Irrigação na Agricultura Moderna: Manejo da Água com Eficiência

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Princípios de demanda hídrica das plantas

Evapotranspiração (ET): o “motor” do consumo de água

A água sai do sistema solo-planta-atmosfera principalmente por dois processos: evaporação (perda direta do solo) e transpiração (perda pelas folhas). A soma é a evapotranspiração (ET), que representa a demanda diária de água.

Na prática, a necessidade de irrigação aumenta quando há: dias quentes, baixa umidade do ar, vento, alta radiação solar, plantas com grande área foliar e solo exposto. Diminui quando: clima ameno, nublado, úmido, com pouco vento e quando há cobertura do solo (palhada/mulch).

Estádios críticos: quando faltar água custa mais caro

Nem todo período do ciclo tem a mesma sensibilidade. Em geral, os estádios críticos são aqueles em que a planta define número de flores/frutos, enchimento de grãos ou crescimento rápido. Exemplos típicos (ajuste conforme a cultura):

  • Germinação e emergência: falta de umidade reduz estande e uniformidade.
  • Florescimento e pegamento: estresse hídrico causa abortamento floral e queda de frutos.
  • Enchimento (grãos/frutos/tubérculos): reduz peso, calibre e qualidade.

Estresse hídrico: sinais e impactos

Estresse hídrico ocorre quando a planta não consegue repor a água perdida pela ET. Efeitos comuns: fechamento de estômatos, menor fotossíntese, crescimento reduzido e maior sensibilidade a calor e pragas.

Sinais práticos no campo (variam por espécie): murcha ao meio-dia que não recupera no fim da tarde, folhas opacas/acinzentadas, enrolamento, queda de flores/frutos, frutos pequenos, rachaduras por alternância “seca–molha”.

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Como a água afeta produtividade e qualidade

  • Produtividade: água adequada mantém crescimento e enchimento; déficits em fases críticas reduzem número e tamanho de órgãos colhidos.
  • Qualidade: excesso pode diluir sólidos solúveis (açúcares), favorecer rachaduras e reduzir conservação pós-colheita; déficit pode aumentar sólidos em algumas frutas, mas com risco de queda de calibre e produtividade.
  • Uniformidade: irrigação irregular gera “lotes” diferentes na mesma área (tamanho, maturação, cor), complicando colheita e comercialização.

Comparação de sistemas de irrigação e critérios de escolha

A escolha do sistema deve equilibrar eficiência, custo, topografia, cultura, disponibilidade hídrica e manutenção. Abaixo, uma comparação prática.

SistemaEficiência típicaPontos fortesLimitaçõesIndicações comuns
GotejamentoAltaEconomia de água; molha só a faixa; permite fertirrigação precisa; menos folha molhadaMaior cuidado com filtragem/entupimento; custo inicial; exige manejoHortaliças, frutíferas, estufas, áreas com pouca água
MicroaspersãoMédia-altaBoa para frutíferas; molha área maior que gotejo; pode ajudar no microclimaMais evaporação/vento; pode molhar folhagem; entupimento moderadoPomares, viveiros, solos arenosos (ajustando lâmina)
Aspersão convencionalMédiaVersátil; custo intermediário; cobre áreas maioresSensível a vento; molha folhas (doenças); maior evaporaçãoPastagens, grãos, hortaliças em campo aberto
Pivô centralMédia-altaAlta capacidade; automação; uniformidade quando bem reguladoAlto investimento; demanda área e topografia adequadas; manutenção mecânicaGrãos, cana, pastagens, grandes áreas
Rega manual (mangueira/regador)Baixa a variávelBaixo investimento; flexível em pequenas áreasAlta mão de obra; baixa uniformidade; difícil controlar lâminaHortas pequenas, viveiros pequenos, irrigação de emergência

Critérios de escolha (checklist rápido)

  • Disponibilidade de água: se é limitada, priorize gotejamento/microaspersão e cobertura do solo.
  • Qualidade da água: água com sólidos/algas exige boa filtragem; água salina pede manejo para evitar salinização.
  • Topografia: declives pedem setorização, reguladores de pressão e atenção à uniformidade; pivô exige terreno compatível.
  • Cultura e espaçamento: fileiras e frutíferas favorecem gotejo/micro; culturas de cobertura total podem usar aspersão/pivô.
  • Energia e pressão: gotejo trabalha com pressões menores (em geral), pivô e aspersão podem demandar mais energia.
  • Manutenção e mão de obra: sistemas pressurizados exigem rotina de filtros, inspeções e reparos.

Dimensionamento conceitual e manejo: como transformar necessidade em irrigação

Conceitos-chave: lâmina, frequência, tempo e uniformidade

  • Lâmina (mm): “altura” de água aplicada. Regra prática: 1 mm = 1 litro por m².
  • Frequência: quantas vezes irrigar (diária, a cada 2 dias etc.). Depende do solo, clima, fase da cultura e sistema.
  • Tempo de irrigação: quanto tempo o sistema deve operar para aplicar a lâmina desejada.
  • Uniformidade: quão parecido é o volume aplicado em toda a área. Baixa uniformidade obriga a “compensar” com mais água, aumentando perdas e problemas.

Passo a passo prático: estimar lâmina e tempo (método operacional)

Este método é útil quando você tem uma meta diária/semanal baseada em clima e observação de campo, e quer converter em tempo de irrigação.

1) Defina a lâmina alvo do turno

Use uma referência simples de demanda (ex.: dias quentes exigem mais) e ajuste por fase. Como ponto de partida operacional:

  • Ciclo curto (hortaliças): lâminas menores e mais frequentes (ex.: 3–8 mm/dia em períodos quentes, ajustando por cobertura e vento).
  • Frutíferas: lâminas por setor com base na área molhada e no desenvolvimento do dossel (pode ser diária no gotejo, ou em dias alternados conforme solo).

Importante: se chover, desconte a chuva efetiva (a parte que realmente infiltra e fica disponível). Chuva fraca pode evaporar rápido em solo exposto.

2) Meça ou obtenha a vazão do sistema

  • Gotejamento/micro: verifique a vazão nominal do emissor (ex.: 2 L/h) e quantos emissores existem por planta/metro.
  • Aspersão/pivô: use dados do projeto ou meça com recipientes (teste de latinhas) para estimar mm/h.

3) Converta lâmina em tempo

Se você sabe a taxa de aplicação em mm/h (aspersão/pivô ou medida por latinhas):

Tempo (h) = Lâmina desejada (mm) ÷ Taxa de aplicação (mm/h)

Se você trabalha por planta (gotejamento em frutíferas) e quer aplicar um volume por planta:

Tempo (h) = Volume por planta (L) ÷ Vazão total por planta (L/h)

Exemplo: 2 gotejadores de 4 L/h por planta → vazão total 8 L/h. Se a meta é 16 L/planta no dia: tempo = 16 ÷ 8 = 2 h.

4) Ajuste a frequência pelo solo e pelo risco de perdas

  • Solo arenoso: menor armazenamento → irrigar mais vezes com lâminas menores para reduzir percolação profunda.
  • Solo argiloso: maior armazenamento → pode permitir intervalos maiores, evitando encharcamento superficial.
  • Clima muito quente/ventoso: aumente frequência ou antecipe horários para reduzir estresse.

5) Verifique no campo e corrija

O manejo “fecha” com observação: umidade na zona radicular, aspecto das plantas, uniformidade e presença de escorrimento/encharcamento.

Uniformidade e testes simples de campo

Teste de latinhas/copo medidor (aspersão e pivô)

Objetivo: verificar se a água está sendo distribuída de forma uniforme e estimar a taxa de aplicação (mm/h).

Passo a passo

  • Separe 10 a 20 recipientes iguais (latinhas, copos retos) e uma régua.
  • Distribua-os na área irrigada (em linha e entre linhas; no pivô, em um raio representativo).
  • Ligue o sistema por um tempo conhecido (ex.: 30 minutos).
  • Meça a altura de água em cada recipiente (mm).
  • Calcule a média e observe a variação: recipientes muito abaixo da média indicam falhas, bicos entupidos, pressão inadequada ou vento.

Taxa de aplicação: se a média foi 5 mm em 30 min, então é 10 mm/h.

Inspeção de emissores (gotejamento e micro)

Passo a passo

  • Com o sistema ligado, caminhe pelas linhas e observe: gotejadores sem vazão, vazão muito baixa, jatos irregulares, microaspersores travados.
  • Compare pontos do início e do fim da linha: diferenças grandes podem indicar perda de pressão, vazamentos ou dimensionamento/setorização inadequados.
  • Abra o final de linha (quando houver) para ver se sai sujeira; isso ajuda a identificar necessidade de lavagem.

Detecção de vazamentos e perdas

  • Vazamento visível: poças, solo sempre encharcado em um ponto, vegetação mais verde em faixa estreita.
  • Queda de pressão: aspersores “curtos”, microaspersores com raio menor, gotejo fraco no final.
  • Rotina: inspeção rápida semanal e inspeção completa a cada mudança de setor/cultura.

Fertirrigação: quando usar e como fazer com segurança

Quando a fertirrigação faz sentido

  • Sistemas localizados (gotejo/micro) com boa filtragem e controle.
  • Necessidade de parcelar nutrientes (ex.: nitrogênio e potássio) para acompanhar crescimento e reduzir perdas.
  • Culturas de alto valor e manejo intensivo (hortaliças, frutíferas, estufas).

Regras de segurança e operação

  • Use injetor adequado (venturi, bomba dosadora) e válvula de retenção para evitar retorno de solução ao manancial.
  • Nunca misture produtos sem checar compatibilidade; faça teste de jarra (pequena escala) antes.
  • Ordem operacional: (1) irrigue com água limpa para pressurizar e molhar a linha, (2) injete fertilizante pelo tempo calculado, (3) finalize com água limpa para “lavar” as linhas.
  • EPIs: manuseie fertilizantes com luvas/óculos conforme rótulo e evite inalação de poeiras.

Compatibilidades e prevenção de entupimento

  • Filtragem é obrigatória: tela/disco/areia conforme a fonte de água e o emissor.
  • Risco de precipitação: combinações com cálcio, fosfatos e sulfatos podem formar sólidos e entupir. Evite misturas incompatíveis e controle pH quando recomendado tecnicamente.
  • Matéria orgânica/algas: podem formar biofilme; mantenha reservatórios limpos e faça manutenção de filtros.
  • Lavagem de linhas: programe descargas periódicas nas extremidades.

Manejo para evitar salinização e doenças favorecidas por umidade

Salinização: como reduzir o risco

  • Evite “pouca água sempre” em água salina: pode concentrar sais na zona radicular. Planeje, quando necessário, uma lâmina extra de lixiviação (aplicar água suficiente para empurrar sais abaixo das raízes), desde que haja drenagem.
  • Melhore drenagem: áreas com encharcamento acumulam sais na superfície ao secar.
  • Monitore: observe crostas brancas, queda de vigor e queima de bordas; se possível, acompanhe condutividade elétrica da água e do solo.
  • Gotejamento: tende a concentrar sais na borda do bulbo molhado; manejo de lâminas e eventuais irrigações mais longas ajudam a deslocar sais para fora da zona de maior raiz.

Doenças e umidade: ajustes de manejo

  • Evite molhar a folhagem quando a cultura é sensível: prefira gotejo ou micro bem direcionado.
  • Horário: em aspersão, priorize manhã cedo para permitir secagem rápida; evite irrigar no fim da tarde/noite em períodos de alta pressão de doenças.
  • Excesso de lâmina: encharcamento favorece patógenos de solo e reduz oxigenação radicular. Ajuste frequência e tempo.
  • Ventilação e espaçamento (quando aplicável): reduzem período de molhamento e umidade relativa no dossel.

Exemplos de calendários de irrigação (com ajustes por clima)

Exemplo 1: cultura de ciclo curto (alface, 45–60 dias) em gotejamento

Premissas operacionais: solo de textura média, canteiros com cobertura parcial, clima variando entre ameno e quente. Ajuste a lâmina conforme a resposta das plantas e o clima.

FaseDuração típicaObjetivoManejo sugeridoAjustes por clima
Estabelecimento1ª semanaUniformidade de pegamento e raiz ativaIrrigações curtas e frequentes (1–3 vezes/dia), evitando encharcarEm dias quentes/ventosos, aumente frequência; em dias frios/nublados, reduza
Crescimento vegetativo2ª–4ª semanaManter crescimento contínuo1–2 irrigações/dia; lâminas moderadas, mantendo umidade estávelSe houver palhada/mulch, pode reduzir lâmina; sem cobertura, aumente
Formação de cabeça/enchimentoúltimas 2 semanasEvitar estresse (amargor, pendoamento, perda de peso)Manter regularidade; evitar alternância seca–molhaEm calor, irrigue mais cedo e, se necessário, uma segunda aplicação leve

Dica prática de controle: se o solo seca muito rápido entre irrigações e a planta perde turgor, aumente a frequência antes de aumentar muito a lâmina (especialmente em solo arenoso).

Exemplo 2: frutífera (citros ou manga) em microaspersão/gotejamento

Premissas operacionais: pomar em produção, irrigação setorizada, foco em estabilidade hídrica para pegamento e enchimento. Em frutíferas, o manejo muda com a estação e com a carga de frutos.

Período/faseObjetivoManejo sugeridoAjustes por clima
Pré-floradaPreparar planta sem estimular excesso vegetativoIrrigar para evitar estresse severo; manter umidade moderadaEm ondas de calor, evitar déficit prolongado; em clima ameno, intervalos maiores
Florada e pegamentoReduzir queda de flores/frutinhosAlta regularidade (turnos menores); evitar variações bruscasVento e baixa umidade aumentam demanda: encurte intervalos
Enchimento de frutosCalibre e qualidadeAumentar lâmina total do período; manter uniformidade entre setoresEm calor, aumentar tempo total; em períodos chuvosos, reduzir e evitar saturação
Pré-colheitaEquilibrar qualidade e rachadurasEvitar excesso; manter estável para não alternar seca–molhaSe chover após período seco, reduza irrigação para diminuir risco de rachadura

Como ajustar rapidamente por clima (regra operacional): em semanas mais quentes/ventosas, aumente o tempo total semanal (ou a frequência) e reavalie uniformidade; em semanas frias/nubladas, reduza para evitar solo constantemente úmido e doenças.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir o manejo de irrigação para reduzir perdas por percolação profunda em um solo arenoso, qual ajuste é mais indicado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Solos arenosos têm menor capacidade de armazenamento. Para evitar que a água desça além das raízes (percolação profunda), recomenda-se irrigar mais vezes com lâminas menores.

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