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Perito Criminal da Polícia Civil: Fundamentos Técnicos e Científicos para Concursos

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16 páginas

Laudo pericial na Polícia Civil: estrutura técnica, linguagem e fundamentação

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

O laudo pericial é o documento técnico que registra, de forma verificável e reprodutível, o que foi examinado, como foi examinado, quais resultados foram obtidos e quais inferências são sustentadas por esses resultados. Ele deve permitir que outro profissional, com acesso aos mesmos materiais e condições, compreenda o caminho técnico adotado, identifique controles e limitações e avalie a robustez das conclusões.

Ao redigir, priorize: (1) linguagem impessoal e técnica; (2) afirmações ancoradas em observações e medições; (3) separação explícita entre dados (resultados) e interpretação (discussão); (4) rastreabilidade interna (cada conclusão aponta para resultados e método); (5) transparência sobre limites, incertezas e hipóteses alternativas.

Anatomia do laudo: seções e finalidade

1) Identificação

Finalidade: individualizar o documento e o exame, permitindo localização, auditoria e vinculação processual.

  • Órgão/unidade, número do laudo, data e local de emissão.
  • Autor(es) e qualificação funcional (cargo, matrícula, lotação).
  • Autoridade requisitante, número do procedimento, data da requisição.
  • Objeto periciado: descrição objetiva do material/ambiente examinado (sem narrativa investigativa).
  • Referências internas: número de amostras, lacres, etiquetas, mídias, anexos.

Boas práticas de redação: use descritores observáveis (marca, modelo, cor, dimensões, massa, número de série, condição aparente). Evite termos interpretativos na identificação (ex.: “arma do crime”, “sangue da vítima”). Prefira “objeto metálico com características compatíveis com...” quando ainda não testado.

2) Quesitos

Finalidade: registrar as perguntas técnicas a serem respondidas. Transcreva os quesitos como recebidos e, se necessário, inclua quesitos complementares do perito (quando admitido pela norma local), justificando tecnicamente a necessidade.

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  • Numere os quesitos e responda na mesma ordem.
  • Se um quesito for ambíguo, registre a ambiguidade e responda com condicionantes (ex.: “considerando X, então Y”).
  • Se um quesito extrapolar a competência técnica (ex.: juízo de autoria), delimite: “não compete ao exame pericial afirmar...” e redirecione para o que é tecnicamente verificável.

3) Histórico técnico do atendimento (sem narrativa investigativa)

Finalidade: contextualizar tecnicamente o atendimento e o recebimento do material, sem reconstruir fatos, sem atribuir intenções e sem relatar versões.

Inclua apenas informações necessárias para compreender o exame:

  • Data/hora de recebimento e de início do exame.
  • Condições do material ao chegar (integridade, acondicionamento, identificação externa).
  • Condições ambientais relevantes (temperatura, iluminação, umidade) quando impactarem medições.
  • Restrições operacionais (ex.: “material úmido”, “amostra insuficiente”, “mídia com setores defeituosos”).

Exemplo de frase adequada: “Foram recebidos 03 invólucros lacrados, identificados externamente como A, B e C, sem sinais visíveis de violação, contendo respectivamente...”. Exemplo inadequado: “A equipe encontrou a arma usada pelo autor e encaminhou ao laboratório”.

4) Metodologia

Finalidade: descrever procedimentos de modo reprodutível, com parâmetros, controles e limites. A metodologia deve permitir auditoria técnica.

Estruture a metodologia em passos e inclua:

  • Referenciais: normas, protocolos internos, literatura técnica, validações aplicáveis (cite de forma objetiva).
  • Instrumentos e calibração: modelo, faixa, resolução, data/condição de calibração/verificação quando aplicável.
  • Procedimentos: sequência de etapas, critérios de aceitação/rejeição, preparo de amostras, condições de ensaio.
  • Controles: branco, controle positivo/negativo, padrões, amostras de referência, repetição/replicata, verificação cruzada.
  • Limites: limite de detecção/quantificação, incerteza de medição, limitações de método e interferentes conhecidos.

Evite “foi realizado exame padrão” sem detalhar. Prefira: “Aplicou-se o procedimento X, com parâmetro Y, por Z minutos, sob condição W, adotando critério de aceitação K”.

5) Resultados

Finalidade: apresentar dados observados/medidos, sem interpretação conclusiva. Use tabelas, listas e descrições objetivas.

  • Relate medidas com unidade, incerteza quando aplicável e condições de medição.
  • Registre resultados negativos (ex.: “não se observou...”) quando relevantes.
  • Identifique cada resultado com a amostra correspondente (A, B, C) e com o método usado.
  • Inclua imagens, gráficos e cromatogramas como anexos, referenciando-os no texto.

Exemplo: “Amostra B: massa 2,31 g; observou-se material particulado branco; espectro apresentou picos em...”. Evite: “Amostra B era cocaína” (isso é conclusão/interpretação, a depender do método e do critério).

6) Discussão

Finalidade: interpretar os resultados, explicitar o raciocínio e avaliar hipóteses compatíveis, sempre ancorado em dados e na metodologia. É aqui que se documenta a cadeia de raciocínio.

Uma discussão robusta:

  • Conecta resultados a critérios técnicos: “resultado R atende ao critério C do método M”.
  • Considera alternativas e interferentes: “o padrão observado também pode ocorrer em..., porém o controle... reduz essa possibilidade”.
  • Explicita limites: “o método não distingue entre X e Y em concentrações abaixo de...”.
  • Evita extrapolações: não inferir autoria, intenção, dinâmica completa do fato sem suporte.

Modelo de encadeamento (cadeia de raciocínio) em frases curtas: (1) dado observado; (2) regra/critério; (3) inferência; (4) ressalva/limite. Exemplo: “Observou-se padrão de estrias compatível com classe de ferramenta tipo alicate (dado). O protocolo adota correspondência de classe quando há coincidência de morfologia e orientação (critério). Assim, o vestígio é compatível com ação de ferramenta desse tipo (inferência). Não é possível individualizar uma ferramenta específica sem padrões de comparação adequados (limite).”

7) Conclusão (seção conclusiva do laudo)

Finalidade: responder objetivamente aos quesitos e sintetizar as inferências sustentadas. Deve ser curta, direta e rastreável (cada item remete a resultados/discussão).

  • Responda quesito a quesito, com “Sim/Não/Não foi possível concluir”, seguido de justificativa técnica breve.
  • Evite termos vagos (“provavelmente”, “aparentemente”) sem qualificação. Quando necessário, qualifique com base em critério (“compatível com”, “indícios de”, “com alta/baixa confiança”, conforme protocolo).
  • Não introduza dados novos na conclusão; apenas sintetize.

8) Anexos

Finalidade: guardar evidências documentais do exame e permitir verificação: fotografias, esquemas, tabelas completas, logs instrumentais, relatórios de software, certificados de calibração, listas de verificação, cadeias de cálculo, mapas de amostragem, etc.

Boas práticas:

  • Numere anexos e referencie-os no corpo do laudo.
  • Garanta que cada anexo tenha identificação (data, amostra, método, responsável).
  • Quando houver processamento digital, registre parâmetros e versões (ex.: versão do software, hash de arquivos de saída, configurações relevantes).

Linguagem técnica, impessoal e verificável

Princípios de redação

  • Impessoalidade: prefira “observou-se”, “constatou-se”, “foi mensurado” em vez de “eu observei”.
  • Verificabilidade: toda afirmação relevante deve ser rastreável a um resultado, anexo ou parâmetro.
  • Reprodutibilidade: descreva condições e critérios (tempo, temperatura, configurações, tolerâncias).
  • Precisão terminológica: use termos técnicos padronizados e defina siglas na primeira ocorrência.
  • Separação dado vs. interpretação: “resultado” não deve conter inferência; “discussão” não deve inventar dados.

Checklist prático de frases (substituições úteis)

  • Evite: “foi feito exame completo”. Use: “foram realizados os ensaios A, B e C, conforme protocolo..., com critérios...”.
  • Evite: “não havia nada”. Use: “não foram observados vestígios do tipo X nas áreas Y, sob iluminação Z e ampliação W”.
  • Evite: “deu positivo”. Use: “o controle positivo apresentou resposta esperada; a amostra apresentou resposta acima do limiar T, atendendo ao critério C”.
  • Evite: “compatível” sem base. Use: “compatível segundo critério K (coincidência de...), conforme método M”.

Como responder quesitos com clareza

Passo a passo para resposta de quesitos

  • Passo 1 — Reescreva mentalmente o quesito em termos técnicos: identifique o que é mensurável (ex.: “há presença de...?”, “há correspondência de...?”, “qual a concentração...?”).
  • Passo 2 — Mapeie o quesito para o método: qual ensaio responde? qual critério de aceitação? quais controles?
  • Passo 3 — Verifique suficiência: há amostra adequada? há padrão de comparação? há integridade do material para o método?
  • Passo 4 — Responda em formato padronizado: “Resposta: ... / Fundamentação: ... / Limitações: ... / Referências internas: ...”.
  • Passo 5 — Amarre a resposta aos resultados: cite amostra, anexo e parâmetro (ex.: “vide Tabela 2; Anexo III”).

“Não foi possível concluir” vs. “inconclusivo por insuficiência”

Ambas as expressões comunicam ausência de conclusão, mas por razões diferentes. Para evitar ambiguidades, explicite sempre o motivo técnico.

  • Não foi possível concluir (por limitação do método/condição): o exame foi realizado, porém as condições ou o alcance do método não permitem sustentar uma inferência. Ex.: método não diferencia substâncias isômeras; ausência de padrão de comparação; interferência conhecida; resultado abaixo do limite de detecção.
  • Inconclusivo por insuficiência (de material/dados): não houve material suficiente, qualidade mínima ou dados necessários para aplicar o método com validade. Ex.: amostra consumida/insuficiente para replicatas; degradação severa; arquivo corrompido impedindo extração; ausência de áreas preservadas para coleta.

Forma recomendada de redação: “Não foi possível concluir quanto a X, pois (i) ... (limite do método/condição), apesar de (ii) ... (procedimentos realizados).” Ou: “O exame restou inconclusivo por insuficiência de material/dados, uma vez que ...; não foi possível aplicar o procedimento ... dentro dos critérios de validade.”

Documentando cadeias de raciocínio (do dado à inferência)

Uma cadeia de raciocínio bem documentada reduz contestação por “salto lógico”. Use estrutura repetível:

  • Observação/medição: o que foi visto/medido (com unidade, anexo).
  • Critério/regra: qual parâmetro transforma dado em evidência (limiar, correspondência, tolerância).
  • Controle/validação: como você sabe que o resultado é confiável (controles, calibração, replicatas).
  • Inferência: o que os dados sustentam (e apenas isso).
  • Limitação: o que os dados não permitem afirmar.

Exemplo de parágrafo com cadeia explícita: “A amostra A apresentou sinal S acima do limiar T estabelecido no procedimento P (Resultados, Tabela 1). O controle negativo permaneceu abaixo de T e o controle positivo apresentou resposta esperada (Anexo II), indicando desempenho adequado do ensaio. Assim, os dados sustentam a presença de X na amostra A nas condições do método. Contudo, por se tratar de método com limite de quantificação LQ, não é possível estimar concentração com confiabilidade abaixo de LQ.”

Modelo comentado de laudo (exemplo didático)

A seguir, um modelo simplificado e comentado. Ajuste ao padrão normativo da sua instituição e ao tipo de exame.

LAUDO PERICIAL Nº 000/20XX  [Comentário: numeração e rastreabilidade documental]  IDENTIFICAÇÃO  Órgão/Unidade: ____________________  Data: ___/___/_____  Perito(s): _________________________  Requisitante: ______________________  Procedimento nº: ___________________  Objeto periciado:  - Item 1 (Amostra A): ___________________________  - Item 2 (Amostra B): ___________________________  [Comentário: descreva itens com atributos observáveis; evite termos conclusivos]  QUESITOS  Q1) ____________________________________________  Q2) ____________________________________________  [Comentário: transcreva; numere; mantenha ordem]  HISTÓRICO TÉCNICO DO ATENDIMENTO  Em ___/___/____, às __:__, foram recebidos __ invólucros lacrados, identificados como A e B, sem sinais visíveis de violação. O material apresentava ________________________.  [Comentário: apenas contexto técnico do recebimento/condição; sem narrativa investigativa]  METODOLOGIA  1. Referenciais: Procedimento interno PI-XX; norma/guia ________.  2. Instrumentação: equipamento ______ (modelo ___), verificado/calibrado em ___/___/____.  3. Preparo: (descrever massas/volumes, reagentes, tempos, temperaturas).  4. Ensaio: (descrever parâmetros, configurações, critérios de aceitação).  5. Controles: branco, controle negativo, controle positivo, replicatas (quando aplicável).  6. Limites: LD = __; LQ = __; interferentes conhecidos: ________.  [Comentário: metodologia deve ser reprodutível; inclua critérios e limites]  RESULTADOS  - Amostra A: (dados objetivos; tabelas; medições; observações).  - Amostra B: (dados objetivos).  Desempenho dos controles: (registrar).  [Comentário: sem interpretação; referencie anexos]  DISCUSSÃO  Os resultados da Amostra A atendem ao critério ______ do método ______, pois ______.  Considerou-se a possibilidade de ______; entretanto ______ (controle/limite).  Limitações: ______.  [Comentário: explicite a cadeia de raciocínio e alternativas]  CONCLUSÃO / RESPOSTAS AOS QUESITOS  Q1) Resposta: ______. Fundamentação: (referir resultados/anexos). Limitações: ______.  Q2) Resposta: ______. Fundamentação: ______. Limitações: ______.  [Comentário: responda objetivamente; sem dados novos]  ANEXOS  Anexo I: Registro fotográfico (itens A e B).  Anexo II: Relatórios instrumentais/curvas/prints.  Anexo III: Tabelas completas e cálculos.  [Comentário: anexos numerados e referenciados no texto]

Exercícios de reescrita para eliminar ambiguidades

Exercício 1 — Trocar termos vagos por parâmetros verificáveis

Frase ambígua: “O material estava bem conservado.”

Tarefa: reescreva indicando critérios observáveis (integridade, umidade, odor, temperatura, acondicionamento, sinais de violação).

Exemplo de reescrita: “O invólucro apresentava lacre íntegro, sem sinais visíveis de violação; o conteúdo encontrava-se seco ao tato, sem vazamentos, acondicionado em recipiente rígido, à temperatura ambiente (___ °C).”

Exercício 2 — Separar resultado de interpretação

Frase inadequada (mistura): “Foi encontrada substância ilícita na amostra.”

Tarefa: escreva (a) resultado observável e (b) interpretação com critério.

Exemplo: (a) “A amostra apresentou resposta acima do limiar T no ensaio X e espectro com picos em... (Anexo II).” (b) “Os dados atendem ao critério C do método M para identificação de ______, nas condições descritas.”

Exercício 3 — Qualificar “compatível”

Frase ambígua: “As marcas são compatíveis com a ferramenta.”

Tarefa: reescreva indicando qual nível de correspondência (classe/individual), quais características coincidem e qual limitação impede individualização (se for o caso).

Exemplo: “As marcas apresentam características de classe compatíveis com ferramenta do tipo ______ (morfologia e orientação das estrias coincidentes), conforme critério ______. Não foi possível individualizar uma ferramenta específica por ausência de padrão de comparação adequado e por limitações de preservação do vestígio.”

Exercício 4 — “Não foi possível concluir” vs. “insuficiência”

Frase problemática: “O exame foi inconclusivo.”

Tarefa: reescreva em duas versões: (a) limitação do método/condição; (b) insuficiência de material/dados.

Exemplos: (a) “Não foi possível concluir quanto a ______, pois o método ______ não distingue ______ abaixo de ______, e o resultado obtido situou-se abaixo do limite de detecção.” (b) “O exame restou inconclusivo por insuficiência de material, uma vez que a massa disponível (___ g) não atende ao mínimo requerido para replicatas e confirmação pelo procedimento ______.”

Exercício 5 — Eliminar inferências indevidas (autoria/intenção)

Frase inadequada: “O suspeito manipulou o objeto.”

Tarefa: reescreva limitando-se ao que o exame sustenta e indicando condicionantes.

Exemplo: “Foram detectados vestígios do tipo ______ no item ______, conforme método ______ e critérios ______. O exame não permite inferir, por si só, autoria ou momento de deposição do vestígio, os quais dependem de correlação com outros elementos.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao elaborar a seção de Resultados de um laudo pericial, qual prática atende melhor ao princípio de separar dados observados de interpretações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Resultados devem conter dados observáveis/medidos (com unidade, condições, amostra e método), sem inferência conclusiva. A interpretação e o encadeamento lógico ficam na Discussão, preservando rastreabilidade e verificabilidade.

Próximo capitúlo

Legislação aplicada ao Perito Criminal: perícia oficial, prova pericial e cadeia de custódia

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