O que é layout por processo (funcional)
No layout por processo (também chamado de funcional), os recursos são organizados por tipo de processo: todas as fresadoras em uma área, todos os tornos em outra, todas as retíficas em outra, e assim por diante. A lógica é facilitar o compartilhamento de especialistas, ferramentas e manutenção dentro de cada “família” de máquinas.
Na prática, cada produto segue uma rota própria (roteiro) passando por diferentes departamentos conforme a necessidade. Isso cria um ambiente com múltiplos fluxos simultâneos, frequentemente com trajetos que se cruzam.
Como esse arranjo afeta o fluxo de materiais
- Rotas longas e variáveis: como as etapas estão espalhadas por áreas funcionais, o material “viaja” entre departamentos. Produtos diferentes percorrem caminhos diferentes, e o mesmo produto pode voltar a uma área já visitada (retornos).
- Cruzamentos e interferências: empilhadeiras, carrinhos e operadores circulam em direções distintas, gerando pontos de conflito (cruzamentos, gargalos em portas/corredores, espera para descarregar).
- Mais esperas entre etapas: como cada área atende vários produtos, forma-se fila para usar o recurso. Para “não parar a próxima etapa”, surgem estoques intermediários (WIP) próximos às máquinas ou em áreas improvisadas.
Efeitos típicos no WIP (estoque em processo)
Em layout funcional, o WIP tende a crescer por três mecanismos comuns:
- Filas por recurso compartilhado: uma mesma máquina atende muitas ordens; quando a demanda se acumula, o material espera.
- Lotes maiores para “aproveitar setup”: para reduzir trocas, produz-se em lotes maiores, o que aumenta material aguardando a próxima operação.
- Desbalanceamento natural entre áreas: um setor pode produzir mais rápido do que o seguinte; o excedente vira WIP.
Um sinal prático: pilhas de peças “em espera” com etiquetas de prioridade, ou áreas de “pulmão” que crescem conforme o dia avança.
Quando o layout por processo é adequado
Esse layout costuma ser uma boa escolha quando a operação precisa de flexibilidade e convive com grande diversidade de itens:
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- Alta variedade de produtos (muitos códigos, roteiros diferentes).
- Volumes menores por item (produção sob encomenda, lotes pequenos a médios).
- Processos especializados que exigem máquinas caras e compartilhadas (não faz sentido duplicar recursos).
- Necessidade de replanejar com frequência (mudança de mix, urgências, engenharia alterando roteiros).
Riscos comuns e sintomas no dia a dia
1) Congestionamento e “trânsito interno”
Corredores viram rotas de passagem para tudo. O resultado é espera para movimentar, desvios, risco de colisão e aumento de tempo improdutivo.
2) Priorização por filas (e não por fluxo)
Quando há muitas ordens na mesma área, a regra vira “produzir o que está na frente” ou “o que o líder pediu agora”. Isso gera:
- trocas frequentes de prioridade;
- expedição “apagando incêndio”;
- WIP que muda de lugar e perde rastreabilidade.
3) Alta movimentação e retornos
Retornos acontecem quando uma peça precisa voltar a um processo já realizado (ex.: usinar, inspecionar, voltar para retrabalho, retornar para usinar). Cada retorno adiciona deslocamento, fila e risco de dano.
Como melhorar o fluxo sem mudar totalmente o arranjo
Nem sempre é viável migrar para layout celular ou por produto. A seguir estão melhorias típicas que preservam o conceito funcional, mas reduzem movimentação e WIP.
Passo a passo prático de melhoria
Passo 1 — Identificar “pares de alta interação”
Liste as etapas que mais trocam material entre si (ex.: usinagem → inspeção; usinagem → rebarbação; corte → dobra). Priorize as combinações com:
- alta frequência de movimentação;
- alto volume de peças por dia;
- alto índice de retorno/retrabalho;
- alto tempo de espera por transporte.
Passo 2 — Reduzir retornos (voltas no roteiro)
Procure padrões como “A → B → A” e “A → B → C → A”. Ações comuns:
- reposicionar pontos de inspeção para ocorrerem antes de a peça se afastar da área que pode corrigir o problema;
- criar uma estação de retrabalho próxima ao processo que mais recebe retorno;
- separar fluxo de peças boas e peças em análise para não misturar e não reprocessar indevidamente.
Passo 3 — Aproximar etapas com alta interação (micro-arranjos)
Sem “desmontar” os departamentos, faça ajustes locais:
- trazer a inspeção dimensional para a borda da área de usinagem (ou vice-versa);
- posicionar rebarbação/lavagem perto das saídas das máquinas que mais geram essa necessidade;
- organizar as máquinas dentro do setor para que a saída de uma alimente a próxima operação mais comum (mesmo que não seja sempre).
Objetivo: reduzir deslocamentos curtos e repetitivos que, somados, viram grande parte do tempo de atravessamento.
Passo 4 — Criar “supermercados” próximos (WIP controlado)
Em vez de estoques intermediários espalhados, defina pontos formais de WIP com regras claras:
- local fixo (demarcado) para entrada/saída;
- capacidade máxima (limite visual e numérico);
- critérios de reposição (o que entra, quando entra, quem autoriza);
- separação por status (aguardando processo, aguardando inspeção, bloqueado).
Isso reduz “pilhas” ao lado de máquinas e melhora a previsibilidade do fluxo.
Passo 5 — Definir corredores e regras de circulação
Em layout funcional, o tráfego é inevitável; então ele precisa ser projetado:
- defina corredores principais e secundários;
- evite cruzamentos desnecessários (mão única em trechos críticos quando possível);
- crie pontos de espera/estacionamento para carrinhos e paleteiras fora do corredor;
- padronize locais de coleta/entrega por área (um “dock interno” por setor).
Passo 6 — Ajustar a lógica de priorização para reduzir filas ruins
Sem entrar em sistemas complexos, adote regras simples para evitar que a fila cresça sem critério:
- priorizar por data prometida e tempo de atravessamento, não por “quem pediu mais alto”;
- limitar WIP liberado para áreas críticas (liberar ordens conforme capacidade);
- agrupar por família quando fizer sentido, mas sem criar lotes excessivos.
Exemplo narrado de melhoria: usinagem e inspeção para cortar deslocamentos
Cenário inicial: uma fábrica com layout funcional tem a área de usinagem (tornos e centros de usinagem) em um lado do galpão e a inspeção dimensional em uma sala central compartilhada por vários setores. Peças usinadas eram colocadas em pallets ao lado das máquinas; quando “juntava quantidade”, um operador levava para inspeção. Se a peça reprovasse, voltava para usinagem para correção. Esse vai-e-volta acontecia várias vezes ao dia.
Sintomas observados:
- corredor principal congestionado nos horários de pico;
- WIP acumulado em frente à inspeção (fila de pallets);
- retornos frequentes de peças reprovadas, gerando retrabalho e reprogramação;
- operadores de usinagem parando para procurar peças “em qual pallet ficou?”.
Intervenção (sem mudar o layout funcional inteiro):
- 1) Micro-relocação da inspeção: foi criada uma ilha de inspeção na borda da usinagem (uma bancada com instrumentos essenciais e um posto para inspeção rápida). A sala central permaneceu para medições especiais, mas o “grosso” passou a ser verificado perto da origem.
- 2) Supermercado de WIP entre usinagem e inspeção: demarcou-se um ponto único de entrega com capacidade limitada (ex.: 6 pallets). Acima disso, a usinagem não libera mais peças; primeiro precisa “desafogar” a inspeção.
- 3) Fluxo separado para reprovados: criou-se um local específico para peças bloqueadas e um caminho curto de retorno para correção, evitando que reprovados se misturem com peças boas.
- 4) Corredor e ponto de coleta: definiu-se um corredor lateral para movimentação entre usinagem e inspeção, com ponto de coleta/entrega fixo, reduzindo cruzamentos no corredor principal.
Resultado operacional esperado: menos deslocamentos longos até a sala central, redução de retornos desnecessários (porque a inspeção acontece mais cedo e mais perto), menor fila “invisível” ao lado das máquinas e WIP mais controlado por capacidade do supermercado. A inspeção central fica reservada para exceções, e o fluxo diário ganha previsibilidade.
| Problema típico no layout funcional | Ajuste sem mudar o conceito | Efeito no fluxo/WIP |
|---|---|---|
| Retornos A → B → A | Inspeção/retrabalho mais próximos do processo gerador | Menos deslocamento e menos fila por retrabalho |
| WIP espalhado ao lado das máquinas | Supermercados com capacidade e status definidos | WIP visível, limitado e rastreável |
| Cruzamentos e congestionamento | Corredores definidos + pontos fixos de coleta/entrega | Menos interferência e espera para movimentar |
| Fila “por empurrar” ordens | Regras simples de priorização e liberação | Menos acúmulo e mais previsibilidade |