Como o CFN cobra interpretação
As questões de Compreensão e Interpretação no CFN costumam exigir leitura objetiva: identificar ideia central, reconhecer relações entre partes do texto e inferir informações implícitas. Um bom método é ler com foco em “o que o texto diz” (literal) e “o que o texto sugere” (inferencial), sempre justificando a resposta com trechos.
Passo a passo de leitura para prova
- 1) Leitura global: entenda o assunto e o tom (crítico, informativo, irônico).
- 2) Marque palavras-chave: conectivos (portanto, porém, embora), termos avaliativos (grave, necessário), repetições.
- 3) Tema e tese: tema = assunto; tese = posição/ideia defendida.
- 4) Parágrafos: identifique função (definir, exemplificar, contrapor, concluir).
- 5) Pergunta da questão: destaque o comando (inferir, identificar, justificar, sentido de expressão).
- 6) Prova no texto: confirme com evidência textual; evite “achismo”.
Tema e tese
Tema é o assunto geral do texto. Tese é a ideia central defendida pelo autor (um posicionamento, uma conclusão, uma avaliação). Em textos expositivos, a tese pode aparecer como recomendação; em textos argumentativos, como defesa explícita.
Exemplo guiado
Texto: “A pressa em responder mensagens no trabalho tem sido tratada como eficiência. No entanto, ela frequentemente interrompe tarefas complexas e reduz a qualidade do que se entrega. Mais do que rapidez, produtividade exige períodos de concentração.”- Tema: comunicação por mensagens no trabalho e produtividade.
- Tese: produtividade depende mais de concentração do que de rapidez em responder mensagens.
Miniquestão (estilo concurso)
Assinale a alternativa que apresenta corretamente a tese do texto.
- A) A eficiência no trabalho depende de responder mensagens o mais rápido possível.
- B) A pressa em responder mensagens pode reduzir a qualidade do trabalho, e produtividade exige concentração.
- C) Mensagens no trabalho são inevitáveis e, por isso, não afetam a produtividade.
- D) Tarefas complexas devem ser evitadas para aumentar a rapidez das entregas.
Gabarito: B. Por que está correta: retoma a oposição “pressa = eficiência” (contestada) e a conclusão “produtividade exige concentração”. Por que as outras estão incorretas: A inverte a posição do autor; C cria uma ideia não dita (inevitabilidade e ausência de efeito); D extrapola e propõe evitar tarefas complexas, o que não aparece no texto.
Inferências (o que está implícito)
Inferir é concluir algo a partir de pistas do texto. O CFN costuma cobrar inferências moderadas: deduções que dependem de conectivos, exemplos e escolhas vocabulares, sem exigir conhecimento externo.
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Passo a passo para inferir com segurança
- 1) Localize a pista: uma frase, um exemplo, um contraste.
- 2) Pergunte: “Se isso é verdade, o que decorre disso?”
- 3) Verifique limites: a inferência não pode ser mais forte do que o texto permite (evite “sempre”, “nunca”, “todos”).
- 4) Elimine extrapolações: alternativa que adiciona causa, intenção ou dado não sugerido.
Exemplo guiado
Texto: “O bairro ganhou ciclovias, mas a adesão ainda é baixa. Muitos moradores dizem que faltam bicicletários seguros perto do comércio.”Inferência provável: a falta de infraestrutura de apoio (bicicletários) desestimula o uso das ciclovias.
Miniquestão
Infere-se do texto que:
- A) os moradores são contrários à construção de ciclovias.
- B) a baixa adesão pode estar relacionada à ausência de bicicletários seguros.
- C) o comércio local proibiu o uso de bicicletas.
- D) a construção de ciclovias foi um erro e será desfeita.
Gabarito: B. Correta: decorre diretamente da justificativa apresentada pelos moradores. Incorretas: A não é afirmada; C inventa uma proibição; D é conclusão extrema sem base textual.
Pressupostos e subentendidos
Pressuposto é uma informação tomada como dada por certas palavras/estruturas (gatilhos linguísticos). Subentendido é uma sugestão do contexto, muitas vezes ligada a ironia, escolha lexical ou comparação.
Gatilhos comuns de pressuposição
- “voltar a” pressupõe que já ocorreu antes.
- “parar de” pressupõe que ocorria.
- “ainda” pressupõe continuidade do estado anterior.
- “também” pressupõe existência de outro elemento semelhante.
- orações relativas (“o aluno que faltou”) podem pressupor a existência do aluno faltoso.
Exemplo guiado
Frase: “O setor voltou a cumprir prazos após a mudança na chefia.”- Pressuposto: em algum momento, o setor já cumpriu prazos (e deixou de cumprir).
- Subentendido possível: a chefia anterior pode ter contribuído para o descumprimento (não é dito, apenas sugerido).
Miniquestão
Em “O setor voltou a cumprir prazos”, está pressuposto que:
- A) o setor sempre cumpriu prazos.
- B) o setor nunca cumpriu prazos.
- C) o setor já cumpriu prazos antes.
- D) a mudança na chefia foi irrelevante.
Gabarito: C. Correta: “voltar a” indica retomada de algo que já acontecia. Incorretas: A e B são absolutas e não decorrem do gatilho; D não é pressuposto, é avaliação sobre a causa.
Relações lógico-discursivas (conectivos e organização)
O CFN cobra a capacidade de reconhecer como as ideias se conectam: causa, consequência, oposição, condição, finalidade, explicação, exemplificação. Conectivos são pistas fortes, mas a relação pode existir mesmo sem conectivo explícito.
Mapa rápido de relações frequentes
- Oposição/contraste: mas, porém, contudo, entretanto, embora.
- Causa: porque, visto que, já que, devido a.
- Consequência: portanto, assim, logo, por isso, de modo que.
- Condição: se, caso, desde que.
- Finalidade: para, a fim de, com o objetivo de.
- Explicação: pois (antes do verbo), porque (em justificativa).
- Exemplificação: por exemplo, como, tais como.
Exemplo guiado
Trecho: “Embora o treinamento seja intenso, os resultados aparecem quando há regularidade.”“Embora” marca concessão: reconhece um fato (treinamento intenso) que não impede o outro (resultados com regularidade).
Miniquestão
No trecho “Embora o treinamento seja intenso, os resultados aparecem quando há regularidade”, a relação introduzida por “Embora” é de:
- A) causa.
- B) consequência.
- C) concessão.
- D) finalidade.
Gabarito: C. Correta: concessão = admite-se um obstáculo aparente que não impede a afirmação principal. Incorretas: A e B não se aplicam; D indicaria objetivo (“para que”).
Efeitos de sentido (tom, intenção e escolhas linguísticas)
Efeito de sentido é o resultado produzido no leitor por escolhas de palavras, pontuação, figuras e organização. Em prova, isso aparece em perguntas sobre ironia, crítica, intensificação, atenuação, formalidade, humor, indignação.
Exemplo guiado
Trecho: “É ‘curioso’ como a regra só vale quando convém.”Aspas em “curioso” sugerem ironia: o autor não considera realmente curioso; critica a seletividade no cumprimento da regra.
Miniquestão
O uso de aspas em “curioso” indica:
- A) sentido literal e elogioso.
- B) ironia e crítica.
- C) dúvida do autor sobre o significado da palavra.
- D) citação de um termo técnico.
Gabarito: B. Correta: aspas sinalizam distanciamento e sentido irônico. Incorretas: A contraria o tom; C não é sugerido; D não há contexto técnico nem fonte citada.
Denotação e conotação
Denotação é o sentido literal, de dicionário. Conotação é o sentido figurado, associado a valores e imagens. Questões do CFN podem pedir o sentido de uma palavra no contexto.
Exemplo guiado
Trecho: “Sem planejamento, o projeto virou um barco à deriva.”“Barco à deriva” está em conotação: sugere falta de direção/controle, não um barco real.
Miniquestão
Em “o projeto virou um barco à deriva”, a expressão indica:
- A) que o projeto foi transferido para o setor naval.
- B) que o projeto perdeu direção e controle.
- C) que o projeto passou a ser marítimo.
- D) que o projeto foi concluído com sucesso.
Gabarito: B. Correta: metáfora de desorientação. Incorretas: A e C interpretam literalmente sem apoio; D contraria a imagem de “à deriva”.
Intertextualidade (diálogo entre textos)
Intertextualidade ocorre quando um texto se relaciona com outro: citação, paráfrase, alusão, paródia, referência a ditados, slogans, obras conhecidas. Em prova, o foco é reconhecer o efeito: reforçar argumento, criticar, ironizar, atualizar uma ideia.
Exemplo guiado
Trecho: “No país do ‘depois eu vejo’, a prevenção sempre chega atrasada.”Há alusão a um comportamento social resumido em uma fala típica (“depois eu vejo”). O efeito é crítico: aponta procrastinação coletiva.
Miniquestão
O trecho “No país do ‘depois eu vejo’...” utiliza intertextualidade para:
- A) apresentar um dado estatístico oficial.
- B) elogiar a cultura de improviso.
- C) criticar um hábito social de adiar decisões.
- D) reproduzir literalmente um artigo de lei.
Gabarito: C. Correta: a expressão funciona como alusão a um discurso recorrente e produz crítica. Incorretas: A não há números; B contraria o sentido; D não é linguagem jurídica nem citação legal.
Coesão (como o texto “se amarra”)
Coesão é o conjunto de mecanismos linguísticos que conectam frases e parágrafos, evitando repetições e garantindo continuidade. O CFN costuma cobrar referência pronominal, substituições, elipses, conectivos e progressão lexical.
Principais mecanismos de coesão
- Referência: pronomes e expressões que retomam termos (ele, isso, tal medida, o referido).
- Substituição: troca por termo equivalente (o problema → a questão).
- Elipse: omissão recuperável pelo contexto (Eu fui ao treino; ele, ao estudo).
- Conjunções/conectores: organizam relações (porém, portanto, além disso).
- Coesão lexical: repetição intencional, sinônimos, hiperônimos/hipônimos (animal → cão).
Exemplo guiado
Texto: “A equipe revisou o relatório. Esse documento, porém, ainda precisava de dados atualizados.”“Esse documento” retoma “o relatório” (coesão por referência/substituição). “Porém” cria contraste: revisou, mas ainda faltava algo.
Miniquestão
No trecho “Esse documento, porém, ainda precisava de dados atualizados”, a expressão “Esse documento” retoma:
- A) “a equipe”.
- B) “o relatório”.
- C) “dados atualizados”.
- D) “porém”.
Gabarito: B. Correta: é o referente imediato e coerente. Incorretas: A é agente, não objeto; C é complemento posterior; D é conectivo, não referente.
Questões integradas (misturando habilidades)
Em prova, é comum uma questão exigir mais de uma habilidade: identificar tese e, ao mesmo tempo, reconhecer conectivo; ou inferir a partir de uma metáfora; ou perceber ironia por aspas e contexto.
Texto-base
“Diz-se que ‘falta tempo’ para ler. No entanto, tempo não é um objeto perdido: é uma escolha diária. Quando a leitura vira prioridade, ela cabe em intervalos pequenos, como deslocamentos e filas. O problema, portanto, não é a ausência de minutos, mas a ausência de decisão.”Miniquestão 1
A tese do texto é:
- A) Ler exige longos períodos ininterruptos de tempo.
- B) A leitura deve ocorrer apenas em casa e em silêncio.
- C) A falta de leitura decorre mais de escolhas do que de falta real de tempo.
- D) Deslocamentos e filas impedem a leitura.
Gabarito: C. Correta: sintetiza “tempo é escolha” e “problema é ausência de decisão”. Incorretas: A contraria “intervalos pequenos”; B não aparece; D inverte o exemplo (o texto diz que nesses momentos cabe leitura).
Miniquestão 2
No texto, o conectivo “portanto” introduz uma relação de:
- A) oposição.
- B) conclusão.
- C) exemplificação.
- D) condição.
Gabarito: B. Correta: “portanto” conclui a argumentação anterior. Incorretas: A seria “no entanto”; C seria “como/por exemplo”; D seria “se/caso”.
Miniquestão 3
As aspas em “falta tempo” sugerem:
- A) citação literal de um autor específico.
- B) uso irônico de uma justificativa comum.
- C) termo técnico da área de cronobiologia.
- D) dúvida quanto à ortografia da expressão.
Gabarito: B. Correta: aspas marcam distanciamento crítico de um argumento repetido socialmente. Incorretas: A não há fonte; C não há tecnicidade; D não há indício de dúvida ortográfica.