O que é “preenchimento genérico” no Lean Canvas (e por que ele trava decisões)
Preenchimento genérico é quando você escreve frases que parecem corretas, mas não permitem checagem, priorização ou escolha. Em vez de orientar experimentos e decisões, o canvas vira um “texto de apresentação” cheio de intenções. O sinal mais claro é: se outra pessoa pode copiar e colar o seu canvas e ele ainda “servir” para um negócio diferente, está genérico.
Este capítulo consolida erros recorrentes em todos os blocos e oferece heurísticas, termos de alerta e reescritas guiadas para transformar frases bonitas em hipóteses verificáveis.
Heurísticas rápidas para detectar genericidade (use como “teste de estresse”)
- Teste do “para quem, quando, onde”: se a frase não deixa claro quem é, em que situação e em qual contexto, está ampla demais.
- Teste do “comparável”: se não dá para comparar com alternativa (concorrente, status quo, planilha, WhatsApp, processo manual), falta referência.
- Teste do “medível”: se não dá para medir em 2–4 semanas com um experimento simples, está vaga.
- Teste do “verbo concreto”: prefira verbos observáveis (agendar, pagar, cancelar, responder, enviar, integrar) a verbos abstratos (otimizar, potencializar, revolucionar).
- Teste do “número mínimo”: inclua pelo menos um número quando fizer sentido (frequência, tempo, custo, taxa, volume). Sem números, a frase tende a virar opinião.
- Teste do “bloco certo”: se você escreveu solução no problema, canal na solução, ou métrica na proposta, há mistura de blocos.
Erros de iniciantes por bloco (padrões que se repetem)
| Bloco | Erros comuns | Como aparece |
|---|---|---|
| Problema | Generalização; falta de recorte; ausência de evidência | “Empresas têm dificuldade com gestão” |
| Segmentos | “Todo mundo”; persona sem critério; mistura com canal | “Pessoas que usam redes sociais” |
| Proposta de Valor | Jargão; promessa sem prova; benefício sem comparação | “Solução inovadora e completa” |
| Solução | Lista de features “wishlist”; escopo grande; confunde com proposta | “App com IA, dashboard, gamificação…” |
| Canais | “Vamos usar redes sociais”; canal sem custo/etapa; confunde com segmento | “Instagram e Google” |
| Receitas | “Vamos cobrar assinatura”; sem preço, sem unidade, sem pagador | “Monetização via premium” |
| Custos | Omissão de custos relevantes; lista genérica; sem drivers | “Marketing, equipe, servidores” |
| Métricas | Métricas de vaidade; sem definição; sem ligação com decisão | “Seguidores e visitas” |
| Vantagem Competitiva | “Atendimento bom”; “tecnologia”; algo copiável | “Equipe experiente” |
Lista de termos proibidos/alertas (e substituições verificáveis)
Use a lista abaixo como “detector de fumaça”: se aparecer, reescreva com linguagem observável, comparável e testável.
| Termo/expressão (alerta) | Por que é fraco | Substitua por |
|---|---|---|
| “inovador(a)”, “disruptivo(a)” | Não diz o que muda | “reduz X de Y para Z”, “substitui o processo A (manual) por B (automático)” |
| “simples”, “intuitivo” | Subjetivo | “usuário conclui tarefa T em até N cliques/minutos sem treinamento” |
| “melhor”, “mais eficiente” | Sem base de comparação | “tempo médio cai de 2h para 20min”, “erros caem de 8% para 2%” |
| “plataforma completa”, “tudo em um” | Escopo indefinido | “cobre etapas E1–E3 do fluxo; não cobre E4–E6 (por enquanto)” |
| “IA” (sem função) | Buzzword | “classifica tickets por categoria em <5s com taxa de acerto ≥ 85%” |
| “automação” | Não diz o quê | “gera documento D a partir de dados X; envia para Y; registra em Z” |
| “escalável” | Vago | “custo marginal por cliente ≤ R$X; onboarding em ≤ N minutos” |
| “parcerias estratégicas” | Não define com quem nem por quê | “parceria com tipo T (ex.: contabilidades) para indicação; comissão de Y%” |
| “vamos viralizar” | Desejo, não plano | “mecanismo de convite: usuário convida 3; taxa de aceitação ≥ 20%” |
| “mercado enorme” | Não orienta foco | “subsegmento S com N empresas; ticket médio R$X; ciclo de venda Y dias” |
| “alta qualidade” | Sem critério | “SLA de resposta < 2h; NPS ≥ 45; taxa de retrabalho ≤ 3%” |
Coleção de exemplos ruins por bloco + reescritas guiadas (com raciocínio)
1) Problema
Exemplo ruim A: “Empresas têm dificuldade em organizar processos.”
Reescrita: “Em agências de marketing com 5–20 pessoas, o dono revisa manualmente entregas em 3 ferramentas (Drive, WhatsApp, Trello), gerando retrabalho semanal (≥ 4h) e atrasos em pelo menos 2 entregas/mês.”
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- Raciocínio: adiciona recorte (tipo e tamanho), contexto (ferramentas), consequência (retrabalho/atraso) e um número mínimo para permitir validação.
Exemplo ruim B (mistura com solução): “Falta um app para gerenciar tarefas.”
Reescrita: “Quando o time recebe demandas por múltiplos canais (e-mail, WhatsApp, reunião), 30–40% das solicitações não viram tarefa rastreável, causando reabertura e cobrança do cliente.”
- Raciocínio: remove a solução (“app”) e descreve o fenômeno observável (perda de rastreabilidade) com taxa estimada a ser medida.
2) Segmentos de Clientes
Exemplo ruim A: “Pequenas e médias empresas.”
Reescrita: “Clínicas odontológicas com 2–6 cadeiras em capitais, que atendem particular + convênio e têm 1 recepcionista responsável por agenda e confirmações.”
- Raciocínio: define unidade operacional (cadeiras), local, modelo de atendimento e papel (quem sente a dor/usa).
Exemplo ruim B (mistura com canal): “Empreendedores que estão no Instagram.”
Reescrita: “Donos de e-commerce D2C com 50–300 pedidos/mês, que já usam Shopify e têm 1 pessoa em atendimento.”
- Raciocínio: remove o canal (Instagram) e coloca critérios de operação e stack atual (importante para integração e adoção).
3) Proposta de Valor
Exemplo ruim A: “Uma plataforma completa e inovadora para aumentar produtividade.”
Reescrita: “Centraliza solicitações de clientes em um único fluxo e reduz o tempo de triagem de demandas de ~30 min/dia para ~10 min/dia por responsável, mantendo histórico por cliente.”
- Raciocínio: troca adjetivos por resultado específico, com comparação e mecanismo (centralização + histórico).
Exemplo ruim B (promessa sem prova): “Melhor experiência para o usuário.”
Reescrita: “Usuário consegue concluir o cadastro e agendar a primeira ação em até 3 minutos, sem suporte, com taxa de ativação alvo ≥ 40%.”
- Raciocínio: define “experiência” como comportamento mensurável (tempo + ativação).
4) Solução
Exemplo ruim A (wishlist): “App com IA, dashboard, relatórios, chat, integrações, gamificação.”
Reescrita: “MVP com 3 componentes: (1) captura de demanda via formulário/link único; (2) fila com status e responsável; (3) notificações automáticas de atualização para o solicitante.”
- Raciocínio: reduz escopo para o mínimo que testa a hipótese central; descreve componentes funcionais, não buzzwords.
Exemplo ruim B (mistura com proposta): “Solução para reduzir custos e aumentar eficiência.”
Reescrita: “Funcionalidade: importação de pedidos do canal X; regra de priorização por SLA; geração automática de etiqueta; registro de exceções.”
- Raciocínio: “reduzir custos” é efeito; aqui entram mecanismos/funcionalidades que podem ser construídos e testados.
5) Canais
Exemplo ruim A: “Redes sociais e Google Ads.”
Reescrita: “Aquisição: anúncios de busca para termos ‘software de confirmação de consulta’ (CPC teto R$X). Ativação: landing com demonstração + CTA para teste. Retenção: lembretes por e-mail/WhatsApp com conteúdo de uso. Meta: CAC ≤ R$Y e payback ≤ 2 meses.”
- Raciocínio: canal vira sequência (aquisição→ativação→retenção) com limites de custo e critério de sucesso.
Exemplo ruim B (confunde canal com parceria vaga): “Parcerias com empresas.”
Reescrita: “Canal indireto: contabilidades que atendem clínicas (carteira média 30–80). Oferta: comissão de 15% por 6 meses; material de indicação; meta de 5 indicações/mês por parceiro ativo.”
- Raciocínio: define quem é o parceiro, incentivo, mecanismo e meta operacional.
6) Fluxos de Receita
Exemplo ruim A: “Assinatura mensal.”
Reescrita: “Assinatura por unidade (por clínica): R$149/mês até 2 cadeiras; R$249/mês até 6 cadeiras. Pagador: dono/gestor. Cobrança via cartão/boleto. Hipótese: ≥ 8% dos testes convertem em 30 dias.”
- Raciocínio: explicita unidade de cobrança, faixa de preço, pagador, forma de pagamento e taxa de conversão esperada.
Exemplo ruim B (mistura com canal): “Vamos monetizar com afiliados.”
Reescrita: “Receita principal: assinatura. Receita secundária: taxa de setup opcional (R$399) para importação de base e treinamento. Afiliados entram no bloco de Canais (aquisição), não como receita.”
- Raciocínio: separa mecanismo de aquisição (afiliado) do que o cliente paga (receita).
7) Estrutura de Custos
Exemplo ruim A: “Custos com equipe, marketing e servidores.”
Reescrita: “Custos fixos: 1 dev (R$X), 1 suporte (R$Y). Variáveis: envio de mensagens (R$0,0Z por notificação), com média de N notificações/cliente/mês; mídia paga com CAC alvo ≤ R$Y. Custo de ferramentas: hospedagem R$A/mês + e-mail R$B/mês.”
- Raciocínio: transforma categorias em drivers (giving you alavancas) e liga custos a volume de uso e aquisição.
Exemplo ruim B (omissão de custo crítico): “Infra barata.”
Reescrita: “Se o canal principal for WhatsApp, incluir custo por conversa/mensagem e custo de número/provedor; se houver integração com sistema legado, incluir horas de implementação e manutenção.”
- Raciocínio: custos relevantes dependem da escolha de canal/solução; explicitar dependências evita surpresas.
8) Métricas-Chave
Exemplo ruim A (vaidade): “Visitas no site e seguidores.”
Reescrita: “Ativação: % que completa configuração inicial em 24h. Uso: nº de demandas registradas/semana por cliente. Valor: tempo médio de triagem por demanda. Retenção: % de clientes ativos na semana 4. Receita: conversão teste→pago em 30 dias.”
- Raciocínio: métricas ligadas ao comportamento que gera valor e à decisão (continuar, ajustar, matar).
Exemplo ruim B (sem definição): “Engajamento alto.”
Reescrita: “Engajamento = usuário responsável atualiza status de pelo menos 10 demandas/semana e responde em < 24h em 80% dos casos.”
- Raciocínio: define a métrica como fórmula/critério observável.
9) Vantagem Competitiva
Exemplo ruim A: “Atendimento diferenciado.”
Reescrita: “Base proprietária de templates de fluxos por nicho (odontologia, estética, psicologia) construída com dados de uso; reduz tempo de implantação para < 30 min e aumenta ativação em ≥ 15 p.p. vs. configuração do zero.”
- Raciocínio: vantagem precisa ser difícil de copiar e consideravelmente útil; aqui há ativo acumulado + efeito mensurável.
Exemplo ruim B: “Tecnologia de ponta.”
Reescrita: “Integração exclusiva (contratual ou técnica) com sistema X usado por Y% do segmento-alvo, reduzindo custo de troca e aumentando stickiness.”
- Raciocínio: “tecnologia” vira mecanismo defensável (integração + dependência do fluxo do cliente).
Processo de revisão em 2 passagens (passo a passo)
Passagem 1: Clareza e foco (tirar névoa e recortar)
- Passo 1 — Marque palavras vagas: sublinhe termos da lista de alertas (inovador, simples, completo, etc.).
- Passo 2 — Adicione contexto mínimo: para cada frase, responda em 1 linha: “para quem?”, “em que situação?”, “qual alternativa atual?”.
- Passo 3 — Remova mistura de blocos: se aparecer “app”, “feature”, “IA” no Problema, mova para Solução; se aparecer “Instagram” em Segmentos, mova para Canais; se aparecer “afiliado” em Receita, mova para Canais.
- Passo 4 — Reduza escopo: escolha um recorte por bloco (um segmento principal, um problema principal, uma promessa central). Se houver “e” demais, provavelmente há mais de uma hipótese.
- Passo 5 — Reescreva com verbos concretos: trocar “melhorar/otimizar” por ações observáveis (registrar, confirmar, pagar, responder, integrar).
Passagem 2: Testabilidade e decisões (transformar em hipóteses que guiam ação)
- Passo 1 — Coloque números-alvo provisórios: tempo, taxa, custo, frequência. Se não souber, use intervalo e marque como “a validar”.
- Passo 2 — Defina o que provaria o contrário: escreva um critério de falha por hipótese (ex.: “se conversão teste→pago < 3% em 30 dias, revisar preço/segmento”).
- Passo 3 — Amarre métricas a decisões: cada métrica deve responder “o que faremos se subir/descer?”.
- Passo 4 — Verifique consistência econômica: receita por cliente e custo variável por cliente precisam caber; CAC e payback precisam ser plausíveis para o canal escolhido.
- Passo 5 — Identifique a aposta mais arriscada: destaque 1–2 hipóteses que, se falsas, derrubam o canvas (ex.: canal principal inviável, pagador não paga, integração impossível).
Checklist final de qualidade do canvas completo
- Recorte: existe um segmento principal claramente definido (com critérios operacionais) e um contexto de uso?
- Problema observável: o problema descreve comportamento/situação e consequência, sem citar solução?
- Alternativa atual: está explícito como o cliente resolve hoje (status quo) para permitir comparação?
- Proposta verificável: a promessa central inclui mecanismo e resultado mensurável (mesmo que estimado)?
- Solução mínima: a solução lista componentes essenciais (não wishlist) e está alinhada ao problema principal?
- Canais como processo: canais descrevem etapas (aquisição/ativação/retenção) e têm limites de custo/critério de sucesso?
- Receita concreta: há unidade de cobrança, pagador, faixa de preço e hipótese de conversão?
- Custos com drivers: custos fixos/variáveis estão ligados a volume (mensagens, usuários, mídia) e escolhas de canal/solução?
- Métricas acionáveis: métricas têm definição e orientam decisões (não vaidade)?
- Vantagem defensável: vantagem competitiva é difícil de copiar e não depende apenas de “esforço” (atendimento, dedicação)?
- Sem jargão: termos de alerta foram removidos ou traduzidos em critérios observáveis?
- Testabilidade: cada bloco contém ao menos uma hipótese que pode ser testada em semanas, com critério de sucesso/falha?
- Coerência interna: segmento ↔ problema ↔ proposta ↔ solução ↔ canal ↔ métricas ↔ economia contam a mesma história, sem contradições?