Do Lean Canvas às prioridades: transformar hipóteses em backlog de experimentos e decisões

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Do canvas ao backlog: a regra de ouro

Um Lean Canvas preenchido é um mapa de suposições. Para virar execução, você precisa transformar cada bloco em hipóteses explícitas e, em seguida, em experimentos com critérios de sucesso. A regra de ouro é: se não dá para testar, ainda não está claro o suficiente.

O objetivo deste capítulo é criar um backlog de experimentos priorizado por risco e impacto, e estabelecer um ritual semanal para decidir pivotar, perseverar ou pausar.

1) Converter blocos do Lean Canvas em hipóteses testáveis

Use a estrutura: “Acreditamos que [segmento] tem [problema] e que [proposta/solução] via [canal] fará [métrica] melhorar, gerando [receita] com [custo] viável, sustentado por [vantagem].”

Mapa de conversão por bloco (o que vira hipótese)

BlocoO que declarar como hipóteseExemplo de hipótese (forma testável)
ProblemaFrequência, intensidade e prioridade da dor“Pelo menos 40% dos entrevistados relatam a dor X como ‘semanal’ e ‘alta’.”
SegmentosQuem sente mais a dor e tem capacidade de pagar/decidir“Em clínicas de até 5 salas, o dono decide e tem orçamento mensal para Y.”
Proposta de ValorPromessa central e resultado percebido“Ao ver a oferta, 20% pedem demonstração em até 7 dias.”
SoluçãoCapacidade do MVP entregar o resultado mínimo“Com o fluxo A-B-C, o usuário completa a tarefa em menos de 3 min sem ajuda.”
CanaisAquisição com custo e previsibilidade“Anúncios no canal Z geram leads a até R$ X por lead qualificado.”
ReceitasDisposição a pagar, modelo e preço“10% dos leads qualificados aceitam pagar R$ P/mês após teste.”
CustosUnit economics e limites de viabilidade“O custo variável por pedido fica abaixo de 30% do ticket médio.”
Métricas-chaveMétrica que prova valor e reduz risco“Retenção D30 acima de 25% indica valor recorrente.”
Vantagem competitivaO que sustenta a vantagem (prova, acesso, dados, processo)“A taxa de conversão melhora 15% com dados proprietários coletados no uso.”

Checklist para “hipótese boa”

  • Específica: define quem, o que e em qual contexto.
  • Mensurável: tem número/limiar (percentual, tempo, custo, taxa).
  • Refutável: pode dar errado claramente.
  • Ligada a decisão: se falhar, você sabe o que muda (segmento, oferta, canal, preço, etc.).

2) Do conjunto de hipóteses ao backlog de experimentos

Passo a passo prático

  • Passo 1 — Liste hipóteses por bloco: 3 a 7 hipóteses no total para a próxima semana/quinzena (evite 30 hipóteses “para algum dia”).
  • Passo 2 — Marque dependências: por exemplo, não faz sentido testar preço antes de validar que a dor é relevante e que a oferta gera interesse.
  • Passo 3 — Escreva um experimento por hipótese: um teste simples, com amostra e critério de sucesso.
  • Passo 4 — Estime custo e tempo: dinheiro, horas da equipe, ferramentas, produção.
  • Passo 5 — Priorize por Risco x Impacto: escolha o que pode “matar” ou “destravar” o negócio mais rápido.

3) Matriz de priorização: Risco x Impacto

A matriz serve para decidir o que testar primeiro. Em geral, teste primeiro o que é mais arriscado e mais impactante.

Definições operacionais

  • Risco: probabilidade de a hipótese estar errada + custo de estar errado (perda de tempo/dinheiro, atraso, reputação).
  • Impacto: quanto a hipótese, se verdadeira, melhora o caminho para tração (receita, margem, crescimento, retenção) ou destrava o próximo passo.

Como pontuar (simples e rápido)

Use escala 1–5 para cada eixo:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Risco (1–5): 1 = quase certo; 5 = grande incerteza/alto custo do erro.
  • Impacto (1–5): 1 = pouco efeito; 5 = muda o jogo (ou evita desperdício grande).

Ordene por: Prioridade = Risco x Impacto. Em empate, faça primeiro o que tem menor custo/menor duração.

Quadrantes e decisão típica

QuadranteO que éO que fazer
Alto Risco / Alto ImpactoHipóteses “existenciais”Testar primeiro, com experimento rápido e barato
Alto Risco / Baixo ImpactoIncertezas periféricasAdiar ou simplificar; só testar se virar gargalo
Baixo Risco / Alto ImpactoOtimização/escalaExecutar e medir; bom para ganhar velocidade
Baixo Risco / Baixo ImpactoCosméticoEvitar agora

4) Formato padrão de experimento (template)

Padronizar evita testes “soltos” e facilita decisões semanais.

Experimento: [nome curto]  (ID: EXP-001)  |  Hipótese ligada: H-03  |  Dono: [nome]  |  Status: Planejado/Em andamento/Concluído

Hipótese:
- Acreditamos que [segmento] fará [ação] porque [motivação], resultando em [métrica] ≥ [limiar] em [prazo].

Método:
- Tipo: entrevista / landing page / concierge / protótipo / anúncio / teste de preço / piloto pago / A/B
- Passos: 1) ... 2) ... 3) ...

Amostra:
- Quem: [perfil]
- Quantidade: [n]
- Critério de seleção: [como recrutar]

Duração:
- Início: [data]
- Fim: [data]

Custo:
- R$ [valor] + [horas] horas

Critério de sucesso:
- Sucesso se: [métrica] ≥ [limiar]
- Falha se: [métrica] < [limiar]
- Zona cinza: [faixa] (exige ajuste e reteste)

Aprendizado esperado:
- Se der certo, decidimos: [perseverar/escala]
- Se der errado, decidimos: [pivot específico]
- O que queremos entender: [pergunta central]

Exemplos de métodos (quando usar)

  • Entrevistas estruturadas: validar linguagem, prioridade da dor, processo atual e critérios de compra.
  • Landing page + CTA: medir interesse real (cliques, cadastro, pedido de contato).
  • Anúncios: testar canal e mensagem (CPL, CTR, taxa de conversão da página).
  • Concierge: entregar manualmente para validar valor antes de automatizar.
  • Piloto pago: validar disposição a pagar e implantação (B2B e serviços).
  • Teste de preço: faixas e ancoragem (com proposta clara e condições).

5) Como decidir: pivotar, perseverar ou pausar

Decisão não é “sentimento do time”; é comparação entre resultado e critério de sucesso do experimento.

Regras práticas de decisão

  • Perseverar: atingiu ou superou o critério de sucesso; próximo passo é aumentar amostra, repetir em outro canal/segmento ou avançar para hipótese dependente (ex.: de interesse → piloto pago).
  • Pivotar: falhou de forma clara e o aprendizado aponta uma mudança específica (segmento, mensagem, canal, preço, forma de entrega). Pivot não é “mudar tudo”; é mudar uma variável principal.
  • Pausar: dados inconclusivos por falta de amostra, sazonalidade, custo alto para continuar agora, ou dependência externa. Pausar inclui: o que falta para retomar e quando reavaliar.

Zona cinza: o que fazer quando “quase deu”

Defina antes a faixa de “zona cinza”. Se cair nela, escolha uma ação objetiva:

  • Ajustar e retestar (mesma hipótese, método melhor).
  • Quebrar a hipótese em duas (ex.: mensagem vs canal).
  • Mudar o método (ex.: de landing page para entrevistas + oferta direta).

6) Exemplos de backlog priorizado por modelo de negócio

A seguir, exemplos de prioridades típicas. A ideia é mostrar o que normalmente testar primeiro (alto risco e alto impacto) e como isso vira backlog.

A) Serviço (ex.: consultoria/serviço recorrente)

PrioridadeHipóteseExperimento sugeridoCritério de sucesso (exemplo)
1Existe demanda urgente no segmento escolhido10 entrevistas + oferta no final≥ 4/10 pedem proposta ou próximo passo
2Mensagem/oferta gera interesseLanding page + CTA “agendar diagnóstico”≥ 8% conversão visita→lead
3Disposição a pagar o preço-alvo5 calls com proposta e preço≥ 2/5 aceitam iniciar piloto pago
4Entrega mínima gera resultado percebidoConcierge (entrega manual) em 2 clientesNPS ≥ 8 ou renovação/upsell

O que costuma ser testado primeiro: dor urgente + oferta + preço (porque serviço depende de venda e entrega rápida).

B) E-commerce (produto físico)

PrioridadeHipóteseExperimento sugeridoCritério de sucesso (exemplo)
1Produto e posicionamento geram intenção de compraLanding com “comprar”/lista de espera + tráfego pago pequeno≥ 2% conversão para intenção (cadastro/checkout iniciado)
2Margem e custos permitem operaçãoSimulação unit economics + 10 pedidos testeMargem contribuição positiva após frete/embalagem
3Canal de aquisição tem CAC viávelTeste de anúncios com 3 criativosCAC estimado ≤ margem bruta por pedido
4Experiência pós-compra sustenta recompraPesquisa + cupom de recompra em 14 diasTaxa de recompra/intenções ≥ meta

O que costuma ser testado primeiro: intenção de compra + margem (porque tráfego sem unit economics vira prejuízo rápido).

C) Negócio local (ex.: clínica, restaurante, estética)

PrioridadeHipóteseExperimento sugeridoCritério de sucesso (exemplo)
1Oferta e agenda convertem no raio de atendimentoCampanha local + WhatsApp + script≥ X agendamentos/semana com CPA ≤ meta
2Comparecimento e ticket sustentam a operaçãoTeste com confirmação + sinal/depósitoNo-show ≤ 15% e ticket ≥ meta
3Retenção/recorrência é possívelPlano/combos + follow-up≥ 20% aderem a pacote/retorno em 30 dias
4Capacidade operacional suporta crescimentoSimulação de agenda + tempo de atendimentoOcupação sustentável sem queda de qualidade

O que costuma ser testado primeiro: aquisição local e conversão em agendamento (porque é o gargalo mais imediato).

D) B2B (SaaS ou solução corporativa)

PrioridadeHipóteseExperimento sugeridoCritério de sucesso (exemplo)
1ICP (perfil de cliente ideal) tem dor e prioridade12 entrevistas com decisores + mapeamento do processo atual≥ 6/12 confirmam prioridade no trimestre
2Proposta gera reunião de descobertaOutbound com 2 mensagens + 1 follow-upTaxa de resposta ≥ 8% e reuniões ≥ meta
3Há disposição a pagar e caminho de compraPiloto pago (POC) com escopo e prazo≥ 1 contrato piloto pago em 30 dias
4Onboarding e adoção entregam valorPiloto com métrica de ativação e uso semanal≥ 60% usuários-alvo ativos semanalmente

O que costuma ser testado primeiro: ICP + prioridade + acesso ao decisor (sem isso, produto perfeito não vende).

7) Exemplo de backlog (com pontuação Risco x Impacto)

IDHipóteseExperimentoRisco (1–5)Impacto (1–5)ScoreDuração
EXP-01Segmento A tem dor urgente X10 entrevistas + oferta55255 dias
EXP-02Mensagem M gera leads qualificadosLanding + tráfego pequeno44167 dias
EXP-03Preço P é aceitávelProposta com 5 leads45207 dias
EXP-04Canal Z tem CAC viávelAnúncios com 3 criativos34127 dias
EXP-05Entrega mínima gera resultadoConcierge com 2 clientes351510 dias

Note que EXP-03 (preço) pode subir acima de canal se você já tem leads e precisa validar monetização cedo. A ordem final depende das dependências e do custo/tempo.

8) Reunião semanal de decisão: modelo prático

Um ritual curto (30–45 min) evita “acúmulo de achismos” e mantém o backlog vivo.

Insumos (o que deve estar pronto antes)

  • Dashboard simples com métricas dos experimentos (por experimento, não só métricas gerais).
  • Relatório de 1 página por experimento concluído: resultado vs critério, evidências (prints, planilhas, gravações), custo e tempo gasto.
  • Backlog atualizado com pontuação Risco x Impacto e status.
  • Lista de decisões pendentes (ex.: mudar segmento, ajustar oferta, trocar canal, revisar preço).

Agenda (passo a passo)

  • 1) Revisão rápida (5 min): quais experimentos rodaram, quais travaram e por quê.
  • 2) Leitura de resultados (15–20 min): experimento por experimento, comparando com o critério de sucesso.
  • 3) Decisões (10–15 min): para cada experimento, marcar Perseverar / Pivotar / Pausar e registrar o “por quê”.
  • 4) Atualização do backlog (5–10 min): re-pontuar Risco x Impacto com o novo aprendizado e escolher os próximos 1–3 experimentos.

Saídas (o que precisa sair decidido)

  • Decisões registradas: o que mudou no canvas (hipóteses atualizadas) e o que permanece.
  • Próximas ações: experimento(s) da semana com dono, datas, orçamento e critério de sucesso.
  • Bloqueios: o que impede execução e quem resolve até quando.

Modelo de ata (copiar e usar)

Reunião semanal de decisões — Data: __/__/__

Experimentos concluídos:
- EXP-__: Resultado: __ | Critério: __ | Decisão: Perseverar/Pivotar/Pausar | Aprendizado: __
- EXP-__: Resultado: __ | Critério: __ | Decisão: Perseverar/Pivotar/Pausar | Aprendizado: __

Mudanças nas hipóteses (Lean Canvas):
- H-__: antes: __ | depois: __

Backlog priorizado (próxima semana):
1) EXP-__ — Dono: __ — Início/Fim: __ — Custo: __ — Sucesso: __
2) EXP-__ — Dono: __ — Início/Fim: __ — Custo: __ — Sucesso: __
3) EXP-__ — Dono: __ — Início/Fim: __ — Custo: __ — Sucesso: __

Bloqueios:
- __ (responsável: __, prazo: __)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao priorizar um backlog de experimentos a partir de um Lean Canvas, qual abordagem está mais alinhada ao método descrito para decidir o que testar primeiro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O processo prioriza testar primeiro o que combina alto risco e alto impacto, usando a pontuação Risco x Impacto, respeitando dependências. Em empates, a escolha vai para o experimento de menor custo ou menor duração.

Próximo capitúlo

Exemplo completo de Lean Canvas para Serviços: consultoria/assistência com recorrência

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Lean Canvas para Iniciantes: preenchimento, exemplos e decisões estratégicas
75%

Lean Canvas para Iniciantes: preenchimento, exemplos e decisões estratégicas

Novo curso

16 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.