A Lei de Execução Penal (LEP) orienta a rotina do Policial Penal porque define a finalidade da execução, organiza quem decide e quem executa, estabelece direitos e deveres das pessoas presas e descreve como a disciplina deve ser aplicada. No cotidiano, isso se traduz em procedimentos operacionais padronizados e em registros formais (comunicados, relatórios, livros e sistemas) que dão rastreabilidade, controle e segurança jurídica às ações.
1) Finalidade da execução penal na prática operacional
Na rotina, a finalidade da execução penal se materializa em dois eixos simultâneos: (1) cumprimento da decisão judicial com segurança e legalidade; (2) criação de condições para reintegração social, por meio de acesso a assistências e atividades previstas. Para o Policial Penal, isso significa atuar com foco em custódia segura, respeito às garantias legais e registro fiel de tudo que impacta direitos, deveres e disciplina.
Como isso vira procedimento
- Legalidade e rastreabilidade: toda intervenção relevante deve gerar registro (ex.: uso de algemas, apreensão de objeto, encaminhamento à saúde, ocorrência disciplinar).
- Proporcionalidade: medidas de contenção e disciplina devem ser adequadas ao risco (ex.: separar conflito, isolar área, acionar chefia, registrar).
- Imparcialidade: tratamento isonômico, evitando privilégios e punições informais.
Registros típicos associados
- Comunicado de ocorrência (fato objetivo, horário, local, envolvidos, providências).
- Relatório circunstanciado (quando há impacto maior: lesão, dano, fuga, apreensão relevante, resistência).
- Livro de ocorrências / sistema eletrônico (lançamento diário e rastreável).
2) Órgãos da execução penal: quem decide e como o Policial Penal aciona
A LEP distribui competências entre órgãos que decidem (ex.: juiz da execução) e órgãos que executam e fiscalizam (administração penitenciária, Ministério Público, Defensoria, Conselho Penitenciário, patronato, entre outros). Na prática, o Policial Penal precisa saber quando e como acionar cada instância, sempre por meio de registros formais.
Tradução para o cotidiano
- Demandas judiciais: cumprimento de alvarás, guias, determinações de transferência, autorizações de saída/visita, decisões sobre sanções e benefícios. O Policial Penal executa o que chega formalmente e registra o cumprimento.
- Atuação do MP/Defensoria: inspeções, atendimento a presos, requisições de informação. O Policial Penal organiza fluxo, garante segurança e registra entradas/saídas e intercorrências.
- Administração da unidade: rotinas internas (movimentação, escoltas internas, disciplina, assistência). O Policial Penal cumpre ordens de serviço e protocolos, registrando desvios e ocorrências.
Passo a passo prático: recebimento e cumprimento de determinação externa
- 1. Conferir autenticidade e integridade do documento/ordem (origem, assinatura/validação, dados do custodiado, data e hora).
- 2. Identificar impacto operacional (movimentação, escolta, retirada de cela, atendimento, transferência).
- 3. Comunicar chefia imediata e setores envolvidos (segurança, prontuário, saúde, assistência, transporte).
- 4. Executar conforme protocolo (checagem de identidade, revista, condução segura, registro de horários).
- 5. Registrar o cumprimento no livro/sistema e anexar documento ao prontuário, quando aplicável.
3) Direitos e deveres do preso: como garantir direitos sem perder controle e segurança
Direitos e deveres são operacionais: o Policial Penal é um dos principais agentes de garantia de direitos (por permitir acesso e não criar obstáculos indevidos) e de exigência de deveres (por orientar, fiscalizar e registrar descumprimentos). O ponto central é diferenciar: direito previsto (deve ser viabilizado) versus pretensão não prevista (pode ser negada, com justificativa e registro).
Quadro comparativo: direitos do preso x deveres da administração x conduta esperada do Policial Penal
Direito do preso (LEP) | Dever da administração | Conduta esperada do Policial Penal (exemplo prático) | Registro recomendadoIntegridade física e moral | Prevenir violência e abusos | Intervir em agressão, separar envolvidos, acionar apoio e saúde | Comunicado + relatório + encaminhamento à saúdeAlimentação e vestuário adequados | Fornecer e controlar distribuição | Garantir entrega regular, registrar falta/atraso e intercorrências | Livro de ocorrências + registro de distribuição (quando houver)Atendimento à saúde | Assegurar acesso e continuidade | Identificar sinais de urgência, priorizar encaminhamento, escoltar com segurança | Registro de encaminhamento + ocorrência se houver recusa/alteraçãoAssistência jurídica (contato com defensor/advogado) | Viabilizar atendimento e sigilo | Organizar fluxo e segurança sem violar sigilo do conteúdo | Registro de entrada/saída e agenda (sem conteúdo da conversa)Educação e trabalho (quando ofertados) | Ofertar e organizar vagas/rotina | Conduzir presos às atividades, controlar presença e incidentes | Lista de presença + ocorrência se houver indisciplinaVisita (conforme regras) | Regulamentar e fiscalizar | Aplicar protocolo de identificação e revista, evitar tratamento discriminatório | Registro de visitantes + ocorrência em caso de tentativa de ingresso de ilícitoCorrespondência (regras internas) | Garantir fluxo e controle lícito | Receber/entregar conforme norma, registrar retenções justificadas | Protocolo de recebimento/entrega + justificativaLiberdade de crença (assistência religiosa) | Permitir acesso organizado | Garantir entrada de agentes religiosos credenciados e segurança do ato | Registro de atividade e participantesDeveres do preso e reflexos imediatos na rotina
- Disciplina e respeito às normas: descumprimentos devem ser tratados por vias formais (orientação, advertência conforme norma interna, comunicação à chefia, procedimento disciplinar quando cabível).
- Obediência a ordens legais: recusa injustificada de procedimento de segurança (ex.: revista, deslocamento) exige gestão de crise e registro.
- Higiene e conservação: quando houver dano ao patrimônio, registrar, preservar local e comunicar para apuração.
Ocorrência comum: preso alega violação de direito
- 1. Ouvir e identificar o pedido (o que exatamente está sendo negado: saúde, visita, banho de sol, alimentação, atendimento jurídico).
- 2. Verificar norma e condições (horário, escala, segurança, decisão administrativa/judicial).
- 3. Se for direito viável no momento: providenciar e registrar.
- 4. Se não for viável: explicar motivo objetivo (segurança, indisponibilidade momentânea, necessidade de autorização) e registrar a demanda e a resposta.
- 5. Encaminhar à chefia/assistência quando extrapolar competência imediata.
4) Classificação e individualização da execução: rotinas de triagem, movimentação e registros
A individualização significa que a execução não é “igual para todos”: ela considera situação processual, perfil de risco, necessidades de saúde, vínculos familiares, escolaridade, aptidão laboral e histórico disciplinar. A classificação orienta alocação (cela/ala), rotinas, acesso a atividades e medidas de segurança. O Policial Penal atua como fonte de informação operacional e como executor das movimentações definidas.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
Tradução para procedimentos
- Triagem de ingresso: conferência de identidade, verificação de documentos, revista, inventário de pertences, avaliação inicial de risco e vulnerabilidades (ex.: risco de suicídio, conflitos, ameaças).
- Alocação e separações necessárias: separar por critérios administrativos e de segurança (ex.: incompatibilidades, risco de vitimização, necessidade de observação).
- Movimentações internas: deslocamentos devem ser planejados (rota, efetivo, horários) e registrados.
Passo a passo prático: ingresso do preso na unidade (rotina de custódia)
- 1. Recepção documental: conferir guia/ordem, dados pessoais, situação processual e restrições.
- 2. Identificação: checar identidade, coletar/confirmar biometria/foto (se houver sistema), conferir sinais particulares.
- 3. Revista e inventário: realizar conforme protocolo; listar pertences permitidos e apreender/guardar os proibidos com recibo.
- 4. Avaliação inicial: observar sinais de intoxicação, lesões, sofrimento psíquico; acionar saúde quando necessário.
- 5. Encaminhamento e alocação: conduzir à área definida; registrar cela/ala e horário.
- 6. Lançamentos: inserir dados no sistema/livros e anexar documentos ao prontuário.
Registros essenciais
- Ficha/prontuário de ingresso (dados, documentos, alocação, observações).
- Termo de guarda de pertences (itens, quantidade, condição, assinatura/ciência).
- Registro de encaminhamento à saúde (quando houver).
5) Assistências previstas na LEP: como o Policial Penal viabiliza na prática
As assistências (material, saúde, jurídica, educacional, social e religiosa) não são “favores”; são rotinas que precisam de segurança, fluxo e documentação. O Policial Penal atua garantindo acesso, controlando movimentação, prevenindo ilícitos e registrando intercorrências.
5.1 Assistência material (alimentação, vestuário, higiene)
- Procedimento operacional: controle de distribuição por horário e quantitativo; prevenção de tumultos; identificação de faltas e desvios.
- Ocorrência comum: alegação de comida estragada. Conduta: recolher amostra conforme norma interna, comunicar setor responsável, registrar lote/horário e presos afetados, evitar discussão coletiva no pátio.
- Registro: livro/sistema + comunicado ao setor de alimentação.
5.2 Assistência à saúde
Saúde envolve urgência, continuidade e segurança. O Policial Penal não substitui equipe de saúde, mas é decisivo para reconhecer sinais de gravidade, organizar prioridade e garantir escolta segura.
- Sinais de alerta: falta de ar, dor intensa, convulsão, sangramento, rebaixamento de consciência, tentativa de autoextermínio, surto psicótico.
- Procedimento operacional: acionar saúde, isolar área se necessário, controlar curiosos, preservar dignidade, registrar horários e medidas adotadas.
Passo a passo prático: atendimento de urgência na cela
- 1. Garantir segurança da cena (avaliar risco, solicitar apoio, abrir grade conforme protocolo).
- 2. Acionar imediatamente a saúde e informar sinais observados.
- 3. Preservar integridade (retirar objetos perigosos se houver risco de autoagressão, sem excessos e com testemunhas quando possível).
- 4. Escolta interna até enfermaria/ambulância conforme orientação.
- 5. Registrar horário do chamado, chegada do atendimento, encaminhamento e eventuais recusas.
5.3 Assistência jurídica
- Procedimento operacional: organizar atendimento com defensor/advogado, controlar entrada e saída, garantir segurança sem interferir no conteúdo da conversa.
- Ocorrência comum: preso exige atendimento imediato fora do horário. Conduta: explicar fluxo, registrar solicitação, encaminhar ao setor responsável, avaliar se há urgência (ex.: prazo processual informado por documento).
- Registro: agenda/controle de atendimentos + ocorrência se houver tumulto.
5.4 Assistência educacional e laboral (quando ofertadas)
- Procedimento operacional: conferência nominal, condução em grupos controlados, revista conforme protocolo, controle de materiais permitidos (ex.: lápis, cadernos, ferramentas em oficinas).
- Ocorrência comum: material escolar usado para ocultar ilícito. Conduta: apreender, identificar responsável, preservar item, comunicar chefia e registrar.
- Registro: termo de apreensão + comunicado/relatório.
5.5 Assistência social
- Procedimento operacional: apoiar fluxos de contato familiar, documentação civil, encaminhamentos internos; garantir ordem em filas e atendimentos.
- Ocorrência comum: conflito em dia de visita por informação de suspensão. Conduta: explicar motivo objetivo, encaminhar para setor competente, evitar aglomeração, registrar.
- Registro: ocorrência + encaminhamento ao serviço social.
5.6 Assistência religiosa
- Procedimento operacional: credenciamento/identificação de visitantes religiosos, controle de objetos permitidos, organização de local e horário, prevenção de proselitismo coercitivo e de uso do ato para comunicação ilícita.
- Registro: lista de participantes, horário, intercorrências.
6) Disciplina na LEP: regras, faltas e resposta formal (sem punição informal)
Disciplina é o eixo que mantém a ordem e a segurança, mas deve ser aplicada por meios formais, com registro e comunicação à autoridade competente. O Policial Penal atua na prevenção, na intervenção imediata e na documentação que subsidia apuração e decisão administrativa.
Princípios operacionais de disciplina
- Prevenção: rotinas previsíveis, revistas conforme protocolo, controle de movimentação, observação de sinais de tensão.
- Intervenção proporcional: cessar a conduta e estabilizar o ambiente com o menor risco possível.
- Formalização: sem “acertos” informais; toda falta relevante deve ser comunicada e registrada.
Passo a passo prático: ocorrência disciplinar (ex.: desobediência e incitação)
- 1. Conter e estabilizar (separar lideranças, reduzir público, acionar reforço).
- 2. Identificar envolvidos (nomes, matrículas, cela/ala, testemunhas).
- 3. Descrever fatos objetivos (o que foi dito/feito, sem adjetivos; horários e locais).
- 4. Recolher evidências (imagens, objetos, bilhetes, danos), preservando cadeia de custódia conforme norma interna.
- 5. Comunicar chefia e encaminhar para procedimento apuratório conforme regulamento.
- 6. Registrar em livro/sistema e anexar documentos pertinentes.
Ocorrências comuns e condutas esperadas
- Briga entre presos: separar, acionar apoio, identificar agressores/vítimas, encaminhar à saúde, preservar local, registrar e comunicar.
- Posse de objeto proibido: apreender com segurança, identificar responsável e local de encontro, registrar com detalhamento, comunicar para apuração.
- Dano ao patrimônio (quebra de grade/porta): isolar área, avaliar risco de fuga, acionar manutenção e chefia, registrar com fotos (se permitido) e descrição técnica.
- Recusa de revista/deslocamento: negociar com comando verbal, chamar chefia, avaliar necessidade de contenção conforme protocolo, registrar a recusa e as medidas.
7) Registros formais: padrão mínimo para comunicados, relatórios, livros e sistemas
O registro é o que transforma a ação em ato administrativo rastreável. Um bom registro protege o servidor, a administração e o próprio preso, porque permite verificação posterior e reduz espaço para versões conflitantes.
Checklist de qualidade do registro
- Objetividade: fatos observáveis (sem suposições).
- Precisão: data, hora, local, identificação completa dos envolvidos.
- Sequência: o que ocorreu antes, durante e depois; providências adotadas.
- Provas: anexos, itens apreendidos, imagens, testemunhas.
- Encaminhamentos: para quem foi comunicado e qual foi a orientação recebida.
Modelo de estrutura (adaptável) para comunicado de ocorrência
1. Identificação: data/hora, local, equipe de serviço, setor/ala/cela. 2. Envolvidos: nome, matrícula, situação (preso/servidor/visitante). 3. Fato: descrição objetiva do ocorrido. 4. Providências imediatas: contenção, separação, revista, apreensão, acionamentos. 5. Encaminhamentos: saúde, chefia, procedimento disciplinar, manutenção, autoridade externa (se aplicável). 6. Materiais/evidências: itens, fotos, vídeos, testemunhas. 7. Observações: condições do ambiente, riscos identificados.Quadro comparativo: quando usar cada tipo de registro
Tipo de registro | Melhor uso | ExemploLivro de ocorrências | Rotina diária e fatos simples | Atraso na distribuição de alimentação; troca de plantão com intercorrênciaComunicado | Fato relevante que exige ciência da chefia | Apreensão de objeto proibido; recusa de procedimentoRelatório circunstanciado | Fato grave/complexo com impactos | Lesão, tentativa de fuga, motim, uso de força, grande apreensãoSistema eletrônico | Consolidação oficial e rastreável | Lançamento de movimentação, atendimento, sanção, encaminhamento