Conceitos operacionais: local de crime e gestão de vestígios
Local de crime é o espaço físico (e seus entornos) onde se identificam indícios materiais relacionados a um fato sob apuração. Na prática pericial, o foco é transformar vestígios em evidências por meio de reconhecimento, documentação, coleta, acondicionamento, preservação e rastreabilidade (cadeia de custódia). Gestão de vestígios é o conjunto de procedimentos que garante que cada item seja localizado, registrado, coletado e transportado com integridade, evitando contaminação, perda, mistura e questionamentos sobre autenticidade.
Classificação do local: imediato, mediato e relacionado
Local imediato: área onde ocorreu a ação principal ou onde o vestígio central é encontrado (ex.: cômodo onde há corpo, ponto de arrombamento, local do disparo).
Local mediato: áreas adjacentes e rotas de acesso/saída que podem conter vestígios de apoio (ex.: corredor, escada, quintal, estacionamento, vias próximas, lixeiras, ralos, áreas de descarte).
Local relacionado: locais distintos, mas conectados ao evento (ex.: veículo usado na fuga, residência do suspeito, hospital para onde a vítima foi levada, local de ocultação de objetos, ambiente digital associado).
Essa distinção orienta o isolamento em camadas e a priorização de busca, evitando que a equipe concentre esforços apenas no ponto mais óbvio e perca vestígios periféricos.
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Procedimento prático: do acionamento ao processamento
1) Preparação e chegada
Briefing rápido: obtenha informações essenciais (tipo de ocorrência, risco ativo, número de envolvidos, ações já realizadas por primeiros respondentes, clima, tempo decorrido, presença de mídia/curiosos).
Segurança: confirme neutralização de ameaças (agressor, armas, incêndio, eletricidade, produtos químicos, risco biológico). Se houver risco, não inicie processamento até liberação.
Defina papéis: responsável pelo local, fotógrafo, anotador, coletor, controle de acesso, responsável por embalagens/lacres.
EPIs: luvas (troca frequente), máscara, touca, propé/boot cover, avental/coverall conforme cenário. Use dupla luva quando houver biológicos.
2) Reconhecimento inicial (walkthrough) sem tocar
Realize uma varredura visual sistemática, sem mover objetos, para compreender a dinâmica provável, identificar vestígios frágeis e definir a estratégia de busca. Registre: condições de iluminação, odores relevantes, portas/janelas (abertas/fechadas), sinais de luta, manchas, pegadas, trajetos, superfícies com potencial papiloscópico, dispositivos eletrônicos, fontes de água/vento que possam degradar vestígios.
Identifique “vestígios críticos”: aqueles que podem desaparecer rapidamente (sangue úmido, impressões em poeira, pegadas em solo solto, resíduos voláteis, telas ligadas, dados em RAM, gelo/derretimento, chuva iminente).
Defina a sequência: documentar antes de coletar; coletar do mais frágil ao mais estável; do menos contaminante ao mais contaminante; do exterior para o interior quando aplicável.
3) Isolamento e controle de acesso (proteção do local)
O isolamento deve ser escalonado e compatível com a classificação do local (imediato/mediato/relacionado). O objetivo é reduzir circulação, impedir alterações e criar um “corredor limpo” para entrada/saída.
Perímetro externo: delimite área maior (mediato), considerando rotas de fuga, descarte e áreas de observação.
Perímetro interno: delimite o local imediato, com fita, cones, barreiras e sinalização. Crie ponto único de entrada/saída.
Corredor de acesso: estabeleça caminho controlado (tapete descartável quando necessário) para reduzir pegadas e transferência de partículas.
Registro de acesso: mantenha lista de todas as pessoas que entram/saem, com horário e finalidade.
Proteção ambiental: cubra vestígios expostos (tendas, lonas, guarda-chuva) sem tocar no item; controle ventilação quando houver microvestígios; evite varrer/limpar.
4) Processamento: documentação técnica completa
A documentação deve permitir reconstrução do cenário e reprodutibilidade do exame. Regra prática: “o que não está documentado, não existiu para fins de prova”.
4.1 Fotografias forenses (sequência recomendada)
Visão geral: fachadas, acessos, relação do local com o entorno, orientação (inclua referência de direção, quando possível).
Média distância: aproximação por ambientes/zonas, mostrando posição relativa de objetos e vestígios.
Detalhe: vestígio em close, primeiro sem escala, depois com escala.
Escalas: use escala métrica apropriada, posicionada no mesmo plano do vestígio; evite cobrir o vestígio; registre também etiqueta de identificação do item quando aplicável.
Iluminação: use luz oblíqua para relevos (impressões), controle reflexos em superfícies brilhantes; registre configurações quando necessário.
4.2 Vídeo
Use vídeo para registrar continuidade espacial e fluxo do local, com narração técnica objetiva (ambiente, orientação, pontos de interesse), evitando interpretações. Faça um percurso do acesso ao local imediato, depois varredura por cômodos/zonas. Não substitui fotografia; complementa.
4.3 Croqui e medições
O croqui deve representar dimensões, orientação (norte), pontos fixos e posição de vestígios. Use método de medição adequado:
Triangulação: dois pontos fixos para localizar um vestígio em ambientes internos.
Coordenadas retangulares: eixos X/Y a partir de uma linha base (útil em cenas com muitos itens).
Coordenadas geográficas: registre latitude/longitude em locais externos e pontos-chave (acesso, vestígio principal, limites do perímetro), com precisão informada.
4.4 Descrição minuciosa (registro escrito)
Condições do local: clima, iluminação, odores, temperatura aproximada quando relevante, estado de portas/janelas, sinais de limpeza recente.
Posicionamento: descreva vestígios com referência a pontos fixos (parede norte, 1,2 m da porta, etc.).
Estado do vestígio: seco/úmido, íntegro/fragmentado, aderido/solto, presença de sobreposição.
Ações realizadas: quem fez, quando, por quê (ex.: remoção de vítima por socorro, desligamento de energia).
Critérios de priorização de vestígios
Priorizar não é “coletar menos”, e sim definir sequência e recursos. Critérios práticos:
Fragilidade e perecibilidade: risco de degradação (chuva, calor, evaporação, manipulação inevitável).
Valor probatório: potencial de vincular autor-vítima-local (DNA em contato direto, impressões em ponto de acesso, resíduos de disparo, logs digitais).
Risco de contaminação cruzada: itens com alta carga biológica ou particulada devem ser segregados e coletados com troca de EPI.
Exclusividade: vestígios raros/únicos (microfragmentos específicos, marcas de ferramenta com padrão singular).
Viabilidade técnica: condições para coleta adequada no local versus necessidade de remoção do suporte (ex.: porta inteira, peça de roupa, dispositivo eletrônico).
Protocolos de busca: escolha e execução
Selecione o padrão de busca conforme tamanho, complexidade e número de peritos. Combine métodos quando necessário, documentando a estratégia.
Busca em linha (strip/line)
Indicada para áreas abertas e relativamente uniformes (terreno, estrada). A equipe avança em linha paralela, mantendo espaçamento fixo.
Passo a passo: defina limites; marque linhas de referência; estabeleça espaçamento (ex.: 1–2 m conforme visibilidade); avance lentamente; ao localizar item, sinalize sem tocar; registre e retome a linha.
Busca em espiral
Útil quando há um ponto central (ex.: corpo, explosão) e área circular. Pode ser do centro para fora (reduz risco de pisoteio no centro se já estiver protegido) ou de fora para o centro (quando o centro é frágil e deve ser acessado por corredor controlado).
Passo a passo: defina centro; estabeleça raio e sentido; caminhe em espiral com distância constante; marque achados com sinalizadores numerados.
Busca por quadrante (grid)
Aumenta sensibilidade em áreas amplas. Realiza-se uma busca em linha em um sentido e depois em sentido perpendicular.
Passo a passo: delimite área; faça varredura em linhas paralelas; registre achados; repita em 90 graus; compare cobertura e lacunas.
Busca por zona (zone/sector)
Preferida em ambientes internos com múltiplos cômodos ou cenas complexas. Divide-se o local em setores (cômodos, metades, áreas funcionais).
Passo a passo: defina zonas; atribua responsáveis; padronize critérios de sinalização; ao final, faça revisão cruzada (um segundo perito revisa a zona).
Técnicas de coleta e acondicionamento por tipo de vestígio
Princípios gerais: documentar antes; usar ferramentas limpas; trocar luvas entre itens; embalar cada item separadamente; rotular imediatamente; lacrar; registrar cadeia de custódia.
Vestígios biológicos (sangue, saliva, sêmen, tecidos, pelos com bulbo)
Coleta: swab estéril umedecido (quando seco) ou swab seco (quando úmido, conforme protocolo local); recorte de substrato quando aplicável; coleta de referência/controle (swab de área limpa próxima) para comparação e avaliação de contaminação ambiental.
Secagem: sempre que possível, secar em condições controladas e limpas antes de embalar (evita mofo e degradação).
Acondicionamento: preferir papel (envelopes/sacos de papel) para itens úmidos/semiúmidos após secagem; tubos/caixas para swabs; evitar plástico para material ainda úmido.
Segregação: separar por origem presumida (vítima, suspeito, desconhecido) e por local de coleta; nunca misturar múltiplos pontos em um único swab.
Vestígios papiloscópicos (impressões digitais/palmares)
Reconhecimento: priorize superfícies lisas e pontos de contato (maçanetas, vidros, armas, fitas, embalagens).
Coleta: fotografia com escala antes de qualquer levantamento; aplicação de pós reveladores apropriados ao substrato; levantamento com fita/gel; ou recolhimento do próprio suporte quando viável (ex.: garrafa, peça metálica).
Acondicionamento: suportes rígidos em caixas; levantamentos em lâminas/cartões protegidos; evitar atrito e empilhamento.
Vestígios químicos (drogas, combustíveis, resíduos, tintas, solventes)
Segurança: avalie risco de toxicidade/volatilidade; use EPI adequado; evite fontes de ignição.
Coleta: amostras representativas (porções de diferentes pontos quando houver heterogeneidade), sempre com utensílios limpos; para líquidos voláteis, use recipientes apropriados e minimize headspace conforme protocolo.
Acondicionamento: frascos compatíveis e vedação adequada; proteção contra luz quando necessário; rotulagem com risco/químico presumido quando aplicável.
Controle: amostra de branco do recipiente/utensílio quando pertinente; registro de odor/coloração e condições.
Vestígios digitais (dispositivos e dados)
Prioridade: dados voláteis e risco de alteração remota (dispositivo ligado, conexões ativas, criptografia).
Conduta no local: documente estado (tela, aplicativos abertos, conexões, cabos); fotografe; avalie necessidade de isolamento de rede (modo avião, remoção de SIM, bolsa de Faraday) conforme cenário e autorização.
Acondicionamento: embalagens antiestáticas para mídias; proteção física para telas; lacre; transporte com controle de impacto e umidade.
Segregação: cabos, carregadores e mídias devem ser identificados e vinculados ao dispositivo correspondente sem misturar conjuntos.
Microvestígios (fibras, fragmentos de vidro, solo, partículas, resíduos de disparo, cosméticos)
Prevenção de perda: reduza circulação e correntes de ar; evite sacudir roupas/objetos.
Coleta: pinças limpas, fitas adesivas próprias, aspiradores forenses com filtros, coleta de controle do ambiente quando pertinente.
Acondicionamento: cápsulas/caixas pequenas rígidas, envelopes de papel para partículas secas, lâminas/fitas protegidas; cada área/peça em embalagem própria.
Roupas: embalar individualmente em papel, preservando dobras e evitando atrito; rotular lado externo com orientação (frente/costas) quando relevante.
Prevenção de contaminação e segregação de amostras
Regras práticas de ouro
Troca de luvas: entre cada item coletado e sempre que tocar superfícies não controladas (celular pessoal, maçaneta fora do perímetro, caneta compartilhada).
Ferramentas dedicadas: pinças/tesouras por item ou limpeza validada entre coletas; swabs e recipientes sempre estéreis/novos.
Embalagem individual: um item por embalagem; múltiplos fragmentos do mesmo ponto podem ir juntos apenas se tecnicamente justificável e documentado.
Separação por natureza: biológicos separados de químicos; microvestígios separados de itens com pó revelador; digitais separados de ímãs/umidade.
Ordem de coleta: comece por vestígios frágeis e de alto valor; evite coletar itens “sujos” antes de itens “limpos” na mesma zona.
Controles: colete amostras de controle (brancos) quando houver risco de contaminação ambiental ou necessidade de comparação.
Gestão de áreas limpas e sujas
Área limpa: preparo de embalagens, rotulagem, lacres, formulários; acesso restrito; sem manipulação de itens contaminantes.
Área suja: manipulação de biológicos, solo, resíduos; descarte de EPIs; limpeza de ferramentas.
Fluxo unidirecional: da área limpa para a suja, evitando retorno sem troca de EPI.
Padrões de rotulagem, lacre e rastreabilidade
Rotulagem e lacre devem permitir identificação inequívoca e detecção de violação. O rótulo deve ser preenchido no momento da coleta, nunca “depois”.
Campos mínimos recomendados no rótulo
Identificador único do vestígio (ID)
Descrição do item (o que é, material, cor, quantidade)
Local exato de coleta (zona/cômodo, referência a pontos fixos, coordenadas quando aplicável)
Data e hora da coleta
Nome/identificação do coletor
Condições do item (seco/úmido, íntegro/fragmentado)
Tipo de embalagem e número do lacre
Observações (controle coletado, risco químico, necessidade de refrigeração)
Lacre
Aplicação: lacre deve impedir abertura sem evidência; posicione em local que não danifique o vestígio e permita inspeção.
Registro: anote número do lacre no formulário e no rótulo; fotografe o item já lacrado quando pertinente.
Re-lacre: qualquer abertura posterior deve ser registrada, com novo lacre e justificativa, mantendo histórico.
Checklists operacionais (uso em campo)
Checklist 1: reconhecimento e isolamento
Confirmar segurança do local e liberação para entrada
Definir local imediato, mediato e relacionado
Estabelecer perímetro externo e interno
Definir ponto único de entrada/saída e corredor de acesso
Implementar registro de acesso
Identificar vestígios perecíveis e medidas de proteção ambiental
Distribuir funções na equipe
Checklist 2: documentação
Fotos de visão geral (entorno, acessos, orientação)
Fotos de média distância por ambiente/zona
Fotos de detalhe sem escala e com escala
Vídeo com percurso contínuo (quando aplicável)
Croqui com medidas, orientação e pontos fixos
Registro de coordenadas em pontos-chave (quando aplicável)
Descrição minuciosa do estado do local e ações prévias
Checklist 3: busca e coleta
Escolher padrão de busca (linha, espiral, quadrante, zona) e registrar
Marcar vestígios com sinalizadores numerados antes de coletar
Coletar do mais frágil ao mais estável
Trocar luvas entre itens e entre zonas quando necessário
Embalagem individual e adequada ao tipo de vestígio
Coletar controles (brancos/referências) quando pertinente
Rotular no ato e lacrar imediatamente
Registrar número do lacre e responsável pela custódia
Checklist 4: encerramento do processamento (sem “concluir” o caso)
Revisão final por zona para verificar itens não coletados
Conferir correspondência: fotos ↔ croqui ↔ lista de vestígios
Verificar integridade de lacres e legibilidade de rótulos
Organizar transporte segregado (biológico, químico, digital)
Atualizar registros de custódia na transferência
Exemplos práticos de aplicação
Exemplo 1: arrombamento em escritório
Local imediato: porta arrombada e sala do cofre; mediato: corredor e escada; relacionado: veículo suspeito identificado por câmeras.
Prioridade: impressões papiloscópicas em maçaneta/porta/cofre; microvestígios (limalhas, tinta) na área de arrombamento; registros digitais (DVR/roteador).
Busca: zona (cômodos) + quadrante na sala do cofre para itens pequenos.
Coleta: levantamento papiloscópico após fotografia; coleta de microfragmentos com pinça/fita; DVR embalado em antiestático e isolado de rede.
Exemplo 2: local externo com descarte de objeto
Local imediato: ponto onde o objeto foi encontrado; mediato: trilha de acesso e margem; relacionado: residência onde o objeto teria sido levado antes.
Prioridade: pegadas em solo úmido (fotografar com escala e luz oblíqua), microvestígios aderidos ao objeto, material biológico em superfícies de contato.
Busca: linha no terreno + espiral ao redor do ponto central.
Proteção: cobertura contra chuva e delimitação ampla para evitar pisoteio.
Modelos operacionais (para padronização)
Modelo de identificação de vestígio (ID)
ID: [SIGLA-ANO-OCORRÊNCIA]-[ZONA]-[NÚMERO SEQUENCIAL] Ex.: PCF-2026-00123-Z2-007Modelo de rótulo (texto mínimo)
ID: __________ Descrição: __________ Local: __________ Data/Hora: __________ Coletor: __________ Condição: __________ Embalagem: __________ Lacre nº: __________ Observações: __________Modelo de registro de acesso
Nome/ID | Função | Entrada (hora) | Saída (hora) | Motivo | Assinatura