Incoterms na importação para revenda: responsabilidades em linguagem simples

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

O que são Incoterms (em linguagem simples)

Incoterms são regras internacionais que definem, de forma padronizada, até onde vai a responsabilidade do vendedor e a partir de onde começa a do comprador em uma operação de compra e venda internacional. Eles organizam principalmente quatro pontos: quem paga (fretes e custos), quem contrata (transporte/seguro), onde o risco muda de mãos (perda/avaria) e quem cuida de etapas logísticas (entrega no porto, embarque, etc.).

Importante: Incoterm não substitui contrato, nem define tudo sobre impostos no Brasil. Ele é uma “regra de entrega” e de alocação de responsabilidades. Para revenda, a escolha do Incoterm afeta diretamente: custo final, previsibilidade, documentação e pontos de controle (onde você consegue auditar valores e decisões).

Como ler responsabilidades sem complicar

  • Frete internacional: quem paga e quem contrata o transporte entre países.
  • Seguro: se é obrigatório, quem contrata e quem paga.
  • Desembaraço de exportação: liberação no país do vendedor.
  • Desembaraço de importação: liberação no país do comprador (no Brasil, normalmente é do importador).
  • Risco: o ponto exato em que, se houver perda/avaria, a responsabilidade deixa de ser do vendedor e passa a ser do comprador.

Incoterms mais comuns para quem está começando

EXW (Ex Works) — “retira na fábrica”

Ideia simples: o vendedor entrega a mercadoria “na porta” (fábrica/depósito). Quase todo o resto vira responsabilidade do comprador.

  • Quem paga frete internacional? Comprador.
  • Quem contrata frete internacional? Comprador.
  • Seguro internacional? Comprador (se quiser).
  • Desembaraço de exportação? Em teoria, comprador (na prática, pode exigir ajuda do vendedor/agent local).
  • Desembaraço de importação no Brasil? Comprador.
  • Risco: passa para o comprador muito cedo (quando a mercadoria é colocada à disposição no local do vendedor).

Quando faz sentido na revenda: quando você tem um agente/forwarder muito confiável no país de origem e quer controlar toda a cadeia (e custos) desde o início.

Ponto de atenção: EXW pode gerar confusão com exportação (documentos e responsabilidade local). Para iniciantes, costuma aumentar risco operacional.

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FOB (Free On Board) — “colocado a bordo no porto de embarque” (marítimo)

Ideia simples: o vendedor cuida de levar a carga até o porto e embarcar no navio. A partir do embarque, o comprador assume custos e riscos.

  • Quem paga frete internacional? Comprador.
  • Quem contrata frete internacional? Comprador.
  • Seguro internacional? Comprador (se quiser).
  • Desembaraço de exportação? Vendedor.
  • Desembaraço de importação no Brasil? Comprador.
  • Risco: muda para o comprador quando a carga está a bordo do navio no porto de origem.

Quando faz sentido na revenda: muito comum para cargas marítimas maiores, porque você controla o frete internacional (cotação, transit time, consolidação) e mantém transparência de custos.

CFR / CIF — “frete pago até o porto de destino” (marítimo)

CFR (Cost and Freight): vendedor paga o frete marítimo até o porto de destino, mas o risco passa para o comprador no embarque (no porto de origem).

CIF (Cost, Insurance and Freight): igual ao CFR, mas o vendedor também contrata/paga um seguro mínimo até o destino.

  • Quem paga frete internacional? Vendedor (até o porto de destino).
  • Quem contrata frete internacional? Vendedor.
  • Seguro internacional? CFR: comprador (se quiser). CIF: vendedor (mínimo).
  • Desembaraço de exportação? Vendedor.
  • Desembaraço de importação no Brasil? Comprador.
  • Risco: passa para o comprador no embarque (mesmo com frete pago pelo vendedor).

Quando faz sentido na revenda: quando você quer simplificar a negociação (um preço “até o porto”) e comparar fornecedores com uma base parecida. Porém, você perde parte do controle do custo do frete e pode ter menos transparência de taxas no destino (dependendo do agente indicado).

DAP (Delivered At Place) — “entregue no local combinado (sem impostos de importação)”

Ideia simples: o vendedor entrega no local acordado (ex.: seu armazém), mas sem incluir impostos e desembaraço de importação no Brasil. Você assume a nacionalização.

  • Quem paga frete internacional? Vendedor (até o local combinado).
  • Quem contrata frete internacional? Vendedor.
  • Seguro internacional? Normalmente vendedor (pode variar por contrato; alinhar por escrito).
  • Desembaraço de exportação? Vendedor.
  • Desembaraço de importação no Brasil? Comprador.
  • Risco: geralmente fica com o vendedor até a entrega no local combinado (antes da descarga, conforme regra e contrato).

Quando faz sentido na revenda: quando você quer reduzir esforço logístico internacional, mas manter controle da importação no Brasil (documentos, classificação, valores e compliance).

DDP (Delivered Duty Paid) — “entregue com impostos pagos” (alerta máximo)

Ideia simples: o vendedor promete entregar no local combinado com tudo pago, incluindo desembaraço e impostos de importação.

  • Quem paga frete internacional? Vendedor.
  • Quem contrata frete internacional? Vendedor.
  • Seguro internacional? Vendedor (em geral).
  • Desembaraço de exportação? Vendedor.
  • Desembaraço de importação no Brasil? Vendedor (ou agente dele).
  • Impostos de importação? Vendedor (embutido no preço).
  • Risco: tende a ficar com o vendedor até a entrega, mas depende do contrato e da execução.

Por que DDP é uma armadilha comum para iniciantes: você pode receber a mercadoria, mas perder transparência e controle sobre como a importação foi feita (valores declarados, classificação, documentos e quem aparece como importador). Isso pode gerar problemas de regularidade documental e rastreabilidade.

Quadro comparativo: quem paga e quem assume risco

IncotermFrete internacional (paga/contrata)SeguroExportação (desembaraço)Importação no Brasil (desembaraço)Onde o risco muda
EXWComprador / CompradorCompradorComprador (na prática pode exigir apoio)CompradorNo local do vendedor (muito cedo)
FOB (marítimo)Comprador / CompradorCompradorVendedorCompradorQuando está a bordo no porto de origem
CFR (marítimo)Vendedor / VendedorComprador (se quiser)VendedorCompradorQuando está a bordo no porto de origem
CIF (marítimo)Vendedor / VendedorVendedor (mínimo)VendedorCompradorQuando está a bordo no porto de origem
DAPVendedor / VendedorAlinhar (comum: vendedor)VendedorCompradorNa entrega no local combinado (antes da descarga, em geral)
DDPVendedor / VendedorVendedorVendedorVendedorNa entrega no local combinado (em geral)

Como o Incoterm muda seu custo final (e onde ele “se esconde”)

O Incoterm não muda apenas “quem paga”, ele muda onde o custo aparece. Em termos práticos, você pode pagar o mesmo total, mas com níveis diferentes de transparência e controle.

Mapa de custos por blocos (para você comparar propostas)

  • Bloco A — Produto: preço unitário, embalagem, inspeção combinada, marcação.
  • Bloco B — Origem: coleta, transporte interno até porto/aeroporto, taxas de terminal, documentação de exportação.
  • Bloco C — Internacional: frete internacional, adicionais (combustível, peak season), seguro.
  • Bloco D — Destino Brasil (antes de liberar): armazenagem, capatazia/terminal, taxas do agente, eventuais exigências documentais.
  • Bloco E — Importação: desembaraço, tributos, licenças quando aplicável.
  • Bloco F — Pós-liberação: transporte interno até seu estoque, conferência e avarias.

EXW/FOB: você enxerga e controla mais blocos (B a F), mas precisa organizar mais coisas.

CFR/CIF: parte do bloco C vem “embutida” no preço do vendedor; você precisa checar se o frete está competitivo e quais agentes serão usados no destino.

DAP/DDP: muitos blocos ficam embutidos no preço final; isso pode facilitar, mas reduz transparência e aumenta risco de surpresas (principalmente em DDP).

Documentação e pontos de controle: o que muda por Incoterm

Para revenda, você quer garantir que terá documentos consistentes para: comprovar compra, rastrear embarque, conferir quantidades e sustentar a importação regular.

Pontos de controle que você deve “travar” por escrito

  • Incoterm + local exato: não basta “FOB”; precisa “FOB Porto X”. Não basta “DAP”; precisa “DAP Endereço Y”.
  • Quem emite e envia quais documentos: invoice, packing list, conhecimento de embarque (BL/AWB), certificado de origem (se aplicável), apólice/declaração de seguro (se houver).
  • Quem escolhe o agente/transportador: em CFR/CIF/DAP/DDP, pergunte quem é o forwarder e como serão cobradas taxas no destino.
  • Janela de embarque e penalidades: especialmente em marítimo.
  • Condição de embalagem e marcação: para reduzir avarias e divergências na conferência.

Checklist prático de conferência (antes de pagar o saldo e antes do embarque)

  • Incoterm e local conferem com a cotação e com a proforma invoice?
  • O que está incluso no preço (frete, seguro, taxas de origem/destino) está descrito em linha separada?
  • Em CFR/CIF: o vendedor informou frete e navio/ETD/ETA com antecedência?
  • Em DAP/DDP: está claro quem é o consignatário e quem será o responsável pelo desembaraço no Brasil?
  • Há instruções de documentos (nomes/endereços) para evitar divergência entre invoice, packing list e conhecimento?

Cenários práticos de revenda

Cenário 1: pedido pequeno por courier (rápido, volume baixo)

Objetivo típico: testar giro de um SKU com baixo capital imobilizado e reposição rápida.

Como o Incoterm costuma aparecer: em remessas por courier, o vendedor pode oferecer algo “entregue na sua porta”. Na prática, isso se aproxima de DAP (entrega sem impostos) ou de um “DDP informal” (tudo incluso), dependendo do fornecedor e do operador.

Escolha recomendada para controle: prefira algo equivalente a DAP quando você quer manter a importação regular e ter clareza do que será pago no Brasil. Se o fornecedor insistir em “DDP”, peça detalhamento completo (ver alertas abaixo).

Passo a passo (pedido pequeno por courier)

  1. Peça cotação em duas bases: (1) preço do produto + frete separado; (2) entregue no seu endereço (DAP). Isso revela o “custo da conveniência”.
  2. Exija discriminação de custos: frete, seguro (se houver), taxa de manuseio, qualquer “taxa de desembaraço”.
  3. Defina o Incoterm e o endereço: ex.: DAP - Rua X, nº Y, Cidade/UF, Brasil.
  4. Trave documentos: invoice e packing list com descrição correta do produto e quantidades.
  5. Planeje o custo final: some produto + frete + custos no Brasil (desembaraço e tributos quando aplicável) + transporte interno (se houver) + margem.

Como isso altera custo final: no courier, o frete por kg é alto; então um “DAP” pode parecer caro, mas evita surpresas de coleta e agentes. Já um “DDP” pode parecer “barato e simples”, mas pode esconder custos e riscos documentais.

Cenário 2: carga maior por marítimo (custo por unidade menor, mais etapas)

Objetivo típico: reduzir custo unitário para ganhar margem na revenda e sustentar estoque.

Incoterms mais usados: FOB (muito comum) e CFR/CIF (quando o vendedor oferece frete competitivo ou você quer simplificar).

Passo a passo (marítimo para revenda)

  1. Peça cotação em FOB e em CFR/CIF: isso permite comparar o frete do vendedor vs. o seu.
  2. Se escolher FOB: cotar frete e seguro com seu agente e confirmar quais custos de origem estão incluídos no FOB (embarque/terminal podem variar por país/porto).
  3. Se escolher CFR/CIF: pedir o detalhamento do frete e, no CIF, a cobertura do seguro (o “mínimo” pode não cobrir o que você espera).
  4. Defina o porto exato: ex.: FOB Shanghai ou CFR Santos. Porto errado = custo e prazo errados.
  5. Crie pontos de controle: (a) confirmação de booking/embarque, (b) emissão do BL, (c) envio antecipado de documentos para conferência.
  6. Monte o custo final por unidade: produto + custos de origem (se não inclusos) + frete internacional + seguro + custos no destino + importação + transporte interno, dividido pela quantidade vendável.

Como isso altera documentação e controle: em FOB, você escolhe o forwarder e costuma ter mais visibilidade das cobranças. Em CFR/CIF, o vendedor escolhe o transporte e você precisa redobrar atenção às taxas no destino e à consistência dos documentos.

Alertas importantes sobre DDP (e armadilhas comuns)

1) “Tudo incluso” sem detalhamento = pouca transparência

Em DDP, o preço pode vir como um número fechado. Sem detalhamento, você não sabe quanto é frete, quanto é imposto, quanto é taxa do agente. Isso dificulta: precificação, auditoria e comparação entre fornecedores.

Como se proteger: peça planilha com linhas separadas (produto, frete, seguro, taxas, impostos, desembaraço) e o nome do operador logístico responsável.

2) Risco de documentação incorreta

Uma armadilha recorrente é a mercadoria chegar com documentos inconsistentes (descrição genérica, valores incompatíveis, classificação inadequada). Para revenda, isso pode travar reposição e gerar problemas de regularidade.

Como se proteger: exija prévia de invoice/packing list para aprovação antes do embarque e alinhe descrições reais e quantidades.

3) Quem é o importador “de fato”?

No DDP, o vendedor (ou agente) pode tentar conduzir a importação de forma que você não tenha controle sobre quem aparece como responsável e como a carga foi nacionalizada. Isso pode afetar rastreabilidade e conformidade.

Como se proteger: deixe claro no pedido/contrato quem será o consignatário e quais documentos você receberá ao final (invoice, comprovantes e documentos de transporte), além de como será tratada a importação no Brasil.

4) Custos embutidos que aparecem depois (ou viram “ajuste”)

Mesmo em DDP, podem surgir “ajustes” por variação de frete, armazenagem, inspeções, reentregas, ou divergências de peso/volume.

Como se proteger: peça cláusula de que qualquer custo extra precisa de aprovação prévia por escrito e defina limites (ex.: sem cobranças adicionais sem autorização).

Modelo de perguntas para escolher o Incoterm certo (sem adivinhar)

  • Você quer controle de custos (mais trabalho) ou conveniência (menos transparência)?
  • Você tem um agente/forwarder confiável para cuidar do frete internacional e orientar documentos?
  • O embarque é courier (pequeno/rápido) ou marítimo (maior/mais barato por unidade)?
  • Você precisa de previsibilidade de prazo (DAP pode ajudar) ou de otimização de custo (FOB costuma dar mais controle)?

Resumo operacional: escolha rápida por objetivo (sem “receita fixa”)

ObjetivoIncoterm que costuma ajudarPor quêPrincipal cuidado
Controle e transparência em marítimoFOBVocê controla frete e agentesVocê precisa coordenar mais etapas
Simplificar compra marítima (preço até porto)CFR/CIFVendedor inclui frete (e seguro no CIF)Taxas no destino e pouca visibilidade do frete
Receber no seu endereço e manter importação sob seu controleDAPVendedor entrega, você nacionalizaDefinir local exato e responsabilidades de seguro
“Tudo resolvido” (alto risco de opacidade)DDPPromessa de entrega com impostos pagosDocumentação, transparência e conformidade

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma importação para revenda, qual é a principal implicação prática de escolher DDP em vez de DAP?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No DDP, o vendedor entrega com tributos e desembaraço de importação incluídos, o que pode esconder custos e como a importação foi feita. Já no DAP, o vendedor entrega no local combinado, mas a nacionalização no Brasil fica com o comprador.

Próximo capitúlo

Modalidades de envio na importação para revenda: courier, aéreo e marítimo

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