Layout por processo (funcional) e seus efeitos no fluxo de materiais e no WIP

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é layout por processo (funcional)

No layout por processo (também chamado de funcional), os recursos são organizados por tipo de processo: todas as fresadoras em uma área, todos os tornos em outra, todas as retíficas em outra, e assim por diante. A lógica é facilitar o compartilhamento de especialistas, ferramentas e manutenção dentro de cada “família” de máquinas.

Na prática, cada produto segue uma rota própria (roteiro) passando por diferentes departamentos conforme a necessidade. Isso cria um ambiente com múltiplos fluxos simultâneos, frequentemente com trajetos que se cruzam.

Como esse arranjo afeta o fluxo de materiais

  • Rotas longas e variáveis: como as etapas estão espalhadas por áreas funcionais, o material “viaja” entre departamentos. Produtos diferentes percorrem caminhos diferentes, e o mesmo produto pode voltar a uma área já visitada (retornos).
  • Cruzamentos e interferências: empilhadeiras, carrinhos e operadores circulam em direções distintas, gerando pontos de conflito (cruzamentos, gargalos em portas/corredores, espera para descarregar).
  • Mais esperas entre etapas: como cada área atende vários produtos, forma-se fila para usar o recurso. Para “não parar a próxima etapa”, surgem estoques intermediários (WIP) próximos às máquinas ou em áreas improvisadas.

Efeitos típicos no WIP (estoque em processo)

Em layout funcional, o WIP tende a crescer por três mecanismos comuns:

  • Filas por recurso compartilhado: uma mesma máquina atende muitas ordens; quando a demanda se acumula, o material espera.
  • Lotes maiores para “aproveitar setup”: para reduzir trocas, produz-se em lotes maiores, o que aumenta material aguardando a próxima operação.
  • Desbalanceamento natural entre áreas: um setor pode produzir mais rápido do que o seguinte; o excedente vira WIP.

Um sinal prático: pilhas de peças “em espera” com etiquetas de prioridade, ou áreas de “pulmão” que crescem conforme o dia avança.

Quando o layout por processo é adequado

Esse layout costuma ser uma boa escolha quando a operação precisa de flexibilidade e convive com grande diversidade de itens:

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  • Alta variedade de produtos (muitos códigos, roteiros diferentes).
  • Volumes menores por item (produção sob encomenda, lotes pequenos a médios).
  • Processos especializados que exigem máquinas caras e compartilhadas (não faz sentido duplicar recursos).
  • Necessidade de replanejar com frequência (mudança de mix, urgências, engenharia alterando roteiros).

Riscos comuns e sintomas no dia a dia

1) Congestionamento e “trânsito interno”

Corredores viram rotas de passagem para tudo. O resultado é espera para movimentar, desvios, risco de colisão e aumento de tempo improdutivo.

2) Priorização por filas (e não por fluxo)

Quando há muitas ordens na mesma área, a regra vira “produzir o que está na frente” ou “o que o líder pediu agora”. Isso gera:

  • trocas frequentes de prioridade;
  • expedição “apagando incêndio”;
  • WIP que muda de lugar e perde rastreabilidade.

3) Alta movimentação e retornos

Retornos acontecem quando uma peça precisa voltar a um processo já realizado (ex.: usinar, inspecionar, voltar para retrabalho, retornar para usinar). Cada retorno adiciona deslocamento, fila e risco de dano.

Como melhorar o fluxo sem mudar totalmente o arranjo

Nem sempre é viável migrar para layout celular ou por produto. A seguir estão melhorias típicas que preservam o conceito funcional, mas reduzem movimentação e WIP.

Passo a passo prático de melhoria

Passo 1 — Identificar “pares de alta interação”

Liste as etapas que mais trocam material entre si (ex.: usinagem → inspeção; usinagem → rebarbação; corte → dobra). Priorize as combinações com:

  • alta frequência de movimentação;
  • alto volume de peças por dia;
  • alto índice de retorno/retrabalho;
  • alto tempo de espera por transporte.

Passo 2 — Reduzir retornos (voltas no roteiro)

Procure padrões como “A → B → A” e “A → B → C → A”. Ações comuns:

  • reposicionar pontos de inspeção para ocorrerem antes de a peça se afastar da área que pode corrigir o problema;
  • criar uma estação de retrabalho próxima ao processo que mais recebe retorno;
  • separar fluxo de peças boas e peças em análise para não misturar e não reprocessar indevidamente.

Passo 3 — Aproximar etapas com alta interação (micro-arranjos)

Sem “desmontar” os departamentos, faça ajustes locais:

  • trazer a inspeção dimensional para a borda da área de usinagem (ou vice-versa);
  • posicionar rebarbação/lavagem perto das saídas das máquinas que mais geram essa necessidade;
  • organizar as máquinas dentro do setor para que a saída de uma alimente a próxima operação mais comum (mesmo que não seja sempre).

Objetivo: reduzir deslocamentos curtos e repetitivos que, somados, viram grande parte do tempo de atravessamento.

Passo 4 — Criar “supermercados” próximos (WIP controlado)

Em vez de estoques intermediários espalhados, defina pontos formais de WIP com regras claras:

  • local fixo (demarcado) para entrada/saída;
  • capacidade máxima (limite visual e numérico);
  • critérios de reposição (o que entra, quando entra, quem autoriza);
  • separação por status (aguardando processo, aguardando inspeção, bloqueado).

Isso reduz “pilhas” ao lado de máquinas e melhora a previsibilidade do fluxo.

Passo 5 — Definir corredores e regras de circulação

Em layout funcional, o tráfego é inevitável; então ele precisa ser projetado:

  • defina corredores principais e secundários;
  • evite cruzamentos desnecessários (mão única em trechos críticos quando possível);
  • crie pontos de espera/estacionamento para carrinhos e paleteiras fora do corredor;
  • padronize locais de coleta/entrega por área (um “dock interno” por setor).

Passo 6 — Ajustar a lógica de priorização para reduzir filas ruins

Sem entrar em sistemas complexos, adote regras simples para evitar que a fila cresça sem critério:

  • priorizar por data prometida e tempo de atravessamento, não por “quem pediu mais alto”;
  • limitar WIP liberado para áreas críticas (liberar ordens conforme capacidade);
  • agrupar por família quando fizer sentido, mas sem criar lotes excessivos.

Exemplo narrado de melhoria: usinagem e inspeção para cortar deslocamentos

Cenário inicial: uma fábrica com layout funcional tem a área de usinagem (tornos e centros de usinagem) em um lado do galpão e a inspeção dimensional em uma sala central compartilhada por vários setores. Peças usinadas eram colocadas em pallets ao lado das máquinas; quando “juntava quantidade”, um operador levava para inspeção. Se a peça reprovasse, voltava para usinagem para correção. Esse vai-e-volta acontecia várias vezes ao dia.

Sintomas observados:

  • corredor principal congestionado nos horários de pico;
  • WIP acumulado em frente à inspeção (fila de pallets);
  • retornos frequentes de peças reprovadas, gerando retrabalho e reprogramação;
  • operadores de usinagem parando para procurar peças “em qual pallet ficou?”.

Intervenção (sem mudar o layout funcional inteiro):

  • 1) Micro-relocação da inspeção: foi criada uma ilha de inspeção na borda da usinagem (uma bancada com instrumentos essenciais e um posto para inspeção rápida). A sala central permaneceu para medições especiais, mas o “grosso” passou a ser verificado perto da origem.
  • 2) Supermercado de WIP entre usinagem e inspeção: demarcou-se um ponto único de entrega com capacidade limitada (ex.: 6 pallets). Acima disso, a usinagem não libera mais peças; primeiro precisa “desafogar” a inspeção.
  • 3) Fluxo separado para reprovados: criou-se um local específico para peças bloqueadas e um caminho curto de retorno para correção, evitando que reprovados se misturem com peças boas.
  • 4) Corredor e ponto de coleta: definiu-se um corredor lateral para movimentação entre usinagem e inspeção, com ponto de coleta/entrega fixo, reduzindo cruzamentos no corredor principal.

Resultado operacional esperado: menos deslocamentos longos até a sala central, redução de retornos desnecessários (porque a inspeção acontece mais cedo e mais perto), menor fila “invisível” ao lado das máquinas e WIP mais controlado por capacidade do supermercado. A inspeção central fica reservada para exceções, e o fluxo diário ganha previsibilidade.

Problema típico no layout funcionalAjuste sem mudar o conceitoEfeito no fluxo/WIP
Retornos A → B → AInspeção/retrabalho mais próximos do processo geradorMenos deslocamento e menos fila por retrabalho
WIP espalhado ao lado das máquinasSupermercados com capacidade e status definidosWIP visível, limitado e rastreável
Cruzamentos e congestionamentoCorredores definidos + pontos fixos de coleta/entregaMenos interferência e espera para movimentar
Fila “por empurrar” ordensRegras simples de priorização e liberaçãoMenos acúmulo e mais previsibilidade

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um layout por processo (funcional), qual medida tende a reduzir deslocamentos e retornos sem alterar totalmente o arranjo em departamentos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No layout funcional, reduzir deslocamentos e retornos pode ser feito com micro-arranjos (aproximar etapas que trocam muito material) e com supermercados de WIP com capacidade e regras claras, evitando filas espalhadas e vai-e-volta desnecessário.

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Layout por produto (linha) para reduzir movimentações: balanceamento, sequência e abastecimento

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