Investimentos no Exterior para Iniciantes: caminhos de acesso — ativos no exterior, fundos, ETFs, BDRs e fundos locais com mandato internacional

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Existem vários “caminhos de acesso” para investir internacionalmente. Eles diferem em: (1) onde o ativo está listado e custodiado, (2) se você possui o ativo diretamente ou por meio de um veículo (fundo/ETF/BDR), (3) custos e impostos operacionais, (4) liquidez e transparência. A seguir, você compara as opções mais comuns para iniciantes e entende quando cada uma faz sentido.

Mapa rápido dos caminhos (visão comparativa)

CaminhoComo você acessaComplexidadeCustos típicosLiquidezTransparência
Compra direta de ativos no exterior (ações, bonds, REITs, ETFs)Conta em corretora no exterior + câmbioMédia/AltaCorretagem (às vezes zero), spread de câmbio, taxas de bolsa/regulatórias, eventual custo de custódiaAlta (mercados grandes) / varia por ativoAlta (dados do ativo, relatórios, holdings)
ETFs listados no exteriorMesmo acesso de compra direta, mas compra um ETFMédiaTER (taxa do ETF), corretagem, spread de câmbioAlta (ETFs grandes)Alta (carteira, metodologia, rebalanceamentos)
Fundos internacionais (domicílio no exterior)Conta fora ou via estruturas específicasMédia/AltaTaxa de administração, performance (quando houver), custos do fundo, spread de câmbioVaria (D+0 a D+30 ou mais)Média/Alta (depende do fundo e divulgação)
BDRs (recibos negociados no Brasil)Corretora no Brasil, compra na B3Baixa/MédiaCorretagem B3, emolumentos, spread implícito (bid-ask), taxas do programa/estruturaMédia/Alta (depende do BDR)Média (depende do nível e informações disponíveis)
Fundos no Brasil com mandato internacionalCorretora/banco no Brasil, compra cotasBaixaTaxa de administração, performance (quando houver), custos internos, possível taxa de saídaVaria (D+0 a D+30)Média (carta do gestor e relatórios; carteira pode ser defasada)

Leitura do quadro: em geral, quanto mais “direto” (conta fora e compra do ativo), maior controle e transparência do ativo, mas mais etapas operacionais e responsabilidades. Quanto mais “veículo” (fundo/BDR), mais simples o acesso, porém com camadas de custos e riscos de estrutura/gestão.

1) Compra direta de ativos no exterior

Como funciona (conceito)

Você abre conta em uma corretora no exterior (ou em uma corretora local com acesso internacional), faz remessa/câmbio e compra ativos listados lá fora (ações, ETFs, REITs, títulos etc.). O ativo fica custodiado fora do Brasil, em seu nome (ou em estrutura de custódia da corretora, conforme regras locais).

Nível de complexidade

  • Médio a alto: envolve abertura de conta, envio de documentos, remessa internacional, entendimento de horários de mercado, tipos de ordem e, em alguns casos, formulários fiscais do país.
  • Você também precisa organizar controle de preço médio, eventos corporativos e relatórios para fins de acompanhamento e declaração.

Custos típicos

  • Spread de câmbio: diferença entre o câmbio “cheio” e o câmbio efetivo que você paga na remessa. Costuma ser um dos maiores custos recorrentes.
  • Tarifas de remessa: podem existir tarifas fixas por transferência.
  • Corretagem: algumas corretoras cobram por ordem; outras têm corretagem zero em certos mercados.
  • Taxas de bolsa/regulatórias: pequenas cobranças por negociação em alguns mercados.
  • Custódia: pode existir (muitas corretoras isentam).

Liquidez

Em mercados grandes, a liquidez costuma ser alta para ativos populares (blue chips, ETFs grandes). Em ativos menores, pode haver spreads maiores e execução pior.

Transparência

Geralmente alta: você vê o ativo, o ticker, comunicados, relatórios e pode acompanhar a composição (no caso de ETFs) com detalhes.

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Passo a passo prático (exemplo operacional)

  1. Escolha a corretora: verifique custos (corretagem, custódia), acesso a mercados, proteção regulatória, qualidade de relatório e suporte.
  2. Abra a conta: envie documentos e complete cadastros exigidos.
  3. Planeje o câmbio: defina valor e frequência de remessas (ex.: mensal, trimestral) para reduzir custo operacional e evitar remessas muito pequenas.
  4. Envie recursos: faça a remessa e confirme o crédito na conta.
  5. Defina o instrumento: para diversificação ampla, muitos iniciantes começam por ETFs globais; para controle, escolhem ações específicas.
  6. Execute a ordem: use ordens limitadas quando a liquidez for menor para evitar pagar spreads grandes.
  7. Registre e acompanhe: guarde notas/confirmations, controle preço médio e eventos (dividendos, splits).

2) ETFs listados no exterior (comprados diretamente)

Como funciona (conceito)

Você compra um ETF negociado em bolsa no exterior. O ETF é um fundo negociado como ação e segue um índice ou estratégia (ex.: ações globais, tecnologia, small caps, bonds). Ele faz a diversificação “dentro” do próprio instrumento.

Complexidade

  • Média: a parte operacional é igual à compra direta (conta fora + câmbio), mas a seleção tende a ser mais simples do que montar uma carteira de dezenas de ações.

Custos típicos

  • TER (Total Expense Ratio): taxa anual embutida no ETF (não é cobrada como boleto; ela reduz o patrimônio do fundo ao longo do tempo).
  • Corretagem e taxas de negociação (quando aplicáveis).
  • Spread de câmbio na remessa.
  • Bid-ask spread: custo implícito ao comprar/vender; tende a ser baixo em ETFs grandes.

Liquidez

ETFs grandes e amplos costumam ter alta liquidez. ETFs muito específicos podem ter liquidez menor e spreads maiores.

Transparência

Alta: ETFs costumam divulgar holdings, metodologia do índice, regras de rebalanceamento e métricas (setores, países, fatores).

Ponto-chave: tracking error

ETFs buscam replicar um índice, mas podem ter diferença de performance por custos, método de replicação (física vs. sintética), impostos internos e fricções de rebalanceamento. Essa diferença é o tracking error (ou tracking difference, dependendo da métrica).

Passo a passo prático (seleção de ETF)

  1. Defina o objetivo do ETF: amplo (mundo/país), setor, fator, renda fixa etc.
  2. Cheque o índice seguido: entenda o que entra e o que fica de fora.
  3. Compare TER: custos menores ajudam, mas não são o único critério.
  4. Verifique tamanho e liquidez: AUM (patrimônio), volume diário e bid-ask.
  5. Entenda a política de distribuição: alguns ETFs distribuem proventos, outros reinvestem (varia por jurisdição e estrutura).

3) Fundos internacionais (no exterior)

Como funciona (conceito)

Você investe em um fundo domiciliado fora do Brasil. O gestor decide a carteira conforme mandato (ações globais, crédito, multimercado global etc.). Diferente do ETF, o fundo pode ter gestão ativa e regras próprias de resgate.

Complexidade

  • Média a alta: além de conta e câmbio, você precisa entender regras de aplicação/resgate, janelas de cotização e documentos do fundo (prospecto, factsheet).

Custos típicos

  • Taxa de administração: anual.
  • Taxa de performance: quando houver, normalmente atrelada a um benchmark e com regras (high-water mark, hurdle rate).
  • Custos do fundo: auditoria, custódia, transações internas.
  • Spread de câmbio na entrada/saída.

Liquidez

Varia bastante: alguns fundos têm resgate rápido; outros têm prazos longos (especialmente estratégias com ativos menos líquidos). Pode haver gates (limites de resgate) em situações de estresse, dependendo do regulamento.

Transparência

Em geral média a alta, mas depende do fundo: alguns divulgam carteira detalhada; outros divulgam apenas top posições e exposições agregadas com defasagem.

Quando faz sentido

  • Quando você quer delegar decisões (seleção de ativos, rebalanceamento, gestão de risco).
  • Quando busca uma estratégia específica difícil de replicar com ETFs (ex.: crédito estruturado, long/short, event-driven).

4) BDRs (Brazilian Depositary Receipts)

Como funciona (conceito)

BDR é um recibo negociado na B3 que representa um ativo lá fora (geralmente ações e ETFs). Você compra e vende em reais, pela sua corretora no Brasil. A estrutura envolve uma instituição depositária que mantém o ativo no exterior e emite os recibos no Brasil.

Complexidade

  • Baixa a média: operacionalmente é como comprar uma ação na B3. Você não faz remessa nem abre conta fora.

Custos típicos

  • Corretagem e emolumentos da B3 (dependem da corretora e do tipo de operação).
  • Bid-ask spread: pode ser relevante em BDRs menos negociados.
  • Custos da estrutura: podem existir taxas embutidas no programa do BDR (varia por emissor/estrutura), refletindo-se no preço ao longo do tempo.

Liquidez

Varia muito por BDR. Os mais populares tendem a ter boa liquidez; outros podem ter pouca negociação, aumentando spread e dificuldade de execução.

Transparência

  • Média: você acompanha o preço em reais, mas o desempenho depende do ativo lá fora e do câmbio. Nem sempre é intuitivo decompor o retorno.
  • Para BDR de ETF, você precisa olhar também a composição do ETF original e entender como o recibo acompanha esse ativo.

Pontos de atenção: “ter o ativo” vs. “ter o recibo”

  • Risco de estrutura/depositária: existe uma camada adicional (o programa do BDR) entre você e o ativo original.
  • Eventos corporativos e proventos: podem ter tratamento operacional específico (prazos, conversões, repasses), conforme regras do programa.

Passo a passo prático (uso de BDR para começar)

  1. Escolha BDRs líquidos: verifique volume diário e spread.
  2. Entenda o lastro: qual ação/ETF no exterior ele representa e qual a proporção (fator de conversão).
  3. Use ordem limitada: especialmente em BDRs com menor liquidez.
  4. Acompanhe o ativo original: compare a variação do BDR com a do ativo lá fora e com o câmbio para entender o comportamento.

5) Fundos no Brasil com mandato internacional

Como funciona (conceito)

Você compra cotas de um fundo brasileiro que investe no exterior (diretamente em ativos lá fora ou via outros fundos/ETFs). A gestão, a custódia e a operação ficam no Brasil, e o fundo executa a parte internacional.

Complexidade

  • Baixa: você investe como em qualquer fundo local, sem remessa e sem conta fora.
  • O gestor decide alocação, rebalanceamento e instrumentos (ações, ETFs, derivativos para exposição etc.).

Custos típicos

  • Taxa de administração.
  • Taxa de performance (quando houver).
  • Custos internos: transações, fundos investidos (se for fundo de fundos), despesas operacionais.
  • Possível taxa de saída ou regras de carência, dependendo do produto.

Liquidez

Varia por fundo: alguns têm D+0/D+1, outros têm prazos maiores. A liquidez é uma característica do regulamento, não do mercado externo em si.

Transparência

Geralmente média: você recebe relatórios, cartas e lâminas, mas a carteira pode ser divulgada com defasagem e em nível agregado. Em fundos com derivativos, a exposição pode não ser óbvia olhando apenas “posições”.

Quando faz sentido

  • Quando você quer simplicidade operacional e delegar execução internacional.
  • Quando prefere um único produto para exposição global, aceitando custos e regras de resgate.

Ativo direto vs. veículo (ETF/fundo/BDR): diferenças que importam

1) Risco de administrador/gestor e risco de estrutura

  • Ativo direto: você assume risco do emissor do ativo (empresa, governo, etc.) e da corretora/custódia, mas não há “camada” de gestão entre você e o ativo.
  • ETF: adiciona risco operacional do fundo e do provedor, além do método de replicação do índice.
  • Fundo ativo: adiciona risco de decisão do gestor (acertar/errar), além de regras de resgate e eventuais limitações em estresse.
  • BDR: adiciona risco e regras do programa (depositária, conversões, repasses), além da liquidez no mercado local.

2) Tracking error, composição e rebalanceamento

  • ETF: segue regras claras de índice e rebalanceia conforme metodologia. Pode haver tracking error por custos e fricções.
  • Fundo ativo: não tem “tracking” de índice necessariamente; pode divergir bastante do benchmark. A composição muda por decisão do gestor.
  • Ativo direto: não há tracking error de um veículo, mas você mesmo precisa rebalancear se quiser manter alocações-alvo.

3) Custos: explícitos vs. embutidos

  • Explícitos: corretagem, emolumentos, tarifas de remessa.
  • Embutidos: TER de ETF, taxa de administração/performance de fundos, spreads de negociação, custos internos de giro de carteira.

4) Liquidez “do mercado” vs. liquidez “do produto”

  • Ativos e ETFs em bolsa: liquidez depende do mercado e do volume do instrumento; você vende quando quiser durante o pregão.
  • Fundos: liquidez depende do prazo de cotização e pagamento do regulamento (mesmo que os ativos lá fora sejam líquidos).

Casos de uso (quem deve considerar o quê)

Perfil 1: quem busca simplicidade (menos etapas e menos manutenção)

  • Opções típicas: fundos no Brasil com mandato internacional; BDRs líquidos (especialmente BDRs de ETFs amplos, quando disponíveis).
  • Por que: evita remessa e abertura de conta fora; reduz fricção operacional.
  • Trade-off: mais camadas de custo e/ou menor transparência; regras de liquidez do fundo podem limitar saídas rápidas.

Perfil 2: quem busca controle (escolher ativos, timing e rebalanceamento)

  • Opções típicas: compra direta no exterior (ações/ETFs) e montagem de carteira própria.
  • Por que: controle de instrumentos, possibilidade de escolher ETFs específicos, ajustar exposições e executar rebalanceamentos quando quiser.
  • Trade-off: mais responsabilidade operacional (câmbio, registros, acompanhamento) e mais decisões a tomar.

Perfil 3: quem busca diversificação ampla com poucos instrumentos

  • Opções típicas: 1 a 3 ETFs amplos no exterior; alternativamente, um fundo local global bem alinhado ao objetivo.
  • Por que: um ETF amplo pode entregar exposição a centenas/milhares de empresas; com dois ou três instrumentos você cobre regiões e estilos diferentes.
  • Trade-off: aceitar a metodologia do índice (o que entra/sai) e o tracking error; no fundo, aceitar decisões do gestor e custos.

Exemplos práticos de “combinações” para iniciantes (sem depender de muitos produtos)

Exemplo A: simplicidade máxima via Brasil

  • Estrutura: 1 fundo no Brasil com mandato internacional (global) + aportes mensais.
  • O que você monitora: taxa de administração/performance, prazo de resgate, aderência ao mandato (exposição internacional de fato), consistência do processo.

Exemplo B: diversificação ampla via exterior com poucos ETFs

  • Estrutura: 1 ETF amplo de ações globais + 1 ETF de renda fixa global (ou apenas o de ações, se o objetivo for simplificar ainda mais).
  • O que você monitora: TER, índice seguido, tamanho/liquidez do ETF, tracking difference ao longo do tempo.

Exemplo C: controle com “núcleo + satélites”

  • Estrutura: 1 ETF amplo (núcleo) + 2 a 5 ações/ETFs temáticos (satélites) escolhidos por convicção.
  • O que você monitora: peso máximo por satélite, disciplina de rebalanceamento, custos de giro e concentração.

Checklist de decisão (para escolher o caminho)

  • Quero abrir conta fora e fazer câmbio? Se não, priorize BDRs e fundos locais internacionais.
  • Preciso de liquidez intradiária? Prefira ativos/ETFs/BDRs; fundos têm prazos de resgate.
  • Quero delegar decisões? Fundos (locais ou internacionais) tendem a ser mais adequados.
  • Quero transparência de holdings e regras? ETFs costumam oferecer alta transparência; fundos variam.
  • Sou sensível a custos recorrentes? Compare TER (ETFs) vs. taxa de administração/performance (fundos) e não esqueça do spread de câmbio e do bid-ask.
  • Quero evitar risco de gestor? ETFs de índice reduzem risco de decisão ativa, mas não eliminam riscos de mercado e tracking error.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual alternativa descreve melhor a principal diferença prática entre investir em um ETF listado no exterior e investir em um fundo (no Brasil ou no exterior) para obter exposição internacional?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

ETFs são negociados em bolsa, com liquidez ligada ao mercado e transparência geralmente alta. Já fundos têm liquidez definida pelo regulamento (prazos de cotização e pagamento) e podem divulgar informações de carteira de forma menos imediata.

Próximo capitúlo

Investimentos no Exterior para Iniciantes: custos, spreads e fricções que afetam o retorno

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