O que são informações implícitas (e por que elas aparecem)
Informações implícitas são sentidos que o texto sugere sem declarar de forma direta. Elas surgem quando o autor confia que o leitor vai completar o sentido a partir de pistas linguísticas e de um conhecimento de mundo controlado (o que é comum e necessário para entender a situação, sem inventar fatos).
Inferir não é “imaginar”: é deduzir com base em evidências do próprio texto. Em questões de prova, a inferência correta é aquela que pode ser justificada apontando palavras, estruturas e relações entre ideias.
Pistas que geram inferência (onde o texto “fala sem dizer”)
1) Pressupostos linguísticos (o que já vem embutido na frase)
Algumas construções carregam informações assumidas como verdadeiras. Elas não são o foco da frase, mas ficam “por trás” dela.
- Verbos factivos (pressupõem o fato):
perceber,lamentar,descobrir,notar. Ex.: “Ela lamentou ter perdido o prazo.” Pressupõe: ela perdeu o prazo. - “Parar de”, “voltar a”, “continuar a” (pressupõem um estado anterior): “Ele voltou a estudar.” Pressupõe: ele estudava antes e havia parado.
- Artigos e possessivos (pressupõem existência/identificação): “O relatório chegou.” Pressupõe: há um relatório específico conhecido no contexto.
- Orações relativas: “Os alunos que faltaram perderam a atividade.” Pressupõe: houve alunos que faltaram.
Como usar em prova: procure expressões que “trazem junto” uma informação não afirmada diretamente e transforme essa informação em uma frase simples (o pressuposto).
2) Escolhas lexicais (palavras que já avaliam e orientam a leitura)
O vocabulário pode indicar julgamento, intensidade, ironia, crítica, elogio, aproximação ou distanciamento.
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- Adjetivos e substantivos avaliativos: “medida polêmica”, “argumento frágil”, “atitude corajosa”.
- Verbos que sugerem intenção: “insistir”, “evitar”, “admitir”, “recuar”.
- Marcas de distanciamento: aspas (“o ‘especialista’”), “suposto”, “alegado”.
Inferência típica: identificar a posição do autor (aprovação, crítica, dúvida) a partir de palavras carregadas de valor.
3) Modalizadores (grau de certeza, obrigação, possibilidade)
Modalizadores mostram o quanto o autor se compromete com a afirmação: certeza, probabilidade, hipótese, recomendação, obrigação.
- Certeza: “certamente”, “sem dúvida”, “é evidente que”.
- Probabilidade: “provavelmente”, “é possível que”, “tende a”.
- Obrigação/recomendação: “deve”, “precisa”, “é necessário”.
- Atenuação: “em parte”, “de certo modo”, “até certo ponto”.
Inferência típica: distinguir fato de hipótese. Se há “provavelmente”, a conclusão não pode virar certeza absoluta.
4) Conectivos e marcadores discursivos (a lógica do texto)
Conectivos organizam relações: causa, consequência, contraste, condição, concessão, conclusão, exemplificação. Eles são pistas fortes para inferir o encadeamento de ideias.
| Relação | Conectivos comuns | O que costuma permitir inferir |
|---|---|---|
| Causa | porque, já que, visto que | motivo/justificativa do que foi dito |
| Consequência | portanto, assim, por isso, de modo que | resultado esperado do que foi dito |
| Contraste | mas, porém, contudo | quebra de expectativa; oposição entre ideias |
| Concessão | embora, apesar de, ainda que | algo ocorre mesmo com um obstáculo |
| Condição | se, caso, desde que | dependência: só acontece sob certas condições |
| Exemplificação | por exemplo, como | o exemplo restringe/ilustra a ideia geral |
Inferência típica: quando aparece “mas/porém”, o texto sugere que a segunda parte é a mais relevante para a tese naquele ponto (correção de rumo, ressalva, contraponto).
5) Relações lógico-semânticas (o que uma frase faz com a outra)
Além dos conectivos, observe como as frases se relacionam: definição, explicação, restrição, generalização, comparação, exemplificação, correção.
- Restrição: “A maioria concordou, exceto os veteranos.” Inferência: os veteranos discordaram.
- Comparação: “Mais eficiente do que o modelo anterior.” Inferência: o modelo anterior era menos eficiente.
- Correção/retificação: “Não foi descuido; foi falta de informação.” Inferência: o autor rejeita uma interpretação e impõe outra.
6) Conhecimento de mundo controlado (necessário, mas sem extrapolar)
Algumas inferências dependem de conhecimentos gerais compartilhados (rotinas sociais, funcionamento básico de instituições, relações comuns de causa e efeito). O ponto-chave é controlar: usar apenas o que é indispensável para entender a cena e que não contradiz o texto.
Exemplo: “Chegou ao aeroporto duas horas antes, mas o portão já estava fechado.” Inferência controlada: ele perdeu o embarque. Extrapolação indevida: “ele perdeu porque estava sem documentos” (isso não está sugerido).
Método prático de inferência em 4 passos
Passo 1 — Coletar pistas (marcar o que “orienta” o sentido)
Faça uma varredura procurando:
- palavras avaliativas (lexical)
- modalizadores (certeza/hipótese)
- conectivos (lógica)
- expressões que geram pressuposto (“parou de”, “voltou a”, “lamentou”, “ainda”)
- contrastes e concessões (“mas”, “embora”)
Passo 2 — Formular uma hipótese (uma frase inferida, curta e verificável)
Transforme a inferência em uma frase objetiva, evitando exageros:
- Prefira: “o autor sugere que…”, “é provável que…”, “pode-se deduzir que…”
- Evite: “com certeza absoluta…”, “sempre…”, “nunca…” (a menos que o texto use termos absolutos)
Passo 3 — Checar consistência com o texto (provar com evidências)
Para validar, a hipótese deve:
- ser compatível com todas as frases relevantes
- ser sustentada por pelo menos duas pistas quando possível (ex.: conectivo + escolha lexical)
- respeitar modalizadores (se é “possível”, não virar “certo”)
Passo 4 — Eliminar alternativas (o que parece, mas não está autorizado)
Compare com opções concorrentes e descarte as que:
- introduzem informação nova (não sugerida)
- contradizem um trecho
- generalizam demais
- trocam opinião por fato (ou fato por opinião)
Exemplos guiados de inferência (com pistas destacadas)
Exemplo 1 — Pressuposto + conectivo
Trecho: “Marina voltou a enviar currículos, porque a vaga anterior foi cancelada.”
- Pistas: “voltou a” (pressupõe ação anterior), “porque” (causa).
- Inferência: Marina já enviava currículos antes e havia parado; ela retomou após o cancelamento.
- O que não dá para inferir: que ela foi demitida (o texto fala em vaga cancelada, não em emprego).
Exemplo 2 — Modalizador + escolha lexical
Trecho: “A proposta é interessante, mas provavelmente não será aprovada na primeira votação.”
- Pistas: “interessante” (avaliação positiva), “mas” (contraste), “provavelmente” (probabilidade).
- Inferência: o autor avalia bem a proposta, porém considera baixa a chance de aprovação imediata.
- Cuidado: não afirmar “não será aprovada” como certeza; o texto indica probabilidade.
Exemplo 3 — Concessão (embora) e quebra de expectativa
Trecho: “Embora o produto seja mais caro, as vendas cresceram.”
- Pista: “embora” (concessão).
- Inferência: o preço alto seria um obstáculo esperado, mas não impediu o aumento das vendas.
Questões típicas de prova (com correção comentada)
Questão 1 — “O que se conclui?” (conectivo + relação lógica)
Texto: “O time treinou com intensidade durante a semana. Por isso, a comissão técnica espera melhor desempenho no próximo jogo.”
Pergunta: O que se conclui do texto?
Resposta: Conclui-se que o treino intenso é apresentado como causa/justificativa para a expectativa de melhora no desempenho.
Comentário: “Por isso” marca consequência. A conclusão não é “o time vai vencer” (isso extrapola), mas que há uma relação de causa (treino) e expectativa (melhor desempenho).
Questão 2 — “O que se deduz?” (pressuposto)
Texto: “O gerente lamentou o atraso no envio do relatório.”
Pergunta: O que se deduz a partir do enunciado?
Resposta: Deduz-se que houve atraso no envio do relatório.
Comentário: “Lamentou” pressupõe o fato lamentado. Não se deduz quem causou o atraso, nem se foi intencional.
Questão 3 — “O que fica subentendido?” (escolha lexical + modalizador)
Texto: “A empresa apresentou um plano ambicioso, que talvez exija cortes imediatos.”
Pergunta: O que fica subentendido?
Resposta: Fica subentendido que o plano pode ser difícil de executar sem medidas duras, mas isso é tratado como possibilidade, não como certeza.
Comentário: “Ambicioso” sugere alta exigência/escala; “talvez” impede transformar a exigência de cortes em fato consumado.
Questão 4 — Alternativas (eliminar extrapolações)
Texto: “Ele chegou cedo ao consultório, mas saiu irritado após meia hora de espera.”
Pergunta: Assinale a inferência mais adequada:
- A) Ele desistiu da consulta porque não tinha dinheiro.
- B) Ele ficou insatisfeito com a demora no atendimento.
- C) Ele discutiu com o médico durante a consulta.
- D) Ele foi atendido rapidamente e elogiou o serviço.
Gabarito: B
Comentário: “saiu irritado” + “meia hora de espera” sustentam insatisfação com a demora. As alternativas A e C inventam causas/acontecimentos não mencionados; D contradiz o texto.
Questão 5 — “Pressuposto” versus “inferência provável” (controle)
Texto: “Depois de meses sem praticar, Joana voltou a correr no parque.”
Pergunta: O que o texto permite afirmar com segurança?
- A) Joana correu no passado e ficou um período sem correr.
- B) Joana parou de correr por causa de uma lesão.
- C) Joana treinou para uma maratona.
- D) Joana corre todos os dias.
Gabarito: A
Comentário: “voltou a” pressupõe prática anterior e interrupção. As demais opções extrapolam (lesão, maratona, frequência diária).
Checklist rápido para inferir com segurança
- Identifique qual palavra/estrutura autoriza a inferência (cite-a mentalmente).
- Respeite o grau de certeza (modalizadores).
- Prefira inferências mínimas e necessárias, não narrativas completas.
- Se duas interpretações são possíveis, escolha a que depende menos de suposições externas.