Quando a redação aparece no edital: o que é cobrado
Em editais que preveem produção textual, a banca costuma avaliar sua capacidade de escrever com objetividade, organização e correção na norma-padrão. Na prática, isso significa: apresentar uma ideia central clara, desenvolver argumentos de forma ordenada, usar conectivos para ligar as partes do texto, manter vocabulário adequado ao contexto formal e evitar ambiguidades. Em alguns casos, pode haver também itens de redação oficial (como ofício, memorando ou requerimento), nos quais o foco é a padronização e a clareza do pedido/informação.
Diferença prática: texto dissertativo breve x redação oficial
Texto dissertativo breve: você defende um ponto de vista sobre um tema, com introdução, desenvolvimento e fechamento, em linguagem formal e impessoal.
Redação oficial: você comunica/solicita/informa de modo padronizado, com estrutura fixa (identificação, assunto, texto objetivo, fecho), sem “opinião” e com foco em precisão.
Padrões de escrita objetiva (o que a banca espera ver)
Paragrafação funcional
Cada parágrafo deve cumprir uma função. Em textos curtos, uma estrutura segura é: 1º parágrafo apresenta o tema e a tese; 2º parágrafo desenvolve o argumento principal; 3º parágrafo complementa com outro argumento, exemplo ou consequência; parágrafo final fecha com síntese e encaminhamento (sem “moral da história”).
Exemplo de paragrafação adequada (esqueleto):
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Parágrafo 1: contextualização + tese (posição).
Parágrafo 2: argumento 1 + explicação + exemplo.
Parágrafo 3: argumento 2 + explicação + consequência.
Parágrafo 4: síntese + proposta/encaminhamento coerente com a tese.
Organização de ideias (progressão)
Evite “zigue-zague” de assuntos. Uma técnica simples é escrever, antes do texto, um roteiro de 3 linhas: (1) tese; (2) argumento 1; (3) argumento 2. Isso reduz repetições e ajuda a manter foco.
Clareza
Clareza é escrever de modo que o leitor entenda na primeira leitura. Prefira frases diretas, sujeito explícito quando necessário e termos específicos.
Menos claro: “Isso pode causar problemas na sociedade.”
Mais claro: “A desinformação pode aumentar decisões de risco na saúde pública.”
Concisão
Concisão não é “texto curto”; é texto sem excesso. Corte redundâncias e expressões vagas.
Redundante: “planejar com antecedência prévia”
Conciso: “planejar com antecedência”
Prolixo: “no que diz respeito a”
Direto: “sobre”
Adequação vocabular (registro formal)
Evite gírias, marcas de oralidade e exageros. Prefira termos neutros e precisos. Cuidado com “palavras bonitas” usadas fora do sentido: vocabulário adequado vale mais do que vocabulário rebuscado.
Correção gramatical aplicada ao texto
Em produção textual, os erros mais penalizados costumam ser: concordância em períodos longos, regência em verbos frequentes (assistir, visar, preferir), pontuação que altera sentido (vírgula entre sujeito e verbo), crase em locuções e pronomes, e grafia de palavras comuns. A estratégia é revisar com um checklist (ver seção de revisão).
Coerência, coesão e norma-padrão: critérios de correção
Coerência (ideias que fazem sentido juntas)
Seu texto é coerente quando a tese combina com os argumentos e quando não há contradições internas.
Problema típico: defender “mais fiscalização” e, no desenvolvimento, criticar “qualquer forma de controle”, sem explicar a diferença.
Como evitar: retomar a tese no fechamento e verificar se cada parágrafo a sustenta.
Coesão (ligações entre frases e parágrafos)
Coesão é a “costura” do texto: conectivos, pronomes e retomadas que guiam o leitor. Use conectivos com intenção, sem exagero.
Conectivos úteis por função:
Adição: além disso, também, ainda.
Contraste: porém, contudo, entretanto.
Causa: porque, visto que, devido a.
Consequência: portanto, assim, desse modo.
Exemplificação: por exemplo, como, a exemplo de.
Conclusão/síntese: em síntese, desse modo, assim, portanto (com parcimônia).
Norma-padrão (adequação formal)
Além de ortografia e concordância, a banca observa: impessoalidade (evitar “eu acho”), pontuação funcional (vírgulas para organizar, não para “respirar”) e escolha de palavras sem ambiguidade.
Passo a passo prático: como produzir um texto dissertativo breve
1) Leia o tema e delimite o recorte
Reescreva o tema em uma frase e defina o recorte: “Vou falar sobre X no contexto Y, destacando Z”. Isso evita generalidades.
2) Defina a tese (posição) em uma linha
Tese é a resposta ao tema. Deve ser afirmativa e defensável.
Exemplo: “A educação midiática é essencial para reduzir os impactos da desinformação.”
3) Escolha 2 argumentos e um exemplo para cada
Argumentos comuns e seguros: impacto social, impacto econômico, impacto na saúde/segurança, papel do Estado, papel da escola, papel da família, tecnologia e responsabilidade.
Modelo rápido (roteiro):
Argumento 1: causa/efeito + exemplo.
Argumento 2: consequência/solução + exemplo.
4) Escreva com estrutura fixa (4 parágrafos)
Parágrafo 1: contextualize em 1–2 frases e apresente a tese. Parágrafo 2: desenvolva o argumento 1. Parágrafo 3: desenvolva o argumento 2. Parágrafo 4: sintetize e apresente encaminhamento coerente (ação, medida, orientação), sem inventar dados.
5) Revise com checklist de 2 minutos
Minha tese está explícita no 1º parágrafo?
Cada parágrafo tem uma função clara?
Usei conectivos para ligar ideias (sem repetir sempre os mesmos)?
Há frases longas demais que podem ser divididas?
Evitei “eu”, “a gente”, gírias e exageros?
Verifiquei pontuação em períodos com “que”, “porque”, “portanto”?
Há palavras vagas (“coisa”, “isso”, “algo”) sem referente claro?
Modelo de texto dissertativo breve (bem avaliado)
Tema: “A importância da disciplina e da organização na vida do estudante.”
Texto-modelo:
A disciplina e a organização são fatores decisivos para o desempenho do estudante, pois permitem administrar o tempo e manter constância nos estudos. Em um cenário de múltiplas demandas, essas habilidades reduzem a improvisação e favorecem resultados mais estáveis.
Em primeiro lugar, a organização viabiliza o planejamento realista da rotina. Ao distribuir tarefas por prioridade e por prazo, o estudante diminui atrasos e evita acumular conteúdos. Por exemplo, um cronograma semanal com metas pequenas e revisões periódicas torna o aprendizado mais contínuo e reduz a ansiedade antes de avaliações.
Além disso, a disciplina sustenta o plano mesmo quando a motivação oscila. A constância diária, ainda que em períodos curtos, tende a produzir melhor retenção do que longas sessões esporádicas. Desse modo, hábitos como estudar em horário fixo e registrar o que foi feito ajudam a manter o foco e a corrigir falhas rapidamente.
Em síntese, organização e disciplina se complementam: uma define o caminho e a outra garante a execução. Para fortalecer ambas, é recomendável estabelecer metas semanais mensuráveis, reservar horários fixos de estudo e realizar revisões curtas ao final de cada dia.
Modelo de texto com problemas comuns (e como corrigir)
Texto com problemas:
Disciplina é muito importante porque sem ela a pessoa não consegue nada. Hoje em dia tem muitas coisas e isso atrapalha bastante. A organização é uma coisa que ajuda e também a disciplina. Eu acho que se a pessoa quiser ela consegue, mas tem que ter força de vontade e foco, porque a vida é difícil e a sociedade cobra muito.
Principais problemas identificáveis pela banca:
Tese vaga: “muito importante” sem delimitar por quê e para quê.
Generalizações: “não consegue nada”, “muitas coisas”, “isso”.
Oralidade e pessoalidade: “Eu acho”.
Baixa coesão: ideias repetidas sem progressão.
Ausência de exemplo concreto: não há ilustração prática.
Reescrita (mais objetiva):
Disciplina e organização são essenciais para o estudante manter regularidade e administrar o tempo. Com um planejamento simples e hábitos consistentes, é possível reduzir atrasos, evitar acúmulo de conteúdo e melhorar o rendimento.
Rubrica de avaliação (como a banca pode pontuar)
Rubrica sugerida (0 a 10 pontos)
Atendimento ao tema e ao tipo textual (0–2): responde ao tema, mantém dissertação, evita fuga.
Coerência e progressão de ideias (0–2): tese clara, argumentos sustentam a tese, sem contradições.
Coesão (0–2): conectivos adequados, retomadas claras, parágrafos bem ligados.
Clareza e concisão (0–2): frases objetivas, sem redundâncias, vocabulário apropriado.
Norma-padrão (0–2): ortografia, concordância, regência e pontuação com poucos desvios.
Como usar a rubrica no treino
Após escrever, atribua uma nota em cada critério e justifique em uma linha. Em seguida, reescreva apenas o parágrafo com menor nota. Esse método acelera a melhora porque concentra esforço no ponto fraco.
Redação oficial (quando aplicável): princípios e modelos curtos
Princípios práticos
Impessoalidade: foco no fato/pedido, não em opiniões.
Clareza e precisão: datas, locais, números e nomes completos quando necessário.
Padronização: estrutura previsível e linguagem formal.
Objetividade: um assunto por documento; parágrafos curtos.
Modelo 1: Requerimento (estrutura simples)
REQUERIMENTO Assunto: Solicitação de segunda via de documento (Nome completo), (nacionalidade), (estado civil), (profissão/ocupação), portador do RG nº (xxx) e CPF nº (xxx), residente e domiciliado à (endereço completo), vem, respeitosamente, requerer a (autoridade/órgão) a emissão de segunda via de (documento), em razão de (motivo objetivo). Termos em que, pede deferimento. (Cidade), (data). (Assinatura) (Nome completo)Erros comuns: justificar com narrativa longa; inserir informalidades; omitir dados essenciais; escrever “venho por meio deste” repetidamente (pode usar uma vez, mas não é obrigatório).
Modelo 2: Ofício curto (comunicado objetivo)
OFÍCIO nº (xxx/ano) (Local), (data). À (autoridade/destinatário) Assunto: (resumo em uma linha) 1. Informo que (fato principal com data/local). 2. Solicito, se necessário, (ação objetiva, prazo e responsável). Atenciosamente, (Nome) (Cargo/Função)Dica de prova: se a questão pedir “clareza e concisão”, prefira períodos curtos e enumeração (1., 2.) para separar informações.
Temas para treino (dissertativo breve)
“O papel da rotina de estudos na conquista de objetivos de longo prazo.”
“Como o uso responsável da internet pode reduzir a desinformação.”
“A importância da saúde mental e do sono para o desempenho em avaliações.”
“Cidadania e respeito às regras: impactos na convivência social.”
“Atividade física e disciplina: benefícios para a vida acadêmica e profissional.”
Exemplo de aplicação da rubrica (tema + resposta bem avaliada)
Tema: “Como o sono influencia o desempenho do estudante.”
Resposta bem avaliada:
O sono influencia diretamente o desempenho do estudante, pois afeta a atenção, a memória e a capacidade de tomar decisões. Assim, dormir adequadamente não é apenas um hábito de saúde, mas uma condição prática para manter regularidade e qualidade nos estudos.
Em primeiro lugar, a consolidação da memória depende de um descanso suficiente. Quando o estudante reduz o sono para “ganhar tempo”, tende a reter menos conteúdo e a precisar de mais revisões, o que diminui a eficiência do estudo. Por exemplo, após noites mal dormidas, é comum aumentar o número de leituras sem que haja compreensão proporcional.
Além disso, o sono regula a atenção e o controle emocional, fatores relevantes em avaliações. A privação de descanso pode elevar a irritabilidade e reduzir a concentração, favorecendo erros por distração. Desse modo, manter horários regulares e evitar telas imediatamente antes de dormir contribui para um rendimento mais estável.
Em síntese, o sono melhora a aprendizagem e reduz falhas de atenção. Para preservar esse benefício, recomenda-se estabelecer rotina de horários, planejar o estudo para evitar “viradas” e reservar um período de desaceleração antes de dormir.
Erros recorrentes que derrubam nota (checklist de alerta)
Fuga parcial do tema: falar “sobre educação” quando o tema é “educação midiática”, sem delimitar.
Tese escondida: introdução longa sem posição clara.
Argumento circular: repetir a tese com outras palavras, sem explicar causa, efeito ou exemplo.
Conectivos mal usados: usar “portanto” sem ideia de consequência; usar “porém” sem contraste real.
Períodos extensos: muitas orações e vírgulas, aumentando risco de erro e perda de clareza.
Vocabulário impreciso: “coisas”, “isso”, “algo”, “muito”, “vários” sem especificar.
Proposta desconectada: sugerir solução que não conversa com os argumentos apresentados.