Ao investir com exposição internacional, você passa a acessar classes de ativos que podem reagir de forma diferente entre si ao longo do tempo. A ideia aqui é entender como cada classe tende a gerar retorno, quais são os riscos essenciais e em que cenários costuma se comportar melhor ou pior, para então escolher o papel de cada uma na carteira.
1) Ações globais (equities)
Como geram retorno
- Valorização do preço: o mercado reprecifica a empresa conforme expectativas de lucro, crescimento e risco.
- Dividendos: parte do lucro distribuída ao acionista (não é garantida).
Exemplo prático: se você compra uma ação a 100 e ela vai a 115, você teve 15% de retorno de preço. Se ainda recebeu 2 em dividendos no período, o retorno total aproximado foi 17% (antes de impostos e custos).
Principais riscos
- Risco de mercado: quedas amplas por recessão, choque de confiança, eventos geopolíticos, mudanças de regime de juros.
- Risco de valuation: pagar caro demais (múltiplos altos) aumenta a chance de retorno futuro menor.
- Risco setorial/empresa: tecnologia, bancos, energia etc. podem ter ciclos próprios; empresas podem perder competitividade.
- Risco de liquidez: em ações grandes costuma ser baixo; em small caps pode aumentar spreads e dificultar saída em estresse.
Quando tende a ir melhor ou pior
- Tende a ir melhor: crescimento econômico, lucros em alta, inflação sob controle, juros reais estáveis/caindo, apetite a risco.
- Tende a ir pior: recessão, lucros caindo, choques de incerteza, aperto monetário forte (juros subindo rápido), crises de crédito.
Passo a passo prático (como avaliar o papel das ações globais)
- Defina a função: crescimento de longo prazo? diversificação setorial? exposição a inovação?
- Escolha o “tipo” de risco: amplo (índice global) vs. fatores (valor, qualidade, baixa volatilidade) vs. setores.
- Estabeleça tolerância a quedas: simule mentalmente quedas de 30% a 50% em crises; se isso inviabiliza o plano, reduza peso.
- Combine com amortecedores: renda fixa de qualidade/caixa para reduzir necessidade de vender ações em baixa.
2) Renda fixa internacional (bonds)
Renda fixa é um empréstimo: você empresta para um emissor e recebe juros e, no vencimento, o principal (salvo default). No exterior, você encontra títulos soberanos (governos) e corporativos (empresas), com diferentes prazos e qualidades de crédito.
Como gera retorno
- Juros (cupons): pagamentos periódicos (ou juros embutidos em títulos sem cupom).
- Variação de preço: quando as taxas de juros do mercado mudam, o preço do título se ajusta.
- Reinvestimento: cupons recebidos podem ser reinvestidos; a taxa disponível no futuro afeta o retorno final.
Riscos essenciais
- Risco de taxa de juros: se as taxas sobem, preços dos títulos caem (principalmente os de prazo longo).
- Risco de crédito: chance de o emissor não pagar (default) ou ter rebaixamento de rating, derrubando o preço.
- Risco de liquidez: alguns bonds negociam pouco; em estresse, spreads aumentam e a venda pode ser cara.
- Risco de reinvestimento: se os cupons vencem e as taxas caem, você reinveste a uma taxa menor, reduzindo retorno.
- Risco de inflação (real): mesmo recebendo juros, o poder de compra pode cair se a inflação for maior que o esperado (a depender do tipo de título).
Diferença: risco de emissor vs. risco soberano
- Risco de emissor: é o risco específico de quem tomou o empréstimo. Em um bond corporativo, depende do caixa, endividamento, setor e governança da empresa. Em um bond bancário, depende também de regulação e qualidade dos ativos.
- Risco soberano: é o risco do governo do país emissor (capacidade e disposição de pagar). Inclui risco fiscal, político e, em alguns países, risco de controles de capital ou reestruturação da dívida.
Importante: um emissor corporativo pode ter risco diferente do soberano do seu país, mas em crises profundas o risco soberano pode contaminar o crédito local (via recessão, impostos, sistema bancário e acesso a moeda forte).
Duration e qualidade de crédito: como influenciam a volatilidade
Duration é uma medida prática de sensibilidade do preço do título a mudanças nas taxas de juros. Regra de bolso: quanto maior a duration, maior a oscilação do preço para uma mesma variação de juros.
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- Duration curta: tende a oscilar menos com juros; costuma ser mais “estável”, mas pode render menos.
- Duration longa: tende a oscilar mais; pode ganhar muito quando juros caem, mas perde mais quando juros sobem.
Qualidade de crédito (ex.: grau de investimento vs. high yield) influencia a volatilidade porque o mercado reprecifica o risco de default e o prêmio exigido (spread de crédito). Em geral:
- Alta qualidade: menor risco de default; tende a reagir mais a juros do que a crédito.
- Baixa qualidade (high yield): maior risco de default; tende a se comportar mais como “quase ações” em crises (spreads abrem e preços caem).
Quando tende a ir melhor ou pior
- Títulos soberanos de alta qualidade e duration maior: tendem a ir melhor em desaceleração/recessão e queda de juros; tendem a ir pior em ciclos de alta de juros e inflação persistente.
- Crédito corporativo (investment grade): tende a ir bem em crescimento moderado e estabilidade; tende a sofrer quando spreads abrem (medo de default) e em aperto financeiro.
- High yield: tende a ir melhor quando a economia está aquecida e o risco percebido cai; tende a ir pior em recessão e crises de liquidez.
Passo a passo prático (como escolher o “tipo” de renda fixa internacional)
- Defina a função: proteção em crise? renda/juros? reduzir volatilidade?
- Escolha o eixo principal do risco: quer mais risco de juros (duration) ou mais risco de crédito (spreads)?
- Determine a duration-alvo: curta para estabilidade; intermediária para equilíbrio; longa para maior sensibilidade a cortes de juros.
- Determine a qualidade de crédito: alta qualidade para “colchão”; crédito mais arriscado para buscar prêmio, aceitando quedas em estresse.
- Cheque liquidez e diversificação: prefira exposição diversificada quando não domina análise de crédito individual.
3) REITs e imóveis listados (real estate securities)
REITs (e veículos similares) são empresas/fundos listados que possuem e operam imóveis (shoppings, galpões logísticos, data centers, residenciais etc.) e distribuem parte relevante do resultado. Apesar de estarem ligados ao mercado imobiliário, negociam em bolsa e podem oscilar como ações.
Como geram retorno
- Renda: distribuição de resultados (aluguel líquido, operações, financiamentos).
- Valorização: aumento do valor dos imóveis e/ou melhora de ocupação e aluguel; reprecificação do mercado.
Principais riscos
- Risco de taxa de juros: imóveis e REITs costumam ser sensíveis a juros (custo de financiamento e taxa de desconto).
- Risco de mercado: por serem listados, podem cair junto com bolsas em choques de risco.
- Risco setorial: escritórios, varejo, logística, saúde, data centers têm dinâmicas diferentes (vacância, demanda, regulação).
- Risco de alavancagem: muitos veículos usam dívida; em juros altos, o refinanciamento pode pressionar resultados.
- Risco de liquidez: em geral bom em veículos grandes; menor em nichos/pequenos.
Quando tende a ir melhor ou pior
- Tende a ir melhor: crescimento com inflação moderada, ocupação forte, juros estáveis/caindo, crédito disponível.
- Tende a ir pior: alta rápida de juros, recessão com vacância, estresse de crédito/refinanciamento, mudanças estruturais (ex.: queda de demanda por um tipo de imóvel).
Passo a passo prático (como usar REITs/imóveis listados)
- Defina se a meta é renda, diversificação ou ambos.
- Evite concentração em um único segmento (ex.: só escritórios) se você não acompanha fundamentos.
- Observe sensibilidade a juros e alavancagem: maior dívida tende a aumentar volatilidade.
- Planeje para oscilações de bolsa: mesmo “imobiliário” pode cair forte no curto prazo.
4) Commodities via veículos financeiros
Commodities (petróleo, metais, grãos etc.) raramente são compradas fisicamente por investidores. A exposição costuma ocorrer via veículos financeiros que replicam preços à vista ou via contratos futuros (direta ou indiretamente).
Como geram retorno
- Variação de preço: commodities não pagam juros nem dividendos; o retorno vem principalmente do movimento de preços.
- Componentes de rolagem (quando há futuros): dependendo da estrutura de preços futuros, a rolagem pode ajudar ou prejudicar o retorno (efeito de contango/backwardation).
Principais riscos
- Risco de mercado: alta volatilidade; preços reagem a oferta/demanda, clima, geopolítica, estoques, OPEP, safras etc.
- Risco de “carrego/rolagem”: em alguns períodos, manter exposição via futuros pode gerar perdas mesmo com preço estável.
- Risco de concentração: uma commodity específica pode ter comportamento muito diferente do “cesto”.
- Risco de liquidez: em veículos grandes costuma ser bom; em nichos pode piorar em estresse.
Quando tende a ir melhor ou pior
- Tende a ir melhor: choques de oferta, inflação de custos, ciclos de investimento insuficiente em produção, demanda forte por insumos.
- Tende a ir pior: desaceleração global, queda de demanda industrial, normalização de oferta, períodos longos de contango desfavorável.
Passo a passo prático (como decidir sobre commodities)
- Defina a função: proteção contra choques de inflação/oferta? diversificação tática?
- Escolha entre cesto amplo vs. commodity específica: cesto reduz risco idiossincrático.
- Determine tamanho pequeno e disciplinado: por volatilidade, costuma ser uma fatia menor da carteira.
- Entenda o veículo: se usa futuros, considere o risco de rolagem como parte do retorno esperado.
5) Caixa e Treasuries (reserva e “munição”)
Caixa e títulos soberanos de curtíssimo prazo (como Treasuries de curto prazo) são usados como reserva: reduzir volatilidade, manter liquidez e permitir rebalancear em momentos de queda de ativos de risco.
Como geram retorno
- Juros de curto prazo: remuneração tende a acompanhar a taxa básica do país emissor (com variações conforme o instrumento).
- Baixa variação de preço: por serem curtos, a sensibilidade a juros é menor.
Principais riscos
- Risco de reinvestimento: se as taxas caírem, o rendimento futuro do caixa cai rapidamente.
- Risco de inflação: pode perder poder de compra em períodos de inflação alta.
- Risco de oportunidade: em bull markets, tende a render menos do que ativos de risco.
- Risco soberano (quando aplicável): depende do emissor; em soberanos de alta qualidade, costuma ser baixo, mas não é “zero”.
Quando tende a ir melhor ou pior
- Tende a ir melhor: períodos de estresse (por preservar capital e liquidez), e quando juros de curto prazo estão altos.
- Tende a ir pior: ciclos longos de alta de ações/ativos de risco e quando juros reais são baixos/negativos.
Passo a passo prático (como dimensionar caixa/curto prazo)
- Defina o uso: reserva de emergência (fora da carteira de risco) e/ou “munição” para rebalanceamento.
- Estime necessidades de liquidez: aportes, despesas previstas, tolerância a vender ativos em baixa.
- Escolha prazo curto se o objetivo é estabilidade e disponibilidade.
- Rebalanceie com regra simples: quando ativos de risco caem e o peso fica abaixo do alvo, usar parte do caixa para recompor.
Tabela-guia: risco x função na carteira
| Classe de ativo | Como tende a gerar retorno | Riscos dominantes | Quando tende a ir melhor | Quando tende a ir pior | Função típica na carteira |
|---|---|---|---|---|---|
| Ações globais | Preço + dividendos | Mercado, valuation, setorial/empresa, liquidez (em nichos) | Crescimento, lucros em alta, juros estáveis/caindo | Recessão, choque de risco, aperto monetário forte | Crescimento de longo prazo; diversificação setorial global |
| Renda fixa soberana (alta qualidade) | Juros + preço (sensível a taxas) | Taxa de juros (duration), reinvestimento; soberano (baixo em alta qualidade) | Queda de juros, desaceleração, busca por segurança | Alta de juros e inflação persistente | Amortecedor de volatilidade; proteção em cenários de risco |
| Crédito corporativo (investment grade) | Juros + spread de crédito | Crédito, liquidez, taxa de juros | Crescimento moderado, spreads estáveis/fechando | Abertura de spreads, estresse financeiro | Renda com risco moderado; diversificação em relação a ações |
| High yield | Juros altos + spread (mais “risco”) | Crédito (default), liquidez, mercado | Economia aquecida, spreads caindo | Recessão, crise de liquidez, defaults | Busca de prêmio de risco; parcela tática/limitada |
| REITs / imóveis listados | Distribuições + preço | Taxa de juros, mercado, alavancagem, setorial | Ocupação forte, crédito disponível, juros caindo | Alta rápida de juros, vacância, refinanciamento difícil | Renda e diversificação; exposição a imóveis com liquidez |
| Commodities (via veículos financeiros) | Preço (e rolagem, se via futuros) | Alta volatilidade, rolagem, concentração | Choques de oferta, inflação de custos | Desaceleração global, contango prolongado | Proteção parcial contra choques; diversificação tática |
| Caixa / Treasuries curtos | Juros de curto prazo | Reinvestimento, inflação, oportunidade | Estresse de mercado; juros curtos altos | Bull markets longos; juros reais baixos | Reserva, liquidez, “munição” para rebalancear |