontos de intensidade alta e defina ações de controle (engenharia, administrativas, EPI) com prazos.
  • Transforme os pontos críticos em itens de checklist de inspeção (ex.: proteções de máquinas, organização, sinalização, bloqueio e etiquetagem).
  • Defina frequência de verificação por criticidade (ex.: semanal para alto, quinzenal para médio).

Passo 7 — Registre versão e estabeleça rotina de revisão

  • Preencha o registro de revisão com data, responsável e motivo.
  • Defina onde o mapa ficará disponível (mural do setor, pasta controlada, QR interno) e como evitar versões antigas em circulação.
  • Programe revisão periódica e revisão extraordinária por gatilhos de mudança.

Exemplo prático (mini-caso) para orientar a aplicação

Setor: Expedição. No croqui, são marcados: docas, área de paletização, corredor de empilhadeira, área de conferência.

  • Corredor de empilhadeira: risco de acidente (atropelamento/colisão) com intensidade alta; evidência: quase-acidentes e fluxo intenso. Ação: reforçar segregação de pedestres, sinalização de travessias, revisão de velocidade e rotina de inspeção diária.
  • Área de paletização: risco ergonômico (levantamento e repetitividade) intensidade média; evidência: queixas e observação. Ação: ajustar altura de trabalho, rodízio, treinamento e avaliar necessidade de auxílio mecânico.
  • Doca: risco de queda e esmagamento (acidente) intensidade alta; evidência: operação com veículos e desníveis. Ação: check de calços/travas, demarcação, iluminação, inspeção por turno.
  • Conferência: risco físico (ruído) intensidade baixa/média conforme proximidade; se houver suspeita de níveis elevados, registrar necessidade de dosimetria.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao elaborar um Mapa de Riscos, qual alternativa descreve corretamente seu objetivo e seus limites de uso?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O Mapa de Riscos é um instrumento visual qualitativo/semiquantitativo para localizar e priorizar perigos por tipo e intensidade. Ele não substitui medições e avaliações técnicas quando exigidas, apenas sinaliza essa necessidade.

Próximo capitúlo

Levantamento de perigos por área para o Mapa de Riscos

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