Investimentos no Exterior para Iniciantes: classes de ativos globais e seus riscos essenciais

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Ao investir com exposição internacional, você passa a acessar classes de ativos que podem reagir de forma diferente entre si ao longo do tempo. A ideia aqui é entender como cada classe tende a gerar retorno, quais são os riscos essenciais e em que cenários costuma se comportar melhor ou pior, para então escolher o papel de cada uma na carteira.

1) Ações globais (equities)

Como geram retorno

  • Valorização do preço: o mercado reprecifica a empresa conforme expectativas de lucro, crescimento e risco.
  • Dividendos: parte do lucro distribuída ao acionista (não é garantida).

Exemplo prático: se você compra uma ação a 100 e ela vai a 115, você teve 15% de retorno de preço. Se ainda recebeu 2 em dividendos no período, o retorno total aproximado foi 17% (antes de impostos e custos).

Principais riscos

  • Risco de mercado: quedas amplas por recessão, choque de confiança, eventos geopolíticos, mudanças de regime de juros.
  • Risco de valuation: pagar caro demais (múltiplos altos) aumenta a chance de retorno futuro menor.
  • Risco setorial/empresa: tecnologia, bancos, energia etc. podem ter ciclos próprios; empresas podem perder competitividade.
  • Risco de liquidez: em ações grandes costuma ser baixo; em small caps pode aumentar spreads e dificultar saída em estresse.

Quando tende a ir melhor ou pior

  • Tende a ir melhor: crescimento econômico, lucros em alta, inflação sob controle, juros reais estáveis/caindo, apetite a risco.
  • Tende a ir pior: recessão, lucros caindo, choques de incerteza, aperto monetário forte (juros subindo rápido), crises de crédito.

Passo a passo prático (como avaliar o papel das ações globais)

  1. Defina a função: crescimento de longo prazo? diversificação setorial? exposição a inovação?
  2. Escolha o “tipo” de risco: amplo (índice global) vs. fatores (valor, qualidade, baixa volatilidade) vs. setores.
  3. Estabeleça tolerância a quedas: simule mentalmente quedas de 30% a 50% em crises; se isso inviabiliza o plano, reduza peso.
  4. Combine com amortecedores: renda fixa de qualidade/caixa para reduzir necessidade de vender ações em baixa.

2) Renda fixa internacional (bonds)

Renda fixa é um empréstimo: você empresta para um emissor e recebe juros e, no vencimento, o principal (salvo default). No exterior, você encontra títulos soberanos (governos) e corporativos (empresas), com diferentes prazos e qualidades de crédito.

Como gera retorno

  • Juros (cupons): pagamentos periódicos (ou juros embutidos em títulos sem cupom).
  • Variação de preço: quando as taxas de juros do mercado mudam, o preço do título se ajusta.
  • Reinvestimento: cupons recebidos podem ser reinvestidos; a taxa disponível no futuro afeta o retorno final.

Riscos essenciais

  • Risco de taxa de juros: se as taxas sobem, preços dos títulos caem (principalmente os de prazo longo).
  • Risco de crédito: chance de o emissor não pagar (default) ou ter rebaixamento de rating, derrubando o preço.
  • Risco de liquidez: alguns bonds negociam pouco; em estresse, spreads aumentam e a venda pode ser cara.
  • Risco de reinvestimento: se os cupons vencem e as taxas caem, você reinveste a uma taxa menor, reduzindo retorno.
  • Risco de inflação (real): mesmo recebendo juros, o poder de compra pode cair se a inflação for maior que o esperado (a depender do tipo de título).

Diferença: risco de emissor vs. risco soberano

  • Risco de emissor: é o risco específico de quem tomou o empréstimo. Em um bond corporativo, depende do caixa, endividamento, setor e governança da empresa. Em um bond bancário, depende também de regulação e qualidade dos ativos.
  • Risco soberano: é o risco do governo do país emissor (capacidade e disposição de pagar). Inclui risco fiscal, político e, em alguns países, risco de controles de capital ou reestruturação da dívida.

Importante: um emissor corporativo pode ter risco diferente do soberano do seu país, mas em crises profundas o risco soberano pode contaminar o crédito local (via recessão, impostos, sistema bancário e acesso a moeda forte).

Duration e qualidade de crédito: como influenciam a volatilidade

Duration é uma medida prática de sensibilidade do preço do título a mudanças nas taxas de juros. Regra de bolso: quanto maior a duration, maior a oscilação do preço para uma mesma variação de juros.

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  • Duration curta: tende a oscilar menos com juros; costuma ser mais “estável”, mas pode render menos.
  • Duration longa: tende a oscilar mais; pode ganhar muito quando juros caem, mas perde mais quando juros sobem.

Qualidade de crédito (ex.: grau de investimento vs. high yield) influencia a volatilidade porque o mercado reprecifica o risco de default e o prêmio exigido (spread de crédito). Em geral:

  • Alta qualidade: menor risco de default; tende a reagir mais a juros do que a crédito.
  • Baixa qualidade (high yield): maior risco de default; tende a se comportar mais como “quase ações” em crises (spreads abrem e preços caem).

Quando tende a ir melhor ou pior

  • Títulos soberanos de alta qualidade e duration maior: tendem a ir melhor em desaceleração/recessão e queda de juros; tendem a ir pior em ciclos de alta de juros e inflação persistente.
  • Crédito corporativo (investment grade): tende a ir bem em crescimento moderado e estabilidade; tende a sofrer quando spreads abrem (medo de default) e em aperto financeiro.
  • High yield: tende a ir melhor quando a economia está aquecida e o risco percebido cai; tende a ir pior em recessão e crises de liquidez.

Passo a passo prático (como escolher o “tipo” de renda fixa internacional)

  1. Defina a função: proteção em crise? renda/juros? reduzir volatilidade?
  2. Escolha o eixo principal do risco: quer mais risco de juros (duration) ou mais risco de crédito (spreads)?
  3. Determine a duration-alvo: curta para estabilidade; intermediária para equilíbrio; longa para maior sensibilidade a cortes de juros.
  4. Determine a qualidade de crédito: alta qualidade para “colchão”; crédito mais arriscado para buscar prêmio, aceitando quedas em estresse.
  5. Cheque liquidez e diversificação: prefira exposição diversificada quando não domina análise de crédito individual.

3) REITs e imóveis listados (real estate securities)

REITs (e veículos similares) são empresas/fundos listados que possuem e operam imóveis (shoppings, galpões logísticos, data centers, residenciais etc.) e distribuem parte relevante do resultado. Apesar de estarem ligados ao mercado imobiliário, negociam em bolsa e podem oscilar como ações.

Como geram retorno

  • Renda: distribuição de resultados (aluguel líquido, operações, financiamentos).
  • Valorização: aumento do valor dos imóveis e/ou melhora de ocupação e aluguel; reprecificação do mercado.

Principais riscos

  • Risco de taxa de juros: imóveis e REITs costumam ser sensíveis a juros (custo de financiamento e taxa de desconto).
  • Risco de mercado: por serem listados, podem cair junto com bolsas em choques de risco.
  • Risco setorial: escritórios, varejo, logística, saúde, data centers têm dinâmicas diferentes (vacância, demanda, regulação).
  • Risco de alavancagem: muitos veículos usam dívida; em juros altos, o refinanciamento pode pressionar resultados.
  • Risco de liquidez: em geral bom em veículos grandes; menor em nichos/pequenos.

Quando tende a ir melhor ou pior

  • Tende a ir melhor: crescimento com inflação moderada, ocupação forte, juros estáveis/caindo, crédito disponível.
  • Tende a ir pior: alta rápida de juros, recessão com vacância, estresse de crédito/refinanciamento, mudanças estruturais (ex.: queda de demanda por um tipo de imóvel).

Passo a passo prático (como usar REITs/imóveis listados)

  1. Defina se a meta é renda, diversificação ou ambos.
  2. Evite concentração em um único segmento (ex.: só escritórios) se você não acompanha fundamentos.
  3. Observe sensibilidade a juros e alavancagem: maior dívida tende a aumentar volatilidade.
  4. Planeje para oscilações de bolsa: mesmo “imobiliário” pode cair forte no curto prazo.

4) Commodities via veículos financeiros

Commodities (petróleo, metais, grãos etc.) raramente são compradas fisicamente por investidores. A exposição costuma ocorrer via veículos financeiros que replicam preços à vista ou via contratos futuros (direta ou indiretamente).

Como geram retorno

  • Variação de preço: commodities não pagam juros nem dividendos; o retorno vem principalmente do movimento de preços.
  • Componentes de rolagem (quando há futuros): dependendo da estrutura de preços futuros, a rolagem pode ajudar ou prejudicar o retorno (efeito de contango/backwardation).

Principais riscos

  • Risco de mercado: alta volatilidade; preços reagem a oferta/demanda, clima, geopolítica, estoques, OPEP, safras etc.
  • Risco de “carrego/rolagem”: em alguns períodos, manter exposição via futuros pode gerar perdas mesmo com preço estável.
  • Risco de concentração: uma commodity específica pode ter comportamento muito diferente do “cesto”.
  • Risco de liquidez: em veículos grandes costuma ser bom; em nichos pode piorar em estresse.

Quando tende a ir melhor ou pior

  • Tende a ir melhor: choques de oferta, inflação de custos, ciclos de investimento insuficiente em produção, demanda forte por insumos.
  • Tende a ir pior: desaceleração global, queda de demanda industrial, normalização de oferta, períodos longos de contango desfavorável.

Passo a passo prático (como decidir sobre commodities)

  1. Defina a função: proteção contra choques de inflação/oferta? diversificação tática?
  2. Escolha entre cesto amplo vs. commodity específica: cesto reduz risco idiossincrático.
  3. Determine tamanho pequeno e disciplinado: por volatilidade, costuma ser uma fatia menor da carteira.
  4. Entenda o veículo: se usa futuros, considere o risco de rolagem como parte do retorno esperado.

5) Caixa e Treasuries (reserva e “munição”)

Caixa e títulos soberanos de curtíssimo prazo (como Treasuries de curto prazo) são usados como reserva: reduzir volatilidade, manter liquidez e permitir rebalancear em momentos de queda de ativos de risco.

Como geram retorno

  • Juros de curto prazo: remuneração tende a acompanhar a taxa básica do país emissor (com variações conforme o instrumento).
  • Baixa variação de preço: por serem curtos, a sensibilidade a juros é menor.

Principais riscos

  • Risco de reinvestimento: se as taxas caírem, o rendimento futuro do caixa cai rapidamente.
  • Risco de inflação: pode perder poder de compra em períodos de inflação alta.
  • Risco de oportunidade: em bull markets, tende a render menos do que ativos de risco.
  • Risco soberano (quando aplicável): depende do emissor; em soberanos de alta qualidade, costuma ser baixo, mas não é “zero”.

Quando tende a ir melhor ou pior

  • Tende a ir melhor: períodos de estresse (por preservar capital e liquidez), e quando juros de curto prazo estão altos.
  • Tende a ir pior: ciclos longos de alta de ações/ativos de risco e quando juros reais são baixos/negativos.

Passo a passo prático (como dimensionar caixa/curto prazo)

  1. Defina o uso: reserva de emergência (fora da carteira de risco) e/ou “munição” para rebalanceamento.
  2. Estime necessidades de liquidez: aportes, despesas previstas, tolerância a vender ativos em baixa.
  3. Escolha prazo curto se o objetivo é estabilidade e disponibilidade.
  4. Rebalanceie com regra simples: quando ativos de risco caem e o peso fica abaixo do alvo, usar parte do caixa para recompor.

Tabela-guia: risco x função na carteira

Classe de ativoComo tende a gerar retornoRiscos dominantesQuando tende a ir melhorQuando tende a ir piorFunção típica na carteira
Ações globaisPreço + dividendosMercado, valuation, setorial/empresa, liquidez (em nichos)Crescimento, lucros em alta, juros estáveis/caindoRecessão, choque de risco, aperto monetário forteCrescimento de longo prazo; diversificação setorial global
Renda fixa soberana (alta qualidade)Juros + preço (sensível a taxas)Taxa de juros (duration), reinvestimento; soberano (baixo em alta qualidade)Queda de juros, desaceleração, busca por segurançaAlta de juros e inflação persistenteAmortecedor de volatilidade; proteção em cenários de risco
Crédito corporativo (investment grade)Juros + spread de créditoCrédito, liquidez, taxa de jurosCrescimento moderado, spreads estáveis/fechandoAbertura de spreads, estresse financeiroRenda com risco moderado; diversificação em relação a ações
High yieldJuros altos + spread (mais “risco”)Crédito (default), liquidez, mercadoEconomia aquecida, spreads caindoRecessão, crise de liquidez, defaultsBusca de prêmio de risco; parcela tática/limitada
REITs / imóveis listadosDistribuições + preçoTaxa de juros, mercado, alavancagem, setorialOcupação forte, crédito disponível, juros caindoAlta rápida de juros, vacância, refinanciamento difícilRenda e diversificação; exposição a imóveis com liquidez
Commodities (via veículos financeiros)Preço (e rolagem, se via futuros)Alta volatilidade, rolagem, concentraçãoChoques de oferta, inflação de custosDesaceleração global, contango prolongadoProteção parcial contra choques; diversificação tática
Caixa / Treasuries curtosJuros de curto prazoReinvestimento, inflação, oportunidadeEstresse de mercado; juros curtos altosBull markets longos; juros reais baixosReserva, liquidez, “munição” para rebalancear

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual combinação descreve melhor a relação entre duration e sensibilidade do preço de um título de renda fixa a mudanças nas taxas de juros?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Duration mede a sensibilidade do preço do título às taxas de juros. Em geral, duration longa aumenta a variação de preço quando os juros sobem ou caem, enquanto duration curta tende a trazer mais estabilidade.

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