O que é layout por produto (linha) e por que reduz movimentações
No layout por produto (também chamado de layout em linha), os recursos (postos, máquinas, bancadas, inspeções e abastecimento) são organizados na mesma sequência das operações necessárias para fabricar uma família de produtos. A peça “anda para frente” com o mínimo de retornos, cruzamentos e esperas.
Quando a sequência física acompanha a sequência do processo, o transporte interno tende a cair por três motivos práticos: (1) as distâncias entre operações ficam curtas e previsíveis; (2) o fluxo se torna unidirecional, reduzindo voltas e retrabalhos logísticos; (3) o abastecimento pode ser padronizado por rotas e pontos fixos, evitando “corridas” para buscar material.
Características típicas de uma linha bem desenhada
- Fluxo unidirecional (entrada de material em um lado, saída no outro), com mínima interseção com outras linhas.
- Postos próximos, com transferência simples (mão, roletes, carrinho leve, esteira curta) em vez de empilhadeira.
- WIP controlado com buffers pequenos e definidos, evitando acúmulo “espalhado” no chão.
- Abastecimento por borda de linha (line-side), com supermercados e rotas de reabastecimento.
Cuidados de projeto: balanceamento, sequência e qualidade
1) Sequência de operações: desenhar o caminho “natural” do produto
Antes de posicionar máquinas, confirme a sequência real (incluindo esperas técnicas, cura, resfriamento, testes, retrabalhos frequentes e embalagens). Em layout por produto, “pular” etapas ou criar retornos físicos costuma destruir o ganho de movimentação.
Boas práticas:
- Evite que o produto precise cruzar o fluxo de entrada de materiais ou o fluxo de saída de produto acabado.
- Se houver operações que atendem mais de uma linha (ex.: teste final), avalie duplicar o recurso ou criar uma célula dedicada por família para evitar transporte recorrente.
- Posicione atividades de embalagem e etiquetagem o mais próximo possível do ponto de saída/expedição interna.
2) Balanceamento básico: reduzir esperas e microtransportes
Mesmo que o objetivo principal seja reduzir movimentações, o balanceamento é essencial porque postos desbalanceados geram: (a) filas e buffers improvisados; (b) deslocamentos extras de operadores para “ajudar” outros postos; (c) necessidade de empilhadeira para mover lotes maiores.
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Passo a passo prático para um balanceamento básico:
- Passo 1 — Defina o takt time:
takt = tempo disponível por turno / demanda do turno. - Passo 2 — Liste as tarefas por operação com tempos médios (inclua pequenas movimentações internas do posto).
- Passo 3 — Agrupe tarefas em postos tentando manter o tempo de cada posto ≤ takt (ou dentro de uma faixa, por exemplo 90–110% do takt, conforme estratégia).
- Passo 4 — Identifique gargalos (postos acima do takt) e trate com: divisão de tarefas, melhoria de método, ferramentas, ou paralelização (dois postos iguais).
- Passo 5 — Valide a ergonomia e o alcance: se o operador precisa caminhar dentro do posto para buscar itens, o tempo “escondido” vira desbalanceamento e movimentação.
Dica de projeto: ao balancear, priorize reduzir deslocamentos do operador dentro do posto (posicionamento de ferramentas, gravidade, abastecimento lateral), porque isso reduz tempo e também evita que o operador “invada” corredores.
3) Pontos de inspeção: qualidade sem criar retornos
Inspeção mal posicionada cria transporte extra (levar peça para uma sala, voltar, separar). Em linha, prefira:
- Inspeção na fonte: checagens simples no próprio posto (gabaritos, poka-yoke, medidores dedicados).
- Pontos de inspeção integrados entre operações críticas, com área pequena e definida, sem bloquear o fluxo.
- Área de não conformes próxima ao ponto de detecção, com rota clara para retrabalho (sem cruzar a linha).
4) Buffers mínimos: onde colocar e quanto permitir
Buffers (pulmões) são úteis para absorver pequenas variações, mas quando “crescem”, viram estoque em processo espalhado e exigem manuseio adicional.
Regras práticas:
- Defina buffers apenas onde há variação inevitável (ex.: processo com tempo instável, inspeção demorada, cura).
- Use limites visuais (ex.: 2–5 peças por posição) e suportes dedicados (racks, flow-racks), evitando pallets no chão.
- Posicione buffers de forma a não bloquear acessos de manutenção e rotas de abastecimento.
5) Abastecimento e reabastecimento: rotas fixas e borda de linha
Uma linha eficiente depende de abastecimento previsível. O objetivo é que o material chegue ao ponto de uso com mínimo manuseio e sem empilhadeira “passeando” entre operadores.
Elementos-chave:
- Supermercado (estoque intermediário) próximo à linha, dimensionado para reposição frequente.
- Line-side: materiais de alto giro posicionados ao lado do posto em quantidades pequenas (ex.: caixas padrão, bins).
- Milk run (rota de abastecimento): percurso e horários fixos com carrinho/tugger, reduzindo chamadas emergenciais.
- Pontos de entrega e coleta padronizados: um lado para abastecer, outro para retirar vazios/sucata, evitando confusão.
Passo a passo prático para desenhar o abastecimento:
- Passo 1 — Classifique materiais por giro e criticidade (alto giro na borda de linha; baixo giro em supermercado).
- Passo 2 — Defina embalagens padrão (dimensões, peso, quantidade por caixa) para facilitar manuseio e reposição.
- Passo 3 — Desenhe a rota do abastecedor com sentido único, paradas fixas e pontos de retorno.
- Passo 4 — Separe fluxo de vazios (caixas vazias, pallets, retornáveis) para não contaminar o fluxo de entrada.
- Passo 5 — Crie sinalização simples de reposição (cartão, quadro, contagem mínima), evitando “caça” de material.
6) Segregação de pessoas e empilhadeiras: segurança e estabilidade do fluxo
Em layout por produto, a linha tende a ter operadores concentrados e movimentação repetitiva. Misturar isso com empilhadeiras cruzando a linha aumenta risco e também gera paradas.
- Projete corredores dedicados para empilhadeiras fora da borda imediata dos postos.
- Use pontos de entrega onde a empilhadeira deixa pallets e um meio mais leve (carrinho, transpaleteira, abastecedor) faz a distribuição fina.
- Evite cruzamentos: quando inevitáveis, use travessias controladas (visibilidade, prioridade, barreiras físicas).
Recomendações de desenho da linha: acessos, corredores e posicionamento de materiais
Larguras e acessos (recomendações práticas)
As larguras dependem do tipo de equipamento e do padrão de movimentação. Em vez de um número único, use faixas de projeto e valide com o veículo real e a operação.
| Elemento | Recomendação prática | Observação |
|---|---|---|
| Corredor de pedestres ao longo da linha | Manter livre e contínuo; largura compatível com circulação e postos | Evite que abastecimento use o mesmo corredor do operador |
| Corredor logístico (carrinhos/tugger) | Rota dedicada, com pontos de parada sem bloquear o fluxo | Prever áreas de “encosto” para abastecer sem parar a linha |
| Corredor de empilhadeira | Dimensionar para o equipamento + folgas e visibilidade | Preferir fora do perímetro imediato dos postos |
| Acesso de manutenção | Espaço para abrir proteções, retirar componentes e acessar painéis | Não usar buffer como “reserva” de espaço de manutenção |
Critério simples de validação: simule o pior caso (manobra, encontro de fluxos, retirada de pallet, operador em atividade) e verifique se alguém precisa “invadir” a área do outro para a operação acontecer.
Posicionamento de materiais e ferramentas
- Materiais pesados devem chegar o mais próximo possível do ponto de uso, evitando re-manuseio.
- Materiais de alto giro em flow-racks ou prateleiras inclinadas na borda de linha, com reposição por trás (quando possível) para separar abastecimento do operador.
- Ferramentas e consumíveis no alcance do operador, reduzindo passos por ciclo.
- Saída de sucata/refugo com recipiente dedicado e rota de retirada definida (não “deixar para depois”).
Como tratar variações de demanda sem perder o ganho de movimentação
Pulmões (buffers) planejados
Para variações de mix ou pequenas instabilidades, use pulmões pequenos e posicionados estrategicamente:
- Pulmão antes do gargalo para evitar parada por falta de peça.
- Pulmão após processo instável para proteger o restante da linha.
- Evite pulmões em cada posto: isso aumenta WIP e manuseios.
Paralelização de postos
Quando a demanda sobe ou um posto é naturalmente mais lento, a paralelização reduz filas e evita lotes grandes sendo transportados:
- Dois postos em paralelo para a mesma operação (ex.: duas bancadas de montagem).
- Divisão por família (produto A em um posto, produto B em outro) quando há diferenças de tempo e ferramental.
Setup e trocas de modelo
Trocas frequentes podem “quebrar” o fluxo se exigirem movimentar materiais e ferramentas por longas distâncias.
- Crie ponto de setup próximo ao posto (carrinho de ferramentas, kits de troca).
- Padronize posições de itens de troca para reduzir procura e deslocamento.
- Se o mix variar muito, avalie mini-linhas por família ou módulos reconfiguráveis, mantendo o fluxo curto.
Exemplo prático de antes/depois: menos distância e menos manuseios
Cenário “antes” (funcional/disperso)
Uma família de produtos passa por 6 operações: corte, furação, limpeza, montagem, teste e embalagem. As máquinas estão em áreas separadas e o material é movido em pallets por empilhadeira entre departamentos.
- Distância média entre operações: 25 m
- Transferências: 5 movimentações principais (entre 6 operações)
- Manuseios por transferência: 2 (carregar pallet + descarregar)
- Distância total por peça (aprox.): 5 × 25 m = 125 m
- Manuseios totais (aprox.): 5 × 2 = 10 manuseios
Cenário “depois” (linha por produto com abastecimento dedicado)
Os postos são organizados em sequência em uma linha em “U” (ou reta, conforme espaço), com transferência por roletes/carrinho leve entre postos. Materiais de alto giro ficam na borda de linha e o reabastecimento ocorre por rota fixa em corredor logístico dedicado. Empilhadeira entrega pallets apenas no ponto de supermercado.
- Distância média entre operações: 4 m
- Transferências: 5 (mantidas), porém com microtransporte simples
- Manuseios por transferência: 1 (passagem direta/apoio em dispositivo), sem palletização intermediária
- Distância total por peça (aprox.): 5 × 4 m = 20 m
- Manuseios totais (aprox.): 5 × 1 = 5 manuseios
Comparação objetiva
| Métrica | Antes | Depois | Ganho |
|---|---|---|---|
| Distância por peça | 125 m | 20 m | -84% |
| Manuseios por peça | 10 | 5 | -50% |
| Uso de empilhadeira no fluxo principal | Alto | Restrito ao supermercado | Menos cruzamentos e paradas |
| WIP entre operações | Variável e espalhado | Buffers mínimos definidos | Mais controle e menos movimentação |