Layout por produto (linha) para reduzir movimentações: balanceamento, sequência e abastecimento

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é layout por produto (linha) e por que reduz movimentações

No layout por produto (também chamado de layout em linha), os recursos (postos, máquinas, bancadas, inspeções e abastecimento) são organizados na mesma sequência das operações necessárias para fabricar uma família de produtos. A peça “anda para frente” com o mínimo de retornos, cruzamentos e esperas.

Quando a sequência física acompanha a sequência do processo, o transporte interno tende a cair por três motivos práticos: (1) as distâncias entre operações ficam curtas e previsíveis; (2) o fluxo se torna unidirecional, reduzindo voltas e retrabalhos logísticos; (3) o abastecimento pode ser padronizado por rotas e pontos fixos, evitando “corridas” para buscar material.

Características típicas de uma linha bem desenhada

  • Fluxo unidirecional (entrada de material em um lado, saída no outro), com mínima interseção com outras linhas.
  • Postos próximos, com transferência simples (mão, roletes, carrinho leve, esteira curta) em vez de empilhadeira.
  • WIP controlado com buffers pequenos e definidos, evitando acúmulo “espalhado” no chão.
  • Abastecimento por borda de linha (line-side), com supermercados e rotas de reabastecimento.

Cuidados de projeto: balanceamento, sequência e qualidade

1) Sequência de operações: desenhar o caminho “natural” do produto

Antes de posicionar máquinas, confirme a sequência real (incluindo esperas técnicas, cura, resfriamento, testes, retrabalhos frequentes e embalagens). Em layout por produto, “pular” etapas ou criar retornos físicos costuma destruir o ganho de movimentação.

Boas práticas:

  • Evite que o produto precise cruzar o fluxo de entrada de materiais ou o fluxo de saída de produto acabado.
  • Se houver operações que atendem mais de uma linha (ex.: teste final), avalie duplicar o recurso ou criar uma célula dedicada por família para evitar transporte recorrente.
  • Posicione atividades de embalagem e etiquetagem o mais próximo possível do ponto de saída/expedição interna.

2) Balanceamento básico: reduzir esperas e microtransportes

Mesmo que o objetivo principal seja reduzir movimentações, o balanceamento é essencial porque postos desbalanceados geram: (a) filas e buffers improvisados; (b) deslocamentos extras de operadores para “ajudar” outros postos; (c) necessidade de empilhadeira para mover lotes maiores.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Passo a passo prático para um balanceamento básico:

  • Passo 1 — Defina o takt time: takt = tempo disponível por turno / demanda do turno.
  • Passo 2 — Liste as tarefas por operação com tempos médios (inclua pequenas movimentações internas do posto).
  • Passo 3 — Agrupe tarefas em postos tentando manter o tempo de cada posto ≤ takt (ou dentro de uma faixa, por exemplo 90–110% do takt, conforme estratégia).
  • Passo 4 — Identifique gargalos (postos acima do takt) e trate com: divisão de tarefas, melhoria de método, ferramentas, ou paralelização (dois postos iguais).
  • Passo 5 — Valide a ergonomia e o alcance: se o operador precisa caminhar dentro do posto para buscar itens, o tempo “escondido” vira desbalanceamento e movimentação.

Dica de projeto: ao balancear, priorize reduzir deslocamentos do operador dentro do posto (posicionamento de ferramentas, gravidade, abastecimento lateral), porque isso reduz tempo e também evita que o operador “invada” corredores.

3) Pontos de inspeção: qualidade sem criar retornos

Inspeção mal posicionada cria transporte extra (levar peça para uma sala, voltar, separar). Em linha, prefira:

  • Inspeção na fonte: checagens simples no próprio posto (gabaritos, poka-yoke, medidores dedicados).
  • Pontos de inspeção integrados entre operações críticas, com área pequena e definida, sem bloquear o fluxo.
  • Área de não conformes próxima ao ponto de detecção, com rota clara para retrabalho (sem cruzar a linha).

4) Buffers mínimos: onde colocar e quanto permitir

Buffers (pulmões) são úteis para absorver pequenas variações, mas quando “crescem”, viram estoque em processo espalhado e exigem manuseio adicional.

Regras práticas:

  • Defina buffers apenas onde há variação inevitável (ex.: processo com tempo instável, inspeção demorada, cura).
  • Use limites visuais (ex.: 2–5 peças por posição) e suportes dedicados (racks, flow-racks), evitando pallets no chão.
  • Posicione buffers de forma a não bloquear acessos de manutenção e rotas de abastecimento.

5) Abastecimento e reabastecimento: rotas fixas e borda de linha

Uma linha eficiente depende de abastecimento previsível. O objetivo é que o material chegue ao ponto de uso com mínimo manuseio e sem empilhadeira “passeando” entre operadores.

Elementos-chave:

  • Supermercado (estoque intermediário) próximo à linha, dimensionado para reposição frequente.
  • Line-side: materiais de alto giro posicionados ao lado do posto em quantidades pequenas (ex.: caixas padrão, bins).
  • Milk run (rota de abastecimento): percurso e horários fixos com carrinho/tugger, reduzindo chamadas emergenciais.
  • Pontos de entrega e coleta padronizados: um lado para abastecer, outro para retirar vazios/sucata, evitando confusão.

Passo a passo prático para desenhar o abastecimento:

  • Passo 1 — Classifique materiais por giro e criticidade (alto giro na borda de linha; baixo giro em supermercado).
  • Passo 2 — Defina embalagens padrão (dimensões, peso, quantidade por caixa) para facilitar manuseio e reposição.
  • Passo 3 — Desenhe a rota do abastecedor com sentido único, paradas fixas e pontos de retorno.
  • Passo 4 — Separe fluxo de vazios (caixas vazias, pallets, retornáveis) para não contaminar o fluxo de entrada.
  • Passo 5 — Crie sinalização simples de reposição (cartão, quadro, contagem mínima), evitando “caça” de material.

6) Segregação de pessoas e empilhadeiras: segurança e estabilidade do fluxo

Em layout por produto, a linha tende a ter operadores concentrados e movimentação repetitiva. Misturar isso com empilhadeiras cruzando a linha aumenta risco e também gera paradas.

  • Projete corredores dedicados para empilhadeiras fora da borda imediata dos postos.
  • Use pontos de entrega onde a empilhadeira deixa pallets e um meio mais leve (carrinho, transpaleteira, abastecedor) faz a distribuição fina.
  • Evite cruzamentos: quando inevitáveis, use travessias controladas (visibilidade, prioridade, barreiras físicas).

Recomendações de desenho da linha: acessos, corredores e posicionamento de materiais

Larguras e acessos (recomendações práticas)

As larguras dependem do tipo de equipamento e do padrão de movimentação. Em vez de um número único, use faixas de projeto e valide com o veículo real e a operação.

ElementoRecomendação práticaObservação
Corredor de pedestres ao longo da linhaManter livre e contínuo; largura compatível com circulação e postosEvite que abastecimento use o mesmo corredor do operador
Corredor logístico (carrinhos/tugger)Rota dedicada, com pontos de parada sem bloquear o fluxoPrever áreas de “encosto” para abastecer sem parar a linha
Corredor de empilhadeiraDimensionar para o equipamento + folgas e visibilidadePreferir fora do perímetro imediato dos postos
Acesso de manutençãoEspaço para abrir proteções, retirar componentes e acessar painéisNão usar buffer como “reserva” de espaço de manutenção

Critério simples de validação: simule o pior caso (manobra, encontro de fluxos, retirada de pallet, operador em atividade) e verifique se alguém precisa “invadir” a área do outro para a operação acontecer.

Posicionamento de materiais e ferramentas

  • Materiais pesados devem chegar o mais próximo possível do ponto de uso, evitando re-manuseio.
  • Materiais de alto giro em flow-racks ou prateleiras inclinadas na borda de linha, com reposição por trás (quando possível) para separar abastecimento do operador.
  • Ferramentas e consumíveis no alcance do operador, reduzindo passos por ciclo.
  • Saída de sucata/refugo com recipiente dedicado e rota de retirada definida (não “deixar para depois”).

Como tratar variações de demanda sem perder o ganho de movimentação

Pulmões (buffers) planejados

Para variações de mix ou pequenas instabilidades, use pulmões pequenos e posicionados estrategicamente:

  • Pulmão antes do gargalo para evitar parada por falta de peça.
  • Pulmão após processo instável para proteger o restante da linha.
  • Evite pulmões em cada posto: isso aumenta WIP e manuseios.

Paralelização de postos

Quando a demanda sobe ou um posto é naturalmente mais lento, a paralelização reduz filas e evita lotes grandes sendo transportados:

  • Dois postos em paralelo para a mesma operação (ex.: duas bancadas de montagem).
  • Divisão por família (produto A em um posto, produto B em outro) quando há diferenças de tempo e ferramental.

Setup e trocas de modelo

Trocas frequentes podem “quebrar” o fluxo se exigirem movimentar materiais e ferramentas por longas distâncias.

  • Crie ponto de setup próximo ao posto (carrinho de ferramentas, kits de troca).
  • Padronize posições de itens de troca para reduzir procura e deslocamento.
  • Se o mix variar muito, avalie mini-linhas por família ou módulos reconfiguráveis, mantendo o fluxo curto.

Exemplo prático de antes/depois: menos distância e menos manuseios

Cenário “antes” (funcional/disperso)

Uma família de produtos passa por 6 operações: corte, furação, limpeza, montagem, teste e embalagem. As máquinas estão em áreas separadas e o material é movido em pallets por empilhadeira entre departamentos.

  • Distância média entre operações: 25 m
  • Transferências: 5 movimentações principais (entre 6 operações)
  • Manuseios por transferência: 2 (carregar pallet + descarregar)
  • Distância total por peça (aprox.): 5 × 25 m = 125 m
  • Manuseios totais (aprox.): 5 × 2 = 10 manuseios

Cenário “depois” (linha por produto com abastecimento dedicado)

Os postos são organizados em sequência em uma linha em “U” (ou reta, conforme espaço), com transferência por roletes/carrinho leve entre postos. Materiais de alto giro ficam na borda de linha e o reabastecimento ocorre por rota fixa em corredor logístico dedicado. Empilhadeira entrega pallets apenas no ponto de supermercado.

  • Distância média entre operações: 4 m
  • Transferências: 5 (mantidas), porém com microtransporte simples
  • Manuseios por transferência: 1 (passagem direta/apoio em dispositivo), sem palletização intermediária
  • Distância total por peça (aprox.): 5 × 4 m = 20 m
  • Manuseios totais (aprox.): 5 × 1 = 5 manuseios

Comparação objetiva

MétricaAntesDepoisGanho
Distância por peça125 m20 m-84%
Manuseios por peça105-50%
Uso de empilhadeira no fluxo principalAltoRestrito ao supermercadoMenos cruzamentos e paradas
WIP entre operaçõesVariável e espalhadoBuffers mínimos definidosMais controle e menos movimentação

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao projetar um layout por produto (em linha) para reduzir movimentações, qual combinação de decisões tende a diminuir transportes internos e evitar “corridas” por material?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em linha, a sequência física acompanha o processo, reduzindo retornos e cruzamentos. Com fluxo unidirecional e abastecimento padronizado (supermercado, line-side e milk run), o material chega ao ponto de uso com menos manuseio e menos deslocamentos emergenciais.

Próximo capitúlo

Layout celular e fluxo contínuo: famílias de produtos, U-cells e redução de transporte

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Layout Industrial e Fluxo de Materiais: Fundamentos para Reduzir Movimentações
46%

Layout Industrial e Fluxo de Materiais: Fundamentos para Reduzir Movimentações

Novo curso

13 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.