A investigação criminal aplicada é um processo prático e documentado para esclarecer um fato aparentemente criminoso, identificar autoria e circunstâncias, reunir elementos de materialidade e subsidiar decisões da autoridade policial e do Ministério Público. Para o Agente de Polícia Civil, o foco é transformar uma notícia-crime em informações verificáveis, com diligências priorizadas, registros objetivos e relatórios claros, mantendo rastreabilidade do que foi feito, quando, por quem e com qual resultado.
1) Notícia-crime: como receber e transformar em demanda investigativa
Notícia-crime é qualquer comunicação de fato que possa configurar infração penal (vítima, testemunha, comunicação anônima, órgãos públicos, mídia, flagrante, relatórios de inteligência). O primeiro cuidado é separar narrativa (o que foi contado) de dados verificáveis (o que pode ser checado).
Checklist inicial (o que não pode faltar)
- Tempo: quando ocorreu? há janela provável? há registros (câmeras, logs, bilhetes, GPS)?
- Local: endereço completo, pontos de referência, ambientes internos, rotas de entrada/saída.
- Vítima/objeto: quem/qual bem foi atingido? identificação, contatos, documentos, fotos.
- Descrição do fato: dinâmica, meios empregados, número de envolvidos, armas/veículos.
- Possíveis autores: nomes/apelidos, características, vínculos, conflitos prévios.
- Materialidade: vestígios, documentos, mídias, objetos, transações, lesões.
- Risco e urgência: ameaça atual, possibilidade de fuga, destruição de prova, vulnerabilidade da vítima.
Boas práticas de registro
- Registre literalmente trechos relevantes (“disse que…”) e separe de inferências (“aparenta…”).
- Use marcadores de incerteza: “aproximadamente”, “não soube informar”, “não recorda”.
- Identifique a fonte de cada informação (quem disse, de onde veio o documento, qual câmera).
2) Verificação inicial: triagem, preservação e primeiros atos
Verificação inicial é a fase de checagem rápida para confirmar plausibilidade, preservar elementos perecíveis e orientar linhas investigativas. O objetivo não é “provar tudo”, mas evitar perda de prova e reduzir ruído informacional.
Passo a passo prático
- 1. Segurança e preservação: avaliar risco; se houver local de crime, acionar isolamento e preservar vestígios; evitar contaminação.
- 2. Identificar fontes imediatas: vítima, comunicante, testemunhas próximas, câmeras do entorno, registros de acesso.
- 3. Fixar a linha do tempo: último momento de normalidade, momento do fato, descoberta, comunicação.
- 4. Levantar evidências perecíveis: imagens que sobrescrevem, conversas em aplicativos, geolocalização, recibos, logs.
- 5. Checagens rápidas: endereços, placas, nomes, vínculos, antecedentes (quando permitido e pertinente), compatibilidade de horários.
- 6. Definir prioridade: o que precisa ser feito nas próximas horas para não perder prova ou evitar novo dano.
Exemplo de triagem (modelo de nota objetiva)
Fato comunicado: subtração de celular em via pública. Fonte: vítima (identificada). Local: Rua X, nº Y. Data/hora: 12/01, entre 19h10 e 19h20 (estimado). Dinâmica: 2 indivíduos em motocicleta; garupa anunciou com objeto semelhante a arma. Materialidade inicial: nota fiscal do aparelho; IMEI informado; possível câmera de comércio na esquina. Urgência: alta (imagens podem sobrescrever em 24-72h).3) Definição de linhas investigativas: hipóteses e critérios de escolha
Linha investigativa é uma hipótese operacional que orienta diligências: “quem pode ter feito”, “como”, “por quê” e “com que meios”. Trabalhar com linhas evita investigação dispersa e ajuda a justificar prioridades.
Como formular boas linhas
- Base em fatos: cada linha deve citar quais elementos a sustentam (ex.: “câmera mostra veículo X”).
- Testabilidade: deve ser possível confirmar/refutar com diligências concretas.
- Concorrência: mantenha 2–4 linhas iniciais, evitando “apostar tudo” em uma só.
- Critério de priorização: perecibilidade da prova, risco à vítima, chance de identificação rápida, impacto do crime, recursos disponíveis.
Matriz simples de priorização
Prioridade = (Perecibilidade da prova) + (Risco/urgência) + (Probabilidade de avanço rápido) - (Custo/tempo)4) Coleta e análise de informações: do dado bruto ao elemento útil
Coletar é obter dados; analisar é integrar, comparar e extrair significado. Na prática, o Agente organiza fontes, valida consistência e identifica lacunas que viram novas diligências.
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Fontes comuns (exemplos)
- Pessoas: vítima, testemunhas, suspeitos, informantes, atendentes, porteiros, motoristas.
- Documentos: contratos, recibos, notas fiscais, prontuários (quando cabível), ordens de serviço, registros internos.
- Imagens e mídias: CFTV, bodycam (quando houver), fotos, áudios, redes sociais (com cautela e preservação).
- Registros digitais: logs de acesso, e-mails corporativos, dados de aplicativos (conforme autorização e procedimento).
- Vestígios materiais: objetos, ferramentas, embalagens, impressões, marcas, resíduos.
Técnicas de análise aplicáveis
- Linha do tempo: organizar eventos por horário e fonte (“às 19h12, câmera A; às 19h14, testemunha B”).
- Mapa de vínculos: relações entre envolvidos (família, trabalho, dívidas, conflitos).
- Triangulação: confirmar um dado por pelo menos duas fontes independentes (ex.: depoimento + câmera).
- Consistência interna: comparar versões do mesmo declarante em momentos diferentes, preservando o histórico.
5) Diligências: planejamento, execução e rastreabilidade
Diligência é o ato investigativo concreto para obter informação/prova (ex.: localizar testemunha, coletar imagens, verificar endereço, cumprir mandado, realizar reconhecimento conforme regras). O valor da diligência depende tanto do resultado quanto do registro do caminho percorrido.
Passo a passo para planejar diligências
- 1. Objetivo: o que exatamente se busca? (ex.: “identificar placa do veículo”).
- 2. Fonte: onde isso pode estar? (ex.: “CFTV do mercado X”).
- 3. Método: como obter? (ofício, coleta imediata, preservação, requisição, autorização judicial quando necessária).
- 4. Risco: segurança, reação do suspeito, exposição da vítima, perda de prova.
- 5. Produto: o que será anexado/registrado? (mídia, termo, relatório, fotos, cadeia de custódia quando aplicável).
- 6. Prazo: quando fazer para não perder a janela.
Registro mínimo de diligência (modelo)
Diligência: coleta de imagens CFTV. Local: Estabelecimento X. Data/hora: 13/01, 09h30. Responsáveis: equipe Y. Resultado: obtido arquivo do período 18h50–19h30; verificada presença de motocicleta com características compatíveis; qualidade permite leitura parcial de placa. Observações: sistema sobrescreve em 48h; solicitada preservação do restante do dia.6) Entrevista e oitiva: técnicas para obter informação confiável
Entrevistar é obter relato; ouvir formalmente é registrar com rigor. Em ambos, o objetivo é maximizar precisão, reduzir indução e preservar versões para comparação futura.
Princípios práticos
- Rapport sem promessas: acolher, explicar o procedimento, sem garantir resultado.
- Perguntas abertas primeiro: “Conte do início ao fim”, antes de perguntas fechadas.
- Evitar indução: não sugerir resposta (“ele estava de boné preto, certo?”).
- Detalhamento progressivo: depois do relato livre, explorar pontos: tempo, local, pessoas, ações, falas, objetos.
- Checagem de consistência: pedir para recontar por ordem inversa ou por marcos (“antes de atravessar a rua, o que viu?”).
- Encerramento com lacunas: “O que ficou de fora?” “Há algo que não quer registrar?” (registrar a recusa, se houver).
Roteiro de entrevista (aplicável à vítima/testemunha)
- Identificação: dados, contatos, disponibilidade para reconhecimento.
- Relato livre: sem interrupção, anotando palavras-chave.
- Esclarecimentos: horários, iluminação, distância, duração, número de autores, direção de fuga.
- Descrição: características físicas, roupas, voz, tatuagens, objetos, veículos.
- Contexto: por que estava ali, rotina, possíveis ameaças, conflitos, dívidas, relações.
- Fontes externas: câmeras, pessoas que estavam junto, mensagens, comprovantes.
Preservação de versões
- Registre a primeira versão com data/hora e circunstâncias (ex.: “logo após o fato”, “após conversar com terceiros”).
- Se houver mudança, registre como nova versão, sem apagar a anterior, apontando o que mudou e por quê (segundo o declarante).
- Evite “harmonizar” relatos: divergências podem ser pistas investigativas.
7) Elaboração de relatórios: objetividade, estrutura e utilidade
Relatório é a peça que transforma atos dispersos em narrativa verificável e útil para decisão. Deve permitir que outra pessoa entenda o caso sem “estar na rua” com a equipe.
Estrutura recomendada
- 1. Identificação: procedimento, data, equipe, referência do fato.
- 2. Síntese do fato: o que se apura, com dados essenciais (tempo/local/vítima).
- 3. Diligências realizadas: em ordem cronológica, com resultados.
- 4. Análise: o que os dados indicam, inconsistências, lacunas.
- 5. Linhas investigativas atuais: hipóteses e fundamento.
- 6. Diligências sugeridas/próximos passos: priorizadas e justificadas.
Exemplo de parágrafo analítico (padrão objetivo)
As imagens do CFTV (arquivo 13/01-mercadoX) mostram motocicleta passando às 19h13 no sentido bairro-centro, com dois ocupantes. A testemunha T1 relata fuga no mesmo sentido, estimando 19h10–19h20. Há convergência temporal e direcional. Permanece lacuna quanto à identificação da placa, pois a leitura é parcial (final “27”). Sugere-se busca por câmeras adicionais no quarteirão seguinte para complementar a identificação.8) Casos-síntese: identificar elementos essenciais e propor diligências
Caso-síntese 1 — Furto em repartição
Fatos (curtos): Na segunda-feira, às 07h40, uma servidora encontrou a porta lateral de uma sala administrativa entreaberta. Um notebook patrimonial e um HD externo não estavam no armário. O prédio tem controle de acesso por crachá e câmeras no corredor, mas o setor de TI informou que o sistema grava por 7 dias. Um terceirizado de limpeza trabalhou no domingo à noite.
Tarefa do aluno: identifique tempo, local, autoria (hipóteses), materialidade e motivação provável; proponha diligências prioritárias.
- Tempo: janela provável entre domingo à noite e segunda 07h40; refinar com logs de acesso e última visualização dos bens.
- Local: sala administrativa, porta lateral; verificar pontos cegos e rotas de saída.
- Autoria (hipóteses): acesso interno (crachá), terceirizado, servidor com acesso, intrusão por falha de tranca.
- Materialidade: ausência dos bens, patrimônio/serial, imagens, logs de crachá, possíveis marcas na porta/armário.
- Motivação: subtração para revenda; possível direcionamento (HD externo) sugere conhecimento do que levar.
Diligências prioritárias (com justificativa):
- Coletar e preservar imagens do corredor (perecível: 7 dias).
- Requisitar logs de acesso por crachá no período da janela.
- Identificar e entrevistar terceirizado e responsáveis pela segurança/portaria.
- Levantar número de série do notebook/HD e documentação patrimonial para rastreio.
- Verificar integridade da porta/fechadura e se houve manutenção recente.
Caso-síntese 2 — Estelionato por falso suporte
Fatos (curtos): Uma vítima relata que recebeu ligação de “suporte do banco” às 16h. O interlocutor sabia seu nome completo e os quatro últimos dígitos do cartão. Orientou a instalar um aplicativo e, em seguida, ocorreram duas transferências via aplicativo bancário às 16h18 e 16h21. A vítima percebeu às 17h e bloqueou a conta. Ela salvou prints do número que ligou e do comprovante das transferências.
Tarefa do aluno: identifique elementos essenciais e proponha diligências imediatas.
- Tempo: 16h–17h (janela curta; logs digitais são críticos).
- Local: onde a vítima estava (rede Wi-Fi?); local de instalação do app.
- Autoria (hipóteses): quadrilha de engenharia social; possível uso de acesso remoto; laranja recebedor.
- Materialidade: comprovantes das transferências, prints, registro de chamada, aparelho com app instalado, logs bancários.
- Motivação: obtenção de vantagem econômica.
Diligências prioritárias:
- Orientar preservação do aparelho (não desinstalar app; registrar estado; evitar novas alterações).
- Coletar prints e metadados disponíveis (horários, identificadores de transação).
- Requisitar ao banco informações da transação (conta destinatária, IP/dispositivo, logs) conforme procedimento.
- Identificar titular da conta recebedora e movimentações subsequentes (linha de rastreio do dinheiro).
- Verificar se o número usado é VoIP/recorrente em outros boletins (padrão).
Caso-síntese 3 — Lesão corporal em via pública
Fatos (curtos): Às 22h30, em frente a um bar, uma pessoa foi agredida e sofreu corte no supercílio. Duas testemunhas dizem que houve discussão por “ciúmes”, mas divergem sobre quem iniciou. A vítima foi atendida em unidade de saúde e recebeu pontos. Há câmera do bar voltada para a calçada, e um segurança afirma que separou a briga.
Tarefa do aluno: identifique materialidade e diligências para esclarecer dinâmica e autoria.
- Materialidade: prontuário/atestado, fotos da lesão, imagens do bar, possível objeto usado, vestígios de sangue.
- Autoria/dinâmica: versões conflitantes; necessidade de reconstrução por vídeo e depoimentos.
Diligências prioritárias:
- Coletar e preservar imagens do bar (evitar sobrescrita).
- Ouvir segurança com foco em posição, distância, intervenções e identificação dos envolvidos.
- Obter documentação médica e, se possível, fotos imediatas da lesão.
- Identificar e qualificar testemunhas presentes (funcionários, clientes, acompanhantes).
- Checar se houve ameaças anteriores ou histórico entre envolvidos (motivação).
9) Questões situacionais: escolha de providências e priorização
Q1
Você recebe notícia-crime de roubo de celular ocorrido há 30 minutos. A vítima informa que havia uma câmera de um posto de combustível apontada para o local e que o posto costuma apagar as gravações em 24 horas. Qual providência deve ser priorizada?
- A) Ouvir a vítima novamente para obter mais detalhes antes de qualquer ato.
- B) Ir imediatamente ao posto para preservar e coletar as imagens, registrando a diligência.
- C) Aguardar a vítima apresentar a nota fiscal para então iniciar diligências.
- D) Realizar buscas aleatórias na região para tentar localizar suspeitos.
Q2
Em um caso de furto interno, o suspeito principal é indicado por “comentários” de colegas, sem fatos objetivos. Qual é a melhor conduta investigativa inicial?
- A) Concentrar todas as diligências no suspeito indicado para acelerar o caso.
- B) Formular linhas investigativas concorrentes e buscar dados verificáveis (logs, imagens, acesso), registrando as fontes.
- C) Desconsiderar a informação por ser boato e encerrar a apuração.
- D) Convocar o suspeito e confrontá-lo com acusações para obter confissão.
Q3
Durante entrevista, a testemunha muda a versão após conversar com a vítima. Como registrar corretamente?
- A) Substituir a versão antiga pela nova para evitar contradições no procedimento.
- B) Registrar apenas a versão mais recente, por ser a “correta”.
- C) Registrar a nova versão como complementar, preservando a anterior, anotando circunstâncias e o que mudou.
- D) Desconsiderar o depoimento por perda total de credibilidade.
Q4
Em estelionato digital, a vítima quer “limpar o celular” e desinstalar o aplicativo usado no golpe. Qual orientação é mais adequada para preservar elementos?
- A) Autorizar a desinstalação para reduzir risco de novo prejuízo.
- B) Orientar a não alterar o aparelho antes do registro e coleta de informações, preservando o estado e documentando evidências.
- C) Pedir para formatar o aparelho e depois relatar de memória o que ocorreu.
- D) Solicitar que a vítima publique o número do golpista em redes sociais para alertar terceiros.