Interpretação de Texto e informações implícitas: inferência com base em pistas

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que são informações implícitas (e por que elas aparecem)

Informações implícitas são sentidos que o texto sugere sem declarar de forma direta. Elas surgem quando o autor confia que o leitor vai completar o sentido a partir de pistas linguísticas e de um conhecimento de mundo controlado (o que é comum e necessário para entender a situação, sem inventar fatos).

Inferir não é “imaginar”: é deduzir com base em evidências do próprio texto. Em questões de prova, a inferência correta é aquela que pode ser justificada apontando palavras, estruturas e relações entre ideias.

Pistas que geram inferência (onde o texto “fala sem dizer”)

1) Pressupostos linguísticos (o que já vem embutido na frase)

Algumas construções carregam informações assumidas como verdadeiras. Elas não são o foco da frase, mas ficam “por trás” dela.

  • Verbos factivos (pressupõem o fato): perceber, lamentar, descobrir, notar. Ex.: “Ela lamentou ter perdido o prazo.” Pressupõe: ela perdeu o prazo.
  • “Parar de”, “voltar a”, “continuar a” (pressupõem um estado anterior): “Ele voltou a estudar.” Pressupõe: ele estudava antes e havia parado.
  • Artigos e possessivos (pressupõem existência/identificação): “O relatório chegou.” Pressupõe: há um relatório específico conhecido no contexto.
  • Orações relativas: “Os alunos que faltaram perderam a atividade.” Pressupõe: houve alunos que faltaram.

Como usar em prova: procure expressões que “trazem junto” uma informação não afirmada diretamente e transforme essa informação em uma frase simples (o pressuposto).

2) Escolhas lexicais (palavras que já avaliam e orientam a leitura)

O vocabulário pode indicar julgamento, intensidade, ironia, crítica, elogio, aproximação ou distanciamento.

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  • Adjetivos e substantivos avaliativos: “medida polêmica”, “argumento frágil”, “atitude corajosa”.
  • Verbos que sugerem intenção: “insistir”, “evitar”, “admitir”, “recuar”.
  • Marcas de distanciamento: aspas (“o ‘especialista’”), “suposto”, “alegado”.

Inferência típica: identificar a posição do autor (aprovação, crítica, dúvida) a partir de palavras carregadas de valor.

3) Modalizadores (grau de certeza, obrigação, possibilidade)

Modalizadores mostram o quanto o autor se compromete com a afirmação: certeza, probabilidade, hipótese, recomendação, obrigação.

  • Certeza: “certamente”, “sem dúvida”, “é evidente que”.
  • Probabilidade: “provavelmente”, “é possível que”, “tende a”.
  • Obrigação/recomendação: “deve”, “precisa”, “é necessário”.
  • Atenuação: “em parte”, “de certo modo”, “até certo ponto”.

Inferência típica: distinguir fato de hipótese. Se há “provavelmente”, a conclusão não pode virar certeza absoluta.

4) Conectivos e marcadores discursivos (a lógica do texto)

Conectivos organizam relações: causa, consequência, contraste, condição, concessão, conclusão, exemplificação. Eles são pistas fortes para inferir o encadeamento de ideias.

RelaçãoConectivos comunsO que costuma permitir inferir
Causaporque, já que, visto quemotivo/justificativa do que foi dito
Consequênciaportanto, assim, por isso, de modo queresultado esperado do que foi dito
Contrastemas, porém, contudoquebra de expectativa; oposição entre ideias
Concessãoembora, apesar de, ainda quealgo ocorre mesmo com um obstáculo
Condiçãose, caso, desde quedependência: só acontece sob certas condições
Exemplificaçãopor exemplo, comoo exemplo restringe/ilustra a ideia geral

Inferência típica: quando aparece “mas/porém”, o texto sugere que a segunda parte é a mais relevante para a tese naquele ponto (correção de rumo, ressalva, contraponto).

5) Relações lógico-semânticas (o que uma frase faz com a outra)

Além dos conectivos, observe como as frases se relacionam: definição, explicação, restrição, generalização, comparação, exemplificação, correção.

  • Restrição: “A maioria concordou, exceto os veteranos.” Inferência: os veteranos discordaram.
  • Comparação: “Mais eficiente do que o modelo anterior.” Inferência: o modelo anterior era menos eficiente.
  • Correção/retificação: “Não foi descuido; foi falta de informação.” Inferência: o autor rejeita uma interpretação e impõe outra.

6) Conhecimento de mundo controlado (necessário, mas sem extrapolar)

Algumas inferências dependem de conhecimentos gerais compartilhados (rotinas sociais, funcionamento básico de instituições, relações comuns de causa e efeito). O ponto-chave é controlar: usar apenas o que é indispensável para entender a cena e que não contradiz o texto.

Exemplo: “Chegou ao aeroporto duas horas antes, mas o portão já estava fechado.” Inferência controlada: ele perdeu o embarque. Extrapolação indevida: “ele perdeu porque estava sem documentos” (isso não está sugerido).

Método prático de inferência em 4 passos

Passo 1 — Coletar pistas (marcar o que “orienta” o sentido)

Faça uma varredura procurando:

  • palavras avaliativas (lexical)
  • modalizadores (certeza/hipótese)
  • conectivos (lógica)
  • expressões que geram pressuposto (“parou de”, “voltou a”, “lamentou”, “ainda”)
  • contrastes e concessões (“mas”, “embora”)

Passo 2 — Formular uma hipótese (uma frase inferida, curta e verificável)

Transforme a inferência em uma frase objetiva, evitando exageros:

  • Prefira: “o autor sugere que…”, “é provável que…”, “pode-se deduzir que…”
  • Evite: “com certeza absoluta…”, “sempre…”, “nunca…” (a menos que o texto use termos absolutos)

Passo 3 — Checar consistência com o texto (provar com evidências)

Para validar, a hipótese deve:

  • ser compatível com todas as frases relevantes
  • ser sustentada por pelo menos duas pistas quando possível (ex.: conectivo + escolha lexical)
  • respeitar modalizadores (se é “possível”, não virar “certo”)

Passo 4 — Eliminar alternativas (o que parece, mas não está autorizado)

Compare com opções concorrentes e descarte as que:

  • introduzem informação nova (não sugerida)
  • contradizem um trecho
  • generalizam demais
  • trocam opinião por fato (ou fato por opinião)

Exemplos guiados de inferência (com pistas destacadas)

Exemplo 1 — Pressuposto + conectivo

Trecho: “Marina voltou a enviar currículos, porque a vaga anterior foi cancelada.”

  • Pistas: “voltou a” (pressupõe ação anterior), “porque” (causa).
  • Inferência: Marina já enviava currículos antes e havia parado; ela retomou após o cancelamento.
  • O que não dá para inferir: que ela foi demitida (o texto fala em vaga cancelada, não em emprego).

Exemplo 2 — Modalizador + escolha lexical

Trecho: “A proposta é interessante, mas provavelmente não será aprovada na primeira votação.”

  • Pistas: “interessante” (avaliação positiva), “mas” (contraste), “provavelmente” (probabilidade).
  • Inferência: o autor avalia bem a proposta, porém considera baixa a chance de aprovação imediata.
  • Cuidado: não afirmar “não será aprovada” como certeza; o texto indica probabilidade.

Exemplo 3 — Concessão (embora) e quebra de expectativa

Trecho:Embora o produto seja mais caro, as vendas cresceram.”

  • Pista: “embora” (concessão).
  • Inferência: o preço alto seria um obstáculo esperado, mas não impediu o aumento das vendas.

Questões típicas de prova (com correção comentada)

Questão 1 — “O que se conclui?” (conectivo + relação lógica)

Texto: “O time treinou com intensidade durante a semana. Por isso, a comissão técnica espera melhor desempenho no próximo jogo.”

Pergunta: O que se conclui do texto?

Resposta: Conclui-se que o treino intenso é apresentado como causa/justificativa para a expectativa de melhora no desempenho.

Comentário: “Por isso” marca consequência. A conclusão não é “o time vai vencer” (isso extrapola), mas que há uma relação de causa (treino) e expectativa (melhor desempenho).

Questão 2 — “O que se deduz?” (pressuposto)

Texto: “O gerente lamentou o atraso no envio do relatório.”

Pergunta: O que se deduz a partir do enunciado?

Resposta: Deduz-se que houve atraso no envio do relatório.

Comentário: “Lamentou” pressupõe o fato lamentado. Não se deduz quem causou o atraso, nem se foi intencional.

Questão 3 — “O que fica subentendido?” (escolha lexical + modalizador)

Texto: “A empresa apresentou um plano ambicioso, que talvez exija cortes imediatos.”

Pergunta: O que fica subentendido?

Resposta: Fica subentendido que o plano pode ser difícil de executar sem medidas duras, mas isso é tratado como possibilidade, não como certeza.

Comentário: “Ambicioso” sugere alta exigência/escala; “talvez” impede transformar a exigência de cortes em fato consumado.

Questão 4 — Alternativas (eliminar extrapolações)

Texto: “Ele chegou cedo ao consultório, mas saiu irritado após meia hora de espera.”

Pergunta: Assinale a inferência mais adequada:

  • A) Ele desistiu da consulta porque não tinha dinheiro.
  • B) Ele ficou insatisfeito com a demora no atendimento.
  • C) Ele discutiu com o médico durante a consulta.
  • D) Ele foi atendido rapidamente e elogiou o serviço.

Gabarito: B

Comentário: “saiu irritado” + “meia hora de espera” sustentam insatisfação com a demora. As alternativas A e C inventam causas/acontecimentos não mencionados; D contradiz o texto.

Questão 5 — “Pressuposto” versus “inferência provável” (controle)

Texto: “Depois de meses sem praticar, Joana voltou a correr no parque.”

Pergunta: O que o texto permite afirmar com segurança?

  • A) Joana correu no passado e ficou um período sem correr.
  • B) Joana parou de correr por causa de uma lesão.
  • C) Joana treinou para uma maratona.
  • D) Joana corre todos os dias.

Gabarito: A

Comentário: “voltou a” pressupõe prática anterior e interrupção. As demais opções extrapolam (lesão, maratona, frequência diária).

Checklist rápido para inferir com segurança

  • Identifique qual palavra/estrutura autoriza a inferência (cite-a mentalmente).
  • Respeite o grau de certeza (modalizadores).
  • Prefira inferências mínimas e necessárias, não narrativas completas.
  • Se duas interpretações são possíveis, escolha a que depende menos de suposições externas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao fazer uma inferência em uma questão de interpretação, qual procedimento torna a conclusão mais segura e justificável?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A inferência correta deve ser deduzida de evidências do enunciado (pistas como conectivos, escolhas lexicais e pressupostos) e precisa respeitar o grau de certeza indicado por modalizadores, evitando extrapolações.

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