O laudo pericial é o documento técnico que registra, de forma verificável e reprodutível, o que foi examinado, como foi examinado, quais resultados foram obtidos e quais inferências são sustentadas por esses resultados. Ele deve permitir que outro profissional, com acesso aos mesmos materiais e condições, compreenda o caminho técnico adotado, identifique controles e limitações e avalie a robustez das conclusões.
Ao redigir, priorize: (1) linguagem impessoal e técnica; (2) afirmações ancoradas em observações e medições; (3) separação explícita entre dados (resultados) e interpretação (discussão); (4) rastreabilidade interna (cada conclusão aponta para resultados e método); (5) transparência sobre limites, incertezas e hipóteses alternativas.
Anatomia do laudo: seções e finalidade
1) Identificação
Finalidade: individualizar o documento e o exame, permitindo localização, auditoria e vinculação processual.
- Órgão/unidade, número do laudo, data e local de emissão.
- Autor(es) e qualificação funcional (cargo, matrícula, lotação).
- Autoridade requisitante, número do procedimento, data da requisição.
- Objeto periciado: descrição objetiva do material/ambiente examinado (sem narrativa investigativa).
- Referências internas: número de amostras, lacres, etiquetas, mídias, anexos.
Boas práticas de redação: use descritores observáveis (marca, modelo, cor, dimensões, massa, número de série, condição aparente). Evite termos interpretativos na identificação (ex.: “arma do crime”, “sangue da vítima”). Prefira “objeto metálico com características compatíveis com...” quando ainda não testado.
2) Quesitos
Finalidade: registrar as perguntas técnicas a serem respondidas. Transcreva os quesitos como recebidos e, se necessário, inclua quesitos complementares do perito (quando admitido pela norma local), justificando tecnicamente a necessidade.
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- Numere os quesitos e responda na mesma ordem.
- Se um quesito for ambíguo, registre a ambiguidade e responda com condicionantes (ex.: “considerando X, então Y”).
- Se um quesito extrapolar a competência técnica (ex.: juízo de autoria), delimite: “não compete ao exame pericial afirmar...” e redirecione para o que é tecnicamente verificável.
3) Histórico técnico do atendimento (sem narrativa investigativa)
Finalidade: contextualizar tecnicamente o atendimento e o recebimento do material, sem reconstruir fatos, sem atribuir intenções e sem relatar versões.
Inclua apenas informações necessárias para compreender o exame:
- Data/hora de recebimento e de início do exame.
- Condições do material ao chegar (integridade, acondicionamento, identificação externa).
- Condições ambientais relevantes (temperatura, iluminação, umidade) quando impactarem medições.
- Restrições operacionais (ex.: “material úmido”, “amostra insuficiente”, “mídia com setores defeituosos”).
Exemplo de frase adequada: “Foram recebidos 03 invólucros lacrados, identificados externamente como A, B e C, sem sinais visíveis de violação, contendo respectivamente...”. Exemplo inadequado: “A equipe encontrou a arma usada pelo autor e encaminhou ao laboratório”.
4) Metodologia
Finalidade: descrever procedimentos de modo reprodutível, com parâmetros, controles e limites. A metodologia deve permitir auditoria técnica.
Estruture a metodologia em passos e inclua:
- Referenciais: normas, protocolos internos, literatura técnica, validações aplicáveis (cite de forma objetiva).
- Instrumentos e calibração: modelo, faixa, resolução, data/condição de calibração/verificação quando aplicável.
- Procedimentos: sequência de etapas, critérios de aceitação/rejeição, preparo de amostras, condições de ensaio.
- Controles: branco, controle positivo/negativo, padrões, amostras de referência, repetição/replicata, verificação cruzada.
- Limites: limite de detecção/quantificação, incerteza de medição, limitações de método e interferentes conhecidos.
Evite “foi realizado exame padrão” sem detalhar. Prefira: “Aplicou-se o procedimento X, com parâmetro Y, por Z minutos, sob condição W, adotando critério de aceitação K”.
5) Resultados
Finalidade: apresentar dados observados/medidos, sem interpretação conclusiva. Use tabelas, listas e descrições objetivas.
- Relate medidas com unidade, incerteza quando aplicável e condições de medição.
- Registre resultados negativos (ex.: “não se observou...”) quando relevantes.
- Identifique cada resultado com a amostra correspondente (A, B, C) e com o método usado.
- Inclua imagens, gráficos e cromatogramas como anexos, referenciando-os no texto.
Exemplo: “Amostra B: massa 2,31 g; observou-se material particulado branco; espectro apresentou picos em...”. Evite: “Amostra B era cocaína” (isso é conclusão/interpretação, a depender do método e do critério).
6) Discussão
Finalidade: interpretar os resultados, explicitar o raciocínio e avaliar hipóteses compatíveis, sempre ancorado em dados e na metodologia. É aqui que se documenta a cadeia de raciocínio.
Uma discussão robusta:
- Conecta resultados a critérios técnicos: “resultado R atende ao critério C do método M”.
- Considera alternativas e interferentes: “o padrão observado também pode ocorrer em..., porém o controle... reduz essa possibilidade”.
- Explicita limites: “o método não distingue entre X e Y em concentrações abaixo de...”.
- Evita extrapolações: não inferir autoria, intenção, dinâmica completa do fato sem suporte.
Modelo de encadeamento (cadeia de raciocínio) em frases curtas: (1) dado observado; (2) regra/critério; (3) inferência; (4) ressalva/limite. Exemplo: “Observou-se padrão de estrias compatível com classe de ferramenta tipo alicate (dado). O protocolo adota correspondência de classe quando há coincidência de morfologia e orientação (critério). Assim, o vestígio é compatível com ação de ferramenta desse tipo (inferência). Não é possível individualizar uma ferramenta específica sem padrões de comparação adequados (limite).”
7) Conclusão (seção conclusiva do laudo)
Finalidade: responder objetivamente aos quesitos e sintetizar as inferências sustentadas. Deve ser curta, direta e rastreável (cada item remete a resultados/discussão).
- Responda quesito a quesito, com “Sim/Não/Não foi possível concluir”, seguido de justificativa técnica breve.
- Evite termos vagos (“provavelmente”, “aparentemente”) sem qualificação. Quando necessário, qualifique com base em critério (“compatível com”, “indícios de”, “com alta/baixa confiança”, conforme protocolo).
- Não introduza dados novos na conclusão; apenas sintetize.
8) Anexos
Finalidade: guardar evidências documentais do exame e permitir verificação: fotografias, esquemas, tabelas completas, logs instrumentais, relatórios de software, certificados de calibração, listas de verificação, cadeias de cálculo, mapas de amostragem, etc.
Boas práticas:
- Numere anexos e referencie-os no corpo do laudo.
- Garanta que cada anexo tenha identificação (data, amostra, método, responsável).
- Quando houver processamento digital, registre parâmetros e versões (ex.: versão do software, hash de arquivos de saída, configurações relevantes).
Linguagem técnica, impessoal e verificável
Princípios de redação
- Impessoalidade: prefira “observou-se”, “constatou-se”, “foi mensurado” em vez de “eu observei”.
- Verificabilidade: toda afirmação relevante deve ser rastreável a um resultado, anexo ou parâmetro.
- Reprodutibilidade: descreva condições e critérios (tempo, temperatura, configurações, tolerâncias).
- Precisão terminológica: use termos técnicos padronizados e defina siglas na primeira ocorrência.
- Separação dado vs. interpretação: “resultado” não deve conter inferência; “discussão” não deve inventar dados.
Checklist prático de frases (substituições úteis)
- Evite: “foi feito exame completo”. Use: “foram realizados os ensaios A, B e C, conforme protocolo..., com critérios...”.
- Evite: “não havia nada”. Use: “não foram observados vestígios do tipo X nas áreas Y, sob iluminação Z e ampliação W”.
- Evite: “deu positivo”. Use: “o controle positivo apresentou resposta esperada; a amostra apresentou resposta acima do limiar T, atendendo ao critério C”.
- Evite: “compatível” sem base. Use: “compatível segundo critério K (coincidência de...), conforme método M”.
Como responder quesitos com clareza
Passo a passo para resposta de quesitos
- Passo 1 — Reescreva mentalmente o quesito em termos técnicos: identifique o que é mensurável (ex.: “há presença de...?”, “há correspondência de...?”, “qual a concentração...?”).
- Passo 2 — Mapeie o quesito para o método: qual ensaio responde? qual critério de aceitação? quais controles?
- Passo 3 — Verifique suficiência: há amostra adequada? há padrão de comparação? há integridade do material para o método?
- Passo 4 — Responda em formato padronizado: “Resposta: ... / Fundamentação: ... / Limitações: ... / Referências internas: ...”.
- Passo 5 — Amarre a resposta aos resultados: cite amostra, anexo e parâmetro (ex.: “vide Tabela 2; Anexo III”).
“Não foi possível concluir” vs. “inconclusivo por insuficiência”
Ambas as expressões comunicam ausência de conclusão, mas por razões diferentes. Para evitar ambiguidades, explicite sempre o motivo técnico.
- Não foi possível concluir (por limitação do método/condição): o exame foi realizado, porém as condições ou o alcance do método não permitem sustentar uma inferência. Ex.: método não diferencia substâncias isômeras; ausência de padrão de comparação; interferência conhecida; resultado abaixo do limite de detecção.
- Inconclusivo por insuficiência (de material/dados): não houve material suficiente, qualidade mínima ou dados necessários para aplicar o método com validade. Ex.: amostra consumida/insuficiente para replicatas; degradação severa; arquivo corrompido impedindo extração; ausência de áreas preservadas para coleta.
Forma recomendada de redação: “Não foi possível concluir quanto a X, pois (i) ... (limite do método/condição), apesar de (ii) ... (procedimentos realizados).” Ou: “O exame restou inconclusivo por insuficiência de material/dados, uma vez que ...; não foi possível aplicar o procedimento ... dentro dos critérios de validade.”
Documentando cadeias de raciocínio (do dado à inferência)
Uma cadeia de raciocínio bem documentada reduz contestação por “salto lógico”. Use estrutura repetível:
- Observação/medição: o que foi visto/medido (com unidade, anexo).
- Critério/regra: qual parâmetro transforma dado em evidência (limiar, correspondência, tolerância).
- Controle/validação: como você sabe que o resultado é confiável (controles, calibração, replicatas).
- Inferência: o que os dados sustentam (e apenas isso).
- Limitação: o que os dados não permitem afirmar.
Exemplo de parágrafo com cadeia explícita: “A amostra A apresentou sinal S acima do limiar T estabelecido no procedimento P (Resultados, Tabela 1). O controle negativo permaneceu abaixo de T e o controle positivo apresentou resposta esperada (Anexo II), indicando desempenho adequado do ensaio. Assim, os dados sustentam a presença de X na amostra A nas condições do método. Contudo, por se tratar de método com limite de quantificação LQ, não é possível estimar concentração com confiabilidade abaixo de LQ.”
Modelo comentado de laudo (exemplo didático)
A seguir, um modelo simplificado e comentado. Ajuste ao padrão normativo da sua instituição e ao tipo de exame.
LAUDO PERICIAL Nº 000/20XX [Comentário: numeração e rastreabilidade documental] IDENTIFICAÇÃO Órgão/Unidade: ____________________ Data: ___/___/_____ Perito(s): _________________________ Requisitante: ______________________ Procedimento nº: ___________________ Objeto periciado: - Item 1 (Amostra A): ___________________________ - Item 2 (Amostra B): ___________________________ [Comentário: descreva itens com atributos observáveis; evite termos conclusivos] QUESITOS Q1) ____________________________________________ Q2) ____________________________________________ [Comentário: transcreva; numere; mantenha ordem] HISTÓRICO TÉCNICO DO ATENDIMENTO Em ___/___/____, às __:__, foram recebidos __ invólucros lacrados, identificados como A e B, sem sinais visíveis de violação. O material apresentava ________________________. [Comentário: apenas contexto técnico do recebimento/condição; sem narrativa investigativa] METODOLOGIA 1. Referenciais: Procedimento interno PI-XX; norma/guia ________. 2. Instrumentação: equipamento ______ (modelo ___), verificado/calibrado em ___/___/____. 3. Preparo: (descrever massas/volumes, reagentes, tempos, temperaturas). 4. Ensaio: (descrever parâmetros, configurações, critérios de aceitação). 5. Controles: branco, controle negativo, controle positivo, replicatas (quando aplicável). 6. Limites: LD = __; LQ = __; interferentes conhecidos: ________. [Comentário: metodologia deve ser reprodutível; inclua critérios e limites] RESULTADOS - Amostra A: (dados objetivos; tabelas; medições; observações). - Amostra B: (dados objetivos). Desempenho dos controles: (registrar). [Comentário: sem interpretação; referencie anexos] DISCUSSÃO Os resultados da Amostra A atendem ao critério ______ do método ______, pois ______. Considerou-se a possibilidade de ______; entretanto ______ (controle/limite). Limitações: ______. [Comentário: explicite a cadeia de raciocínio e alternativas] CONCLUSÃO / RESPOSTAS AOS QUESITOS Q1) Resposta: ______. Fundamentação: (referir resultados/anexos). Limitações: ______. Q2) Resposta: ______. Fundamentação: ______. Limitações: ______. [Comentário: responda objetivamente; sem dados novos] ANEXOS Anexo I: Registro fotográfico (itens A e B). Anexo II: Relatórios instrumentais/curvas/prints. Anexo III: Tabelas completas e cálculos. [Comentário: anexos numerados e referenciados no texto]Exercícios de reescrita para eliminar ambiguidades
Exercício 1 — Trocar termos vagos por parâmetros verificáveis
Frase ambígua: “O material estava bem conservado.”
Tarefa: reescreva indicando critérios observáveis (integridade, umidade, odor, temperatura, acondicionamento, sinais de violação).
Exemplo de reescrita: “O invólucro apresentava lacre íntegro, sem sinais visíveis de violação; o conteúdo encontrava-se seco ao tato, sem vazamentos, acondicionado em recipiente rígido, à temperatura ambiente (___ °C).”
Exercício 2 — Separar resultado de interpretação
Frase inadequada (mistura): “Foi encontrada substância ilícita na amostra.”
Tarefa: escreva (a) resultado observável e (b) interpretação com critério.
Exemplo: (a) “A amostra apresentou resposta acima do limiar T no ensaio X e espectro com picos em... (Anexo II).” (b) “Os dados atendem ao critério C do método M para identificação de ______, nas condições descritas.”
Exercício 3 — Qualificar “compatível”
Frase ambígua: “As marcas são compatíveis com a ferramenta.”
Tarefa: reescreva indicando qual nível de correspondência (classe/individual), quais características coincidem e qual limitação impede individualização (se for o caso).
Exemplo: “As marcas apresentam características de classe compatíveis com ferramenta do tipo ______ (morfologia e orientação das estrias coincidentes), conforme critério ______. Não foi possível individualizar uma ferramenta específica por ausência de padrão de comparação adequado e por limitações de preservação do vestígio.”
Exercício 4 — “Não foi possível concluir” vs. “insuficiência”
Frase problemática: “O exame foi inconclusivo.”
Tarefa: reescreva em duas versões: (a) limitação do método/condição; (b) insuficiência de material/dados.
Exemplos: (a) “Não foi possível concluir quanto a ______, pois o método ______ não distingue ______ abaixo de ______, e o resultado obtido situou-se abaixo do limite de detecção.” (b) “O exame restou inconclusivo por insuficiência de material, uma vez que a massa disponível (___ g) não atende ao mínimo requerido para replicatas e confirmação pelo procedimento ______.”
Exercício 5 — Eliminar inferências indevidas (autoria/intenção)
Frase inadequada: “O suspeito manipulou o objeto.”
Tarefa: reescreva limitando-se ao que o exame sustenta e indicando condicionantes.
Exemplo: “Foram detectados vestígios do tipo ______ no item ______, conforme método ______ e critérios ______. O exame não permite inferir, por si só, autoria ou momento de deposição do vestígio, os quais dependem de correlação com outros elementos.”