Leitura de prova: do texto ao comando
Em questões de interpretação, o objetivo não é “opinar”, e sim reconstruir o sentido que o texto autoriza. Para isso, é útil separar três camadas: (1) o que o texto diz explicitamente; (2) o que o texto permite inferir com base em pistas linguísticas; (3) o que o texto pressupõe (informações embutidas em certas estruturas) e o que fica implícito (subentendido pelo contexto e pela escolha de palavras).
Passo a passo prático de leitura
- 1) Leia o comando antes do texto (quando houver): identifique se a questão pede ideia central, inferência, sentido de palavra, relação entre parágrafos, coesão etc.
- 2) Faça uma leitura global: marque mentalmente o assunto geral (tema) e a posição do autor (tese), se houver.
- 3) Mapeie conectores e marcas de organização: “portanto”, “no entanto”, “além disso”, “se”, “embora”, “porque”. Eles costumam indicar a lógica do texto.
- 4) Localize referentes: pronomes (“isso”, “aquele”), expressões retomadoras (“tal medida”, “esse cenário”), elipses (termos omitidos). Pergunte: “isso” se refere a quê?
- 5) Responda com prova textual: para cada alternativa, procure uma frase do texto que sustente ou derrube a afirmação. Em prova, a alternativa correta é a que melhor se ancora no texto, sem extrapolar.
Tema, tese e estrutura argumentativa
Tema
Tema é o assunto geral tratado (por exemplo: “qualidade de dados”, “serviços públicos”, “mobilidade urbana”). Em prova, alternativas erradas costumam ser “temas vizinhos”: parecem próximas, mas deslocam o foco (ex.: falar de “tecnologia” quando o texto discute “gestão de processos”).
Tese
Tese é a ideia defendida pelo autor (um posicionamento). Nem todo texto tem tese explícita (textos expositivos podem apenas explicar), mas muitos textos de prova apresentam uma orientação: criticar, defender, relativizar, propor.
Como identificar rapidamente
- Procure verbos avaliativos: “é necessário”, “é inadequado”, “convém”, “tende a”.
- Observe o parágrafo final: frequentemente sintetiza a tese ou a consequência do raciocínio.
- Note a oposição: “muitos pensam X, mas…” costuma introduzir a tese após o “mas”.
Inferências, pressupostos e implícitos
Inferência
Inferir é concluir algo que não está dito literalmente, mas decorre do texto. A inferência válida precisa de pistas (vocabulário, conectores, exemplos, comparações). Pegadinha comum: alternativa que exige conhecimento externo ou generaliza além do texto.
Pressuposto
Pressuposto é uma informação tomada como dada por certas construções. Exemplos de gatilhos: verbos factivos (“perceber”, “lamentar”), expressões como “deixar de”, “voltar a”, “continuar”, “ainda”, “já”, “mais uma vez”.
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Exemplo: “O órgão voltou a divulgar relatórios mensais.” Pressupõe que relatórios mensais já eram divulgados antes.
Implícito (subentendido)
Implícito é o sentido sugerido pelo contexto e pela escolha lexical, sem gatilho gramatical obrigatório. Exemplo: “A medida foi anunciada com pompa” pode sugerir crítica ao excesso de cerimônia, dependendo do tom do texto.
Coesão e coerência: como o texto “amarra” ideias
Coesão
Coesão é o conjunto de mecanismos linguísticos que conectam partes do texto: pronomes, repetição controlada, sinônimos, elipses, conectores. Em prova, muitas questões pedem o referente de “isso”, “tal”, “o que”, ou o efeito de um conector.
Coerência
Coerência é a lógica global: as ideias não se contradizem e fazem sentido no contexto. Um texto pode ser coeso (bem “colado”) e ainda assim incoerente (ideias incompatíveis). Em questões, incoerência aparece quando a alternativa atribui ao texto uma conclusão que contraria premissas apresentadas.
Mecanismos de referenciação (retomada e progressão)
- Anáfora: retoma algo já dito. Ex.: “Os dados foram revisados. Esse procedimento reduziu inconsistências.”
- Catáfora: antecipa algo que virá. Ex.: “O seguinte ponto é decisivo: a padronização.”
- Elipse: omite termo recuperável. Ex.: “Alguns preferem relatórios sintéticos; outros, [preferem] relatórios detalhados.”
- Encapsulamento: resume um trecho anterior em um rótulo. Ex.: “Essa estratégia” pode resumir um parágrafo inteiro.
Relações lógico-discursivas e conectores
Conectores orientam a leitura e são fonte frequente de pegadinhas. Trocar “portanto” por “porém”, por exemplo, muda o sentido global.
Causa e consequência
- Causa: porque, visto que, já que, uma vez que.
- Consequência: portanto, assim, por isso, de modo que, de forma que.
Contraste e concessão
- Contraste: mas, porém, contudo, entretanto.
- Concessão: embora, ainda que, mesmo que, apesar de.
Condição e hipótese
- Condição: se, caso, contanto que, desde que.
- Hipótese/possibilidade: talvez, possivelmente, é provável que.
Finalidade, explicação e exemplificação
- Finalidade: para, a fim de, com o objetivo de.
- Explicação: isto é, ou seja, em outras palavras.
- Exemplificação: por exemplo, como, tal como.
Efeitos de sentido: escolhas linguísticas que mudam a leitura
Modalização (grau de certeza/atitude)
Palavras como “certamente”, “provavelmente”, “tende a”, “pode” indicam o grau de compromisso do autor com a afirmação. Pegadinha: alternativa que transforma “pode” (possibilidade) em “vai” (certeza).
Intensificadores e atenuadores
“Muito”, “apenas”, “quase”, “principalmente”, “em geral” delimitam o alcance. Pegadinha: ignorar “em geral” e tratar como regra absoluta.
Ironia e aspas
Aspas podem marcar distanciamento (“o ‘avanço’”), citação ou uso não literal. Em prova, é comum a banca cobrar se as aspas indicam crítica/ironia ou apenas reprodução de termo técnico.
Texto-base 1 (modelo) para exercícios
“A divulgação de indicadores públicos não garante, por si só, decisões melhores. Quando os dados chegam sem contexto, gestores podem comparar realidades incomparáveis e concluir que uma política falhou, quando na verdade o indicador apenas captou uma mudança de método. Por isso, transparência precisa vir acompanhada de explicações sobre limites, séries históricas e critérios de coleta. Sem esse cuidado, a informação circula, mas o debate empobrece.”
Exercício 1 (tema e tese)
Enunciado (estilo concurso): Assinale a alternativa que melhor expressa a tese do texto.
- A) A divulgação de indicadores públicos é suficiente para garantir decisões melhores.
- B) A transparência de dados deve ser evitada, pois empobrece o debate.
- C) A divulgação de dados precisa ser contextualizada para evitar interpretações equivocadas e empobrecimento do debate.
- D) Mudanças de método sempre indicam falha de políticas públicas.
- E) Gestores comparam realidades incomparáveis porque não existem séries históricas.
Comentários:
- A) Incorreta. Contraria o texto (“não garante, por si só”). Pegadinha: inverter a negação.
- B) Incorreta. O texto não condena transparência; exige complemento (“precisa vir acompanhada”).
- C) Correta. Resume a posição central: transparência + contexto/limites para evitar conclusões erradas e debate empobrecido.
- D) Incorreta. O texto diz que mudança de método pode ser confundida com falha; não afirma “sempre”. Pegadinha: absolutização.
- E) Incorreta. O problema apontado é “dados sem contexto”; séries históricas são parte do contexto, mas a alternativa cria causalidade exclusiva e generaliza.
Exercício 2 (inferência)
Enunciado: Infere-se corretamente do texto que:
- A) Indicadores públicos são inúteis para a gestão.
- B) A interpretação de indicadores depende de critérios de coleta e de comparações adequadas.
- C) Toda mudança de método invalida séries históricas anteriores.
- D) O debate público melhora quando os dados circulam sem explicações.
- E) Gestores sempre agem de má-fé ao interpretar dados.
Comentários:
- A) Incorreta. O texto critica o uso sem contexto, não a existência de indicadores.
- B) Correta. Decorre de “comparar realidades incomparáveis” e “explicações sobre limites… critérios de coleta”.
- C) Incorreta. O texto não afirma invalidação total; apenas alerta para confusão interpretativa.
- D) Incorreta. O texto diz o oposto: sem cuidado, “o debate empobrece”.
- E) Incorreta. Não há julgamento moral; há risco de erro por falta de contexto. Pegadinha: atribuir intenção.
Exercício 3 (pressuposto)
Enunciado: No trecho “quando na verdade o indicador apenas captou uma mudança de método”, está pressuposto que:
- A) O indicador sempre captura mudanças de método.
- B) Houve uma mudança de método na produção do indicador.
- C) A política pública falhou de fato.
- D) Gestores conheciam os critérios de coleta.
- E) A transparência é desnecessária.
Comentários:
- A) Incorreta. “Apenas” limita o caso descrito; não generaliza para “sempre”.
- B) Correta. O enunciado afirma a mudança como fato no cenário descrito; é a base para a correção da interpretação.
- C) Incorreta. O texto justamente nega a conclusão de falha (“quando na verdade…”).
- D) Incorreta. O texto sugere falta de contexto; não pressupõe conhecimento.
- E) Incorreta. O texto defende transparência acompanhada de explicações.
Exercício 4 (coesão: referente)
Enunciado: No trecho “Por isso, transparência precisa vir acompanhada de explicações…”, a expressão “Por isso” retoma:
- A) A ideia de que gestores sempre concluem corretamente sobre políticas públicas.
- B) O fato de que dados sem contexto podem levar a comparações inadequadas e conclusões equivocadas.
- C) A necessidade de evitar a divulgação de indicadores.
- D) A existência de séries históricas completas em qualquer área.
- E) A certeza de que mudanças de método não afetam indicadores.
Comentários:
- A) Incorreta. Não há essa afirmação no texto.
- B) Correta. “Por isso” introduz consequência/recomendação a partir do problema descrito no período anterior.
- C) Incorreta. O texto não propõe evitar divulgação, mas qualificar a divulgação.
- D) Incorreta. O texto menciona séries históricas como parte do contexto, não como fato universal.
- E) Incorreta. O texto indica que mudanças de método podem ser captadas e confundidas com falha.
Texto-base 2 (modelo) para exercícios
“É comum atribuir à tecnologia a solução automática de problemas administrativos. No entanto, sistemas só melhoram rotinas quando há definição clara de responsabilidades e padronização de procedimentos. Caso contrário, digitaliza-se a desordem: o que era lento no papel torna-se confuso na tela. Assim, antes de investir em ferramentas, convém mapear processos e estabelecer critérios de registro.”
Exercício 5 (relações lógico-discursivas)
Enunciado: A relação estabelecida pelo conector “No entanto” é de:
- A) explicação.
- B) consequência.
- C) contraste.
- D) finalidade.
- E) condição.
Comentários:
- A) Incorreta. Explicação seria “ou seja”, “isto é”.
- B) Incorreta. Consequência seria “portanto”, “assim” (neste caso, “Assim” aparece depois).
- C) Correta. O texto contrapõe a crença comum (“solução automática”) à ressalva (“só melhoram… quando…”).
- D) Incorreta. Finalidade seria “para”, “a fim de”.
- E) Incorreta. Condição é marcada por “caso”, “se”, que aparece em outro trecho.
Exercício 6 (condição e consequência)
Enunciado: No trecho “Caso contrário, digitaliza-se a desordem”, a expressão “Caso contrário” pode ser substituída, sem alteração relevante de sentido, por:
- A) Portanto.
- B) Se não for assim.
- C) Embora.
- D) Além disso.
- E) Isto é.
Comentários:
- A) Incorreta. “Portanto” indica consequência do que veio antes, não condição negativa.
- B) Correta. Equivale a uma condição negada: se não houver definição/padronização, ocorre a consequência.
- C) Incorreta. “Embora” marca concessão, não condição.
- D) Incorreta. “Além disso” é adição.
- E) Incorreta. “Isto é” é explicação/reformulação.
Exercício 7 (efeito de sentido: modalização)
Enunciado: Em “convém mapear processos”, o verbo “convém” expressa:
- A) ordem categórica, equivalente a “é obrigatório”.
- B) possibilidade remota, equivalente a “talvez”.
- C) recomendação/aconselhamento, indicando conveniência.
- D) certeza absoluta, equivalente a “certamente”.
- E) ironia, indicando o contrário do que se afirma.
Comentários:
- A) Incorreta. “Convém” não tem força de obrigação legal; é orientação.
- B) Incorreta. Não é dúvida; é recomendação.
- C) Correta. Modaliza como conselho prático antes do investimento.
- D) Incorreta. Não é marca de certeza, mas de conveniência.
- E) Incorreta. Não há marcas de ironia (como aspas depreciativas ou contraste irônico).
Pegadinhas recorrentes em interpretação (como neutralizar)
1) Absolutização
Trocar “pode”, “tende a”, “em geral” por “sempre”, “nunca”, “todo”. Em geral, alternativas absolutas são suspeitas, a menos que o texto também seja absoluto.
2) Inversão de polaridade
O texto diz “não garante”; a alternativa afirma “garante”. Atenção a negações e a termos como “apenas”, “por si só”, “somente”.
3) Causa trocada por consequência
O texto: “sem contexto → erro”. A alternativa: “erro → falta de contexto” (pode parecer equivalente, mas nem sempre é). Verifique a direção da relação.
4) Generalização indevida
O texto descreve um caso; a alternativa transforma em regra universal. Procure marcadores de recorte (“quando”, “em alguns casos”, “pode”).
5) Parafrasear com mudança sutil
A alternativa “reconta” o texto, mas troca um conector (“no entanto” por “portanto”) ou um modal (“convém” por “é obrigatório”), alterando o sentido.
Mini-roteiro para resolver questões rapidamente
- Ideia central: tema + tese em uma frase, sem detalhes.
- Inferência: procure pista textual; rejeite extrapolação.
- Pressuposto: identifique gatilho (já, ainda, voltar a, deixar de, lamentar).
- Coesão: encontre o referente exato do pronome/expressão.
- Conectores: nomeie a relação (causa, consequência, contraste, condição).
- Efeito de sentido: observe modalizadores, intensificadores, aspas e escolhas lexicais.