Leitura, interpretação e compreensão de textos são competências centrais em provas de Língua Portuguesa para concursos da Polícia Militar. Elas envolvem identificar o que o texto diz (compreensão), o que o texto quer dizer (interpretação) e como o texto constrói sentidos (recursos linguísticos e organização).
Conceitos essenciais
Leitura
Leitura é o processo de decodificar e acompanhar a progressão das ideias do texto. Em prova, leitura eficiente significa localizar informações, reconhecer a estrutura (introdução, desenvolvimento, conclusão) e perceber marcadores de organização (por exemplo: “portanto”, “porém”, “além disso”).
Compreensão
Compreensão é captar o sentido literal e as informações explícitas. Perguntas típicas: “Segundo o texto...”, “De acordo com o autor...”, “O texto afirma que...”. Aqui, a resposta costuma estar escrita de forma direta ou com paráfrase (mesma ideia com outras palavras).
Interpretação
Interpretação é inferir sentidos implícitos, intenções, pressupostos e consequências. Perguntas típicas: “Infere-se que...”, “Subentende-se...”, “O objetivo do texto é...”, “A posição do autor...”. A interpretação correta depende de evidências textuais, não de opinião pessoal.
Texto, contexto e inferência
Contexto é o conjunto de pistas internas do texto (vocabulário, exemplos, tom, conectivos, progressão argumentativa) e, quando necessário, o contexto comunicativo (quem fala, para quem, com qual finalidade). Inferência é a conclusão lógica obtida a partir dessas pistas. Em prova, inferir não é “imaginar”: é deduzir com base no que está escrito.
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Estratégia prática de leitura para questões
Passo a passo (aplicável à maioria das bancas)
1) Leia o comando da questão antes do texto (quando o texto é longo): identifique se a questão pede ideia central, inferência, sentido de palavra, coesão, argumento, finalidade, etc. Isso direciona sua atenção.
2) Faça uma leitura global do texto: busque o tema e a tese (opinião/posição) ou o objetivo (informar, argumentar, criticar, orientar). Pergunte: “Sobre o que é?” e “O que o autor defende/pretende?”.
3) Mapeie a estrutura em 3 a 5 pontos: anote mentalmente a função de cada parágrafo (ex.: apresentar problema, explicar causa, dar exemplo, propor solução, concluir). Isso ajuda a localizar informações e entender a progressão.
4) Sublinhe mentalmente conectivos e modalizadores: conectivos (porém, portanto, embora, além disso) mostram relações lógicas; modalizadores (talvez, certamente, é provável) indicam grau de certeza e posicionamento.
5) Volte ao comando e identifique o tipo de tarefa: localizar (explícito), inferir (implícito), interpretar atitude do autor (tom), reescrever mantendo sentido (paráfrase), analisar coesão (referentes), etc.
6) Elimine alternativas por incompatibilidade textual: descarte as que contradizem o texto, exageram (“sempre”, “nunca”), generalizam sem base, ou trazem informação externa.
7) Confirme a alternativa correta com uma “prova” do texto: a resposta deve ser sustentada por trecho ou por inferência lógica inevitável.
Ideia principal, tema e tese
Como diferenciar
Tema: assunto geral (ex.: “segurança pública”, “uso de tecnologia”, “trânsito”).
Ideia principal: síntese do que o texto desenvolve (o núcleo informativo/argumentativo).
Tese: posição defendida (em textos argumentativos), geralmente acompanhada de justificativas.
Passo a passo para achar a ideia principal
Identifique palavras repetidas e campos semânticos (termos do mesmo assunto).
Observe o 1º parágrafo (apresentação do foco) e o último (fechamento da linha de raciocínio), sem presumir que a resposta está “sempre” neles.
Procure frases que generalizam e organizam o texto (ex.: “O problema central é...”, “Dessa forma...”).
Teste uma síntese em uma frase: se ela abrange a maioria dos parágrafos sem detalhes excessivos, está no caminho certo.
Inferências e implícitos
O que costuma cair
Pressuposto: informação considerada verdadeira para que a frase faça sentido.
Subentendido: informação sugerida, não declarada diretamente.
Consequência lógica: conclusão decorrente do encadeamento de ideias.
Exemplo prático (inferência)
Frase: “Apesar do aumento do efetivo, os índices de ocorrências não reduziram.”
Explícito: houve aumento do efetivo; os índices não reduziram.
Inferência provável: o aumento do efetivo, por si só, não foi suficiente para reduzir ocorrências (ou outros fatores influenciaram).
Armadilha comum: concluir que “o aumento do efetivo foi inútil” (juízo absoluto não sustentado).
Coesão e coerência na interpretação
Coesão (ligações no texto)
Coesão é o conjunto de mecanismos que conectam palavras, frases e parágrafos. Em questões, aparece em pronomes, elipses, sinônimos, repetição controlada e conectivos.
Como resolver questões de referente (a que/quem se refere)
Localize o pronome/expressão (ex.: “isso”, “essa medida”, “tal iniciativa”).
Volte ao período anterior e identifique o candidato mais próximo que faça sentido.
Confirme concordância e sentido: o referente precisa “encaixar” semanticamente.
Coerência (sentido global)
Coerência é a lógica interna do texto: ausência de contradições, progressão de ideias e compatibilidade entre argumentos e conclusão. Alternativas erradas frequentemente quebram a coerência ao trocar causa por consequência, inverter relações ou atribuir ao autor uma posição que ele não defende.
Conectivos e relações de sentido (muito cobrados)
Conectivos orientam a interpretação porque indicam a relação lógica entre partes do texto.
Adição: “além disso”, “bem como”.
Contraste: “porém”, “contudo”, “embora”.
Causa: “porque”, “visto que”.
Consequência: “portanto”, “assim”, “logo”.
Condição: “se”, “caso”.
Finalidade: “para”, “a fim de”.
Passo a passo para questões de conectivo
Leia o período completo, não apenas o trecho do conectivo.
Identifique a relação entre as duas ideias (ex.: oposição, conclusão, explicação).
Teste a substituição por conectivos equivalentes (sem alterar o sentido).
Elimine opções que mudam a lógica (trocar causa por consequência é erro clássico).
Vocabulário em contexto (sentido de palavras e expressões)
Em concursos, o sentido de uma palavra depende do contexto. A banca pode cobrar sinônimo contextual, antonímia, conotação/denotação e valor expressivo.
Passo a passo para achar o sentido contextual
Substitua a palavra por um sinônimo possível e veja se o período mantém sentido.
Observe se há ironia, crítica ou formalidade (tom do texto).
Verifique se a palavra está em sentido figurado (conotativo) ou literal (denotativo).
Exemplo prático (sentido contextual)
Trecho: “A medida foi um freio para a escalada de conflitos.”
“Freio” não é literal; significa “contenção”, “limitação”, “controle”.
Tipologia textual e finalidade
Reconhecer o tipo de texto ajuda a prever o que será cobrado.
Narrativo: fatos em sequência (personagens, tempo, espaço). Questões: foco narrativo, causa/efeito de ações, inferências sobre personagens.
Descritivo: características e detalhes. Questões: traços, efeitos de adjetivação, imagem construída.
Dissertativo-argumentativo: tese + argumentos. Questões: ponto de vista, estratégias argumentativas, contra-argumento, conclusão.
Injuntivo/instrucional: orientações e procedimentos. Questões: finalidade, sequência lógica, verbos no imperativo/infinitivo.
Como lidar com pegadinhas comuns
Generalizações e absolutismos
Alternativas com “sempre”, “nunca”, “totalmente”, “apenas” tendem a estar erradas quando o texto é moderado ou apresenta exceções. Confirme se o texto realmente autoriza a ideia absoluta.
Troca de termos e paráfrase enganosa
A banca pode reescrever uma ideia trocando uma palavra por outra parecida, mas que muda o sentido (ex.: “reduzir” vs. “eliminar”; “possível” vs. “certo”). Compare o grau de certeza e a extensão da afirmação.
Opinião do candidato
Mesmo que você concorde com uma alternativa, ela só é correta se estiver sustentada pelo texto. Em interpretação, vale a “verdade do texto”, não a crença pessoal.
Treino dirigido: mini-roteiro para resolver uma questão
1) Identifique o pedido: explícito, inferência, vocabulário, conectivo, tese, finalidade. 2) Localize no texto o trecho-base (parágrafo/linha). 3) Reescreva mentalmente a ideia com suas palavras (paráfrase fiel). 4) Compare com as alternativas: elimine contradições, exageros e informações externas. 5) Marque a opção que pode ser justificada por trecho ou inferência necessária.