O que é logística com envio próprio (e o que muda na sua operação)
Logística com envio próprio é quando você controla a expedição a partir do seu estoque: separa (picking), confere, embala, etiqueta, documenta e posta em um ponto de coleta/transportadora. Na prática, isso exige um padrão operacional para reduzir erros, extravios, avarias e custos (materiais, tempo e reenvios).
O objetivo deste capítulo é transformar a expedição em um processo repetível: cada pedido sai com o mesmo nível de conferência, proteção e rastreabilidade, independentemente do volume do dia.
Estrutura mínima do seu “posto de expedição”
Áreas e organização
- Área de picking: prateleiras identificadas (rua/coluna/nível) e produtos com localização fixa.
- Mesa de conferência: espaço para abrir o pedido, checar itens e preparar embalagem.
- Área de embalagem: materiais ao alcance (caixas, envelopes, fitas, plástico bolha, cantoneiras, etiquetas, lacres).
- Área de expedição: pedidos prontos separados por transportadora/rota/data de postagem.
Materiais essenciais (com padrão)
- Fita: uma principal (boa aderência) e uma de reforço (para caixas pesadas).
- Proteção: plástico bolha, papel kraft, espuma, cantoneiras, saco plástico interno (barreira contra umidade).
- Embalagens: caixas de tamanhos padronizados + envelopes (plástico coextrusado) + caixas reforçadas para itens frágeis.
- Identificação: etiquetas adesivas A4 (ou térmica), caneta permanente, etiqueta “frágil” (quando fizer sentido).
- Medição: balança (ideal com precisão de 1g a 10g conforme seu mix) e régua/trena.
Fluxo operacional de expedição (do pedido à postagem)
Visão geral do fluxo
1) Receber pedidos do dia (fila de expedição) → 2) Picking (separação) → 3) Conferência (itens e condição) → 4) Embalagem (por categoria) → 5) Etiquetagem → 6) Documentação → 7) Registro interno (rastreio/auditoria) → 8) Postagem e comprovante1) Picking: separação sem erro (e sem retrabalho)
Padrão de localização e coleta
O picking é onde a maioria dos erros nasce. Para reduzir falhas, use um padrão simples de endereçamento e uma rotina de coleta.
- Endereçamento: algo como
A-03-02(corredor A, coluna 03, nível 02). Coloque a etiqueta na prateleira e, se possível, também na caixa do produto. - Rota: separe pedidos por “rota” (começar sempre do mesmo ponto e seguir a mesma sequência de prateleiras).
- Separação por lote: em dias de volume, faça picking em lote (vários pedidos) e leve para a conferência em caixas separadoras.
Boas práticas de picking
- Não confie apenas no “olho”: compare SKU interno + variação (cor/tamanho/modelo).
- Itens parecidos devem ficar em locais diferentes (evita troca).
- Produtos pequenos: use bins/caixas organizadoras com divisórias.
2) Conferência: o “ponto de controle” antes de embalar
Conferência em 3 camadas
- Camada 1 — Pedido: itens, quantidades, variações, brindes (se houver), observações internas.
- Camada 2 — Produto: integridade (sem avarias), acessórios inclusos, lacres, validade (quando aplicável).
- Camada 3 — Embalagem: escolher o tipo correto e prever proteção.
Regra prática para reduzir trocas
Antes de embalar, diga em voz alta (ou registre) a combinação: Pedido #12345 — SKU X — 2 unidades — cor preta — tamanho M. Parece simples, mas reduz erro em operação com mais de uma pessoa.
3) Embalagem por categoria: padrão que reduz custo e avaria
Crie “receitas de embalagem” por categoria. Isso padroniza tempo, material e proteção.
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Categoria A: itens frágeis (vidro, cerâmica, eletrônicos sensíveis)
- Proteção primária: plástico bolha (2 a 3 voltas) ou espuma + cantoneiras.
- Barreira: saco plástico interno (umidade/poeira).
- Caixa: sempre caixa rígida; evite envelope.
- Preenchimento: papel kraft amassado/air pillows para eliminar folga.
- Teste de folga: feche a caixa sem fita e agite levemente; se “bater”, falta preenchimento.
Categoria B: itens têxteis (roupas, tecidos, acessórios flexíveis)
- Embalagem: envelope coextrusado ou caixa pequena (se precisar proteger formato).
- Proteção: saco interno para evitar umidade e sujeira.
- Redução de custo: padronize 2 ou 3 tamanhos de envelope e evite caixa quando não necessário.
Categoria C: itens com quinas/metal (ferramentas, peças)
- Proteção: cantoneiras ou papelão adicional nas quinas.
- Embalagem: caixa reforçada; itens pontiagudos devem ser “capados” com proteção extra.
- Reforço: fita em “H” (tampa e fundo) para evitar abertura.
Categoria D: líquidos e cosméticos (quando permitido)
- Vedação: fita no bico/tampa + saco plástico selado.
- Absorção: papel absorvente interno (camada de contenção).
- Caixa: rígida, com preenchimento para evitar impacto.
Categoria E: kits e múltiplos itens
- Unificação: agrupe itens em saco interno por “subconjunto” (ex.: kit com 3 peças).
- Checklist do kit: uma lista rápida impressa/na bancada para conferir componentes.
- Preenchimento: evite que itens se choquem entre si.
4) Proteção e fechamento: padrões que evitam extravio e avaria
Fechamento de caixa (padrão “H”)
Use fita formando um “H” na parte superior e inferior: uma faixa central + duas faixas nas bordas. Em caixas pesadas, reforce as laterais.
Selos e lacres
- Lacre ajuda em auditoria (indício de violação).
- Evite reaproveitar caixas amassadas: aumenta avaria e contestação.
Evite “chamar atenção”
Não use embalagens que indiquem alto valor. Prefira caixa neutra e etiqueta limpa.
5) Etiquetagem: legibilidade, aderência e posicionamento
Regras práticas
- Superfície: etiqueta sempre em área lisa, sem dobras e sem fita por cima do código de barras.
- Posição: topo da caixa/envelope, centralizada.
- Uma etiqueta por face: evite múltiplas etiquetas visíveis que confundam leitura.
- Remover etiquetas antigas: se reutilizar embalagem (quando fizer sentido), cubra completamente o antigo código.
Quando imprimir a etiqueta
Imprima a etiqueta após a conferência dos itens e após escolher a embalagem (para evitar divergência de peso/dimensões e retrabalho).
6) Documentação: o que separar e como anexar
Dependendo do tipo de venda e regra do canal/transportadora, você pode precisar de documentos (ex.: declaração de conteúdo, nota fiscal, DANFE simplificada, etc.). O ponto operacional é: documento correto, visível quando exigido e protegido.
- Envelope canguru (porta-documentos): protege e evita perda.
- Posicionamento: na maior face da caixa, sem cobrir a etiqueta de envio.
- Conferência: documento do pedido A não pode ir no pedido B (erro comum em expedição rápida).
Peso cúbico: como calcular e por que ele muda seu frete
Transportadoras e opções de envio podem cobrar pelo maior valor entre peso real e peso cubado (volumétrico). Se sua embalagem fica “grande demais”, você paga mais mesmo com produto leve.
Fórmula (padrão de mercado)
Uma forma comum é:
Peso cúbico (kg) = (Comprimento cm × Largura cm × Altura cm) ÷ Fator de cubagemO fator de cubagem varia por transportadora/modal (ex.: 5000, 6000). Sempre valide o fator usado na sua opção de envio.
Exemplo prático
Caixa com 40 cm × 30 cm × 20 cm:
- Volume:
40×30×20 = 24.000 cm³ - Se o fator for 6000:
24.000 ÷ 6000 = 4,0 kg - Se o produto pesa 1,2 kg (real), o cobrado tende a ser 4,0 kg (cubado).
Como reduzir peso cúbico sem aumentar avaria
- Padronize caixas “justas” por categoria (evite “caixa que sobra ar”).
- Use envelope quando o produto permitir (têxteis e itens flexíveis).
- Troque preenchimento volumoso por soluções eficientes (papel kraft bem aplicado, air pillows na medida).
- Crie uma tabela interna: produto/categoria → embalagem recomendada → dimensões finais.
Escolha de transportadora/opções do marketplace: critérios operacionais
Sem entrar em configuração de plataforma, a decisão operacional pode seguir critérios objetivos:
Checklist de decisão
- Prazo prometido: consegue postar dentro do corte diário? Há coleta?
- Risco do item: frágil/alto valor pede melhor manuseio e rastreio.
- Região: algumas rotas têm mais extravio/atraso; use seu histórico.
- Regras de postagem: tamanho/peso máximos, exigência de documento, embalagem aceita.
- Rastreio: eventos de rastreio frequentes e claros ajudam em atendimento e disputas.
- Custo total: frete + embalagem + tempo de operação + taxa de reenvio por falha.
Matriz simples (para usar no dia a dia)
| Tipo de pedido | Prioridade | Opção recomendada |
|---|---|---|
| Leve e não frágil | Menor custo | Modal econômico com rastreio |
| Frágil ou alto valor | Menor risco | Modal com melhor manuseio + seguro quando disponível |
| Prazo curto | Velocidade | Expresso/coleta |
| Região com histórico de extravio | Rastreabilidade | Transportadora com eventos detalhados e baixa incidência |
Redução de extravios: boas práticas que realmente funcionam
1) Rastreabilidade interna (antes do rastreio externo)
- Registre quem separou, quem conferiu e quando foi postado.
- Guarde comprovante de postagem associado ao ID do pedido.
2) Evidência de embalagem (sem burocracia)
Para itens de maior risco (alto valor, frágil, histórico de disputa), tire 2 fotos rápidas:
- Produto + itens do pedido na bancada (antes de fechar).
- Caixa fechada com etiqueta visível (sem expor dados em locais públicos; uso interno).
3) Padronização de peso e dimensões
- Pese e meça sempre após embalar (principalmente em itens que variam embalagem).
- Evite divergência entre etiqueta e pacote real (pode gerar retenção, cobrança extra e atrasos).
4) Separação física por status
- “A conferir” (picking feito, falta conferência)
- “Pronto para etiqueta”
- “Etiquetado, falta documento”
- “Pronto para postar”
Isso reduz o erro clássico: pacote etiquetado indo para a pilha errada.
Checklists operacionais (use como rotina diária)
Checklist 1 — Antes de imprimir a etiqueta
- Itens e quantidades conferidos (SKU/variação).
- Produto sem avaria e com acessórios completos.
- Embalagem escolhida (tipo e tamanho) definida.
- Proteção necessária separada (bolha/cantoneira/preenchimento).
- Dimensões estimadas fazem sentido (evitar caixa grande demais).
- Pedido está no status correto para expedição (sem pendências internas).
Checklist 2 — Antes de fechar a caixa/envelope
- Produto protegido (sem folga interna).
- Barreira contra umidade aplicada quando necessário (saco interno).
- Componentes de kit conferidos (se aplicável).
- Documentos internos/garantia/manual incluídos (se aplicável).
- Teste de folga (agitar leve) aprovado.
- Caixa íntegra (sem amassados estruturais).
Checklist 3 — Antes de postar
- Etiqueta colada em superfície lisa, sem dobras e sem fita sobre código de barras.
- Etiqueta antiga removida/coberta.
- Documento exigido anexado em porta-documentos (quando aplicável).
- Peso e dimensões finais registrados internamente.
- Pedido separado na pilha da transportadora correta.
- Comprovante de postagem será coletado/arquivado.
Padrão de registro interno para rastreio e auditoria
Um registro interno simples resolve 80% das investigações de extravio/avaria e melhora a gestão de custos. Pode ser planilha, sistema ou formulário, desde que seja consistente.
Campos recomendados
| Campo | Exemplo | Para que serve |
|---|---|---|
| ID do pedido | ML-984233 / SH-55421 / AMZ-7781 | Chave de busca |
| Data/hora de picking | 2026-01-30 10:12 | Rastrear tempo e gargalos |
| Responsável picking | Operador 01 | Auditoria de erro |
| Data/hora de conferência | 2026-01-30 10:25 | Controle de qualidade |
| Responsável conferência | Operador 02 | Dupla checagem |
| Embalagem usada | Caixa P 20×15×10 | Padronização e custo |
| Peso real (kg) | 1,20 | Conferência de cobrança |
| Dimensões (cm) | 20×15×10 | Cálculo de cubagem |
| Peso cúbico (kg) | 0,50 | Comparar com peso real |
| Transportadora/modal | Coleta econômica | Análise de performance |
| Código de rastreio | BR123456789 | Atendimento e disputas |
| Foto evidência | link/ID interno | Prova de embalagem |
| Data/hora de postagem | 2026-01-30 16:40 | SLA de envio |
| Comprovante | PDF/Foto #8821 | Prova de entrega à transportadora |
| Ocorrências | Caixa reforçada / item frágil | Contexto para auditoria |
Modelo de planilha (estrutura)
ID_Pedido | Data_Picking | Resp_Picking | Data_Conferencia | Resp_Conferencia | Embalagem | Peso_Real | CxLxA | Fator_Cubagem | Peso_Cubico | Modal | Rastreio | Foto_ID | Data_Postagem | Comprovante_ID | ObservacoesRedução de custos: onde normalmente está o dinheiro “escondido”
1) Padronização de embalagens
- Tenha poucos tamanhos (ex.: 3 caixas + 2 envelopes) e encaixe seu mix neles.
- Negocie volume com fornecedor e evite compra “picada”.
2) Tempo de operação (custo invisível)
- “Receitas de embalagem” por categoria reduzem tempo por pedido.
- Materiais posicionados por frequência de uso (o mais usado na altura das mãos).
3) Reenvios e disputas
- Melhorar conferência e proteção reduz reenvio (que costuma ser o maior custo real).
- Registro interno + comprovante reduz perdas em contestação.
4) Cubagem
- Trocar uma caixa por outra 2 cm menor pode reduzir o peso cubado e mudar a faixa de cobrança.
- Crie uma regra: “se sobrar mais de 20% de volume vazio, reavaliar embalagem”.